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| Volume 2, Nš 3, Dezembro de 2005 | |
| Comunicações | |
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Publicidade de medicamentos: verdades e falácias Nellv Carvalho Resumo O presente trabalho objetiva estudar as formas de argumentação nas publicidades de medicamentos , em meios de comunicação , alguns dirigidos apenas á classe média e outros ao público em geral. É uma amostragem de um trabalho mais amplo a ser apresentado como comunicação e utiliza como teóricos que embasam as análises, Geis,Austin , Ducrot, Searle , Morgan,Grice , além da experiência da própria autora em estudos anteriores sobre a escolha lexical no discurso publicitário Fundamentação teórica As sentenças genéricas afirmam, com segurança, fatos que às vezes são negados em casos particulares. Por exemplo: o enunciado "crianças são indagadoras" e um enunciado aceito como verdade pelo senso comum. A força da generalização não deixa perceber que algumas crianças não preenchem esta condição: são as tímidas, as deficientes, as recém-nascidas, etc. A publicidade utiliza este recurso para divulgar a qualidade de seus produtos porque dificilmente os usuários saberão opor argumentos a frases generalizantes, sobretudo às que apelam para o senso comum. Assim, analisando-se inicialmente um exemplo de caso em relação à publicidade comercial de medicamentos, podemos perceber como atuam em relação a consumidor falante comum e qual a razão de sua força perlocutória. Tomamos, como mini-corpus, publicidades comerciais d medicamentos, por nos parecerem as mais generalizantes e a' mesmo tempo autoritárias, em matéria de publicidade comercial. Elas se constroem e extraem sua força da dificuldade d falante neste domínio do conhecimento. (1) "X penetra suavemente na pele ferida para matar germens que podem causar infecção; desta forma ajuda a sarar rapidamente (2) "1 contém todas as vitaminas básicas necessárias para o bom funcionamento do organismo. Vitaminas como a A,B,C, e especialmente vitamina E, além de elementos naturais altamente energéticos como o guaraná, a maripuama e ervas medicinais. Desta forma ajuda a combater o "stress" e a manter o dinamismo em alta. Pelo menos, no que diz respeito a energia, pode ficar tranqüilo". A afirmação de que as condições de verdade de uma sentença genérica podem ser definidas independente do contexto não é confirmada na prática. As sentenças 1 e 2 são publicidades que buscam o apelo da oferta de um produto feito pelo anunciante usado pelo consumidor para fazer face às suas necessidades. Desta forma, o contexto é importante para compreender este tipo enunciado. O conhecimento das condições de verdade de 1 e 2 e o fato de estarem sendo usados para fazer uma oferta, determinam a forma de interpretá-los. O sentido completo de um enunciado é uma soma
dos seguintes elementos: Sendo assim toda sentença feita para publicidade tem como determinante de sua interpretação, o fato de ser veículo de uma oferta. Testes comprovaram que as pessoas, em geral, não têm a capacidade lógica desenvolvida, nem respondem bem às tarefas que exigem raciocínio silogístico. Por isso, as publicidades apelam bastante para a estrutura silogística, usando a premissa menor e a conclusão, como em "Ela tem a pele macia. Ela usa Leite de Aveia Davene". A capacidade de discriminar inferências válidas
e inválidas é falha muitas vezes, mesmo nos falantes letrados.
Sendo necessário, pois, descrever a competência semântica
do falante comum, esta explicação vai partir da questão
seguinte: A capacidade de raciocínio não é
inata, mas aprendida; Para Geis (1984), a questão crucial, do ponto de vista de raciocínio/linguagem é observar se os falantes têm uma capacidade consciente ou inconsciente, explícita ou implícita de distinguir inferências válidas/não-válidas. Se os usuários da língua, letrados e preparados, muitas vezes falham nesta capacidade, como se situam os usuários despreparados, não-treinados, analfabetos? A grande maioria falha em perceber as condições de validade da sentença, quando ela é baseada nas condições de felicidade dos atos de fala e nas implicaturas conversacionais. Na pesquisa do autor citado, ficou provada a força
das afirmações genéricas quando a maioria dos falantes
considerou incorretamente que (la) acarreta (lb). 2a. Filtros D podem remover as bactérias de sua
água Isto indica que as afirmações genéricas são fortes e que o uso de pode não enfraquece o apelo; ao contrário ele se transforma numa espécie de intensificador. Apesar de possuírem a capacidade de perceber as condições de verdade, os falantes têm grande dificuldade em distinguir entre conseqüência/inferência. Na vida cotidiana, vendo televisão, lendo jornal, olhando "outdoors" nas estradas, as pessoas estarão menos aptas e dispostas a fazer inferências. Estão, por assim dizer, desarmados os seus dispositivos lógicos e a publicidade utiliza esta situação para veicular sua mensagem. Não obstante a falta de uma confiável validade de julgamento consciente, o falante tem sempre um dispositivo de detecção de validade e muito da sua compreensão de sentenças e resultado de uma atividade automática e inconsciente. Assim, nossa capacidade de detecção de validade opera sobretudo no nível inconsciente. Alguns reconhecimentos de validade são automáticos, como a sentença imediatamente reconhecida como pedido: Pode me passar o sal? Segundo demonstrou Morgan, algumas inferências não lógicas são automáticas, além do que o falante compreende a sentença mais pelo contexto do que pelo seu sentido literal. Quanto à produção do discurso, do ponto de vista da condição de verdade, ela é mais simples do que a compreensão do mesmo. O publicitário que elabora uma mensagem como < 1 > e < 2 > não é necessariamente mais esclarecido do que o consumidor. Se assim parece é porque partir dos fatos para as sentenças é mais fácil. A aquisição da noção de validade
não é concomitante com a aquisição da linguagem.
O que o falante aprende quando inicia seu aprendizado lingüístico
é a fazer vários tipos de inferências a partir de:
Muitas das inferências que fazemos na vida cotidiana não se mostram válidas no uso, e isso dificulta perceber como o falante adquire a distinção validade/não-validade como subproduto da aquisição da linguagem. Análise A interpretação de uma sentença é em parte automática e em parte uma simples tarefa de ouvir de modo crítico. Nossas representações mentais do léxico são formadas pelo uso de modo automático. A significação de um enunciado será em função do significado das condições de verdade da sentença somado a considerações do contexto pragmático. As condições de verdade não podem ser definidas sem referências às considerações pragmáticas. A semântica não é, pois, autônoma em relação à pragmática, nas publicidades: X mata os gérmens causadores de infecção/T combate o "stress A afirmação genérica é usada para vender os produtos aos que precisam de proteção contra os germens ou contra o "stress". Eles devem preencher sua condição de verdade (matar germens - proteger contra o "stress"). Estas condições de verdade vão depender inicialmente do ato de fala usado como performativo: uma simples asserção ou uma asserção usada para convencer o consumidor a aceitar a oferta comercial. Geis (1984) trabalha com as afirmações genéricas do texto publicitário para mostrar como o falante comum, desavisado e desarmado, nem sempre tem condições de fazer inferências e de perceber se as sentenças enunciadas satisfazem as condições de verdade do mesmo. Discordando de quem considera a afirmação genérica com grau mínimo de força perlocutória e o verbo poder como enfraquecedor no contexto lingüístico, Geis (1984) mostra que a afirmação genérica confunde, mas dá credibilidade à mensagem e que o verbo poder tem função de intensificador. Além do mais, o contexto pragmático é essencial na linguagem publicitária para sua exata decodificação. As publicidades comerciais de medicamentos publicados em revistas especializadas/não especializadas confirmam as hipóteses de Geis (1984). Apresentam elas, alto índice de generalização e são muito autoritárias no que se refere ao falante comum, por estar fora de seu domínio de saber. Tornam-se, no entanto, mais facilmente analisadas em suas condições de verdade, quando o seu receptor é o especialista. Eis algumas delas: 1. GUTTA LAX - Liberdade em gotas. O laxativo para todas as idades. Diálogo Médico n.13 - 2000. 2. EFORTIL - Tônico circulatório - aumenta a irrigação coronariana, mantém constante a freqüência cardíaca e corrige o déficit de irrigação. Clínica Terapêutica (TC) Janeiro/fevereiro - 1999. 3. BENERVA - Nutre os músculos e alivia a dor nas neuropatias alcoólicas. Diálogo Médico n.13 - 2000. 4. FEBRALGIN - Ajuda a acabar com a febre e a dor - Desenvolvido para crianças. Clínica e Terapêutica. Janeiro/fevereiro - 1999. 5. CAMOMILA - Prepara a gengiva para a primeira dentição fortalecendo os dentinhos do bebê. Camomila é recalcificante com as vitaminas D e C, e não tem contra indicações. Amiga, 8 de junho de 2001. 6. TOSSE? GRIPE? ROQUIDÃO? XAROPE SÃO JOÃO (veiculada pelo rádio). Conclusão Em todas estas publicidades, embora veiculadas por canais diferentes, podemos perceber os elementos contidos nas publicações < 1 > e < 2 > analisados no decorrer do trabalho: alto grau de generalização e necessidade de inferências, dificilmente realizados pelo falante comum. Além do mais, algumas só podem ser compreendidas como publicidade com o auxílio do contexto, isto é, de elementos pragmáticos para que possa ser percebida sua intenção perlocutória. O conhecimento partilhado de mundo e as premissas factuais largamente aceitas operam também como elementos de facilitação da mensagem. Referências bibliográficas AUSTIN, J. L. Quando Dizer é Fazer. Trad. de D. M. de Souza Filho. Porto Alegre: Artes Médicas, 1990. CARVALHO, Nelly. Publicidade , A linguagem da Sedução São Paulo.Ática.3a ed. 2003 DUCROT, Oswald. Dizer - Não Dizer: Princípios de Semântica Lingüística. Trad. de Carlos Vogt. Campinas: Cultrix, 1972. GEIS, Michael L. On Semantics and Pragmatic Competence in Meaning Form and Use. In Context: Linguistic Aplications. Washington: Georgetown. Univ. Press, 1984. GRICE, II. P. Logic and Conversation. In: COLE, P., MORGAN, J. L. (Ed.). Synlax and .semanhic.s. New York: Academic Press, 1975. (Specch acts, v. 3). MORGAN, Jerry L. Linguistics: The ltelation of Pragmatics to Semantics and Syntax. In: ANNUAL Review of Anthropology 1977. cidade: Editora, Ano. SEARLE, John. Indirect Speech Acts. In: COLE, P.,
MORGAN, J. L. (Ed.). Syntax and Semanlics. New York: Academic Press,
1977. (Speech Acts; v. 3).
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