
Transgênicos:
A falta de informação pode intoxicar o leitor
Eliana Marcolino*
Fabiana Franco*
Resumo
O
presente trabalho refere-se a uma análise da cobertura do tema
"Transgênicos" nos respectivos veículos de comunicação:
Jornal Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Gazeta Mercantil.
Revistas semanais: Veja, Istoé, Época. Revistas de divulgação
científica: Superinteressante e Galileu, Revistas especializadas:
Fapesp e Ciência Hoje. Esta investigação teve início em 2001,
como proposta de trabalho da disciplina Jornalismo Científico
do curso de pós-graduação em Comunicação Social da Universidade
Metodista de São Paulo, concentrando-se no período de agosto e
setembro de 2001. Visando dar continuidade à pesquisa, atualizamos
os dados no período de dezembro de 2003 e janeiro de 2004. Selecionamos
as matérias dos mesmos veículos supracitados e a partir do material
coletado traçamos uma análise quantitativa, qualitativa e comparativa
das matérias entre os diferentes jornais e revistas. A opção pelo
estudo deve-se à convergência do assunto com a linha de pesquisa
adotada pelas pesquisadoras: Comunicação e Saúde. Acreditamos
na importância da democratização dos conhecimentos científicos,
principalmente no que se refere diretamente à vida humana. Neste
sentido, traçamos alguns eixos centrais de análise para tentar
verificar se as mensagens publicadas esclarecem ao leitor o que
são transgênicos? Quais são as abordagens e argumentações preponderantes,
dizem respeito a possíveis impactos ambientais ou na saúde humana,
ou privilegiam temáticas econômicas e políticas? Quais são as
fontes mais consultadas para falar do tema? O assunto é abordado
de forma que o leitor compreenda a problemática?
Os
resultados elucidados nesta pesquisa sugerem reflexões profundas
sobre a importância da divulgação científica.
A
cobertura do tema Transgênicos na mídia impressa.
Na
natureza nada se perde, nada cria: tudo se transforma... (Lavoisier)
O
ser humano vem, durante muitos séculos, utilizando o conhecimento
científico para obter variabilidade genética em organismos e para
isso desenvolveu e aplicou várias técnicas e métodos como a seleção
artificial, a hibridação, e a mutação, mas nenhuma delas provocou
tanta discussão na sociedade quanto a transgenia. São preocupações,
econômicas, sociais, culturais, ecológicas, científicas e até
mesmo legislativas, que caracterizam a mudança da percepção pública
perante a ciência e suas conseqüências.
Cerca
de 17 anos (1) depois da primeira experiência em campo com plantas
transgênicas permanecem as controvérsias e as dúvidas em relação
às conseqüências do uso de biotecnologia e dos Organismos Geneticamente
Modificados (OGMs), as principais dizem respeito à aspectos ambientais
e à saúde humana. Mas a polêmica que tem culminado em debates
exaustivos entre legisladores, produtores, empresários e ONG´s
tem excluído o cidadão comum que, deveria participar ativamente
nas discussões deste tema.
É
fundamental que a sociedade participe das discussões sobre o tema
principalmente no que tange os benefícios e riscos dos alimentos
transgênicos, mas para isso, é indispensável que a mídia, responsável
pela difusão de informações, contribua para esse esclarecimento
principalmente através do jornalismo científico.
Para
o professor José Marques de Melo o jornalismo científico deve
ser uma atividade educativa e dirigida à grande massa da nossa
população não se restringindo à elite. Nesta perspectiva, o professor
assinala que o jornalismo científico:
Deve
utilizar linguagem capaz de permitir o entendimento das informações
pelo cidadão comum. Deve gerar o desejo do conhecimento permanente,
despertando interesse pelos processos científicos e não pelos
fatos e seus personagens.Discutir a política científica, conscientizando
a população que paga impostos para participar das decisões sobre
a alocação de recursos que significam o estabelecimento de prioridades
na produção do saber. (1982, p.21).
A
sociedade precisa do respaldo dos cientistas, dos órgãos governamentais
e principalmente dos midiáticos para que este assunto se torne
de domínio público, que seja debatido com amadurecimento permitindo
a participação popular nas discussões e tomadas de decisões sobre
o tema. Os termos, os conceitos, as nomenclaturas precisam ser
claramente definidos, as técnicas e os métodos utilizados na obtenção
dos OGMs, ser explicados de forma simples, os riscos e benefícios
expostos para que os debates aconteçam de forma séria, banindo
das discussões, as distorções e pré-conceitos. Mas sem informação
nada disso se torna possível.
Para
o jornalista Borgonovi (2000,p.3) "Existe na prática um imenso
abismo separando as pessoas leigas do conhecimento científico,
e, mais ainda, da sua compreensão."
Preocupadas
com a cobertura da mídia impressa acerca do tema Transgênicos
(2) as pesquisadoras, que têm como linha de investigação Comunicação
e Saúde, iniciaram um trabalho de análise qualitativa e quantitativa
da divulgação sobre transgênicos nos jornais: Folha de S. Paulo,
O Estado de S. Paulo, Gazeta Mercantil; nas revistas semanais:
Veja, Istoé e Época; nas revistas de divulgação científica: Superinteressante
e Galileu; nas revistas especializadas: Fapesp e Ciência Hoje,
e na revista mensal Caros Amigos nos períodos de agosto e setembro
de 2001 e posteriormente, visando a continuidade da pesquisa,
nos meses de dezembro de 2003 e de janeiro de 2004.
Alguns
eixos centrais de análise foram traçados na tentativa de verificar
se as mensagens publicadas esclarecem o leitor sobre o que são
transgênicos? Quais as abordagens e argumentações preponderantes?
Quais são as fontes mais consultadas para falar do tema? O assunto
é abordado de forma que o leitor compreenda a problemática? As
matérias divulgadas são contra ou a favor dos OGMs. Para auxiliar
a comparação e a extração dos dados foi utilizado um formulário
padrão que se encontra anexo ao artigo.
Ressaltamos
que na primeira etapa da pesquisa, em 2001, o plantio e comercialização
de alimentos transgênico era proibido por lei, já na segunda etapa
a realidade é outra. Novas regras estão sendo elaboradas e o projeto
lei nº 2.401/2003 que discorre sobre a construção, cultivo, produção,
manipulação, transporte, transferência, importação, exportação,
armazenamento, pesquisa, comercialização, consumo, liberação e
descarte no meio ambiente dos OGMs já foi aprovado na Câmara de
Deputados e está aguardando a votação no Senado Federal e em seguida
retornará à Câmara para votação final.
Muita
coisa mudou no campo das discussões, porém esta mudança é quase
que invisível no cenário da cobertura midiática.
A
primeira etapa da pesquisa teve como amostra as publicações relativas
aos meses de agosto e setembro de 2001. Neste período, foram divulgadas
20 matérias das quais 19 não explicam o que é transgênico, apesar
de 95% das matérias utilizarem linguagem coloquial, 50% apresentou
abordagem específica e 35% superficial, restando apenas 15% de
matérias com abordagem geral. Na segunda etapa da pesquisa realizada
nos meses de dezembro de 2003 e janeiro de 2004 apenas uma das
32 matérias publicadas explica o que é transgênico, embora em
91% das vezes ter sido utilizada a linguagem coloquial a abordagem
tornou-se cada vez mais específica aparecendo em 87% dos casos
o que demonstra que a sociedade continua afastada das discussões.
Na
reportagem publicada no jornal O Estado de S. Paulo no dia 31
de agosto de 2001, com o título Greenpeace faz nova ofensiva contra
soja RR,consta que a pedido do Greenpeace o Ibope perguntou a
duas mil pessoas se elas já tinham ouvido falar em transgênico
e 66% confessou nunca ter ouvido falar do tema. O que mais chamou
nossa atenção é que embora na matéria constasse tal dado, em seu
conteúdo não existe sequer uma informação clara sobre o que são
transgênicos.
O
fato é que sabendo ou não, concordando ou não, nós provavelmente
já estamos consumindo produtos geneticamente modificados. Na verdade
não sabemos o que comemos. Como exemplifica a professora e cientista
Leila Macedo Oda, da Fundação Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro,
em entrevista à revista Istoé do dia 10 de março de 2004 :
A
maioria dos alimentos que consumimos não existia na natureza.
Eles foram transformados com técnicas de irradiação, de mutação
por métodos químicos ou cruzamento de espécies. Muita gente não
sabe que frutas como a nectarina, o mamão papaia e o kiwi são
mutantes.
Uma
pesquisa realizada pelo Ibope a pedido do Greenpeace sobre a opinião
do consumidor em relação à obrigatoriedade da rotulagem dos transgênicos
foi publicada na matéria do dia 31 de agosto de 2001 no jornal
O Estado de S. Paulo indica que 91% dos entrevistados é a favor
da identificação dos produtos.
Já
na segunda etapa da pesquisa identificamos matérias que informam
sobre as leis que propõem esta regulamentação, como é caso da
reportagem publicada na Folha de S. Paulo do dia 27 de dezembro
de 2003 que dá conta da existência de uma portaria em vigor que
obriga a rotulagem dos produtos que contenham mais de um por cento
de matéria prima transgênica, com o rótulo específico do símbolo
Transgênico cujo objetivo é o de facilitar o consumidor a identificar
este produto.
A
pesquisa revela ainda que do total de 52 matérias publicadas apenas
duas explicam o que é transgênico. Em artigo publicado na edição
especial da revista Ciência Hoje sobre transgênicos, de Abril
de 2004, Franco Lajoto do Departamento de Alimentos e Nutrição
Experimental da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade
de São Paulo, atribui a desconfiança do consumidor ao conhecimento
limitado sobre o assunto:
O
equívoco se deve tanto a medidas conflitantes de origem governamental
quanto ao despreparo da mídia para bem informar seus leitores
em assuntos de ponta de ciência e tecnologia, e ainda à falta
de educação científica da média da população brasileira. Em resumo,
a desconfiança decorre do conhecimento limitado do assunto e das
informações pouco esclarecedoras veiculadas pela mídia.
Com
base nas matérias analisadas detectamos alguns impasses na divulgação
científica e a respeito deste assunto o professor Isaac Epstein
explica:
As
revistas e veículos especializados em temas científicos correlatos
a medicina não dirigem mensagens diretamente ao público. Este
toma conhecimento da pesquisa médica através dos jornais diários,
revistas e programas de televisão (....)
A
mídia divulga uma enorme quantidade de informações e relata muitos
tipos de pesquisas e estudos. Não obstante, ainda hoje, há pouco
acordo sobre a melhor maneira de divulgar a informação médica
ao público (...).Muitos cientistas e médicos desconfiam dos jornalistas
e criticam suas reportagens acerca de temas de sua própria especialidade,
por infidelidade e simplificação exagerada e reclama freqüentemente
de matérias descritas com sensacionalismo e precipitação (....).Os
jornalistas, por sua vez, criticam o modo pelo qual a ciência
é apresentada pela mídia.
Os
dados coletados também revelam as tendências de opiniões sobre
o tema. Na primeira etapa oitenta por cento das matérias publicadas
adotavam uma postura de "neutralidade", cabe aqui salientar
que por neutralidade entendemos aquela matéria que aponta os divergentes
pontos de vista: favoráveis e contrários). Quinze por cento eram
a favor dos transgênicos e 5% se posicionava de forma contrária.
Já na segunda etapa 59% das matérias foram consideradas neutras,
22% favoráveis, 9% contra, o restante que corresponde a seis por
cento do total apresentavam opiniões favoráveis, porém com algumas
ressalvas e os outros quatro por cento apresentavam opiniões contrárias
e também com algumas ressalvas. Os dados demonstram que é cada
vez mais visível o posicionamento dos repórteres ou dos entrevistados
diante do assunto. O leitor fica exposto a opiniões que oscilam
entre o favorável e o contra, e recebem poucas informações suficientes
para tirar suas próprias conclusões.
Analisamos
o apelo predominante utilizado, e neste sentido compartilhamos
com Sanches (1999, p.67) que considera como apelo predominante
os recursos que perpassam as argumentações do texto com o intuito
de chamar a atenção do leitor para determinado aspecto. Neste
caso, na primeira amostra em 50% das matérias identificamos o
apelo econômico, em 42% o apelo ético e de valores e em 8% classificamos
o apelo como cognitivo. Em contra partida, na segunda amostragem
o que se refere tanto ao apelo cognitivo quanto o econômico aparecem
em 30% das matérias, 24% utilizaram apelos políticos e em última
instância com 16% do total encontramos apelos que se referem à
ética e valores. Este dado demonstra uma inversão significativa
no que tange o apelo: Entra em cena a questão política, saem de
cena a ética e os valores.
Essas
mensagens faziam menção a determinados sujeitos, na primeira etapa
a maioria das publicações fazia referência a pesquisadores 25%,
em segunda instância os consumidores 19%, empresários, legisladores
e ONGS, aparecem em 15% das matérias cada um e em última instância
produtores com 11 %. Na segunda etapa a maioria das matérias estudadas
fazia referências a legisladores, com 32% do total de menções,
a pesquisadores com 22% e aos produtores com 17%. Cabe aqui salientar
que, deste universo um índice reduzido de matérias fizeram menção
ao consumidor, de 32 matérias apenas sete referiram-se aos consumidores,
dado que reflete o momento atual de regulamentação de legislação
que o tema enfrenta.
Ao
indagarmos se a mensagem refere-se ao tema sobre o qual versará
a matéria identificamos que em 2001 a temática mais abordada foi
a descoberta científica enquanto que no segundo momento de avaliação
36% da temática refere-se à regulamentação dos produtos transgênicos
no Brasil.
Nesta
pesquisa pudemos evidenciar que existem inúmeras investigações
sobre alimentos transgênicos, porém pouco se pesquisa sobre o
impacto na saúde e no meio ambiente que essa engenharia genética
pode causar. De acordo com o americano Jeffrey M. Smith autor
do livro Seeds of Deception-Exposing Industry and Government Lies
About the Safety of the Genetically Engineered Foods Youre
Eating ("Sementes da enganação as mentiras da indústria e
do governo sobre a segurança dos alimentos transgênicos que você
está comendo"). "No mundo todo, o número de estudos
sobre transgênicos é muito pequeno. Para ter idéia, estudos publicados
sobre alimentação animal são apenas dez. Dois deles foram feitos
por Arpad Pusztai, e os outros foram financiados direta ou indiretamente
pela bioindústria" . (Entrevista publicada na revista Caros
Amigos em dezembro de 2003).
Falar
sobre ciência exige tanta responsabilidade quanto fazer ciência,
assim como um produto mal desenvolvido pode comprometer a saúde
do consumidor, uma matéria equivocada pode "intoxicar"
o leitor.
Notas
1)
Luiz Gonzaga Esteves Vieira, Laboratório de Biotecnologia Vegetal,
Instituto Agrônomo do Paraná (Iapar) em artigo publicado na revista
CiênciaHoje vol. 34, nº 203 de abril de 2004.
2)
Transgênico: É qualquer organismo que seja modificado geneticamente
pelas técnicas de engenharia genética. Todo organismo em que se
tenha introduzido uma ou mais seqüências de DNA (genes), provenientes
de uma outra espécie ou uma seqüência modificada de DNA da mesma
espécie. (Ricardo Vilela Abdelnoor Engenheiro agrônomo-
Msc Pesquisador em Biotecnologia pela Embrapa)
Bibliografia
EPSTEIN, Isaac [ Et. AL] , organizador.
Mídia e Saúde. Adamantina, SP, UNESCO/UMESP/FAI,
2001.
MARQUES DE MELO, José. Impasses
no jornalismo científico; notas para o debate. Comunicação
& Sociedade, São Paulo: Cortez, nº 7, 1982.
NEVES, Marcos Fava; CHADDAD, Fábio
Ribas; LAZZARINI, Sérgio Giovanetti. Alimentos novos tempos
e conceitos na gestão de negócios. São Paulo: Pioneira,
2000.
ODA, Leila Macedo. Sim aos Transgênicos.
Istoé. São Paulo: Três Editorial, n.1796, p. 7-11, 10
de março de 2004. Entrevista concedida a Cláudia Pinho.
CIÊNCIA HOJE. Rio de Janeiro: Vol.34,
n.203, abril de 2004.
SANCHES, Conceição Aparecida.Viagra:
da bula à banca, 1999. Dissertação (Mestrado em Comunicação
Social)-Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo
- SP.
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Eliana Marcolino
Jornalista, mestre em Comunicação e Saúde
e doutoranda pela UMESP – Universidade Metodista de São
Paulo.
Fabiana Franco
Jornalista, mestranda em Comunicação e Saúde
pela UMESP – Universidade Metodista de São Paulo.
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