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Tabaco/Bebida |
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:: O verdadeiro balanço
social da indústria tabagista
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Wilson da Costa Bueno* A indústria tabagista (aqui representada pela Souza Cruz e pela Philip Morris) continua insistindo em alardear o seu compromisso social, tentando, de todas as formas, convencer a opinião pública de que são úteis à sociedade e que a respeitam. Para tanto, ela invoca o número de funcionários que emprega, os impostos que paga e algumas ações pontuais de relacionamento com comunidades, o que, dada a penúria dos segmentos menos abastados da população, têm efeitos positivos, ainda que a curto prazo. Conta, muitas vezes, com o apoio da mídia, que ingenua e acriticamente, dá guarida aos seus argumentos cínicos e, sobretudo, com a flexibilidade do conceito de responsabilidade social, que permite contemplar (e premiar) empresas que, umbilicalmente, estão comprometidas com a deterioração da qualidade de vida dos cidadãos. O verdadeiro balanço social da indústria tabagista (não esse em papel couché ou ilustrado ou aquele que está inserido nos sites das empresas de tabaco) pode ser avaliado pelos seguintes fatos:
1) O cigarro mata ou incapacita as pessoas, inclusive aquelas que, sem ter o vício da droga, convivem com os fumantes. Embora a indústria tabagista reconheça isso agora (negou enquanto pode e, inclusive, usou de todos os procedimentos não éticos ou imorais para que os fumantes e a sociedade acreditassem no contrário), continua gastando milhões em comunicação e marketing para aumentar o consumo. Neste momento, as duas gigantes da droga estão lançando cigarros mais baratos , tentando aumentar as suas vendas, o que está na contramão do seu discurso hipócrita. 2) Os impostos pagos pela indústria tabagista são infinitamente mais leves do que o prejuízo enorme que causa ao sistema de saúde pública, o que tem levado gente séria (esperamos que assim seja) a cogitar de um estudo detalhado destes custos e do seu ressarcimento à sociedade. 3) A confissão, por parte da indústria tabagista (sobretudo a Philip Morris) de que o cigarro mata mesmo, não deve ser vista como um atestado de "generosidade", mas como uma estratégia para se defender nos tribunais de inúmeros processos movidos por cidadãos e famílias que perderam entes queridos pela ação devastadora do cigarro. O argumento mais utilizado no pedido de indenizações tem sido a propaganda enganosa do cigarro, que não alertava o fumante do risco que estava correndo ao consumi-lo. A indústria tabagista quer exatamente anulá-lo, replicando: "Eu estou dizendo (mas não foi sempre assim, pelo contrário) que o cigarro faz mal e você fuma porque quer)". 4) A indústria tabagista (especialmente a Souza Cruz) repete que os cidadãos perdem sempre os processos contra a indústria tabagista (ela coloca banners no site Comunique-se para sugerir pautas neste sentido), o que não é verdade. A indústria tabagista tem pago indenizaçaões de milhões de dólares nos EUA e, se tem sucesso no Brasil contra os fumantes, é porque a nossa Justiça anda pisando na bola (e não é só nesses casos, concorda?). Ela deveria, inclusive, ter escrúpulos e não tripudiar em cima de cidadãos doentes, mas seria pedir demais para a indústria tabagista, comprovadamente não ética em sua comunicação. Seria razoável que os juízes consultassem a Internet para verem em que encrenca se encontra a indústria tabagista por lá e não acreditassem no argumento delas de que o cidadão (o jovem, a criança de 13 anos) fuma porque quer. O cigarro é uma droga, ele vicia e é subsidiado por uma campanha de comunicação sórdida que estimula o vício. 5) A indústria tabagista pratica ativamente o lobby para continuar influindo junto à opinião pública (vide o caso da Fórmula I, onde o Governo acabou revogando uma decisão anterior para permitir que a corrida continuasse sendo realizada por aqui com o patrocínio das gigantes do tabaco) e , com shows e ações em ponto de venda, busca driblar as restrições à propaganda nos meios de comunicação.
A indústria tabagista sabe que o cigarro mata (alguém tem dúvida?) , mas trabalha ativamente para aumentar o consumo, cada vez maior entre os jovens, e inclusive entre as crianças. Ela tem apenas um compromisso: aumentar os seus lucros. O balanço social da indústria tabagista é tenebroso. Alguém qualificaria de socialmente responsável um traficante ou um político corrupto apenas porque ele distribui cestas básicas e faz ações positivas na comunidade? A indústria tabagista conseguiu o privilégio de vender drogas livremente e deve ser vista pela sociedade como um segmento nocivo, completamente à margem da responsabilidade social. Os governos a toleram porque são coniventes com aqueles que, diretamente ou indiretamente, os financiam. As agências de propaganda a cortejam porque, sem escrúpulos, estão apenas preocupadas em colocar a mão em parcela desta conta fabulosa de marketing. Muitos veículos , institutos ou jornalistas as badalam porque não têm efetivamente compromisso com a cidadania e têm uma visão míope, mesquinha ou são ingênuos. Não há argumento ou estratégia de comunicação (por mais cínica que seja) que consiga limpar a imagem da indústria tabagista. Ela será sempre negra como os pulmões dos fumantes que consomem os seus produtos. A indústria tabagista dá um prejuízo imensamente maior do que os impostos que paga aos governos porque penaliza, de maneira dramática, o sistema de saúde pública. Quem mata com os produtos que fabrica e investe pesado para aumentar o consumo destes produtos, não pode assumir, cinicamente, a condição de responsável socialmente. A Philip Morris, a Souza Cruz e outras empresas da indústria tabagista que nos perdoem: o seu balanço social é de arrepiar os cabelos e traiçoeiro como o câncer que os seus produtos provocam. -------------------------------------------------------------------------------- *Wilson da Costa Bueno é jornalista, professor
do programa de Pós-Graduação em Comunicação
Social da UMESP e de Jornalismo da ECA/USP, diretor da Comtexto
Comunicação e Pesquisa. |
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