Jornalismo e Saúde


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comunicação entre médicos e pacientes através de uma revista eletrônica de saúde

Mônica Macedo*

      Resumo

     As revistas eletrônicas e o correio eletrônico podem ser uma alternativa à mídia tradicional na divulgação em saúde e facilitar a comunicação entre médicos e pacientes. Um estudo da revista Saúde e Vida On Line (www.nib.unicamp.br/svol) mostrou que seus leitores preferem a Internet como meio de informação. Além de buscar os assuntos por palavras-chave, podem resolver suas dúvidas por e-mail com os médicos colaboradores.

     Introdução

     A divulgação de informações médicas via Internet cresce a cada ano. Em um futuro próximo, todas as publicações deverão estar disponíveis formato eletrônico. Parte dessa informação é hoje composta por revistas científicas, bancos de dados especializados (como o MEDLINE e o PubMed), arquivos de casos clínicos e softwares de auxílio a diagnóstico, entre outros. Uma outra parte constitui-se de sites de divulgação científica, revistas noticiosas, programas de educação em saúde e listas de discussão abertas ao público em geral, cujo papel na disseminação de informações úteis (sobre prevenção de doenças, hábitos de vida saudáveis e esclarecimentos médicos) apenas começa a ser estudado. Certamente, há uma série de diferenças a serem consideradas em relação aos meios de comunicação de massa tradicionais (rádio, TV e imprensa), das quais a interação entre leitores e produtores é das mais evidentes.
     O número de usuários com acesso à Rede Mundial de Computadores é ainda pequeno, se comparado com o público atingido pelos meios de comunicação de massa tradicionais (rádio, TV e imprensa). Porém, as experiências de comunicação via correio eletrônico (e-mail) e através da World Wide Web (WWW) estão modificando sensivelmente os hábitos de médicos e pacientes que dispõem desses recursos. Essas experiências vêm sendo relatadas em diversos trabalhos, que constituem abordagens exploratórias sobre o tema.
     Um estudo realizado por Fridsma et al. (1994) na Clínica Médica da Universidade de Stanford (EUA), onde cerca de 46% dos pacientes utilizam correio eletrônico, mostrou que a comunicação através desse meio é vista positivamente pela maior parte dos pacientes. Cinqüenta e um porcento das pessoas disse que o utilizaria para comunicar-se com a clínica ou com seu médico, caso esse serviço estivesse disponível, substituindo, assim, a ligação telefônica e parte das consultas médicas. Fridsma et al. registram ainda os resultados de outros estudos que indicam o uso crescente dessas novas tecnologias de comunicação entre médicos e pacientes, como os de Neil (1994), Ford (1993, não publicado) e o Projeto 3I (Hasman, 1992), desenvolvido na Europa, que visa à interligação de médicos com farmácias, hospitais e consultores, através do intercâmbio de dados no formato eletrônico.
     Há que se considerar, é verdade, que a maior parte das informações no meio eletrônico é dirigida a médicos, mesmo porque a Internet desenvolveu-se inicialmente como uma rede científica. Nos EUA, onde a rede profissional de saúde mais cresce, cerca da metade dos 700.000 médicos americanos estão interligados (Veja, 1996).
     Um levantamento de 1996, do The New York Times, registrou a existência de 194 sites de medicina alternativa, 983 de doenças específicas, 1.633 de medicina em geral, 346 de saúde mental, 389 de farmacologia e 125 de odontologia (Folha de SP, 1996). A maioria está em inglês. Entre eles destacam-se o PubMed (http://www.ncbi.nlm.nih.gov/PubMed), que contém a base de dados MEDLINE da National Library of Medicine, o Oncolink (http://www.oncolink.upenn.edu), da Universidade da Pennsylvania e o Hospital Virtual de Iowa (http://www.vh.org).
     Os recursos de informação para pacientes são mais limitados, mas estão se multiplicando rapidamente e podem colaborar para a prevenção de doenças e compreensão de assuntos médicos. Com a entrada de provedores de acesso comerciais, o grande público tem se conectado à Internet num ritmo crescente. No final de 1997, o número estimado de usuários chegava aos 80 milhões no mundo inteiro (Folha de SP, 1998). Os sites mais importantes da área médica contêm informações dirigidas ao paciente. Muitos médicos colocam links com informações para o público leigo em suas home pages. A procura por informações em saúde é grande, mas ainda há poucos estudos sobre as mudanças introduzidas por esse novo meio de comunicação no cotidiano de médicos e pacientes.
     No Brasil, os usuários da Internet constituem uma pequena parcela da população e o material produzido em português sobre saúde é restrito. Contudo, a tendência é que a Rede cresça e atinja um número cada vez maior de pessoas, a exemplo do que aconteceu com outras tecnologias como o rádio e a televisão. A segunda pesquisa do Cadê?/IBOPE (1997) sobre o perfil do "internauta" no Brasil constatou que de novembro de 1996 a agosto de 1997 algumas mudanças de comportamento aconteceram (veja quadro abaixo). Trinta e nove porcento dos usuários utilizam a WWW há mais de um ano, contra 24% em 96. Quarenta e quatro porcento utilizam-na mais de duas horas por dia, contra 37% da pesquisa anterior, o que provavelmente significa que a WWW está substituindo, em parte, outros meios de informação. Mais pessoas estão acessando a Rede de seu local de trabalho, 41% contra 37%, o que aponta o uso da tecnologia em tarefas do escritório. E há menos pessoas com domínio do inglês na Internet brasileira, 58% contra 62%, o que significa que há mais informação disponível em português. Os endereços catalogados no site do Cadê? pularam de 9 mil na primeira pesquisa para 36 mil quase um ano depois.
     Neste trabalho, propõe-se um estudo de caso da revista Saúde e Vida On Line (SVOL), um site de divulgação sobre medicina e saúde em português desenvolvido pelo Núcleo de Informática Biomédica (NIB) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). A Saúde e Vida On Line (http://www.nib.unicamp.br/svol) faz parte do projeto Hospital Virtual Brasileiro (HVB - http://www.hospvirt.org.br), o terceiro do mundo no gênero, e foi uma das primeiras revistas na Internet a oferecer gratuitamente um serviço de esclarecimento de dúvidas, que é consultado em sua maioria por brasileiros de todas as regiões, mas também recebendo perguntas de outros países, em português, espanhol e inglês. A SVOL tem tido um crescimento contínuo no número de acessos e conta hoje com cerca de dois mil usuários cadastrados e 60 médicos colaboradores.
     Foi feito um estudo com uma amostra de 241 leitores cadastrados na revista e uma análise de conteúdo de 368 perguntas de leitores, com as respectivas respostas dos médicos colaboradores da revistas. Essas perguntas estão publicadas na seção Correio Eletrônico. Como parte da observação da produção da revista, foram também entrevistados alguns dos médicos colaboradores.

     Histórico da SVOL

     A Saúde e Vida On Line (SVOL) surgiu em novembro de 1996, no Núcleo de Informática Biomédica (NIB) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Divulgada pela Internet, ela é uma das primeiras revistas eletrônicas de saúde em língua portuguesa voltada especificamente ao público leigo. Seu objetivo principal é criar uma fonte permanente de informações científicas atualizadas, escritas em uma linguagem adequada ao não especialista em medicina.
     Para isso, a SVOL conta com colaboradores das áreas médica, jurídica e jornalística, que escrevem artigos e respondem a dúvidas de leitores. Esses colaboradores não são necessariamente ligados à Unicamp. Muitos, inclusive, estão em outros Estados, como Rio de Janeiro, Maranhão e Pernambuco e até no exterior (EUA). Devido à facilidade da troca de informações on line, boa parte da produção da revista é feita à distância.
     Os artigos contêm informações sobre saúde da mulher, do homem, de adolescentes e crianças, cuidados com animais domésticos, saúde infantil, ética médica e outros. A maioria é acompanhada por fotos e ilustrações, visando à melhor compreensão do assunto. Além disso, é oferecido um serviço de esclarecimento de dúvidas, chamado Pergunte ao Dr. Explica-se ao leitor que o serviço não substitui a consulta ao médico; apenas fornece uma orientação geral, não sendo possível fazer um diagnóstico à distância ou prescrever medicamentos.

     O Pergunte ao Dr.

     O serviço permite que o usuário envie sua pergunta por correio eletrônico e receba uma resposta personalizada de um médico colaborador da revista. Em seguida, perguntas e respostas são publicadas, com a devida autorização do leitor, na seção Correio Eletrônico. Com isso, espera-se que outras pessoas partilhem da mesma informação, muitas vezes a aproveitando para seu próprio esclarecimento. O objetivo do Pergunte ao Dr. é fornecer informações para que o paciente administre melhor sua saúde e possa dialogar melhor com seu médico.
     Todas as mensagens passam por uma triagem rigorosa da editora, Lúcia De Cicco. As perguntas são lidas e enviadas para o médico da especialidade correspondente. Se, ao responder, o médico não se expressa de maneira clara ou prescreve medicamentos a editora solicita que ele reescreva a resposta até que ela esteja adequada aos padrões da revista e só então ela é enviada ao leitor.
     A estrutura de médicos colaboradores é essencial ao funcionamento da SVOL, pois o Pergunte ao Dr. tornou-se o seu serviço mais procurado. Nas dúvidas dos leitores se pode perceber a complexidade que o tema da saúde representa para a público e a carência permanente de informações e esclarecimentos nessa área, mesmo entre leitores que fazem parte de um grupo seleto, a maioria com alto poder aquisitivo e escolaridade de segundo grau e nível superior.
     Nesse sentido, a Internet tem sido muito utilizada como meio de informação, pois oferece ferramentas não exploradas pela mídia tradicional, como o contato direto entre médicos e pacientes ou dos médicos e pacientes entre si, experimentos interativos (jogos, workshops à distância, grupos de discussão) e hipertextos que utilizam multimídia. A formação de foros virtuais de discussão é um dos mais importantes aspectos da comunicação on line em saúde. Pacientes de doenças graves e raras, por exemplo, podem encontrar com relativa facilidade informações médicas atualizadas em sites na Web. Encontram, ainda, apoio em listas de discussão eletrônicas, das quais participam médicos e pacientes com casos semelhantes (Newsweek/Diário do Povo, 1996).

     Principais resultados
     Perfil do leitor

     A maioria dos leitores de SVOL (85.6%) é de adultos, entre 21 e 50 anos, sem distinção significativa entre sexos. Há 50.6% de leitores homens e 48.5% de leitoras mulheres. Analisando-se a relação entre a idade e o sexo, no entanto, verifica-se que as mulheres estão numa faixa um pouco mais jovem, a maioria (37.6%) entre 21 e 30 anos, e os homens entre 31 e 40 anos (32.0%).
     Quanto à renda, a maioria situa-se na faixa de mais de 15 salários mínimos, 46.5%, seguidos 35.3%, com renda entre 6 e 15 salários mínimos, sendo que a maioria das mulheres está nesta faixa (43.6%) e a maioria dos homens na faixa de mais de 15 salários (59.8%), diferença que provavelmente decorre da diferença de idade.
     Um dos resultados mais interessantes foi que 48% dos leitores são profissionais da área médica, dos quais 74.1% fizeram curso superior (medicina, enfermagem, fisioterapia, farmácia), 18.2% curso de pós-graduação (sem ter feito graduação na área de saúde), 6% curso de extensão e 1.7% curso técnico. 51.9% não são profissionais da área de saúde. Esses leitores, apesar de especialistas no assunto, se interessam em consultar a revista pela facilidade de obter as informações, para ler artigos de outras especialidades que não a sua e para utilizar as informações em seus próprios consultórios. Alguns disseram, inclusive, que imprimem os artigos para distribuí-los entre seus pacientes.
     Também descobriu-se que a Internet é o meio mais utilizado pelos usuários da revista para informar-se sobre saúde, citado por 89% dos leitores. Os jornais foram citados por 55%, a TV por 47%, os livros por 66%, as revistas por 72% e o rádio por 9%. A maioria dos leitores consulta a SVOL com muita assiduidade, aproximadamente uma vez por semana.
     A maioria dos leitores se informa, em geral, com bastante freqüência sobre saúde: 80.5% diariamente ou semanalmente. Especificamente, a Saúde e Vida On Line é consultada semanalmente por 56.8% das pessoas.
     Analisando-se a relação entre hábitos de leitura e ser ou não profissional na área de saúde, verificamos que os meios de informação utilizados variam. 91.4% dos profissionais declararam informar-se através de livros, enquanto que para o público em geral os livros são consultados em 43.2% dos casos. Já no caso do rádio, 13.6% dos leitores de outras áreas costumam utilizá-lo como meio de informação, enquanto que apenas 4.3% do outro grupo declararam ouvir notícias de saúde pelo rádio. Os jornais estão apontados em nível igual pelos dois grupos: 55.2% dos leitores disseram utilizar esse meio.
     A maioria dos leitores acessa a Internet em sua residência (68.0%) e conheceu a Saúde e Vida On Line "navegando na Internet" (80.1%).

     Análise do correio eletrônico

     Verificou-se que 72% das perguntas são sobre problemas pessoais de saúde. Um parcela significativa (39%) dos leitores apresentou um diagnóstico prévio em sua pergunta, mostrando que o serviço é utilizado também como uma segunda opinião. Destes, 88.3% demonstraram dúvidas quanto ao diagnóstico, tanto em relação a sua validade, quanto para pedir esclarecimentos (eventualmente não fornecidos pelo médico). Apenas 6,2% dos que forneceram diagnóstico prévio aceitam-no e escrevem para pedir mais informações e 4,8% não aceitam o diagnóstico.
     Como os médicos da SVOL não podem, por razões éticas e técnicas, fazer um diagnóstico ou prescrever medicamentos por correio eletrônico, suas respostas têm o caráter de orientação genérica. Para obter um diagnóstico definitivo, todos são aconselhados a procurar um profissional de saúde.
     Os médicos colaboradores expressam-se, em geral, sem utilizar termos técnicos em suas respostas, e sempre que pertinente, orientam o paciente a mudanças no estilo de vida. Os recursos utilizados pelos médicos para explicar a dúvida do paciente são basicamente teóricos: 94.8% das respostas trazem informações teóricas, mas apenas 45.4% têm exemplos e 12.8% comparações ou alusões a situações cotidianas.
     A colaboração desses profissionais é voluntária, sem remuneração de qualquer espécie. Os motivos pelos quais aceitam participar envolvem trabalhos semelhantes que desempenham em suas próprias home pages, a possibilidade de divulgar informações de forma coletiva e a facilidade de fazê-lo através do correio eletrônico.

     Conclusões

     A pesquisa mostrou que a SVOL facilita o acesso à informação em saúde e é consultada com muita assiduidade pela maioria de seus leitores. Cinqüenta e sete porcento consulta a revista, em média, semanalmente. Os leitores médicos costumam se informar sobre saúde mais freqüentemente do que os que não são profissionais de saúde. Os primeiros informam-se diariamente, enquanto os outros semanalmente.
     As revistas on line e o correio eletrônico podem ser uma alternativa à mídia tradicional (imprensa, rádio e TV), melhorando a comunicação entre médicos e pacientes. Os pacientes podem também obter respostas pessoais para suas dúvidas, o que raramente conseguem através de outros meios de comunicação.
     A pesquisa mostrou que médicos e pacientes tornam-se mais próximos ao participarem de um fórum como a Saúde e Vida On Line, pois têm maiores chances de expressar seus pontos de vista. Quanto à relação médico-paciente, o estudo mostrou que a revista tem um efeito apenas indireto, pois os problemas que dizem respeito a essa relação dependem, em maior grau, de fatores estruturais do sistema de saúde e não da comunicação entre uns e outros.

     Bibliografia

     "Perfil do Internauta Brasileiro" [on line]. 2a pesquisa Cadê?/IBOPE, 1997 [cited 10 March 1998]. Available from Internet <www.ibope.com.br/cade97/introduc/aciwec10.htm>.

"A Saga da Internet", Folha de SP, São Paulo, 19/02/98, Suplemento World Media Network, pp. 6-7.

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"O Doutor Bits", Veja (edição especial "Computador - o micro chega às casas"), São Paulo, dez./1995, pp.118-119.

FRIDSMA, Douglas B., FORD, Paul, ALTMAN, Russ. "A Survey of Patient Acess do Electronic Mail: Attitudes, Barriers and Opportunities", In Ozbolt, Judy G. (ed.), Proceedings of the Eighteenth Annual Conference of the American Medical Informatics Association, Washington,DC, USA, Hanley & Belfus Inc., 1994, pp. 15-19.

HASMAN, A., AMENT, A., ARNOU, P. C., VAN KESTEREN, A. C. "Inter-intitutional information exchange in healthcare". International Journal of Biomedical Computing. 1992, v. 1, nº 31, pp. 5-16.

NEIL, R. A., MAINOUS III, A. G., CLARK, J. R., HAGEN, M. D. "The Utility of Electronic Mail as a Medium for Patient-Physician Communication". Archives of Family Medicine, 1994, nº 3, pp. 268-271.

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*Mônica Macedo é jornalista, mestre e doutora em Comunicação Social pela UMESP.

 
 
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