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Rádio
Poste União: a comunicação popular a serviço
da saúde e da cidadania em Maceió (1)
Antonio Francisco R. de Freitas*
Amanda Machado de Ataíde Lima*
Sally Rose Barros Vieira*
Resumo
Este
artigo traz as reflexões sobre comunicação
comunitária a serviço da saúde coletiva e
da cidadania advindas da vivência de duas alunas do curso
de jornalismo da Universidade Federal de Alagoas na Rádio
Poste União, um sistema de comunicação comunitária
de alto-falantes na favela Cidade de Lona, localizada no bairro
Eustáquio Gomes, em Maceió, distante 4 km do campus
da UFAL. Lá estão acampadas cerca de 2 mil pessoas
expulsas do campo que lutam pelo direito de moradia. Não
têm apoio governamental e vivem mergulhadas no abandono,
no analfabetismo, no desemprego, na violência e nas drogas.
As estudantes aliaram o saber teórico ao fazer, instaurando
uma proposta de práxis comunicacional comunitária
a serviço das 600 famílias sem-teto acampadas naquele
local marcado pela fome, miséria, desnutrição,
falta de assistência básica à saúde,
num grave quadro de exclusão, desorganização
social e desinformação.
Palavras-chave:
Comunicação comunitária - Mídias Alternativas
- Cidadania - Saúde Popular
Introdução
As
investigações sobre a comunicação
popular implicam a necessidade de a teoria abarcar os processos
no contexto mais amplo em que se realizam, ou seja, devem ir além
do estudo do meio comunicativo em si mesmo, pois a dinâmica
social no qual este se insere é que vai lhe dar significados.
E a comunicação popular, em nosso entendimento,
pode e deve ser articulada com as atividades de educação
popular e com as ações de saúde popular.
A
comunicação popular é resultado de um processo,
que se realiza na própria dinâmica dos movimentos
populares, de acordo com as suas necessidades. Nessa perspectiva,
uma de suas características essenciais é a questão
participativa voltada para a mudança social. Num primeiro
momento, ela foi identificada como aquela comunicação
simples, de circulação limitada, produzida quase
artesanalmente por grupos populares. Em seguida passou a dizer
que ela "não se refere ao tipo de instrumento utilizado,
mas ao conteúdo das mensagens" lembra (FESTA apud
PERUZZO, 1998, p. 123), vendo-a como expressão dos interesses
das classes subalternas. Temos ainda que:
Não são os meios técnicos em si que
definem a comunicação popular, nem tampouco os seus
conteúdos. O alternativo estaria no processo de criação
conjunta, diálogo, construção de uma realidade
distinta na qual a pessoa seja sujeito pleno. O que torna a comunicação
popular é a sua inserção no contexto alternativo,
caracterizado por sua tendência a romper a ordem do capital,
integrar aquilo que o fragmenta. (GOMES apud PERUZZO, 1998, p.
123).
A
desconfiança de que os meios massivos não estariam
em condições ideológicas ou tecnológicas
de apoiar a construção de uma sociedade mais participativa
e mais solidária, tem levado o povo e os comunicadores
a procurar formas alternativas de comunicação, novos
meios de comunicação alternativa, onde o termo alternativa
refere-se à substituição dos meios comerciais
e estatais de massa por meios de comunicação horizontal
que permitam o acesso, a participação e até
mesmo a autogestão dos meios pela população
organizada.
Na
prática, os meios de comunicação popular,
apesar de sua importância e de seu significado político,
não conseguem colocar-se como forças superadoras
dos meios massivos; os dois devem encarar-se como complementares
e não como excludentes. Os grandes veículos, por
um lado, fazem-se necessários e importantes no campo do
divertimento e da informação, por exemplo, mas não
conseguem suprir todas as necessidades em nível de comunidades
e de movimentos sociais organizados. Além do que o fenômeno
da cultura perpassa o seu processo, o que colabora para incorporá-los
no cotidiano e para que agreguem valores do povo em sua organização.
Os
meios comerciais têm sido acusados, com provas, de serem
veículos de penetração ideológica
e de agirem como paralisadores e narcotizantes do sentido crítico;
de favorecer o consumismo e serem agentes do conformismo. Porém:
(...)
se os meios de comunicação coletiva vierem servir
apenas para debilitar ou corromper níveis, já previamente
atingidos, da cultura verbal ou psicológica, não
será porque haja algo de mau inerente neles mesmos. Será
porque nós falhamos em dominá-los com novas linguagens
a tempo para integrá-los em nossa herança cultural
global. (MC LUHAM apud BORDENAVE, 1986, p. 58).
Tal
discussão deve-se ao fato que, para alguns estudiosos,
os meios de comunicação de massa estão nas
mãos da burguesia; orientam-se pela unidirecionalidade
e verticalidade; privilegiam os objetivos e a ideologia das classes
dominantes; criam hábitos de consumo por meio da persuasão,
ocultam ou desvirtuam a realidade; impedem o acesso, o diálogo
e a participação da sociedade no que se refere a
decisões relativas a programações e mensagens.
Enquanto
isso, os pesquisadores da comunicação popular a
vêem nas mãos de instituições sem fins
lucrativos e de movimentos sociais; multidirecional, horizontalizada;
emitida a partir dos anseios das classes subalternas; mobiliza
e organiza o povo em torno dos seus interesses, mediante a persuasão;
politiza a comunidade; propicia o diálogo e a participação
no que diz respeito às decisões.
Segundo
diversos estudos realizados, as críticas, em essência,
apontam que, enquanto fenômenos, os dois tipos de comunicação
estão mediatizados pela cultura e por isso não podem
ser avaliadas como instrumentalizadas, onipotentes, isoladas nem
opostas. Alguns teóricos acreditam que culpar os meios
massivos de comunicação seria menosprezar a inteligência
e a capacidade de discernimento das comunidades:
A
crença de que os meios manipulam as consciências
ignora a dimensão fundamental da pessoa humana e, portanto,
seu universo cultural, para aceitar que os valores do povo são
constituídos por aqueles veiculados pelos meios massivos.
É necessário examinar o que passa do projeto de
manipulação das classes dominantes, quando as classes
trabalhadoras se defrontam com o universo da representação,
que não tem nada a ver com a vida de cada um. A leitura
desses meios não é uniforme e não pode ser
pensada como pura passividade, já que é possível
uma outra decodificação em função
das lutas e crenças coletivas e individuais. O emissor
não tem o monopólio da decodificação
da mensagem, porque, uma vez construída, ela é lida
das várias diferentes maneiras, pois diz respeito aos valores
culturais de uma sociedade". (FADUL apud PERUZZO, 1998. p.
136).
Se
for possível tornar a comunicação popular
em seu entorno, sendo captada não como uma ilha isolada,
mas como algo que tem suas especificidades, e, ao mesmo tempo,
se relaciona com a sociedade, convive e usufrui dela; é
apreendida e seu contexto, entendendo-se em seu interior a cultura,
possivelmente a comunicação massiva não será
condenada como alienante nem terá o seu potencial de influencia
menosprezado.
Atualmente,
não procede pensar em uma cultura dissociada da mídia;
deve-se compreender a existência de novas formas de expressão
e novas nuances de valores presentes no dia-a-dia das pessoas,
inclusive aqueles alimentados pelos grandes meios.
É
necessário estar claro que a participação
ao nível da comunicação abrange uma diversidade
de processos, formas, níveis e intensidades. Concretamente,
esta forma de participação comunitária pode
significar, numa gradação crescente: o simples envolvimento
das pessoas, geralmente ocasional, no nível das mensagens,
ou seja, participando através de avisos, sugestões,
pedidos de músicas, participando de concursos; elaborar
matérias (notícias, poesias); compartilhar a produção
do jornal de bairro, do programa de rádio; tomar parte
na definição da linha política, do conteúdo,
do planejamento, da edição, do manejo de equipamentos;
compartilhar o processo de gestão da instituição
comunicacional como um todo.
Tal
participação, além de ser desejável
e importante, continua sendo de difícil realização,
tanto pelas estruturas dos meios como pelas condições
sócio-econômicas e culturais de grandes contingentes
populacionais. É preciso promover o desenvolvimento de
formas mais ousadas e fazê-la presente de maneira ampliada,
nos meios de comunicação.
Haverão
de ser separadas, ainda, práticas ditas democráticas,
mas que no fundo ficam restritas a algumas lideranças que,
por integrar o grupo ou conviver com ele, julgam ter poder e autonomia
para tratar da comunicação a seu arbítrio,
de acordo com seus interesses, e mesmo assim achar estar fazendo
aquilo que a comunidade deseja e precisa.
A
participação popular, em sentido amplo:
[...]
começa com um lento e articulado processo de tomada de
consciência, pelo qual os indivíduos adquirem uma
vivência real de sua situação e de seu destino
no universo social e político que os rodeia, elaboram e
definem uma imagem de seus autênticos interesses e os contrastes,
analiticamente, com a ordem social, política e econômica.
Através deste processo, o homem e a comunidade se descobrem
a si mesmo, se identificam com tudo aquilo que resulte compatível
com sua dignidade humana e que propicie a sua realização
e se rebelam contra tudo aquilo que pode conspirar contra seus
interesses e aspirações. Nessas condições
homem e comunidade estão potencialmente preparados para
iniciar o complexo processo de participação popular.
(UTRIA apud PERUZZO, 1998, p. 146).
Enfim,
não pode se negar que a comunicação popular
contribui para a democratização da sociedade e a
conquista da cidadania. A participação não
pode significar apenas a escolha, a cada quatro anos, daqueles
que irão tomar as decisões pelo povo, mas também
participar politicamente nas questões do bairro, da escola
dos filhos, denunciar condições desumanas, exigir
o direito de usufruir a riqueza gerada por todos, por meio de
melhores benefícios sociais e salários mais justos,
organizar-se e trabalhar coletivamente. E a comunicação
popular não faz tudo isso por si só, mas apenas
se estiver inserida na dinâmica dos movimentos, gerando-se
a partir deles e, conseqüentemente, caminhando na mesma direção
por eles apontada.
Participação:
um modelo de mudança
A
população cansou de permanecer inerte e omissa com
a realidade que a cerca, esperando apenas por decisões
governamentais; e decidiu intervir de forma direta no próprio
rumo social. A comunicação é uma ponte imprescindível
para tal transformação, visto que, a capacidade
de mobilização, de persuasão e de informação
que pode ser realizada pelas mídias é de grande
alcance.
A
população quer agora atuar ativamente na sociedade,
conduzindo independentemente os rumos de um novo tempo. Tempo
este que seja caracterizado, sobretudo, pela expressão
- mudança.
Inclusos
nesse meio de organizações e instituições
que almejam a transformação, estão as ONG's,
os sindicatos, os grêmios estudantis, as associações
de bairro, as cooperativas, os partidos políticos e as
organizações populares que, unidos cada qual a sua
maneira, exigem e contestam as elites detentoras do poder público.
O
relacionamento entre povo e governo e também entre as classes
sociais necessita de metodologias que podem ser obtidas com uma
comunicação eficiente, na maioria das vezes, por
meio de uma comunicação alternativa. Comunicação
alternativa é um sistema que faz uso de um conjunto integrado
de componentes, incluindo símbolos, recursos, estratégias
e técnicas utilizadas pelos indivíduos a fim de
complementar a comunicação.
O
trabalho com grupos pequenos é sem dúvida mais fácil
de ser promovido, já que é direcionado para um público
específico, e os resultados da participação
são retribuídos com mais constância e maior
rapidez. Enquanto a comunicação de massa alcança
públicos diversos (na maioria das vezes públicos
relativamente passivos) e recebem uma resposta generalizada, a
comunicação alternativa e/ou comunitária
atinge o receptor desejado e recebe um feedback bem formulado.
Para
que sejam realizadas formas alternativas de descentralização
de competências e de recursos, é necessário
que o indivíduo participe com responsabilidade na sua comunidade.
A comunicação é um dos principais pilares
para que possa ser promovida a articulação coletiva
e a conscientização no ser social para que ele possa
agir unido aos outros, a fim de suprir as suas carências
e de seu grupo.
Os
meios de comunicação massivos atualmente apenas
transmitem informações diárias sem preocupar-se
com a opinião ou a reação do receptor. Basta
analisar dois aspectos dos meios de comunicação
convencionais para verificar a inserção de objetivos
pessoais na veiculação das informações:
o primeiro é a propaganda como fonte de renda das empresas
de comunicação. E o segundo aspecto está
relacionado à questão dos meios de comunicação
estarem ligados às famílias da burguesia brasileira,
a grupos empresariais, e a políticos, que algumas vezes
censuram a veiculação verídica dos fatos,
temendo ferir suas imagens. (BORDENAVE, 1986, p. 84) confirma
a verdadeira função dos meios alternativos: "No
contexto alternativo os meios são utilizados como ferramentas
de participação grupal e não de publicidade
ou persuasão".
Portanto,
a comunicação alternativa se constitui como opção
mais adequada para promover o diálogo e a participação,
substituindo os meios comerciais e estatais de massa por meios
de comunicação horizontais que permitam o acesso,
a participação e até mesmo a autogestão
dos meios pela população organizada.
Os
grandes meios de comunicação como rádio,
TV e jornal podem ser incluídos na comunicação
alternativa, "contanto que modifiquem radicalmente sua filosofia,
sua estrutura interna e sua metodologia de programação,
para dar espaço à participação da
população em seu funcionamento e para integrar o
meio de comunicação na luta pela sociedade participativa".
(BORDENAVE, 1986, p. 84).
Quando
a comunicação alternativa visa promover a participação,
recebe o nome de comunicação participativa ou participatória.
Bordenave a caracteriza como capaz de fazer com que os produtores
gerem e intercambiem suas próprias mensagens, criem conhecimento
e compartilhem sentimentos, organizem-se e adquiram poder coletivo;
resolvam seus problemas comuns e contribuam para a transformação
da estrutura social. "A comunicação participatória
é uma maneira dialógica e multilateral de fazer
comunicação, dentro de qualquer processo grupal
ou coletivo mais amplo, que pode ser educacional, social, político,
ou técnico". (BORDENAVE, 1986, p. 85).
As
pessoas, ao participarem de uma práxis cotidiana voltada
para os interesses e as necessidades dos próprios grupos
a que pertencem ou ao participarem de organizações
e movimentos comprometidos com interesses sociais mais amplos,
acabam inseridas num processo de educação informal
que contribui para a elaboração-reelaboração
das culturas populares e a formação para a cidadania.
A
produção alternativa de comunicação
influencia na comunidade, forma dirigentes, e cria grupos culturais.
Tais produções dão a comunidade oportunidade
de se expressar e se organizar, participando ativamente de todo
o processo. No modelo participativo, os grupos e as comunidades
passam a intervir diretamente no processo comunicacional e a emitir
mensagens.
O
retorno do receptor, ou seja, o feedback não garante que
houve uma comunicação participativa, a participação
consiste na autogeração de mensagens dos interlocutores
do processo.
A
produção cultural dos microgrupos
O
homem se caracteriza por ser um agente social, autor da sua própria
história, que influencia, persuade, interage e modifica,
e, sem a comunicação, o homem não disporia
de outros mecanismos para traçar suas metas.
A
cultura está intrínseca ao comportamento do homem
como um conjunto de produtos e atividades sociais e estes produtos
culturais estão incorporados na linguagem falada e escrita,
nos sinais pintados ou esculpidos, nas crenças e nos valores
assimilados, nos movimentos rítmicos e padronizados do
próprio corpo etc. o conceito de "cultura" se
resume em modos padronizados de sentir pensar e agir.
Já
(NEOTTI, 1979, p. 27) afirma que "Grande parte dos padrões
culturais fundamentais é aprendida e exercitada nos pequenos
grupos", ou seja, são padrões que nascem através
da comunicação direta entre pessoas que se conhecem
e compartilham experiências comuns.
No
entanto, quando falamos em pequenos grupos, não há
necessariamente uma referência a uma comunidade (unidades
relativamente fechadas e auto-suficientes), mas abrange também
os pequenos grupos de referência, freqüentemente independentes
uns dos outros, e que por isso, possuem facilidade de subsistência.
As
classes populares excluídas do acesso a recursos econômicos,
políticos, culturais e de comunicação, procuram
formas alternativas de inserção no sistema, e conforme
suas particularidades produzem meios alternativos para organizar-se
melhor e participar do contexto social. São criados então
padrões coletivos pela experiência comum de enfrentar
os mesmos problemas.
E
(DURHAM apud NEOTTI, 1979, p. 31) esclarece que: "Numa sociedade
de massa, as pessoas têm acesso a uma multiplicidade de
informações fragmentadas, principalmente através
do rádio e da televisão".
Daí
a importância da construção de meios alternativos
que direcionem a informação, pois estas informações
precisam ser compreendidas e integradas numa interpretação
relativamente coerente com a do mundo em que vivem. Essa integração
é feita através de um processo de elaboração
coletiva.
Nas
classes populares que são vitimas da falta de escola, de
participação política, de ação
sindical, é apenas através da sociabilidade direta
que as pessoas obtêm e ordenam os fragmentos de informação
com o qual devem constituir a interpretação do seu
objeto.
Devido
às camadas populares disporem de recursos escassos e problemas
diferentes das demais camadas da população, elas
desenvolvem comportamentos, idéias e produtos que lhes
são característicos. Esses pequenos grupos selecionam
e tentam integrar informações sobre a sociedade
ao seu próprio modo: elaborando soluções
para os problemas que enfrentam e procurando superar as limitações
que uma sociedade injusta impõe à sua participação
plena na vida social.
Cultura
de massa x cultura popular
A
cultura de massa é a expressão utilizada para designar
o fato de um artigo ser único e exclusivamente destinado
ao consumo da massa. É um produto simbólico veiculado
pelos meios de comunicação massivos. Contudo, a
cultura não deve ser vista apenas sob a óptica mercadológica
de um mero produto: "o papel da cultura é fornecer
a percepção do indivíduo, com respeito ao
mundo exterior, uma tela de conceitos sobre a qual ele projeta
e situa suas percepções" diz (MOLES apud BARROS,
1997, p. 28).
O
crescimento da cultura de massa iniciou-se a partir do século
XIX. A democracia política e a educação popular
derrubaram o velho monopólio da cultura, que pertencia
à classe superior. As empresas comerciais encontraram um
mercado lucrativo nas demandas culturais das massas recém-despertadas,
e o avanço da tecnologia possibilitou a produção
barata de livros, periódicos, quadros, música e
móveis, em quantidades suficientes para satisfazer esse
mercado. A tecnologia moderna também criou novos meios
de comunicação de massa, como o cinema e a televisão,
especialmente adaptados à manufatura e à distribuição
de massa.
A
cultura de massa é fabricada pelos técnicos contratados
por homens de negócios; os seus públicos são,
geralmente, consumidores passivos, cuja participação
se limita à escolha entre comprar e não comprar.
Comumente
entende-se cultura popular como o aprendizado cultural oriundo
exclusivamente das classes menos abastadas ou, ainda, de grupos
minoritários advindos de determinadas regiões com
traços diversos daqueles contemplados e absorvidos comercialmente
pelos consumidores em massa. É o produto simbólico
consumido elaborado, difundido e consumido pelas classes subalternas.
O
conceito do termo popular geralmente é associado ao fazer
desprovido do saber nas sociedades capitalistas, quando na verdade
o termo popular remete aos valores culturais concebidos pelo povo.
Há
uma dicotomia na forma de como a cultura popular é encarada,
enquanto para uns é um retrato do folclore, para outros,
constitui-se em manifestações culturais tradicionais,
como resíduo da cultura culta de outra época. No
entanto, pensar a cultura popular como sinônimo de tradição
é reafirmar que suas concepções e práticas
não podem ser compreendidas, senão como deturpadoras
ou empobrecedoras, já que aquilo que se considera como
tendo vigência plena no passado, só pode ser interpretado
no presente, como curiosidade.
A
cultura popular surge como uma outra cultura que por contraste
ao saber culto dominante, apresenta-se como totalidade, embora
sendo construída através de justaposição
de elementos residuais e fragmentários.
Uma
sociedade com modo de produção capitalista convive
com os valores burgueses permeando os valores das classes subalternas.
Contudo, apesar dessa hegemonia, a cultura, o cotidiano e a vida
dessas classes carregam propostas divergentes, propostas de classes,
evidenciando luta e resistência. Portanto, a dominação
direta da cultura de massa sobre a cultura popular, não
é totalitária e inescapável.
O
uso da linguagem
Para
se comunicar, a forma mais utilizada pelo ser humano é
através da linguagem, por seus aspectos descritivos, cognitivos
ou emotivos e suas funções de representação
e de provocação ou de modificação
do comportamento. A linguagem está situada na esfera do
comportamento geral, sendo ela própria um de seus elementos;
nenhum dos locutores inventou o meio de comunicação
que está utilizando, mas cada um recebeu-o do grupo ou
sociedade a que pertence.
As
pessoas têm suas maneiras de pronunciar palavras, em resultados
de diferenças regionais, sociais ou individuais, mas isto
não significa que tais diferenças sejam inteiramente
não-pertinentes; elas certamente são pertinentes
quando encaradas de um ângulo sociológico, psicológico
ou cultural e o importante é que a mensagem seja inteligível
e contenha um significado que possa ser aprendido.
Os
processos mentais dos indivíduos são profundamente
condicionados pela pressão exercida pela sociedade sobre
ele, e os conceitos de realidade do grupo a que ele pertence,
o qual funciona também como um grupo de referência
em relação aos que estão fora dele. "O
meio de comunicação usado por cada sociedade dá-lhe
a sua própria fisionomia individual" (ARANGUREN, 1975,
p. 35).
A
comunicação, as linguagens e as diversas manifestações
da cultura popular, que envolvem um processo complexo de intercâmbio
de idéias, informações e sentimentos, mediante
a utilização de linguagens verbais e não-verbais
e de canais naturais e artificiais empregados para obtenção
da soma de conhecimentos e experiências necessárias
à promoção da convivência ordenada
e do bem-estar coletivo devem ser consideradas.
Ao
analisar a relação entre comunicação
e cultura é preciso considerar as diversificadas regiões
do Brasil com todas as suas particularidades e complexidades.
Rádio
União: cidadania na favela
Objetivando
relacionar teoria e prática comunicacional popular e/ou
comunitária as alunas Amanda Machado de Ataíde Lima
e Sally Rose Barros Vieira do 4º ano de jornalismo do Curso
de Comunicação Social da UFAL, realizaram durantes
cerca de um mês uma intervenção na Favela
denominada Cidade de Lona, e a partir das reflexões resultantes
da ação de comunicadoras comunitárias naquela
favela elaboraram o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC)
denominado A comunicação alternativa como processo
de inserção social em uma comunidade periférica
de Maceió.
Pela
riqueza de suas reflexões o mesmo foi indicado pela banca
examinadora para publicação devido à relevante
contribuição do trabalho teórico-prático
na área de comunicação comunitária
em Alagoas. Na favela Cidade de Lona aproximadamente 3 mil pessoas
vivem em estado de completa miséria, analfabetismo e abandono
e apresentam elevado quadro desnutricional, pois sobrevivem com
renda familiar de R$ 90,00 por mês (cerca de US 30 por mês)
índice muito abaixo do nível de miséria pelos
critérios da ONU.
Moram
naquele local há 5 anos e habitam em 600 barracas de lona
preta, com 3 metros quadrados de área que abriga em média
famílias com 5 pessoas. Tal população de
miseráveis é composta de retirantes que fogem da
seca, da fome e da miséria do sertão alagoano e
tentam uma vida melhor na capital, Maceió. No local existe
um barracão de alvenaria, de 8 metros quadrados construído
com verbas do CNPq, da Pró-Reitoria de Extensão
e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado
de Alagoas (FAPEAL) que serve como ponto de apoio para a realização
de ações extensionistas nas áreas de nutrição
e medicina social.
Há
aproximadamente 4 meses conseguimos verbas para implantação
de um sistema de comunicação alternativa, por meio
de 2 alto-falantes, o qual foi denominado pelos moradores de Rádio
União. A Rádio União foi o primeiro passo
para a inserção de estudantes de comunicação
no processo de difusão sobre informações
em saúde pública, medicina social e de cidadania
naquela favela, situada no Bairro Eustáquio Gomes, a menos
de 4 km da universidade.
O
propósito da rádio é servir de canal para
o desenvolvimento daquela comunidade, desprovida de informação,
entretenimento e educação. Vários estudantes
de jornalismo, nutrição, serviço social e
medicina social foram convidados para co-participarem na produção
e gestão deste meio de comunicação.
A
rádio começou a funcionar, de fato, no dia 11 de
janeiro de 2004, das 14h30 às 17h, de segunda à
sexta, (exceto às quartas-feiras) já que o centro
comunitário, onde está instalada, fica ao lado,
de uma subcongregação da Assembléia de Deus,
e o funcionamento da rádio coincidiu com o horário
do circulo de oração da Igreja. Faz-se no estudo
dos alto-falantes nessa comunidade um paradigma, para, de sua
análise, retirar os elementos que ajudem a elucidar e compreender
como a comunicação comunitária se articula
com os movimentos populares e sua atuação em prol
da educação e saúde populares.
Nosso
objetivo é relatar as experiências adquiridas com
a convivência na comunidade, sem desviar o enfoque de que
o paradigma da comunicação comunitária fortalece
a função educativa e de ações organizadoras
das classes subalternas. Portanto, é mais uma tentativa
de rompimento que vai de encontro ao modelo da comunicação
vertical.
Democratização
da comunicação
As
classes populares não estão interessadas em apenas
assistir a exposição da sua realidade, elas querem
participar, querem discutir soluções para sanar
os problemas que assolam sua comunidade. A promoção
de debates junto às comunidades, com a presença
de especialistas da área, socializa o direito de cada cidadão
à informação, para que a partir de então,
possam construir uma nova realidade.
A
fim de erradicar o monopólio das comunicações,
o ideal seria a criação de conselhos formados por
representantes dos partidos políticos, das igrejas, das
ONG's, associações de moradores, e da sociedade
em geral, para que interferissem no controle social da informação,
já que a informação é um direito social
e, não pode ser, absolutamente, apropriado pela elite,
instituições privadas e grupos políticos.
Quando
um veículo de comunicação cede espaço
às comunidades carentes para exporem suas dificuldades,
àquele veículo é denominado de assistencialista,
quando, de fato, o principal objetivo da comunicação
é retratar a dura realidade dos brasileiros, principalmente,
daqueles que mais padecem. Segundo (NOVAES, 1983, p. 29) "Nós
temos que pluralizar a informação. Não podemos
caminhar na direção da uniformização.
Talvez a maior riqueza brasileira seja, realmente, a sua diversidade
cultural e essa criatividade popular que já não
têm onde se expressar".
A
sociedade precisa ter influência, participação.
Os meios de comunicação falam com a sociedade, mas
a sociedade não fala com os meios de comunicação,
porque não tem como se expor. Há uma apropriação
da informação para transformar em poder político
ou econômico, se não houvesse uma manipulação
da informação, poderíamos sim, considerar
que vivemos em uma sociedade igualitária, pois reconhece
(NOVAES, 1989, p. 31) "Como é que o Brasil pode se
transformar e chegar a ser uma sociedade realmente democrática
se os interesses de 180 milhões não entram sequer
em cogitação, não aparecem na comunicação".
A
democratização é um fator fundamental para
que haja uma comunicação eficiente, pois quando
comunicar-se abertamente se tornar um direito de todos, os deveres
dos cidadãos passarão a ser praticados com mais
consciência e maior freqüência.
Os
alto-falantes
O
termo comunicação popular designa a comunicação
desenvolvida no âmbito dos movimentos de base ou popular
(das mulheres, das associações de moradores, das
pastorais, etc), onde são produzidos boletins mimeografados,
panfletos, rádios de alto falantes, etc. essa comunicação
popular é para transformar o processo de recepção,
é interativo, é uma constante troca de negociação
de símbolos.
O
velho sistema de alto-falantes se sobressai diante de um país
cuja população é "analfabeta" e
falam línguas diversas já que comunicar-se de forma
alternativa suplanta as dificuldades do analfabetismo visto que
os meios alternativos usam uma linguagem de fácil acesso
e voltada exclusivamente para os marginalizados, os deficientes
e iletrados. É um claro exemplo de comunicação
horizontal que tem muito a contribuir para a construção
da consciência democrática e o para o exercício
da cidadania.
Os
alto-falantes constituem verdadeiras rádios locais operadas
pelos próprios moradores, é a forma mais viável
da comunidade criar, usufruir e participar do seu próprio
sistema de informação. O sistema deve se expandir
dentro da comunidade; não se restringindo apenas aos técnicos
e à equipe central, mas criando possibilidades para a participação.
Produção
e gestão participativa
Nos
movimentos se desenvolvem experiências de uma comunicação
que pode ser denominada de popular ou comunitária, a qual
evidencia características próprias, entre elas,
o exercício da participação direta. Ali se
faz possível que os receptores das mensagens dos meios
de comunicação se tornem também produtores
das mesmas, se tornem emissores do processo de comunicação.
A
participação na comunicação é
um mecanismo facilitador da ampliação da cidadania,
uma vez que possibilita a pessoa tornar-se sujeito de atividades
de ação comunitária e dos meios de comunicação
ali forjados, o que resulta num processo educativo. A pessoa inserida
nesse processo tende a mudar o seu modo de ver o mundo e de relacionar-se
com ele. Tende a agregar novos elementos à sua cultura.
Os
meios de comunicação comunitários/populares,
geralmente, têm assim o potencial de ser, ao mesmo tempo,
parte de um processo de organização popular e canais
carregados de conteúdos informativos e culturais, além
de possibilitarem a prática da participação
direta nos mecanismos de planejamento, produção
e gestão. Contribuem, portanto, duplamente para a construção
da cidadania. Oferecem um potencial educativo enquanto processo
e também pelo conteúdo das mensagens que transmitem.
Por
seus conteúdos podem dar vazão à socialização
do legado histórico do conhecimento, facilitar a compreensão
das relações sociais, dos mecanismos da estrutura
do poder (compreender melhor as coisas da política), dos
assuntos públicos do país, esclarecer sobre os direitos
da pessoa humana e discutir os problemas locais.
A
participação das pessoas na produção
e transmissão das mensagens, nos mecanismos de planejamento
e na gestão do veículo de comunicação
comunitária contribui para que elas se sintam capazes de
fazer aquilo que estão acostumadas a receber pronto, se
tornam protagonistas da comunicação e não
somente receptores.
Os
veículos de comunicação produzidos por setores
organizados das classes subalternas, ou a elas organicamente ligados,
acabam por criar um campo propício para o desenvolvimento
da educação para a cidadania. As relações
entre educação e comunicação se explicitam,
pois as pessoas envolvidas em tais processos desenvolvem o seu
conhecimento e mudam o seu modo de ver e relacionar-se com a sociedade
e com o próprio sistema dos meios de comunicação
de massa. Apropriam-se das técnicas e de instrumentos tecnológicos
de comunicação, adquirem uma visão mais crítica,
tanto pelas informações que recebem, quanto pelo
que aprendem através da vivência, da própria
prática.
Por
exemplo, a seleção de notícias que a pessoa
se vê obrigada a fazer na hora de organizar o noticiário
na rádio comunitária, bem como os demais mecanismos
que condicionam o processo de produzir e transmitir mensagens
com os quais se depara cotidianamente, lhe tiram a ingenuidade
sobre as estratégias e as possibilidades de manipulação
de mensagens pelos grandes meios de comunicação
de massa. Ela passa a conhecer as possibilidades de seleção
das mensagens, os conflitos de interesses que condicionam a informação
ou a programação, a dinâmica do mercado publicitário,
além da força que tem um veículo de comunicação,
tal como o rádio, o jornal, a televisão etc.
As
dimensões da inserção na dinâmica local,
no conteúdo das mensagens e na participação
em todas as fases do processo comunicativo, em geral, acontecem
interligadas e se configuram como o ideal em termos de ação
educomunicativa no âmbito dos movimentos comunitários.
Conclusão
A
comunidade se trata de uma unidade territorial, onde interagem
diversos atores e se enfrentam necessidades, problemas e conflitos
comuns. Os habitantes que vivem, trabalham ou transitam por ela,
têm a possibilidade de convertê-la em um espaço
real para o desenvolvimento local.
Os
atores sociais diversos são sujeitos que desenvolvem uma
ação no espaço territorial. Podem ser sujeitos
individuais (dirigentes, líderes, personagens, comunicadores);
coletivos (grupos, organizações sociais, associações)
ou institucionais (a prefeitura, a paróquia, o governo
do Estado). A constituição, perfil e projeção
desses atores são diferentes e complementares. Também
podem entrar em conflito. Por isso, é necessário
conhecê-los: quem são, seus interesses e as estratégias
de inserção na comunidade. É fundamental
envolver os sujeitos que vivem na favela Cidade de Lona visando
uma ação transformadora por meio das práticas
de comunicação alternativa e/ou comunitária.
Notas
1) As jornalistas Amanda Machado
de Ataíde Lima e Sally Rose Barros Vieira, co-autoras deste
trabalho, eram orientandas do prof. Dr. Antonio Francisco R. de
Freitas no curso de Jornalismo da UFAL, em 2003.
Referências
bibliográficas
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humana: uma sociologia da informação. Rio de Janeiro:
Zahar, 1975.
BARROS, Laan Mendes de. Comunicação
e educação numa perspectiva plural e dialética.
Nexos: Revista de Estudos de Educação e Comunicação,
p. 19-38, São Paulo: Universidade Anhembi-Morumbi, 2º
sem. 1997.
BORDENAVE, Juan E. Díaz.
Além dos meios e mensagens: introdução à
comunicação como processo, tecnologia, sistema e
ciência. 3 ed. Petrópolis: Vozes, 1986.
BORDENAVE, Juan E. Diaz. O que
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1986.
NEOTTI, O. F. F. Clarêncio
(coord.). Comunicação e consciência crítica.
São Paulo: UCBC/Loyola, 1979.
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PERUZZO, Cicilia Maria Krohlling.
Comunicação nos movimentos populares: a participação
na construção da cidadania. Petrópolis: Vozes,
1998.
PERUZZO, Cicília Maria Krohlling.
Mídia comunitária. Comunicação &
Sociedade. nº 30, p. 141-56, São Bernardo do Campo:
Umesp, 2º sem. 1998.
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Antonio Francisco R. de Freitas
Jornalista. Publicitário. Especialista em Língua
Portuguesa. Mestre em Letras. Doutor em Ciência da Linguagem.
Professor adjunto do Curso de Comunicação Social
da UFAL- Universidade Federal de Alagoas. Pesquisador do CNPq
e da FAPEAL. Membro do Núcleo de Estudos, Pesquisa e Extensão
em Comunicação e Informação (NEPEC)
e do Laboratório de Educação Popular em Saúde
(LEPS), integrante do Núcleo de Saúde Pública
(NUSP/UFAL).
Amanda Machado de Ataíde
Lima
Jornalista, formada pela UFAL em 2003.
Sally Rose Barros Vieira
Jornalista, formada pela UFAL em 2003.
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