Tabaco/Bebida


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Tolerância Zero: a guerra declarada da União Européia contra a propaganda de cigarro na Fórmula 1

Carlos Henrique Rosalino Baságlia*

      Ao longo dos anos, a fim de vender a todo custo o seu produto maldito, a indústria tabagista infiltrou-se sorrateiramente no universo automobilístico mundial, tornando-se a principal fonte de receita para a maioria das equipes de Fórmula 1. Com o tempo, algumas dessas equipes, atraídas pelo dinheiro fácil das tabacarias, criaram uma dependência viciosa que lhes possibilitou sobressaírem-se em relação às demais. Era o fim do automobilismo mundial.
      Com o dinheiro sórdido das empresas do tabaco, o automobilismo mundial cresceu, automatizou e solidificou-se como evento rentável e de sucesso. Então, a Fórmula 1 ganhou em audiência, publicidade e passou a ser um fenômeno mundial. Conseqüentemente, com a mesma velocidade com que as equipes passaram a cruzar a linha de chegada, a indústria tabagista foi se alastrando pelo mundo, carregando na bagagem o seu produto funesto.
      Hoje, infelizmente, as equipes estão doentes, pagando o ônus de uma relação promíscua. Quando a Fórmula 1 passou a ser vista pelos olhos da indústria tabagista, sua imagem ficou desgastada perante a mídia e a opinião pública. O fato de ser sustentada financeiramente pela industria tabagista fez com que a competição perdesse a credibilidade alcançada nos anos anteriores.
      Este tipo de vínculo com a indústria tabagista sempre foi extremamente nocivo para o automobilismo mundial do ponto de vista das relações humanas. Estar associada a uma empresa que não dá a devida importância a seus clientes, que possui produtos que matam e que não respeitam a vida humana é, no mínimo, indecente.
      Mas, infelizmente, o dinheiro e o poder estão acima de quaisquer preceitos éticos e morais para algumas organizações. Desse modo, quando se tenta impor leis antitabaco, esbarra-se em um problema entre o que importante para saúde e o que é importante para o dinheiro. No final das contas, o dinheiro sempre é o "fiel da balança", uma vez que a pressão exercida para que o lucro esteja em primeiro plano é muito grande.
      Nesse sentido, a União Européia (berço do automobilismo mundial) tratou de intensificar as ações no sentido de vetar as propagandas de cigarro no continente. A iniciativa de não mais permitir a veiculação de empresas de cigarro nos carros de Fórmula 1 modificou completamente o cenário do automobilismo mundial e tem causando um certo mal estar entre as equipes de ponta, o que era de se esperar!
      Para manter a saúde comercial das equipes (pois seus diretores só olham para seus próprios umbigos) e fugir das rígidas regulamentações da União Européia, muitas delas têm incentivado a migração de corridas do continente europeu para o continente asiático, uma vez que os países do Oriente são bem mais tolerantes com a publicidade de cigarro. Nestes, a perseguição à proliferação das empresas do tabaco é bem menos incisiva que nos países da União Européia.
      A medida de transferir alguns GPs da Europa para o continente asiático tem o aval da indústria tabagista que, preocupada com a imagem negativa do seu produto no mundo, em especial no continente europeu, tem acelerado o processo de migração.
      Em abril deste ano, por exemplo, foi realizada a primeira corrida da história no Golfo Pérsico. O GP de Barein é a segunda das provas a ser realizada no continente asiático. O primeiro deles foi na Malásia, em 1999. Desde então, as iniciativas de migração das corridas para os países do continente asiático têm sido cada vez mais freqüentes. Tanto que, nos próximos anos, Turquia, Índia e Coréia do Sul também sediarão o maior evento do automobilismo mundial.
      A louvável iniciativa da União Européia de impedir que a indústria tabagista perpetue seus malefícios por meio das propagandas de cigarro vem encontrando resistência (e não podia ser diferente!) por parte da Federação Internacional de Automobilismo que, irritada com a decisão da União Européia de antecipar para julho de 2005 a extinção deste tipo de propaganda em carros e autódromos, vem tentando negociar um prazo mais maleável.
      Algumas empresas deveriam mirar-se no exemplo dado por Frank Williams que rompeu com o fabricante de cigarro que patrocinava a sua equipe, a BMW Williams, e no lugar deste, chegou a exibir o logo de um produto que combate o fumo. Uma coisa é fato: mesmo sem o apoio nefasto da indústria tabagista, a equipe conseguiu manter-se no topo do automobilismo mundial. Isto prova que as equipes não são tão dependentes da indústria tabagista, tanto que uma equipe de ponta, como a Williams, vem disputando campeonatos ano após ano.
      O que falta a estas equipes é iniciativa, desprendimento e ousadia para romper de vez com esta relação promíscua. A hora é essa, afinal, elas não podem viver eternamente sob a sombra do tabaco e manchando a imagem de outras equipes que não são financiadas por esse tipo de empresa irresponsável.
      Medidas como esta da União Européia são fundamentais para que acabemos com este conluio da indústria tabagista, afinal ela é responsável por milhões de mortes no mundo todo. A indústria tabagista explora um vício, e um vício que deve ser combatido a todo custo. Não podemos ficar calados ante a derrocada da vida humana. Precisamos nos movimentar. Afinal, uma pessoa por minuto morre devido às complicações geradas pelo uso contínuo e vicioso do cigarro. Chega de mortes, chega de tristeza e, principalmente, de cinismo. O mundo não merece tamanha hipocrisia.

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*Carlos Henrique Baságlia é formado em Rádio e Televisão e mestrando em Comunicação Social pela UMESP.

 
 
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