
Imagens
do comportamento frente à saúde-doença no
cinema contemporâneo – Adeus Lênin – 2003
Regina Glória Nunes Andrade*
Introdução
Os
anos 60-70 são conhecidos pela vivência de utopias sociais, sexuais
e emocionais. Discutia-se tudo inclusive mobilizações da Sociedade
Industrial e das relações dos jovens. Escolhemos Adeus Lênin (2003)
do diretor alemão Wolfganger Becker para tratar o tema de novos
comportamentos da saúde-doença revelados pelo cinema.
A
saúde em contraposição da morte
A
inquietação provocada pelas mensagens dos filmes, de textos de
imagens, de registros documentais ou ficções imaginárias provoca
no pesquisador uma entrada, sem nenhuma permissão, ás idéias dos
diretores, aos textos dos filmes, uma entrada na tela. Devido
a recorrência ao tema do Édipo em três filmes recentes passei
à reflexão dos temas da morte, juventude, política e utopias.
Escolhi
Adeus Lênin (2003) para esta reflexão pensando
nas relações edipicas do personagem principal do filme e vivências
ideológicas e políticas dos outros personagens. No filme Adeus
Lênin (2003) a mãe, está morrendo. Trata-se de uma senhora
que abandonou sua vida particular para se dedicar ao regime comunista
na Alemanha Oriental. Automaticamente pensei na interpretação
de uma geração, lutadora e oriunda da década de 60 que está por
desaparecer, inclusive seus diretores de cinema, para dar lugar
a uma nova leva de jovens que deverão ter cerca de 30 a 40 anos
e que, se comporta como uma geração intermediária.Mas, neste mundo
contemporâneo não temos mais ilusões e as utopias foram uma por
uma desaparecendo.
Adeus
Lênin (2003) é filmado no outono de 1989, durante a dissolução
do comunismo da República Democrática Alemã e da queda do muro
de Berlim. A sra. Kerner, (Kastrin Sass) é uma entusiasta do regime
comunista, Christiane Becker (Kathrin Sa) é abandonada pelo marido,
tendo que criar sozinha seus dois filhos Alexander (Daniel Brühl)
e Ariane (Maria Simon).Uma vez recuperada do trauma da separação
Chris torna-se uma cidadã ativa e exemplar, transforma o país
em substituto de seu marido, abraçando o idealismo político.Ao
ver o filho ser preso em via pública, sofre um ataque cardíaco
e entra em coma. Ao retomar consciência, oito meses depois, a
Alemanha Oriental já não existe mais. Seu filho, Alex, (Daniel
Bruhl), muito apegado a ela desde que o pai saiu do país há dez
anos determinado a protegê-la de todo tipo de contrariedade, ordena
que ela fique na cama e não saia do quarto. Ele imagina que, caso
saiba do ocorrido, ela terá um novo ataque. Com a ajuda da namorada
Lara (Chulpan Khamatova) e de vários amigos, Alex tenta evitar
que a mãe entre em contato com o novo país capitalista. Mas as
coisas se complicam quando um dia ela sai à rua e encontra um
mundo completamente mudado onde a vitória capitalista está presente.
O
argumento do quarto filme de Wolfgang Becker é genial, mesmo podendo,
a primeira impressão, parecer um acontecimento comum ou superficial.
A negação é uma defesa que pode surgir no campo pessoal
Como
diz Norberto Elias (2001) no livro A Solidão dos moribundos,
a característica especifica das sociedades contemporâneas e das
estruturas de personalidade associadas a ela são responsáveis
pelas peculiaridades da imagem que se tem da morte e de nossa
atitude diante dela. Em outro trabalho, Susan Sontag (1984) A
doença como metáfora observa que tem sido um processo penoso
chegar a um acordo com a morte em sociedades industriais avançadas,
onde a morte tornou-se um acontecimento agressivamente sem sentido.
Mas
temos que ouvir o que Sigmund Freud disse sobre a morte, ele que
viveu intensamente as duas primeiras guerras mundiais, foi vítima
nessas duas guerras e escreveu um artigo interessante Reflexões
para os tempos de guerra e de morte, (1919) cerca de seis
meses depois de deflagrada a Primeira Guerra Mundial, na qual
perdeu um filho. Neste texto estão algumas reflexões sobre a morte
sendo que uma das principais diz que "é impossível imaginar
nossa própria morte, e, sempre que tentamos faze-lo, podemos perceber
que ainda estamos presentes como espectadores" (1919
p.327). Neste sentido podemos interpretar que a morte pode ser
uma utopia no sentido restrito do termo, isto é algo que nos arrebata
"para lugar bom, que não é nenhum lugar".Teríamos
aqui que discutir a quantidade de religiões que através da ilusão
propõe a subseqüência da vida.
O
criador da psicanálise pensa que na guerra esta concepção tende
a mudar porque "as pessoas realmente morrem, e não mais
uma a uma, porém muitas, freqüentemente dezenas de milhares, num
único dia" (idem, p. 329).
Os
anos 20, apesar de ser um período de pós-guerra foi tormentoso
em especial na Áustria e em toda a Europa. Os países lutavam para
recompor suas economias e os austríacos passaram por um período
de experiências sociais tensas, enfrentando o impasse entre a
"Viena Vermelha" e as províncias católicas, entre o
Partido Social Cristão e o Social-Cristão. Havia um saudosismo
dos resplandecentes dias de glória do império austro-húngaro.
Neste pós-guerra a psicanálise cresceu e se firmou como uma fonte
para a intelectualidade austríaca e Freud, mas do que nunca foi
identificado como judeu.
Durante
a Segunda Guerra Mundial, Freud novamente foi atacado, agora em
sua intelectualidade, em sua condição de raça e novamente na perda
de familiares queridos. Uma das exigências das autoridades austríacas
para liberarem Freud e sua família foi o retorno do estoque de
suas obras que Martin Freud, prudentemente havia enviado à Suíça.Exigiram
este retorno para queima-las. O impasse se formou porque Freud
não tinha mais dinheiro líquido em mãos e se não fosse a rapidez
da Princesa da Grécia Marie Bonaparte, que não poupou esforços
para retira-lo de Viena, ele teria morrido em Campo de Concentração.Grande
parte de suas economias foi dada para salvar suas quatro irmãs,
uma vez que Anna, a mais velha e Ely (irmão de sua esposa) emigrarão
para os Estados Unidos e viveram em Nova York durante anos. Mas
as outras Pauline e Mitzi foram deportadas para o campo de concentração
de Treblinka. Rosa morreu no campo de Auschwitz e Dolfi morreu
de fome em Theresienstadt.
Todos
seus amigos ficarão inquietos com sua presença em Viena. Coube
a Ernest Jones conseguir os argumentos para persuadir Freud a
emigrar para a Inglaterra e a Marie Bonaparte , os recursos, na
época, dez mil dólares. Freud queria levar toda sua família incluindo
os parentes afins, junto com seu médico e família, num total de
dezesseis pessoas. A autorização dos vistos de saída foi muito
demorado e difícil de conseguirem. A Princesa ficou com os Freud
cerca de dois meses provendo os de recursos e os protegendo
das explorações dos bárbaros. Relatam os biógrafos que Marie Bonaparte
"foi infatigável nas intermináveis perambulações até
os funcionários e as autoridades".
A
estafante viagem da família de Freud teve início em 5 de maio,
com a partida de Minna Bernays , irmã de sua esposa e terminou
, por fim em sábado , 4 de junho quando deixou de vez sua residência
de toda vida o 19, Bergasse, hoje transformado em Museu. Mas como
escreveu Freud " a segurança chegou às 2:45 da manhã
de 5 de junho, quando o Expresso Oriente cruzou a fronteira com
a França em Kehl" ( Gay, 1989, p. 568) Sua passagem
por Paris foi repousante na bela mansão da Princesa Bonaparte
e no aconchego dos amigos.
Assim
Freud aos 82 anos, experimentou o exílio até sua morte no dia
23 de setembro de 1939. Desta última vivência de guerra, pouco
sabemos das reflexões de Freud além de nossa imaginação, da primeira
guerra temos vários trabalhos e artigos publicados sobre o tema.
Em sua obra eletrônica a palavra "guerra" aparece em
93 vezes em várias obras. Dentre os mais importantes temos cartas
trocadas entre Freud e Einstein em 1933, que o Instituto para
Cooperação Intelectual promoveu para troca de correspondência
entre intelectuais "a respeito de assuntos comuns"
no texto Porque a guerra ? (1932) e A psicanálise
e as neuroses de guerra (1919).
Negação
da realidade
Esta
relação edípica entre filho e mãe no filme Adeus Lênin (2003)
revela um vínculo imaginário entre os dois cujo pacto principal
é a negação da realidade. Como o Édipo é considerado como um conjunto,
um complexo de desejos amorosos e hostis que a criança experimenta
em relação a seus pais fica esquisito quando somente aparecem
os sentimentos positivos. Quem faz clinica já ouviu os pais negarem
toda a hostilidade da criança em relação a eles. Mas o que acho
mais importante são as conseqüências que este modelo triangular
pode oferecer a futura personalidade. Neste ponto só vimos Freud
discutir os casos psicopatológicos , onde a neurose já foi estruturada
, como o Fragmentos da análise de um caso de histeria
( 1905) conhecido como o Caso Dora em que é relatado
as complicações pelas quais passa sua paciente em relação à mãe,
ao pai , a uma suposta amante do pai, às empregadas domésticas
, etc, apresentando todo um quadro de dificuldades de definição
de sua sexualidade. Será desta relação que surgirá o superego
e o ideal de ego tão bem explanados em Totem e Tabu (1913-1914).
Se o superego é o herdeiro do complexo de Édipo é também o fundador
da proibição do incesto. Neste sentido todos os três filmes colocam
os limites dos permissíveis ou proibitivos bem a vista.
Por
exemplo, a sensibilidade que o filho Alex tem diante da doença
da mãe, e a cerimônia com que trata certas situações evidencia
a fragilidade do vínculo entre ambos. O abalo provocado por mudanças
ideológicas reflete na saúde, a percepção repentina de enganos,
revelações nunca antes pensadas nem faladas, como a Snra. Kerner
que escondeu o verdadeiro paradeiro do pai podem levar a morte
porque rompe com ideologias racionais montadas para o equilíbrio
da personalidade.
O
processo de negação acompanha a angustia de morte da Sra Kerner
e Alex.O filho nega, no filme que sua mãe está moribunda e nega
que o regime político havia sido modificado e nega seus sentimentos
edipicos de hostilidade. Mas é Freud também que nos fala sobre
particularidades do Édipo.O personagem tem um pai que desapareceu
e que ele foi a busca encontrando-o com uma nova família e com
a vida já refeita em situações diversas de sua família original.
Apesar do complexo de Édipo, ser considerado por Freud de forma
radical, tendo uma compreensão do pai como um arquétipo portador
da Lei e como marca inconsciente dos representantes da castração.
Quando
Freud estudou o processo de negação se voltou para a cura quando
encontrou nas histéricas uma forma especial de resistência. Por
não ser um processo de fácil compreensão Freud encontrou etapas
nestas complexidade:
1)
a negação é um meio de adquirir conhecimento sobre o reprimido
2)
o que se suprime é apenas uma parte , n/ao se pode reprimir tudo
3)
mediante o símbolo da negação, o pensamento se libertadas limitações
da repressão.
E
é exatamente o que ocorre.
O
filho consegue negar as mudanças políticas, mas não consegue modificar
a sociedade de forma que a mãe descobre.Curioso é que a negação
cai sempre sobre a realidade, a vivência do cotidiano.
Justamente
neste sentido a neurose se instala e dela não há como escapar.Nem
na rede pessoal nem no tempo social. No texto O futuro de uma
ilusão (1927) é muito claro a separação que Freud faz da massa/filho
para líder/pai, que é um conceito de Bruner que tenta colocar
pai e filho em posição similar revelando uma espécie de acordo
entre pais e filhos para que se mantenham as fantasias as utopias,
os sonhos.
Fico
assim com a observação de José Bruner no artigo Oedipus Politicus
de 1995 , no livro Freud conflito e cultura onde ele diz que :
Em
parte alguma dos escritos de Freud encontram-se exemplos de pessoas
que se rebelem contra déspotas por terem tido sua vida e seus
bens, seus direitos e seus interesses ameaçados ou violados por
lideres autocráticos. No discurso freudiano as rebeliões aparecem
invariavelmente, como obra de massa/filhos que recusam obediência
a lideres/pais por não conseguirem tolerar as restrições que estes
impõem ( Bruner, 1995, p. 85).
Se
este teórico percebe assim, o Édipo como se fosse uma forma de
acordo, a colocação do cineasta Diretor Wolfganger Becker em Adeus
Lênin (2003) procede.
Concluindo
gostaria de deixar uma pergunta no ar: será possível construir
dentro da realidade um lugar imaginário para o qual nos dirigimos
sempre?
Bibliografia
BRUNER,José . Oedipus Politicus,
In: Freud Conflito e cultura. Jorge Zahar Ed.
, Rio de Janeiro , 2000.
FREUD,S Introdução a psicanálise
e as neuroses de guerra. (Trad. Jayme Salomão). In: Obras
completas (vol.XVII, pp. 257-270) Rio de Janeiro: Imago
1974. (Publicada originalmente em 1919).
FREUD, S Reflexões para os tempos
de guerra e morte (Trad. Jayme Salomão). In: Obras completas
(vol.XIV, pp. 310-341) Rio de Janeiro: Imago 1974. (Publicada
originalmente em 1915).
FREUD,S. Recordar, repetir e elaborar.
(Trad. Jayme Salomão). In: Obras completas (vol.
XII, pp.191-203) Rio de Janeiro: Imago 1974. (Publicada originalmente
em 1914).
GAY, P. Freud , uma vida
para nosso tempo. Tradução de Denise Bottmann. Companhia
das Letras, São Paulo , 1988.
GIDDENS, A Modernidade
e identidade. Tradução de Plínio Dentzien. Jorge Zahar
Editor, São Paulo, 2002.
LACAN, J. Os quatro conceitos
fundamentais da Psicanálise. Editora Zahar, Rio de Janeiro,
1964.
LAPLANCHE,J. PONTALIS,J. Dicionário
de psicoanálisis. Editorial Labor, Primeira edição ,
Espanha, 1971.
ELIAS, Norbert. A Solidão
dos moribundos, seguido de, Envelhecer e morrer. Rio
de Janeiro, Jorge Zahar Ed. , 2001.
SONTAG, Susan. A doença
como metáfora. Rio de Janeiro. Edições Graal, 1984. (
Coleção Tendências : v. n. 6).
Filmografia
Ficha
Técnica: Adeus Lênin!( Good By Lênin) Alemanha 2003 Diretor
Wolfganger Becker com Daniel Bruhi, Katrin Sab e Maria Simon.
Mulher entra em coma dias antes
da queda do Muro de Berlim. Para evitar que ela se assuste após
recobrar os sentidos, o filho elabora um plano para disfarçar
a vitória capitalista. ( A TARDE Salvador)
Na Alemanha Oriental em 1989, mãe
presencia o filho protestar contra o regime político e ser preso
pela polícia. Ela sofre um ataque cardíaco e entra em coma. Alguns
meses depois ela recobra a consciência mas o mundo passou por
uma série de mudanças.( JORNAL DO BRASIL Rio de Janeiro)
---------------------------------------------------------------------------------
Regina Glória Nunes
Andrade
Professora Titular do Programa de Pós-Graduação
em Psicologia Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
---------------------------------------------------------------------------------
|