Volume 2
Número 2

20 de julho de 2005
 
 * Edição atual    

          Rádio Poste União: a comunicação popular a serviço da saúde e da cidadania em Maceió (1)

Antonio Francisco R. de Freitas*
Amanda Machado de Ataíde Lima*
Sally Rose Barros Vieira*

          Resumo

          Este artigo traz as reflexões sobre comunicação comunitária a serviço da saúde coletiva e da cidadania advindas da vivência de duas alunas do curso de jornalismo da Universidade Federal de Alagoas na Rádio Poste União, um sistema de comunicação comunitária de alto-falantes na favela Cidade de Lona, localizada no bairro Eustáquio Gomes, em Maceió, distante 4 km do campus da UFAL. Lá estão acampadas cerca de 2 mil pessoas expulsas do campo que lutam pelo direito de moradia. Não têm apoio governamental e vivem mergulhadas no abandono, no analfabetismo, no desemprego, na violência e nas drogas. As estudantes aliaram o saber teórico ao fazer, instaurando uma proposta de práxis comunicacional comunitária a serviço das 600 famílias sem-teto acampadas naquele local marcado pela fome, miséria, desnutrição, falta de assistência básica à saúde, num grave quadro de exclusão, desorganização social e desinformação.

          Palavras-chave: Comunicação comunitária - Mídias Alternativas - Cidadania - Saúde Popular

          Introdução

          As investigações sobre a comunicação popular implicam a necessidade de a teoria abarcar os processos no contexto mais amplo em que se realizam, ou seja, devem ir além do estudo do meio comunicativo em si mesmo, pois a dinâmica social no qual este se insere é que vai lhe dar significados. E a comunicação popular, em nosso entendimento, pode e deve ser articulada com as atividades de educação popular e com as ações de saúde popular.

          A comunicação popular é resultado de um processo, que se realiza na própria dinâmica dos movimentos populares, de acordo com as suas necessidades. Nessa perspectiva, uma de suas características essenciais é a questão participativa voltada para a mudança social. Num primeiro momento, ela foi identificada como aquela comunicação simples, de circulação limitada, produzida quase artesanalmente por grupos populares. Em seguida passou a dizer que ela "não se refere ao tipo de instrumento utilizado, mas ao conteúdo das mensagens" lembra (FESTA apud PERUZZO, 1998, p. 123), vendo-a como expressão dos interesses das classes subalternas. Temos ainda que:

           Não são os meios técnicos em si que definem a comunicação popular, nem tampouco os seus conteúdos. O alternativo estaria no processo de criação conjunta, diálogo, construção de uma realidade distinta na qual a pessoa seja sujeito pleno. O que torna a comunicação popular é a sua inserção no contexto alternativo, caracterizado por sua tendência a romper a ordem do capital, integrar aquilo que o fragmenta. (GOMES apud PERUZZO, 1998, p. 123).

          A desconfiança de que os meios massivos não estariam em condições ideológicas ou tecnológicas de apoiar a construção de uma sociedade mais participativa e mais solidária, tem levado o povo e os comunicadores a procurar formas alternativas de comunicação, novos meios de comunicação alternativa, onde o termo alternativa refere-se à substituição dos meios comerciais e estatais de massa por meios de comunicação horizontal que permitam o acesso, a participação e até mesmo a autogestão dos meios pela população organizada.

          Na prática, os meios de comunicação popular, apesar de sua importância e de seu significado político, não conseguem colocar-se como forças superadoras dos meios massivos; os dois devem encarar-se como complementares e não como excludentes. Os grandes veículos, por um lado, fazem-se necessários e importantes no campo do divertimento e da informação, por exemplo, mas não conseguem suprir todas as necessidades em nível de comunidades e de movimentos sociais organizados. Além do que o fenômeno da cultura perpassa o seu processo, o que colabora para incorporá-los no cotidiano e para que agreguem valores do povo em sua organização.

          Os meios comerciais têm sido acusados, com provas, de serem veículos de penetração ideológica e de agirem como paralisadores e narcotizantes do sentido crítico; de favorecer o consumismo e serem agentes do conformismo. Porém:

          (...) se os meios de comunicação coletiva vierem servir apenas para debilitar ou corromper níveis, já previamente atingidos, da cultura verbal ou psicológica, não será porque haja algo de mau inerente neles mesmos. Será porque nós falhamos em dominá-los com novas linguagens a tempo para integrá-los em nossa herança cultural global. (MC LUHAM apud BORDENAVE, 1986, p. 58).

          Tal discussão deve-se ao fato que, para alguns estudiosos, os meios de comunicação de massa estão nas mãos da burguesia; orientam-se pela unidirecionalidade e verticalidade; privilegiam os objetivos e a ideologia das classes dominantes; criam hábitos de consumo por meio da persuasão, ocultam ou desvirtuam a realidade; impedem o acesso, o diálogo e a participação da sociedade no que se refere a decisões relativas a programações e mensagens.

          Enquanto isso, os pesquisadores da comunicação popular a vêem nas mãos de instituições sem fins lucrativos e de movimentos sociais; multidirecional, horizontalizada; emitida a partir dos anseios das classes subalternas; mobiliza e organiza o povo em torno dos seus interesses, mediante a persuasão; politiza a comunidade; propicia o diálogo e a participação no que diz respeito às decisões.

          Segundo diversos estudos realizados, as críticas, em essência, apontam que, enquanto fenômenos, os dois tipos de comunicação estão mediatizados pela cultura e por isso não podem ser avaliadas como instrumentalizadas, onipotentes, isoladas nem opostas. Alguns teóricos acreditam que culpar os meios massivos de comunicação seria menosprezar a inteligência e a capacidade de discernimento das comunidades:

          A crença de que os meios manipulam as consciências ignora a dimensão fundamental da pessoa humana e, portanto, seu universo cultural, para aceitar que os valores do povo são constituídos por aqueles veiculados pelos meios massivos. É necessário examinar o que passa do projeto de manipulação das classes dominantes, quando as classes trabalhadoras se defrontam com o universo da representação, que não tem nada a ver com a vida de cada um. A leitura desses meios não é uniforme e não pode ser pensada como pura passividade, já que é possível uma outra decodificação em função das lutas e crenças coletivas e individuais. O emissor não tem o monopólio da decodificação da mensagem, porque, uma vez construída, ela é lida das várias diferentes maneiras, pois diz respeito aos valores culturais de uma sociedade". (FADUL apud PERUZZO, 1998. p. 136).

          Se for possível tornar a comunicação popular em seu entorno, sendo captada não como uma ilha isolada, mas como algo que tem suas especificidades, e, ao mesmo tempo, se relaciona com a sociedade, convive e usufrui dela; é apreendida e seu contexto, entendendo-se em seu interior a cultura, possivelmente a comunicação massiva não será condenada como alienante nem terá o seu potencial de influencia menosprezado.

          Atualmente, não procede pensar em uma cultura dissociada da mídia; deve-se compreender a existência de novas formas de expressão e novas nuances de valores presentes no dia-a-dia das pessoas, inclusive aqueles alimentados pelos grandes meios.

          É necessário estar claro que a participação ao nível da comunicação abrange uma diversidade de processos, formas, níveis e intensidades. Concretamente, esta forma de participação comunitária pode significar, numa gradação crescente: o simples envolvimento das pessoas, geralmente ocasional, no nível das mensagens, ou seja, participando através de avisos, sugestões, pedidos de músicas, participando de concursos; elaborar matérias (notícias, poesias); compartilhar a produção do jornal de bairro, do programa de rádio; tomar parte na definição da linha política, do conteúdo, do planejamento, da edição, do manejo de equipamentos; compartilhar o processo de gestão da instituição comunicacional como um todo.

          Tal participação, além de ser desejável e importante, continua sendo de difícil realização, tanto pelas estruturas dos meios como pelas condições sócio-econômicas e culturais de grandes contingentes populacionais. É preciso promover o desenvolvimento de formas mais ousadas e fazê-la presente de maneira ampliada, nos meios de comunicação.

          Haverão de ser separadas, ainda, práticas ditas democráticas, mas que no fundo ficam restritas a algumas lideranças que, por integrar o grupo ou conviver com ele, julgam ter poder e autonomia para tratar da comunicação a seu arbítrio, de acordo com seus interesses, e mesmo assim achar estar fazendo aquilo que a comunidade deseja e precisa.

          A participação popular, em sentido amplo:

          [...] começa com um lento e articulado processo de tomada de consciência, pelo qual os indivíduos adquirem uma vivência real de sua situação e de seu destino no universo social e político que os rodeia, elaboram e definem uma imagem de seus autênticos interesses e os contrastes, analiticamente, com a ordem social, política e econômica. Através deste processo, o homem e a comunidade se descobrem a si mesmo, se identificam com tudo aquilo que resulte compatível com sua dignidade humana e que propicie a sua realização e se rebelam contra tudo aquilo que pode conspirar contra seus interesses e aspirações. Nessas condições homem e comunidade estão potencialmente preparados para iniciar o complexo processo de participação popular. (UTRIA apud PERUZZO, 1998, p. 146).

          Enfim, não pode se negar que a comunicação popular contribui para a democratização da sociedade e a conquista da cidadania. A participação não pode significar apenas a escolha, a cada quatro anos, daqueles que irão tomar as decisões pelo povo, mas também participar politicamente nas questões do bairro, da escola dos filhos, denunciar condições desumanas, exigir o direito de usufruir a riqueza gerada por todos, por meio de melhores benefícios sociais e salários mais justos, organizar-se e trabalhar coletivamente. E a comunicação popular não faz tudo isso por si só, mas apenas se estiver inserida na dinâmica dos movimentos, gerando-se a partir deles e, conseqüentemente, caminhando na mesma direção por eles apontada.

          Participação: um modelo de mudança

          A população cansou de permanecer inerte e omissa com a realidade que a cerca, esperando apenas por decisões governamentais; e decidiu intervir de forma direta no próprio rumo social. A comunicação é uma ponte imprescindível para tal transformação, visto que, a capacidade de mobilização, de persuasão e de informação que pode ser realizada pelas mídias é de grande alcance.

          A população quer agora atuar ativamente na sociedade, conduzindo independentemente os rumos de um novo tempo. Tempo este que seja caracterizado, sobretudo, pela expressão - mudança.

          Inclusos nesse meio de organizações e instituições que almejam a transformação, estão as ONG's, os sindicatos, os grêmios estudantis, as associações de bairro, as cooperativas, os partidos políticos e as organizações populares que, unidos cada qual a sua maneira, exigem e contestam as elites detentoras do poder público.

          O relacionamento entre povo e governo e também entre as classes sociais necessita de metodologias que podem ser obtidas com uma comunicação eficiente, na maioria das vezes, por meio de uma comunicação alternativa. Comunicação alternativa é um sistema que faz uso de um conjunto integrado de componentes, incluindo símbolos, recursos, estratégias e técnicas utilizadas pelos indivíduos a fim de complementar a comunicação.

          O trabalho com grupos pequenos é sem dúvida mais fácil de ser promovido, já que é direcionado para um público específico, e os resultados da participação são retribuídos com mais constância e maior rapidez. Enquanto a comunicação de massa alcança públicos diversos (na maioria das vezes públicos relativamente passivos) e recebem uma resposta generalizada, a comunicação alternativa e/ou comunitária atinge o receptor desejado e recebe um feedback bem formulado.

          Para que sejam realizadas formas alternativas de descentralização de competências e de recursos, é necessário que o indivíduo participe com responsabilidade na sua comunidade. A comunicação é um dos principais pilares para que possa ser promovida a articulação coletiva e a conscientização no ser social para que ele possa agir unido aos outros, a fim de suprir as suas carências e de seu grupo.

          Os meios de comunicação massivos atualmente apenas transmitem informações diárias sem preocupar-se com a opinião ou a reação do receptor. Basta analisar dois aspectos dos meios de comunicação convencionais para verificar a inserção de objetivos pessoais na veiculação das informações: o primeiro é a propaganda como fonte de renda das empresas de comunicação. E o segundo aspecto está relacionado à questão dos meios de comunicação estarem ligados às famílias da burguesia brasileira, a grupos empresariais, e a políticos, que algumas vezes censuram a veiculação verídica dos fatos, temendo ferir suas imagens. (BORDENAVE, 1986, p. 84) confirma a verdadeira função dos meios alternativos: "No contexto alternativo os meios são utilizados como ferramentas de participação grupal e não de publicidade ou persuasão".

          Portanto, a comunicação alternativa se constitui como opção mais adequada para promover o diálogo e a participação, substituindo os meios comerciais e estatais de massa por meios de comunicação horizontais que permitam o acesso, a participação e até mesmo a autogestão dos meios pela população organizada.

          Os grandes meios de comunicação como rádio, TV e jornal podem ser incluídos na comunicação alternativa, "contanto que modifiquem radicalmente sua filosofia, sua estrutura interna e sua metodologia de programação, para dar espaço à participação da população em seu funcionamento e para integrar o meio de comunicação na luta pela sociedade participativa". (BORDENAVE, 1986, p. 84).

          Quando a comunicação alternativa visa promover a participação, recebe o nome de comunicação participativa ou participatória. Bordenave a caracteriza como capaz de fazer com que os produtores gerem e intercambiem suas próprias mensagens, criem conhecimento e compartilhem sentimentos, organizem-se e adquiram poder coletivo; resolvam seus problemas comuns e contribuam para a transformação da estrutura social. "A comunicação participatória é uma maneira dialógica e multilateral de fazer comunicação, dentro de qualquer processo grupal ou coletivo mais amplo, que pode ser educacional, social, político, ou técnico". (BORDENAVE, 1986, p. 85).

          As pessoas, ao participarem de uma práxis cotidiana voltada para os interesses e as necessidades dos próprios grupos a que pertencem ou ao participarem de organizações e movimentos comprometidos com interesses sociais mais amplos, acabam inseridas num processo de educação informal que contribui para a elaboração-reelaboração das culturas populares e a formação para a cidadania.

          A produção alternativa de comunicação influencia na comunidade, forma dirigentes, e cria grupos culturais. Tais produções dão a comunidade oportunidade de se expressar e se organizar, participando ativamente de todo o processo. No modelo participativo, os grupos e as comunidades passam a intervir diretamente no processo comunicacional e a emitir mensagens.

          O retorno do receptor, ou seja, o feedback não garante que houve uma comunicação participativa, a participação consiste na autogeração de mensagens dos interlocutores do processo.

          A produção cultural dos microgrupos

          O homem se caracteriza por ser um agente social, autor da sua própria história, que influencia, persuade, interage e modifica, e, sem a comunicação, o homem não disporia de outros mecanismos para traçar suas metas.

          A cultura está intrínseca ao comportamento do homem como um conjunto de produtos e atividades sociais e estes produtos culturais estão incorporados na linguagem falada e escrita, nos sinais pintados ou esculpidos, nas crenças e nos valores assimilados, nos movimentos rítmicos e padronizados do próprio corpo etc. o conceito de "cultura" se resume em modos padronizados de sentir pensar e agir.

          Já (NEOTTI, 1979, p. 27) afirma que "Grande parte dos padrões culturais fundamentais é aprendida e exercitada nos pequenos grupos", ou seja, são padrões que nascem através da comunicação direta entre pessoas que se conhecem e compartilham experiências comuns.

          No entanto, quando falamos em pequenos grupos, não há necessariamente uma referência a uma comunidade (unidades relativamente fechadas e auto-suficientes), mas abrange também os pequenos grupos de referência, freqüentemente independentes uns dos outros, e que por isso, possuem facilidade de subsistência.

          As classes populares excluídas do acesso a recursos econômicos, políticos, culturais e de comunicação, procuram formas alternativas de inserção no sistema, e conforme suas particularidades produzem meios alternativos para organizar-se melhor e participar do contexto social. São criados então padrões coletivos pela experiência comum de enfrentar os mesmos problemas.

          E (DURHAM apud NEOTTI, 1979, p. 31) esclarece que: "Numa sociedade de massa, as pessoas têm acesso a uma multiplicidade de informações fragmentadas, principalmente através do rádio e da televisão".

          Daí a importância da construção de meios alternativos que direcionem a informação, pois estas informações precisam ser compreendidas e integradas numa interpretação relativamente coerente com a do mundo em que vivem. Essa integração é feita através de um processo de elaboração coletiva.

          Nas classes populares que são vitimas da falta de escola, de participação política, de ação sindical, é apenas através da sociabilidade direta que as pessoas obtêm e ordenam os fragmentos de informação com o qual devem constituir a interpretação do seu objeto.

          Devido às camadas populares disporem de recursos escassos e problemas diferentes das demais camadas da população, elas desenvolvem comportamentos, idéias e produtos que lhes são característicos. Esses pequenos grupos selecionam e tentam integrar informações sobre a sociedade ao seu próprio modo: elaborando soluções para os problemas que enfrentam e procurando superar as limitações que uma sociedade injusta impõe à sua participação plena na vida social.

          Cultura de massa x cultura popular

          A cultura de massa é a expressão utilizada para designar o fato de um artigo ser único e exclusivamente destinado ao consumo da massa. É um produto simbólico veiculado pelos meios de comunicação massivos. Contudo, a cultura não deve ser vista apenas sob a óptica mercadológica de um mero produto: "o papel da cultura é fornecer a percepção do indivíduo, com respeito ao mundo exterior, uma tela de conceitos sobre a qual ele projeta e situa suas percepções" diz (MOLES apud BARROS, 1997, p. 28).

          O crescimento da cultura de massa iniciou-se a partir do século XIX. A democracia política e a educação popular derrubaram o velho monopólio da cultura, que pertencia à classe superior. As empresas comerciais encontraram um mercado lucrativo nas demandas culturais das massas recém-despertadas, e o avanço da tecnologia possibilitou a produção barata de livros, periódicos, quadros, música e móveis, em quantidades suficientes para satisfazer esse mercado. A tecnologia moderna também criou novos meios de comunicação de massa, como o cinema e a televisão, especialmente adaptados à manufatura e à distribuição de massa.

          A cultura de massa é fabricada pelos técnicos contratados por homens de negócios; os seus públicos são, geralmente, consumidores passivos, cuja participação se limita à escolha entre comprar e não comprar.

          Comumente entende-se cultura popular como o aprendizado cultural oriundo exclusivamente das classes menos abastadas ou, ainda, de grupos minoritários advindos de determinadas regiões com traços diversos daqueles contemplados e absorvidos comercialmente pelos consumidores em massa. É o produto simbólico consumido elaborado, difundido e consumido pelas classes subalternas.

          O conceito do termo popular geralmente é associado ao fazer desprovido do saber nas sociedades capitalistas, quando na verdade o termo popular remete aos valores culturais concebidos pelo povo.

          Há uma dicotomia na forma de como a cultura popular é encarada, enquanto para uns é um retrato do folclore, para outros, constitui-se em manifestações culturais tradicionais, como resíduo da cultura culta de outra época. No entanto, pensar a cultura popular como sinônimo de tradição é reafirmar que suas concepções e práticas não podem ser compreendidas, senão como deturpadoras ou empobrecedoras, já que aquilo que se considera como tendo vigência plena no passado, só pode ser interpretado no presente, como curiosidade.

          A cultura popular surge como uma outra cultura que por contraste ao saber culto dominante, apresenta-se como totalidade, embora sendo construída através de justaposição de elementos residuais e fragmentários.

          Uma sociedade com modo de produção capitalista convive com os valores burgueses permeando os valores das classes subalternas. Contudo, apesar dessa hegemonia, a cultura, o cotidiano e a vida dessas classes carregam propostas divergentes, propostas de classes, evidenciando luta e resistência. Portanto, a dominação direta da cultura de massa sobre a cultura popular, não é totalitária e inescapável.

          O uso da linguagem

          Para se comunicar, a forma mais utilizada pelo ser humano é através da linguagem, por seus aspectos descritivos, cognitivos ou emotivos e suas funções de representação e de provocação ou de modificação do comportamento. A linguagem está situada na esfera do comportamento geral, sendo ela própria um de seus elementos; nenhum dos locutores inventou o meio de comunicação que está utilizando, mas cada um recebeu-o do grupo ou sociedade a que pertence.

          As pessoas têm suas maneiras de pronunciar palavras, em resultados de diferenças regionais, sociais ou individuais, mas isto não significa que tais diferenças sejam inteiramente não-pertinentes; elas certamente são pertinentes quando encaradas de um ângulo sociológico, psicológico ou cultural e o importante é que a mensagem seja inteligível e contenha um significado que possa ser aprendido.

          Os processos mentais dos indivíduos são profundamente condicionados pela pressão exercida pela sociedade sobre ele, e os conceitos de realidade do grupo a que ele pertence, o qual funciona também como um grupo de referência em relação aos que estão fora dele. "O meio de comunicação usado por cada sociedade dá-lhe a sua própria fisionomia individual" (ARANGUREN, 1975, p. 35).

          A comunicação, as linguagens e as diversas manifestações da cultura popular, que envolvem um processo complexo de intercâmbio de idéias, informações e sentimentos, mediante a utilização de linguagens verbais e não-verbais e de canais naturais e artificiais empregados para obtenção da soma de conhecimentos e experiências necessárias à promoção da convivência ordenada e do bem-estar coletivo devem ser consideradas.

          Ao analisar a relação entre comunicação e cultura é preciso considerar as diversificadas regiões do Brasil com todas as suas particularidades e complexidades.

          Rádio União: cidadania na favela

          Objetivando relacionar teoria e prática comunicacional popular e/ou comunitária as alunas Amanda Machado de Ataíde Lima e Sally Rose Barros Vieira do 4º ano de jornalismo do Curso de Comunicação Social da UFAL, realizaram durantes cerca de um mês uma intervenção na Favela denominada Cidade de Lona, e a partir das reflexões resultantes da ação de comunicadoras comunitárias naquela favela elaboraram o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) denominado A comunicação alternativa como processo de inserção social em uma comunidade periférica de Maceió.

          Pela riqueza de suas reflexões o mesmo foi indicado pela banca examinadora para publicação devido à relevante contribuição do trabalho teórico-prático na área de comunicação comunitária em Alagoas. Na favela Cidade de Lona aproximadamente 3 mil pessoas vivem em estado de completa miséria, analfabetismo e abandono e apresentam elevado quadro desnutricional, pois sobrevivem com renda familiar de R$ 90,00 por mês (cerca de US 30 por mês) índice muito abaixo do nível de miséria pelos critérios da ONU.

          Moram naquele local há 5 anos e habitam em 600 barracas de lona preta, com 3 metros quadrados de área que abriga em média famílias com 5 pessoas. Tal população de miseráveis é composta de retirantes que fogem da seca, da fome e da miséria do sertão alagoano e tentam uma vida melhor na capital, Maceió. No local existe um barracão de alvenaria, de 8 metros quadrados construído com verbas do CNPq, da Pró-Reitoria de Extensão e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas (FAPEAL) que serve como ponto de apoio para a realização de ações extensionistas nas áreas de nutrição e medicina social.

          Há aproximadamente 4 meses conseguimos verbas para implantação de um sistema de comunicação alternativa, por meio de 2 alto-falantes, o qual foi denominado pelos moradores de Rádio União. A Rádio União foi o primeiro passo para a inserção de estudantes de comunicação no processo de difusão sobre informações em saúde pública, medicina social e de cidadania naquela favela, situada no Bairro Eustáquio Gomes, a menos de 4 km da universidade.

          O propósito da rádio é servir de canal para o desenvolvimento daquela comunidade, desprovida de informação, entretenimento e educação. Vários estudantes de jornalismo, nutrição, serviço social e medicina social foram convidados para co-participarem na produção e gestão deste meio de comunicação.

          A rádio começou a funcionar, de fato, no dia 11 de janeiro de 2004, das 14h30 às 17h, de segunda à sexta, (exceto às quartas-feiras) já que o centro comunitário, onde está instalada, fica ao lado, de uma subcongregação da Assembléia de Deus, e o funcionamento da rádio coincidiu com o horário do circulo de oração da Igreja. Faz-se no estudo dos alto-falantes nessa comunidade um paradigma, para, de sua análise, retirar os elementos que ajudem a elucidar e compreender como a comunicação comunitária se articula com os movimentos populares e sua atuação em prol da educação e saúde populares.

          Nosso objetivo é relatar as experiências adquiridas com a convivência na comunidade, sem desviar o enfoque de que o paradigma da comunicação comunitária fortalece a função educativa e de ações organizadoras das classes subalternas. Portanto, é mais uma tentativa de rompimento que vai de encontro ao modelo da comunicação vertical.

          Democratização da comunicação

          As classes populares não estão interessadas em apenas assistir a exposição da sua realidade, elas querem participar, querem discutir soluções para sanar os problemas que assolam sua comunidade. A promoção de debates junto às comunidades, com a presença de especialistas da área, socializa o direito de cada cidadão à informação, para que a partir de então, possam construir uma nova realidade.

          A fim de erradicar o monopólio das comunicações, o ideal seria a criação de conselhos formados por representantes dos partidos políticos, das igrejas, das ONG's, associações de moradores, e da sociedade em geral, para que interferissem no controle social da informação, já que a informação é um direito social e, não pode ser, absolutamente, apropriado pela elite, instituições privadas e grupos políticos.

          Quando um veículo de comunicação cede espaço às comunidades carentes para exporem suas dificuldades, àquele veículo é denominado de assistencialista, quando, de fato, o principal objetivo da comunicação é retratar a dura realidade dos brasileiros, principalmente, daqueles que mais padecem. Segundo (NOVAES, 1983, p. 29) "Nós temos que pluralizar a informação. Não podemos caminhar na direção da uniformização. Talvez a maior riqueza brasileira seja, realmente, a sua diversidade cultural e essa criatividade popular que já não têm onde se expressar".

          A sociedade precisa ter influência, participação. Os meios de comunicação falam com a sociedade, mas a sociedade não fala com os meios de comunicação, porque não tem como se expor. Há uma apropriação da informação para transformar em poder político ou econômico, se não houvesse uma manipulação da informação, poderíamos sim, considerar que vivemos em uma sociedade igualitária, pois reconhece (NOVAES, 1989, p. 31) "Como é que o Brasil pode se transformar e chegar a ser uma sociedade realmente democrática se os interesses de 180 milhões não entram sequer em cogitação, não aparecem na comunicação".

          A democratização é um fator fundamental para que haja uma comunicação eficiente, pois quando comunicar-se abertamente se tornar um direito de todos, os deveres dos cidadãos passarão a ser praticados com mais consciência e maior freqüência.

          Os alto-falantes

          O termo comunicação popular designa a comunicação desenvolvida no âmbito dos movimentos de base ou popular (das mulheres, das associações de moradores, das pastorais, etc), onde são produzidos boletins mimeografados, panfletos, rádios de alto falantes, etc. essa comunicação popular é para transformar o processo de recepção, é interativo, é uma constante troca de negociação de símbolos.

          O velho sistema de alto-falantes se sobressai diante de um país cuja população é "analfabeta" e falam línguas diversas já que comunicar-se de forma alternativa suplanta as dificuldades do analfabetismo visto que os meios alternativos usam uma linguagem de fácil acesso e voltada exclusivamente para os marginalizados, os deficientes e iletrados. É um claro exemplo de comunicação horizontal que tem muito a contribuir para a construção da consciência democrática e o para o exercício da cidadania.

          Os alto-falantes constituem verdadeiras rádios locais operadas pelos próprios moradores, é a forma mais viável da comunidade criar, usufruir e participar do seu próprio sistema de informação. O sistema deve se expandir dentro da comunidade; não se restringindo apenas aos técnicos e à equipe central, mas criando possibilidades para a participação.

          Produção e gestão participativa

          Nos movimentos se desenvolvem experiências de uma comunicação que pode ser denominada de popular ou comunitária, a qual evidencia características próprias, entre elas, o exercício da participação direta. Ali se faz possível que os receptores das mensagens dos meios de comunicação se tornem também produtores das mesmas, se tornem emissores do processo de comunicação.

          A participação na comunicação é um mecanismo facilitador da ampliação da cidadania, uma vez que possibilita a pessoa tornar-se sujeito de atividades de ação comunitária e dos meios de comunicação ali forjados, o que resulta num processo educativo. A pessoa inserida nesse processo tende a mudar o seu modo de ver o mundo e de relacionar-se com ele. Tende a agregar novos elementos à sua cultura.

          Os meios de comunicação comunitários/populares, geralmente, têm assim o potencial de ser, ao mesmo tempo, parte de um processo de organização popular e canais carregados de conteúdos informativos e culturais, além de possibilitarem a prática da participação direta nos mecanismos de planejamento, produção e gestão. Contribuem, portanto, duplamente para a construção da cidadania. Oferecem um potencial educativo enquanto processo e também pelo conteúdo das mensagens que transmitem.

          Por seus conteúdos podem dar vazão à socialização do legado histórico do conhecimento, facilitar a compreensão das relações sociais, dos mecanismos da estrutura do poder (compreender melhor as coisas da política), dos assuntos públicos do país, esclarecer sobre os direitos da pessoa humana e discutir os problemas locais.

          A participação das pessoas na produção e transmissão das mensagens, nos mecanismos de planejamento e na gestão do veículo de comunicação comunitária contribui para que elas se sintam capazes de fazer aquilo que estão acostumadas a receber pronto, se tornam protagonistas da comunicação e não somente receptores.

          Os veículos de comunicação produzidos por setores organizados das classes subalternas, ou a elas organicamente ligados, acabam por criar um campo propício para o desenvolvimento da educação para a cidadania. As relações entre educação e comunicação se explicitam, pois as pessoas envolvidas em tais processos desenvolvem o seu conhecimento e mudam o seu modo de ver e relacionar-se com a sociedade e com o próprio sistema dos meios de comunicação de massa. Apropriam-se das técnicas e de instrumentos tecnológicos de comunicação, adquirem uma visão mais crítica, tanto pelas informações que recebem, quanto pelo que aprendem através da vivência, da própria prática.

          Por exemplo, a seleção de notícias que a pessoa se vê obrigada a fazer na hora de organizar o noticiário na rádio comunitária, bem como os demais mecanismos que condicionam o processo de produzir e transmitir mensagens com os quais se depara cotidianamente, lhe tiram a ingenuidade sobre as estratégias e as possibilidades de manipulação de mensagens pelos grandes meios de comunicação de massa. Ela passa a conhecer as possibilidades de seleção das mensagens, os conflitos de interesses que condicionam a informação ou a programação, a dinâmica do mercado publicitário, além da força que tem um veículo de comunicação, tal como o rádio, o jornal, a televisão etc.

          As dimensões da inserção na dinâmica local, no conteúdo das mensagens e na participação em todas as fases do processo comunicativo, em geral, acontecem interligadas e se configuram como o ideal em termos de ação educomunicativa no âmbito dos movimentos comunitários.

          Conclusão

          A comunidade se trata de uma unidade territorial, onde interagem diversos atores e se enfrentam necessidades, problemas e conflitos comuns. Os habitantes que vivem, trabalham ou transitam por ela, têm a possibilidade de convertê-la em um espaço real para o desenvolvimento local.

          Os atores sociais diversos são sujeitos que desenvolvem uma ação no espaço territorial. Podem ser sujeitos individuais (dirigentes, líderes, personagens, comunicadores); coletivos (grupos, organizações sociais, associações) ou institucionais (a prefeitura, a paróquia, o governo do Estado). A constituição, perfil e projeção desses atores são diferentes e complementares. Também podem entrar em conflito. Por isso, é necessário conhecê-los: quem são, seus interesses e as estratégias de inserção na comunidade. É fundamental envolver os sujeitos que vivem na favela Cidade de Lona visando uma ação transformadora por meio das práticas de comunicação alternativa e/ou comunitária.

          Notas

1) As jornalistas Amanda Machado de Ataíde Lima e Sally Rose Barros Vieira, co-autoras deste trabalho, eram orientandas do prof. Dr. Antonio Francisco R. de Freitas no curso de Jornalismo da UFAL, em 2003.

          Referências bibliográficas

ARANGUREN, J. L. Comunicação humana: uma sociologia da informação. Rio de Janeiro: Zahar, 1975.

BARROS, Laan Mendes de. Comunicação e educação numa perspectiva plural e dialética. Nexos: Revista de Estudos de Educação e Comunicação, p. 19-38, São Paulo: Universidade Anhembi-Morumbi, 2º sem. 1997.

BORDENAVE, Juan E. Díaz. Além dos meios e mensagens: introdução à comunicação como processo, tecnologia, sistema e ciência. 3 ed. Petrópolis: Vozes, 1986.

BORDENAVE, Juan E. Diaz. O que é comunicação. São Paulo: Nova Cultura, 1986.

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Antonio Francisco R. de Freitas
Jornalista. Publicitário. Especialista em Língua Portuguesa. Mestre em Letras. Doutor em Ciência da Linguagem. Professor adjunto do Curso de Comunicação Social da UFAL- Universidade Federal de Alagoas. Pesquisador do CNPq e da FAPEAL. Membro do Núcleo de Estudos, Pesquisa e Extensão em Comunicação e Informação (NEPEC) e do Laboratório de Educação Popular em Saúde (LEPS), integrante do Núcleo de Saúde Pública (NUSP/UFAL).

Amanda Machado de Ataíde Lima
Jornalista, formada pela UFAL em 2003.

Sally Rose Barros Vieira
Jornalista, formada pela UFAL em 2003.

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