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O dia 22 de outubro de 1999
tinha tudo para ser como qualquer outro na cidade camponesa de Tauccamarca, a 70
quilômetros de Cusco, no Peru. Mas, de maneira trágica, ele ficou conhecido como o
"dia do horror" na comunidade . Ao ingerirem leite contaminado com o praguicida
organofosforado Parathion, 24 crianças morreram, antes que pudessem receber atendimento .
Outras 18 sobreviveram, mas carregam sequelas que, certamente, a acompanharão por toda a
vida. Embora tivesse sido proibido na Alemanha, em 1989, dez anos depois o
Parathion (lá designado comercialmente Folidol) continuava sendo exportado pela Bayer,
sua fabricante, para o mercado internacional. O Ministério do Meio Ambiente daquele país
admitiu, posteriormente, a venda do produto para o Peru àquela época e em anos
anteriores, informação confirmada por um serviço norte-americano de dados nesta área.
A comunidade de Tauccamarca tem relembrado a data e cobrado providências e só por isso a
tragédia ainda não foi esquecida. Embora o Parathion tenha sido proibido no Peru, outras
centenas de agrotóxicos continuam sendo vendidas e aplicadas sem qualquer controle. (1)
No Brasil, , pesquisa realizada pelo Laboratório de Biologia Molecular da UERJ mostrava,
em 2000, que alimentos comercializados no Rio de Janeiro estavam contaminados com
agrotóxicos em nível acima do permitido e que o maior contaminante era exatamente o
Folidol, há muito proibido na pátria da Bayer. (2)
Rodrigo Armijo , nascido em
Melipilla, no Chile, no mesmo ano de 1999, também não teve muita sorte. Veio ao mundo
com um número significativo de malformações, incluindo hidrocefalia, fissura labial,
problemas nos dedos das mãos e a impossibilidade de verter lágrimas, ainda que, como
criança, tenha vontade ou necessidade de chorar. Sua mãe, Constanza Osorio era caixa de
um supermercado e se expôs, recorrentemente, durante a gestação, a um agrotóxico
poderoso, de nome Tamarón. Outras colegas de Constanza tiveram abortos espontâneos.
O Tamarón, fabricado pela Bayer, era espalhado no supermercado para matar ratos, embora
fosse utilizado, primordialmente, para destruir as pragas que ameaçam os vinhedos e a
fruticultura da região. Apesar das evidências, nenhuma providência concreta foi tomada:
as autoridades alegam que há múltiplos fatores que causam malformações e que a
ciência ainda não definiu o verdadeiro risco dos agrotóxicos. (3)
Tadeu José Severino, um agricultor
gaúcho, de Santa Cruz do Sul, levantou diferente no dia 14 de junho de 2002. Ao invés de
fazer o fogo e preparar o chimarrão, como era de hábito, rumou cedo para o local onde
plantava fumo e se enforcou. O gesto tresloucado de "Leu", como a família o
chamava, não foi isolado. Em 2001, 21 pessoas se suicidaram na cidade, que
ostenta o título de "a capital do fumo", um índice 6 vezes maior do que a
média brasileira. Mas a ocorrência de um número significativo de suicídios
também tem sido verificada entre agricultores de pelo menos 3 cidades do Sul de Minas
(Estiva, Bom Repouso e Ipuiúna), que cultivam batata e morango. Em todos esses casos, a
causa evidente é a intoxicação por agrotóxicos, responsável por alterações
profundas no sistema nervoso. O Governo comprometeu-se a analisar a denúncia contida na
reportagem publicada pela revista Galileu, mas ficou apenas na intenção. (4)
Três realidades distintas, mas com um
problema e uma solução comuns: todas as vítimas tiveram contato com agrotóxicos e ,
apesar do desenlace trágico, a impunidade permaneceu.
Numa região pobre, como a América Latina,
que depende dos frutos da terra, os recordes crescentes de de produção e exportação
agrícolas são, para a mídia e para as autoridades, as pautas prioritárias.
Os agrotóxicos, assim como os medicamentos e
as sementes (também as transgênicas), fazem parte, ironicamente, do portfolio de um
grupo seleto de empresas transnacionais que, ao mesmo tempo, vendem veneno e remédio. O
pequeno Rodrigo, que não pode chorar, se vale das lágrimas artificiais, gotas
oftálmicas, vendidas pela Bayer, para lubrificar seus olhos secos. A mesma empresa que
fabrica o Tamarón, que contaminou sua mãe durante a gestação. E a vida continua.
Definições e posicionamentos
O decreto-lei 4.074, de 4 de janeiro de 2002,
que regulamenta a Lei no 7.802, de 11 de julho de 1989, que " dispõe
sobre a pesquisa, a experimentação, a produção, a embalagem e rotulagem, o transporte,
o armazenamento, a comercialização, a propaganda comercial, a utilização, a
importação, a exportação, o destino final dos resíduos e embalagens, o registro, a
classificação, o controle, a inspeção e a fiscalização de agrotóxicos, seus
componentes e afins, e dá outras providências", define agrotóxicos e afins como:
"produtos e agentes de processos
físicos, químicos ou biológicos, destinados ao uso nos setores de produção, no
armazenamento e beneficiamento de produtos agrícolas, nas pastagens, na proteção de
florestas, nativas ou plantadas, e de outros ecossistemas e de ambientes urbanos,
hídricos e industriais, cuja finalidade seja alterar a composição da flora ou da fauna,
a fim de preservá-las da ação danosa de seres vivos considerados nocivos, bem como as
substâncias e produtos empregados como desfolhantes, dessecantes, estimuladores e
inibidores de crescimento".
Como se pode depreender facilmente, a
definição ressalta a ação protetora e preservacionista dos agrotóxicos, favorecendo
uma leitura que se afina com o discurso da agricultura agroquímica. Esta interpretação,
como poderemos ver ao longo deste artigo, será apropriada não apenas pelos fabricantes e
entidades que os representam, mas por profissionais que prestam assistência técnica aos
agricultores , comerciantes que vendem os produtos e, infelizmente para nós,
comunicadores, por segmentos importantes da mídia brasileira, notadamente as editorias de
economia e os veículos de negócios.
A denominação empregada para identificá-los,
na verdade, varia em função do grau de comprometimento da fonte: na literatura e na
militância ambientalistas, além de agrotóxicos, eles são chamados também de
pesticidas, praguicidas e muito comumente de veneno, o que é, como poderemos ver, a forma
mais adequada de ressaltar os riscos inerentes à saúde humana, animal e ao meio
ambiente, de maneira geral. Os adeptos da Revolução Verde e do modelo agroexportador
preferem denominá-los de defensivos agrícolas, agroquímicos e até de "remédios
de plantas".
Na verdade, defensivos agrícolas era a
expressão utilizada para designá-los até a Constituição de 1988 e a mudança só
ocorreu pela pressão de setores da sociedade, embora a definição atual tenha um viés
importante: ela parte de pelo menos dois pressupostos que são, no mínimo, imprecisos ou
equivocados: a) não há outra alternativa para proteger as plantas das pragas e b) o meio
ambiente está sendo sistemática e naturalmente dizimado pelas pestes, daí a necessidade
de produtos comerciais e nocivos para protegê-lo.
Costuma-se classificar os agrotóxicos em 2
categorias básicas, que identificam a natureza da praga que se pretende combater e o
grupo químico ao qual se integram. É possível consultar uma destas classificações nas
páginas 25 e 26 do livro É veneno ou é remédio?, organizado pelos pesquisadores
Frederico Peres e Josino Costa Moreira e editado pela Fiocruz (citado na bibliografia
deste artigo), onde é apresentado um quadro que inclui também, além das categorias, o
nome dos produtos, substâncias ou agentes pelos quais eles são conhecidos no mercado.
Os agrotóxicos requerem para sua
comercialização de registro nos Ministérios de Agricultura, Saúde e Meio Ambiente e
merecem classificação em função tanto de sua periculosidade ambiental como de seus
efeitos à saúde. Em princípio, eles só podem ser comercializados quando acompanhados
do receituário agronômico que devem ser prescritos por profissionais com a devida
habilitação. A embalagem (rótulo) e a bula devem ser absolutamente claros no sentido de
indicar os problemas que seu uso pode acarretar para a saúde e o meio ambiente. Veremos
mais adiante que os agricultores têm muita dificuldade para decifrar os termos técnicos
e mesmo as ilustrações inseridas nos rótulos, o que torna, na maioria dos casos,
ineficaz e perigosa este tipo de comunicação.
A ação dos agrotóxicos sobre a saúde
humana costuma ser deletéria, muitas vezes fatal, provocando desde náuseas, tonteiras,
dores de cabeça ou alergias a lesões renais e hepáticas, cânceres, alterações
cromossomiais, doença de Parkinson etc. Essa ação pode ser percebida de maneira clara,
contundente, imediatamente após o contato com o produto (os chamados efeitos agudos) ou
depois de algum tempo - semanas ou anos, por exemplo (os chamados efeitos crônicos).
Nesse último caso, muitas vezes são requeridos exames sofisticados para sua
identificação como causa das patalogias observadas. A indústria agroquímica costuma
valer-se da dificuldade de comprovação do nexo causal entre agrotóxicos e doenças para
colocar em dúvida o efeito nocivo destes produtos e, inclusive, para safar-se de
processos judiciais. As autoridades, em todo o mundo, têm sido coniventes com essa
argumentação (de que há não relação causal explícita), cedendo às pressões deste
lobby poderoso. (5)
A saúde envenenada
Os agrotóxicos têm sido identificados como
causa importante de intoxicações e morte em todo o País, sobretudo nas regiões
Sudeste, Sul e Nordeste. O Sinitox Sistema Nacional de Informações
Tóxico-Farmacológicas indica que, em 2001, ocorreram 433 óbitos por intoxicação, com
os agrotóxicos e os raticidas , nesta ordem, liderando as causas. Além disso, 25% dos
casos de intoxicação atribuídos à circunstância ocupacional devem-se aos
agrotóxicos, que também contribuem com 13% do total de casos de intoxicação associados
às tentativas de suicídio. (6)
A situação é grave no município do Brejo
da Madre de Deus, um dos maiores produtores de cenoura de Pernambuco, conforme constatou
pesquisa coordenada em 2002 por Lia Giraldo da Silva Augusto, do Centro de Pesquisas Aggeu
Magalhães , uma unidade da Fiocruz localizada em Recife. (7)
Pesquisa realizada na região serrana do Rio
Grande do Sul, nos municípios de Antônio Prado e Ipê, em 1996 mostrou que 12% dos
trabalhadores rurais entrevistados relataram pelo menos uma intoxicação aguda por
agrotóxicos, sendo que um terço dos intoxicados necessitou ser hospitalizado. (8)
Estudo desenvolvido em Minas Gerais pela
Fundação Jorge Duprat Figueiredo, de Segurança e Medicina do Trabalho (FUNDACENTRO)
revelou que 50,3% dos indivíduos analisados se encontravam ao menos moderadamente
intoxicados. (9)
No Rio de Janeiro, em estudo realizado para
avaliar a influência de fatores socioeconômicos na contaminação por agrotóxicos, os
pesquisadores da UERJ e da Fiocruz descobriram que mais de 40% dos agricultores de Magé
que compuseram a amostra estudada estavam intoxicados. (10)
Não se trata, evidentemente, de um cenário
recente. Pesquisa divulgada em 1998 pela UNESP Universidade Estadual Paulista, a
partir de dados coletados entre os ano de 92 e 94, evidenciava que os agricultores da
região centro-sul paulista, bem como do Planalto Ocidental (inclui as cidades de
Presidente Prudente e São José do Rio Preto) corriam já nessa época sério risco pelo
uso de agrotóxicos de média e alta toxidade e, sobretudo, pela falta de informação e
venda descontrolada dos produtos. (11)
José Alberto Gonçalves, em reportagem no
AgroFolha, baseado em entrevistas com especialistas, apontava um motivo adicional: a
reclassificação toxicológica dos agrotóxicos utilizados no Brasil que transformou
produtos antes classificados como extremamente tóxicos (faixa vermelha) e altamente
tóxicos (faixa amarela) em medianamente tóxicos (faixa azul) e pouco tóxicos (faixa
verde). Essa reclassificação contínua (foram 5 de 78 a 98) confunde os agricultores e
cria problemas para a credibilidade dos registros dos produtos. Na reportagem, um técnico
da Secretaria da Agricultura do Paraná Reinaldo Skalicz - citava um exemplo desta
falta de critério: ... Skalicz diz que o Solvirex, inseticida usada contra pulgões, com
100 g de princípio ativo (disulfoton) passou da faixa vermelha (extremamente tóxico)
para a azul (medianamente tóxico). Já o Solvirex com 50 g de princípio ativo, portanto
menos concentrado, permaneceu na vermelha." Na mesma reportagem, o Ministério da
Saúde estimava, na matéria, uma média de 300 mil intoxicações anuais, com tendência
ao crescimento, apoiado na convicção de que o número de casos notificados representa
parcela reduzida dos efetivamente ocorridos. (12)
A literatura na área de saúde já
contempla, mesmo no Brasil, inúmeras pesquisas que evidenciam a relação direta entre
agrotóxicos e doenças e, gradativamente, mais resultados vêm sendo agregados a este
dramático banco de dados.
Algumas correlações importantes têm sido
definidas entre a intoxicação por agrotóxicos e o aparecimento de cânceres como de
mama, pâncreas, rim ou mesmo de pele, certamente onde o contato é mais evidente.
Os pesquisadores Sérgio Koifman e Ana
Hatagima , revisando a literatura mundial que analisa estas associações, chamam a
atenção para uma série de pesquisas realizadas em todo o mundo. Destacam, por exemplo,
dentre muitas outras: a) "riscos elevados, estatisticamente significativos, de
alterações precursoras de câncer em mulheres expostas ocupacionalmente a
agrotóxicos" (pesquisa feita na Grécia); b) "excesso de risco de câncer de
pâncreas de 50% em expostos a níveis moderados de fungicidas e de 60% a herbicidas"
(pesquisa feita nos EUA); c) "tumores hematológicos e, sobretudo, os linfomas
não-Hodgkin como uma das principais neoplasias asssociadas à exposição ocupacional e
não-ocupacional prolongada a agrotóxicos" (pesquisas realizadas na Itália, na
Suécia, na Alemanha e nos Estados Unidos); d) "aumento da incidência de câncer de
próstata em trabalhadores rurais expostos a herbicidas e fertilizantes (pesquisa
realizada na Suécia). No Brasil, alguns estudos também apontam nesta direção. Segundo
levantamento dos mesmos pesquisadores: a) "foram descritas a ocorrência de taxas
elevadas de infertilidade e câncer de testículo em municípios com níveis altos de
produção agrícola nos Estados de São Paulo e Rio Grande do Sul ... bem como
alterações nas características do esperma de adolescentes saudáveis"; b)
"aumento da mortalidade por câncer de pâncreas, fígado, laringe , bexiga e tumores
hematológicos em homens e mulheres" de uma população residente nos arredores de
uma antiga fábrica de agrotóxicos em Duque de Caxias, RJ; c) resultados de uma pesquisa
realizada na região serrana do Rio de Janeiro, produtora de hortifrutigranjeiros e
flores, são sugestivos no que diz respeito à influência da exposição ocupacional a
agrotóxicos no processo de carcinogênese (neoplasias de testículo, próstata,
estômago, esôfago, fígado, laringe etc). (13)
Há também relatos importantes de
associações potenciais entre a exposição a agrotóxicos e a desregulação endócrina,
ou seja, a ação de subtâncias químicas que interferem no sistema endócrino. Algumas
consequências são , além de cânceres do trato reprodutivo, distúrbios do sistema
reprodutivo, incluindo infertilidade. A dificuldade de estabelecer relações de
causalidade entre a exposição a agrotóxicos e a desregulação endócrina não elimina,
no entanto, a necessidade de incrementar as pesquisas neste sentido, sobretudo com o
aumento progressivo de utilização destes produtos na agricultura. Só no Brasil, segundo
dados do Sindag Sindicato Nacional da Indústria de Defensivos Agrícolas, o
aumento do consumo, entre 1991 e 1999, foi superior a 130%. Se considerarmos a recente
expansão da produção agrícola brasileira nos últimos anos, particularmente a corrida
da soja incentivada pelo Governo, chegaremos à conclusão de que este consumo tem
aumentado consideravelmente, sem nenhuma perspectiva de que seja freado a curto e médio
prazos. (14)
Artigo sob a responsabilidade do Hospital de
Câncer de Pernambuco, Departamento de Controle e Prevenção, traz resultados de pesquisa
comparativa entre mulheres residentes em Petrolina e Recife, com algumas constatações
importantes:
"O que ficou evidente no levantamento é
que as mulheres de Petrolina estavam menstruando mais cedo (fator de risco para câncer de
mama) do que as mulheres da zona urbana. Em termos percentuais, 9,4% das mulheres de
Petrolina tiveram sua menarca antes dos 11 anos de idade contra 4,5% de Recife. Um outro
fator mais gritante que foi desvendado é que 90% das petrolinenses tiveram abortos (sendo
80,4% espontâneos) contra apenas 43,1% das recifenses (sendo 78,7% espontâneos).
Perguntamos, nesta oportunidade: Será que o agrotóxico é também fator de risco no caso
do aborto?.
Na revista Currente Research Monitor, Nº 52,
April-June, 2001, encontramos a resposta: Numa pesquisa realizada em dez distritos rurais
no Estado da Califórnia, Estados Unidos, todos usuários de agrotóxicos, já em 1984,
foi encontrada uma relação positiva entre a proximidade à aplicação de agrotóxicos e
o risco elevado de morte fetal deviado a anomalias congênitas.
A relação nociva foi encontrada em todas as
327 pesticidas testadas, concentradas em 5 categorias: organophosphates, carbamates,
pyrethroids, halogenated hydrocarbons e endocrine disruptors. Tanto mais próxima à
aplicação da pesticida, quanto mais forte foi a relação. O efeito nocivo sobre o feto
foi mais intensivo quando a mãe foi exposta ao agrotóxico entre o terceiro e o oitavo
mês de gestação. (15)
A associação entre a exposição a
agrotóxicos e distúrbios neurocomportamentais também tem sido cada vez mais evidenciada
Estudo realizado por universidades de 3 Estados (São Paulo, Rio Grande do Sul e Rio de
Janeiro) com agricultores gaúchos de Santa Cruz do Sul, que plantam fumo," constatou
que o manganês, presente em alguns fungicidas, pode provocar danos muito mais
graves". (comparativamente às suspeitas de contaminação pelos organofosforados que
haviam sido apontados como responsáveis por um índice grande de suicídios em Venâncio
Aires, cidade vizinha a Santa Cruz, em 1996 ). A pesquisa concluiu: " pode-se aceitar
como verdadeira a hipótese de que os agrotóxicos utilizados indiscriminadamente no
cultivo do tabaco causam intoxicações e distúrbios neurocomportamentais nos membros das
unidades familiares de produção". .. "A presença de manganês foi detectada
em pessoas das famílias investigadas em níveis muito acima dos descritos em literatura
médica, segundo Angelo Trapé, toxicologista da Unicamp. Intoxicações por esse metal
podem causar tremores e outros sintomas semelhantes aos do mal de Parkinson, pois o
manganês age diretamente no sistema nervoso central". (16). Isso talvez explique o
gesto desesperado do sr."Leu", citado no início do artigo que, sem razão e sem
aviso, pôs fim à vida numa manhã de 2002.
O veneno chega à mesa
Muitos brasileiros, que moram na cidade, e
que já tomaram contato com esta realidade (infelizmente este conhecimento é bem menor do
que seria razoável, certamente por culpa da mídia que não os repercute com frequência)
podem imaginar que os agrotóxicos causam problemas no campo e que estes problemas estão
restritos àqueles que vivem próximo deles, aplicando-os ou armazenando-os. Um problema
de quem vive na roça.
Mas o veneno está cada vez mais perto de
nós, ou, que é mais dramático, dentro de nós. A contaminação de alimentos por
agrotóxicos é alarmante, conforme indicam pesquisas e levantamentos.
Análises de resíduos de agrotóxicos em
amostras de frutas e verduras realizadas pela ANVISA, entre junho de 2001 e junho de 2002,
mostraram que 81,2% delas estavam contaminadas, e que 22,17% tinham porcentuais acima do
permitido. Pior ainda: 1/3 dessas amostras irregulares continham resíduos de agrotóxicos
não autorizados para as respectivas culturas. Três ingredientes ativos de uso proibido
no Brasil também foram encontrados, como o Clorpirifós Metil, o Dieldrin e o Parathion
Etílico ( o mesmo Parathion que matou os 24 meninos peruanos). (17)
Recentemente (maio de 2004), pesquisa da
ANVISA revelou que as frutas e saladas consumidas pelos brasileiros têm alto índice de
contaminação por agrotóxicos, especialmente o alface, a batata, a maçã , a banana , o
morango e o mamão, sobretudo estes dois últimos, comprometidos em boa parte das
amostras. (18)
Em 2000, levantamento realizado pela Feema e
pelo Instituto de Biologia da UERJ constatou que em pelo menos cinco alimentos
morango, figo, brócolis, agrião e vagem manteiga, havia graus de contaminação por
agrotóxicos 4 vezes maiores do que o permitido pelo Ministério da Saúde. (19)
Este dado só reforça levantamentos
anteriores como o do Laboratório de Resíduos do Instituto Biológico de São Paulo, em
1998, que descobriu problemas sérios de contaminação no tomate, no melão, na uva, no
morango (não se salvaram nesse caso nem mesmo as amostras que continham selos de
qualidade), no alface, no mamão, no pimentão etc. (20)
No mesmo ano, pesquisa realizada no Centro de
Toxiologia do Instituto de Biociências da UNESP revelava a presença em percentual
absurdo de um inseticida, usado no gado para matar carrapatos e a mosca-dos-chifres, em
amostras de leite de vaca (quase 10 vezes o máximo permitido). Ingerido por um indivíduo
(especialmente uma criança), esse produto com certeza traria prejuízos incalculáveis à
saúde. Isso acontece porque o produtor não respeita o tempo de carência requerido para
se consumir o leite após o uso do inseticida (2 semanas no mínimo) e porque o Governo
não exerce a fiscalização, exigindo laudos de toxidade. (21)
Dentre os efeitos mais sensíveis desta
contaminação, destacam-se as irritações gástricas e intestinais, tonteiras,
taquicardia, alergias e até insuficiência renal, dependendo do tipo de agente
contaminante.
Os vegetarianos e os adeptos da dieta light,
que costumam consumir frutas e verduras, apostando na qualidade de vida, precisam,
portanto, ficar atentos. Numa sociedade que cultua a alternativa agroquímica, ninguém
está efetivamente a salvo.
A vítima é a culpada
As empresas e as entidades que representam a
indústria agroquímica não têm dúvida de que existe um grande culpado pela
intoxicação crescente por agrotóxico em nosso País: o agricultor. Assim como a
indústria tabagista e de bebidas, que , cinicamente, empurram para os usuários a
responsabilidade pelos terríveis males causados pelas drogas que fabricam, elas culpam a
vítima. O lema é: "se você fizer tudo certo, não há problema algum. Os
agrotóxicos, em si, são inofensivos. Eles não agridem, eles protegem".
O discurso hipócrita, repetido com
insistência, mascara uma estratégia de marketing agressiva e que visa aumentar o consumo
de agrotóxicos, o que significa multiplicar os lucros.
Respaldadas numa fiscalização inexistente,
na cumplidade de profissionais (sejam eles agrônomos ou comerciantes) que se prestam ao
trabalho de ludibriar os agricultores desavisados e na mídia, convocada para a apologia
da produção recorde, elas conseguem, ainda, promover a sua condição de ambientalmente
responsáveis, aquinhoando prêmios e matérias de destaque em importantes veículos de
comunicação.
Os argumentos utilizados para convencer os
agricultores são conhecidos: não há alternativa para aumentar a produção, a não ser
com o emprego maciço de veneno. As pragas existem, são cada vez em maior número e mais
resistentes, e, portanto, não é possível dar-lhes trégua.
Os trabalhadores rurais se sentem, em geral,
acuados: pressionados para colher resultados e garantir o sustento dos seus, colocam em
risco a sua saúde e de toda a família.
Inúmeros outros fatores sócio-culturais
concorrem para que isso aconteça. Em geral, os agricultores, particularmente os
familiares, de menores posses, têm baixo nível de instrução e são incapazes de ler os
rótulos e de entender o que está escrito nas bulas. Da mesma forma, não conseguem
enxergar os interesses sórdidos dos que fabricam e comercializam nas falas melosas dos
revendedores e capatazes das empresas, travestidos de extensionistas ou assistentes
técnicos.
A situação tem sido identificada por
inúmeros estudos e pesquisas , mas, apesar disso, nada se faz para modificá-la.
Pressionados pela sobrevivência, os agricultores tornam-se, espontanea e docilmente,
reféns de seus próprios carrascos. No seu realismo fatalístico, encaram ,
desesperançados a realidade, e entregam-se à própria sorte. Os técnicos das casas
comerciais, geralmente engenheiros agrônomos, repetem, invariavelmente, os mesmos
argumentos das empresas e da Andef Associação Nacional dos Defensivos Agrícolas:
somente a produção intensiva conseguirá matar a fome de uma população que cresce
geometricamente e ela só é possível com o uso de agrotóxicos.
No trabalho de Jefferson José Oliveira-Silva
e outros, que avaliou a influência de fatores sócioeconômicos na contaminação de
agricultores de Magé/RJ por agrotóxicos , ficou patente que o baixo nivel de
escolaridade tem a ver com a leitura inadequada dos rótulos dos produtos e, em
consequência, com elevados índices de contaminação.
"O baixo percentual de indivíduos que
lêem os rótulos das embalagens pode ser explicado pelos níveis de escolaridade
encontrados na comunidade. Mesmo dentro deste grupo é de se esperar que os textos não
sejam perfeitamente interpretados, tanto pelo nível de escolaridade quanto pelo teor
técnico das informações contidas nos rótulos, que cria uma série de barreiras à
comunicação sobre o uso, os cuidados e os efeitos sobre a saúde e o ambiente".
Embora um número razoável de indivíduos tenha relatado que utiliza equipamento de
proteção individual, estes nem sempre são apropriados ou suficientes para a proteção
de agentes químicos, como no caso da utilização exclusiva de botas e chapéus, relatada
por 50% dos indivíduos. Isto tem sido observado em outros estudos realizados em países
em desenvolvimento. "(22)
José Alberto Gonçalves Pereira, em
dissertação apresentada à ECA/USP, em 2003, relacionava 8 causas importantes
relacionadas com a intoxicação por agrotóxicos: falta de treinamento, não uso da roupa
protetora, o descumprimento da obrigatoriedade da apresentação do receituário
agronômico, o uso excessivo de agrotóxicos, a utilização de produtos proibidos, a
presença de crianças e adolescentes no campo, a não fiscalização da aviação
agrícola e a ausência de articulação institucional. O jornalista e pesquisador
ressalta também a ausência de uma política pública consistente para atacar a questão,
que vai desde a identificação precária dos acidentes causados por agrotóxicos ( o que
mascara a magnitude do problema), à defesa dos interesses corporativos de profissionais e
à fiscalização absolutamente deficiente. No caso da aviação agrícola, por exemplo
José Alberto Gonçalves lembra que "a aplicação aérea é uma das atividades que
mais gera problemas de intoxicação humana. Conta com uma fiscalização bastante débil
por parte do Ministério da Agricultura e do DAC (Departamento de Aviação Civil). As
próprias autoridades do ministério e do DAC admitem que há uma frota significativa de
aviões agrícolas clandestinos não-investigada. Segundo Rüegg, a aplicação aérea
acarreta perda de 10% a 70% dos produtos aplicados, que acabam contaminando outras áreas.
(23)
A contribuição mais relevante sobre a
incidência de ruídos de comunicação no processo de divulgação dos agrotóxicos junto
aos agricultores no Brasil consiste na pesquisa desenvolvida por Frederico Peres para
obtenção de seu mestrado, em 1999. (24)
O pesquisador , ao analisar o perfil do
regime de uso de agrotóxicos e das relações de trabalho na região da Microbacia do
Córrego do São Lourenço, Nova Friburgo, Rio de Janeiro, descobriu que, por uma série
de fatores sócio-econômicos e culturais e pela adoção de mecanismos utilizados pela
indústria agroquímica, a comunicação rural contribui para criar a
"necessidade" incontestável do uso de agrotóxicos e está a serviço de grupos
de interesse.
A partir de entrevistas realizadas com
produtores e lideranças comunitárias, Frederico Peres descobriu aspectos fundamentais do
processo repetido de sedução que cerca a utilização intensiva e inadequada dos
agrotóxicos. O discurso persuasivo dos vendedores é explicitamente identificado pelos
produtores, que reconhecem que a insistência do uso não se faz acompanhar por
advertência com respeito aos riscos:
"Ah, eles não fala nada não, só dá
indicacão e o tanto que usa...só fala o Sr. usa tanto disso, tanto daquilo, fala se tem
um bicho assim, assim, ela já diz, tem que ser esse remédio (agrotóxico). Mas
precarção, avisando a gente, nada não." (Valdecir, agricultor, 27 anos). (25)
O investigador constatou que 56% dos
produtores consideram agrotóxicos como remédio, enquanto apenas 29% o identificavam como
veneno. Como explica, em sua fala simples, Dermerval, 41 anos, agricultor: "a gente
chama de remédio: tens uns vinte ano que a gente chama anssim, já tá acostumado. Quando
usa, a planta melhora, então é um remédio." (26)
Não se trata apenas de uma questão de
termo, evidentemente, porque a não consciência de que se trata de veneno, que fal mal à
saúde e ao ambiente, desarma, naturalmente, o agricultor, tornando-o mais vulnerável à
exposição. Não que ele não tenha a percepção dos males que o produto e sua
aplicação podem causar à saúde e ao meio ambiente: a maioria esmagadora deles consegue
apontar os seus efeitos maléficos, mas a ambiguidade existente na dicotomia veneno x
remédio certamente o confunde.
Frederico Peres constatou, porém, que é
menos palpável a percepção dos agricultores com respeito à contaminação dos
alimentos. Somente 8% deles indicavam este fato como um dos problemas causados pelos
agrotóxicos. Como eles ignoram os efeitos nocivos à saúde pela ingestão de alimentos
contaminados e porque esses efeitos ocorrem a medio e longo prazos, dificultando o
estabelecimento de uma relação causal, são céticos com respeito aos seus malefícios.
Como explica Pedro, 49 anos, agricultor: " Creio que não (refere-se a problema
causado por agrotóxico nos alimentos), porque todos tá usando, né, tem a
necessidade...Não, não tem pobrema, porque se tivesse já tinha morrido uma porção,
rapaz, porque tudo o que nós comemo hoje leva veneno, leva agrotóxico, se você tá
comprando uma carne no açougue lá, aquilo leva agrotóxico". (27)
O pesquisador revela também a
incomunicação que tipifica a interação entre os profissionais e os agricultores, pelo
uso do jargão técnico e também pela descontextualização da problemática abordada.
Compreender a bula, nem pensar, e é difícil até interpretar os pictogramas constantes
nos rótulos, cuja finalidade é facilitar o entendimento das instruções.
O relato dos trabalhadores rurais sobre as
ilustrações contidas nos rótulos e nas bulas é elucidativo. Ao vislumbrar a figura de
um indivíduo lavando a mão, após o uso do agrotóxico, Antonio, um agricultor de 59
anos, afirmou que ele estava misturando o "remédio"; já Elizer, agricultor de
44 anos, ao ser apresentado a uma ilustração que mostrava o produto num lugar alto, de
difícil acesso a uma pessoa ( a intenção era indicar que o produto deveria ser mantido
trancado e fora do alcance das crianças), concluiu sem pestanejar: "não se deve
usar o produto por cima da cabeça". A maioria encontrou dificuldade para decodificar
o uso da letra X, que aparece com frequência nas ilustrações para indicar procedimento
errado, proibido, não recomendável. Ao serem apresentados a uma figura que queria
informar que não se devia transferir o produto de uma embalagem original para outra (com
um enorme X sobre ela, indicando que isso não deveria ser feito), apenas 1 em 12
entrevistados percebeu que ali estava sendo representada uma negação/proibição.(28)
A experiência de compreensão de um folder
explicativo sobre agrotóxicos também foi dramática para os agricultores, que não
conseguiam entender o que estava escrito, bem como foi problemático o entendimento sobre
o grau de toxidade dos produtos, indicados nos rótulos das embalagens por faixas
coloridas. O uso de nomes técnicos (sulfato de atropina, agente emético etc) foi mais um
problema entre os muitos encontrados na comunicação técnica, absolutamente inadequada
para os perfis do usuários, geralmente constituídos de analfabetos ou pouco letrados.
Saborosa foi a alternativa proposta por um
agricultor para uma informação encontrada na embalagem do herbicida Gromoxone, o
agrotóxico mais utilizado naquela região.
O texto oficial, descrito por Frederico
Peres, diz o seguinte:
"Esta formulação contém um agente
emético, portanto não controle vômito em pacientes recém intoxicados por via oral até
que pela ação do esvaziamento gástrico do herbicida, o líquido estomacal venha a ser
claro."
Diante dele, 7 dos 12 agricultores
consultados não conseguiram interpretar que era necessário deixar que a pessoa
intoxicada botasse fora o veneno. Depois que foi explicado a eles, o que efetivamente
significava, Francisco, 35 anos, saiu com a frase perfeita:
"Em vez disso aí, o sujeito não podia
escrever se o caboclo beber o veneno, deixe ele vomitar até as tripa!". (29)
A imprensa comprometida
A imprensa brasileira não tem cumprido à
risca o seu papel no caso dos agrotóxicos. A exemplo do que ocorre, de maneira geral, na
cobertura de temas ambientais e vinculados à saúde humana, ela tem trilhado,
preferencialmente, dois caminhos: o do sensacionalismo ou o da omissão. Em ambos os
casos, ela penaliza o cidadão que se vê mal informado e, portanto, sem defesa contra
interesses comerciais que afrontam os seus direitos básicos, como o da qualidade de vida,
por exemplo.
À exceção da imprensa ambiental
(injustamente alvo de preconceitos de autoridades, empresas e especialmente de agências
de propaganda) e de alguns veículos que têm buscado , na maioria das vezes, fazer uma
cobertura adequada da questão dos agrotóxicos (como a Folha de S. Paulo e a revista
Galileu, para citar dois casos), o tema tem sido preterido pela mídia brasileira ou
abordado de maneira episódica ou superficial.
A situação é mais grave nos jornais de
negócios e nas editorias de economia, que costumam privilegiar o modelo agroexportador,
intensivo em produtos agroquímicos, valendo-se de fontes comprometidas com as empresas
transnacionais que fabricam e comercializam agrotóxicos.
Um resgate, ainda que rápido, de matérias
envolvendo empresas agroquímicas ou seus parceiros evidencia a omissão da mídia e dos
jornalistas e ausência de uma consciência ambiental ou de compromisso com a qualidade de
vida.
Tomemos, por exemplo, 3 delas, de veículos e
tempos distintos. A primeira, de 2001, focaliza a liderança da Bayer no mercado de
agrotóxicos .O título da matéria Bayer lidera mercado de defensivos - já
encerra pistas importantes: tem como fonte principal a empresa alemã e , ao usar o termo
defensivos, vislumbra a questão dos agrotóxicos de maneira positiva ou acrítica. A
leitura do texto confirma a suspeita. A reportagem trata da compra pela Bayer da Aventis
CropScience e festeja a sua liderança no mercado brasileiro de defensivos agrícolas .
Num dado momento, o repórter esclarece:
A aquisição interessa especialmente à
subsidiária basileira da Bayer. Os chamados mercados emergentes são aqueles que
apresentam maior potencial de crescimento para as vendas de defensivos agrícolas. No ano
passado, a divisão agropecuária rendeu US$201 milhões , representou 28% do faturamento
da empresa no País e só perdeu para o negócio com plásticos." (30)
Em outro, entusiasma-se:
O negócio de defensivos apresenta margens de
lucro e taxas de crescimento atraentes e é imune aos ciclos de alta e baixa que afetam as
resinas plásticas e os produtos químicos. Com o ganho de escala e a ampliação da linha
de sua divisão agrícola, a Bayer projeta uma rentabilidade de até 20% sobre o
faturamento. (31)
O repórter, fiel à sua pauta, e subsidiado
pelas informações da Bloomberg News, prende-se ao aspecto econômico e financeiro e ,
com competência, elabora um release ufanista para os negócios da empresa alemã. O
leitor mais atento poderia, se fosse um investidor, imediatamente acionar seu agente na
Bolsa para investir na Bayer. Pelo tom da matéria, lucro certo daqui pra frente.
A segunda matéria refere-se ao investimento
da Syngenta no Brasil e, a exemplo da anterior, limita-se às fontes da empresa, cumprindo
uma pauta também essencialmente econômica. Diz o lead da matéria:
A Syngenta vai investir US$1 milhão para
ampliar a capacidade de produção de sua unidade brasileira de defensivos agrícolas,
instalada em Paulínia (SP). Segundo Valdemar Fischer, presidente da divisão de
defensivos no Brasil e da América Latina, a ampliação permitirá que a companhia passe
a produzir no país o novo fungicida desenvolvido pela multinacional no combate à
ferrugem da soja. (32)
A matéria continua exaltando as qualidades
do novo produto o Priori Xtra e, a exemplo da matéria da Gazeta Mercantil,
constitui-se num release absolutamente competente.
A terceira e última matéria, publicada na
editoria de Economia do Estadão, ressalta o crescimento da aviação agrícola no Brasil
. Tendo como fontes empresários do setor, o presidente do Sindicato Nacional da área e
pilotos especializados festeja, em tom retumbante, o incremento dos negócios, que
acompanha o "vácuo do crescimento do agronegócio breasileiro".
A reportagem, ilustrada com uma foto colorida
do avião Ipanema (com a legenda propagandística: " O avião Ipanema foi o destaque
na feira de aviação agrícola encerrada ontem em Botucatu -SP"), afaga a empresa
líder:
"Líder do mercado de aviação
agrícola brasileira, a Neiva já entregou mais de 900 aviões Ipanema em 30 anos de
produção... Fomos beneficiados pela explosão do agronegócio, principalmente da
soja, afirmou Zacarelli (gerente de vendas da empresa). A rápida expansão da
cultura, beneficiada pelas exportações, e o surgimento da doença conhecida como
ferrugem nas lavouras do grão acabaram por resgatar o avião agrícola. É a única
ferramenta eficaz no combate a essa praga, cuja disseminação é muito veloz. De 2002
para 2003, a Neiva aumentou em 84% suas vendas, passando de 25 para 46 aeronaves. Este
ano, 82 já estão vendidas, com aumento dje 87% sobre o ano passado". (33)
Nenhuma linha sobre os problemas causados
pela aviação agrícola no Brasil, que, sem fiscalização, tem sido apontada como um dos
fatores mais importantes no processo de contaminação por agrotóxicos, como acentuava
José Alberto Gonçalves, em sua dissertação de mestrado, citada anteriormente.
A imprensa não tem assumido o compromisso de
contextualizar este noticiário, deixando de incluir a questão ambiental como uma
contraponto necessário na cobertura do agronegócio exportador , preferindo aderir ao
modelo vigente e dar as costas aos problemas que ele vem causando à saúde e ao meio
ambiente.
É preciso resgatar essa consciência,
praticar um jornalismo investigativo, buscando fugir das armadilhas inerentes à
divulgação dos negócios empresariais, pautada pelas estruturas de comunicação
(agências , assessorias) que respaldam os grandes interesses.
O comunicador, quando trabalha com temas que
repercutem na qualidade de vida, deve estar com os olhos bem abertos. Os lobbies poderosos
devem ser enfrentados com espírito crítico, coragem e militância. Contra o veneno, a
melhor arma nunca será uma pauta açucarada. Pelo contrário, em virtude desta omissão,
o cidadão brasileiro tem pago um preço bastante amargo.
Notas/Referências bibliográficas
1) Deudos de Tauccamarca inician denuncia
civil contra la BAYER. Disponível em http://www.rap-al.org/boletin/Enlace%2054-2.html)
no dia 27/06/2004. Ver também Bayer hallada responsable de envenenamiento de niños en
Perú. Disponível em Red del Tercer Mundo (http://www.redtercermundo.org.uy/texto_completo.php?id=17)
em 27/06/2004.
2) Grippi, Sidney. A máfia do agrotóxico.
Estado de Minas. Belo Horizonte, 21 de janeiro de 2000, p. 11 do Suplemento Estado
Ecológico.
3) La cosecha ignorada. . Reportagem disponível no site
Argenpress.info http://www.argenpress.info/nota.asp?num=001097 em
27/06/2004.4) Ver GIRARDI, Giovana. A última colheita. Galileu. Ano 12, número 133,
agosto de 2002.
5) Ver Agrotóxicos, saúde e ambiente: uma
introdução ao tema, de Frederico Peres, Josino Costa Moreira e Gaetan Serge Dubois. In:
Peres, Frederico e Moreira, Josino Costa (org). É veneno ou é remédio? Agrotóxicos,
saúde e ambiente. Rio de Janeiro, Fiocruz, 2003, p. 21-41. O texto é bastante
didático e descreve, com detalhes, a relação perniciosa entre agrotóxicos, saúde e
meio ambiente.
6) Notícia disponível no site da Fiocruz
Fundação Oswaldo Cruz em http://www.fiocruz.br/cict/informacao/intoxicacoeshumanas
/2001/umanalise2001.htm no dia 27/06/2004.
7) Uso de agrotóxicos prejudica meio
ambiente e saúde do agricultor no Agreste de Pernambuco. Disponível no Arquivo de
Notícias no site da Fiocruz (http://www.fiocruz.br/ccs/novidades/jul02/agrotoxico_plo.htm)
em 27/06/2004.
8) Neice Müller Xavier Faria e outros.
Processo de produção rural e saúde na serra gaúcha: um estudo descritivo. Cadernos
de Saúde Pública. Rio de Janeiro, Fiocruz, 16(1): 115-128, janeiro-março de 2000.
9) Wagner Soares, Renan Moritz V. R. Almeida
e Sueli Moro. Trabalho rural e fatores de risco asociados ao regime do uso de agrotóxicos
em Minas Gerais, Brasil. Cadernos de Saúde Pública. Rio de Janeiro, Fiocruz,
19(4):1117-1127, julho-agosto de 2003.
10) Jefferson José Oliveira-Silva e outros.
Influência dos fatores socioeconômicos na contaminação por agrotóxicos, Brasil. Revista
de Saúde Pública. São Paulo, v.34, nº 2, abril de 2001.
11) Juliana Monteiro. Pesquisa revela áreas
de risco em SP. Folha de S. Paulo, 02/06/98, p. 6-3. O Ministério da Saúde e a
Fiocruz revelavam em 1999 que o número de mortes causadas por agrotóxicos havia crescido
de 143, em 1997, para 181, em 1998.
.12) José Alberto Gonçalves. Brasil afrouxa
cerco sobre agrotóxico. Folha de S. Paulo. 13/11/1999,p.6-1 e 6-3.
13) Sergio Koifman e Ana Hatagima.
Exposição aos agrotóxicos e câncer ambiental. In: É veneno ou é remédio?.
Agrotóxicos, saúde e ambiente. Rio de Janeiro, Fiocruz, 2003, p.75-99.
14) Armando Meyer e outros. Os agrotóxicos e
sua ação como desreguladores endócrinos. In: É veneno ou é remédio? Agrotóxicos,
saúde e ambiente. Rio de Janeiro, Fiocruz , p.101-118.
15) Agrotóxicos e câncer: novas abordagens.
Jornal do Commercio. Recife, 30/07/2001, p.10.
16) Giovana Girardi. A última colheita. Galileu.
São Paulo, Editora Globo, ano 12, nº 133, agosto 2002, p.24-31. Isso talvez explique o
gesto desesperado do sr."Leu", citado no início do artigo que, sem razão e sem
aviso, pôs fim à vida numa manhã de 2002.
17) Prato indigesto. Consumidor SA.
São Paulo, IDEC, abril-maio de 2003, p.34-35.
18) Consultar a notícia no site da ANVISA
Agência Nacional de Vigilância Sanitária (http://www.anvisa.gov.br/divulga/noticias/2004/100504_3.htm),
disponível em 27/06/2004.
19) Márcia Cezimbra. Abuso de agrotóxico
ameaça saúde do carioca. O Globo, Rio de Janeiro, 30 de janeiro de 2000, p.29.
20) Comida em pratos limpos. Época,
São Paulo, Editora Globo, 16/11/1998, p.38-43
21) Katia Stringueto. Leite sob suspeita. Isto
É. São Paulo, Editora Três, 23/09/1998, p. 61.
22) Jefferson José Oliveira-Silva e outros.
Influência de fatores socioeconômicos na contaminação por agrotóxicos, Brasil. Revista
de Saúde Pública. São Paulo, vol. 35, nº 2, abril 2001.
23) José Alberto Gonçalves Pereira.
Intoxicações por agrotóxicos no debate público socioambiental o papel das ONGs
e dos movimentos sociais. Dissertação de mestrado apresentada à ECA/USP em
fevereiro de 2003, p.64-67.
24) Frederico Peres. É veneno ou é
remédio? Os desafios da comunicação rural sobre agrotóxicos. Dissertação
apresentada à Escola Nacional de Saúde Pública, Fundação Oswaldo Cruz, em 1999.
25) Frederico Peres, idem, ibidem, p.74.26) Frederico Peres,
idem, ibidem, p.80.
27) Frederico Peres, idem, ibidem, p.100.
28) Ver Frederico Peres, idem, ibidem,
106-140.
29) Frederico Peres, idem, ibidem, 159.
30) Vicente Vilardaga. Bayer lidera mercado
de defensivos. Gazeta Mercantil. São Paulo, 03/10/2001, p. C-1.
31) Idem, ibidem, p.C-1.
32) Mônica Scaramuzzo. Syngenta vai investir
US$1 milhão no País. Valor Econômico. São Paulo, 17/06/2004, p. B-10.
33) José Maria Tomazela. Aviação agrícola
já cresceu 50% este ano. São Paulo, O Estado de S. Paulo. 28/06/2004, p. B6.
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1988, p.89-101.
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SOARES, Wagner e outros. Trabalho rural e
fatores de risco asociados ao regime do uso de agrotóxicos em Minas Gerais, Brasil.
Cadernos de Saúde Pública. Rio de Janeiro, Fiocruz, 19(4):1117-1127, julho-agosto de
2003.
* Wilson da Costa Bueno é
jornalista, professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da UMESP e
de Jornalismo da ECA/USP. Editor dos sites Portal do Jornalismo Científico on Line,
AGRICOMA - Comunicação em Agribusiness e Meio Ambiente on Line e diretor da Comtexto
Comunicação e Pesquisa.
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