
Um
olhar sobre a história da Comunicação e Saúde
Conceição Sanches*
(...)
o que me é dado sob a aparência de saber não
é sequer o próprio saber, mas sua caricatura banalizada
e vulgarizada; recebo, sob a forma de informação,
uma versão degradada de um saber que desconheço
tanto no nível de sua produção quanto no
de seu consumo. (Marilena Chauí)
Muitos
obstáculos dificultam a popularização da
ciência. Dentre eles, destaca-se a crença historicamente
construída de que a ciência solucionaria os problemas
da humanidade e promoveria uma sociedade mais justa. Contudo,
um breve olhar sobre os fatos que casam impacto sobre o conhecimento
científico nos dá o panorama das relações
entre a ciência e o poder constituído.
Com
a Revolução Industrial, a burguesia tomou o poder
e o conhecimento científico se agregou ao poder econômico
(BOYD,1987: 18). Durante a Renascença, a pesquisa, gerada
nas universidades, foi se tornando mais especializada. Porém,
seus resultados não foram divulgados, impondo a elitização
da comunicação e do acesso ao conhecimento e instaurando
a dominação que sempre acompanha a falta de comunicação
e sustenta os regimes autoritários. No Século XIX,
o Positivismo apregoa o sentido utilitário da ciência
para a satisfação material do Homem (BIZZOCCHI,
1999: 27-30). Mas, mesmo a atualidade ainda não conhece
essa humanização do conhecimento científico.
É
evidente que a função social da ciência na
produção de conhecimento é indispensável
para o desenvolvimento e sustentação da sociedade
(VALE, 1996: 31). Porém, muitas vezes, o fazer científico
obedece a interesses estranhos ao da própria ciência.
As comunidades científicas se perpetuam forjando novos
cientistas, que se formam sob suas normas. Essas comunidades arbitram
suas próprias práticas e, normalmente se fecham
em si mesmas, já que raramente têm interlocução
com as demais esferas da sociedade. Isso decorre de vários
fatores, dentre os quais se destaca a linguagem pautada pelo alto
grau de especialização (KÜHN apud EPSTEIN,
2002: 84-92).
A
aquisição dessa especialização característica
do conhecimento científico é uma atribuição
do ensino de Nível Superior (RUTHERFORD, 1999: 71). Em
muitos países, desenvolvem-se projetos que aliam o empenho
de cientistas e educadores para a promoção da divulgação
científica (LANNES et al, 1998: 26). No Brasil, percebe-se
que, muitas vezes, as instituições de Ensino Superior,
tanto públicas como particulares, comportam-se de forma
indiferente em relação às necessidades das
comunidades a que pertencem (TARGINO, 1997: 250-60). Além
disso, as modas intelectuais e a falta de notícias sobre
ciência e tecnologia produzidas no Brasil impõem
a publicação de informações a respeito
de acontecimentos científicos oriundos de outros países
e que não têm a capacidade de mobilizar a opinião
pública nacional. Isso contribui para agravar a dependência
brasileira aos países centrais e serve de meio de manutenção
e manipulação do poder. Essa problemática
da comunicação da ciência, na visão
de CHAUÍ (1983:59), indica que este é por vezes
um tema que intimida mais os especialistas do que a ciência
em si mesma.
Em
nosso país, não é comum que a comunidade
científica tome para si a tarefa de divulgar o conhecimento
científico, salvo raras e honrosas exceções.
Esse contexto é influenciado pela escassez de recursos
e o reduzido número de cientistas, o que contribui para
dificultar ainda mais algumas louváveis iniciativas nessa
direção (LANNES et al, 1998: 199). Além disso,
vale lembrar que as pesquisas são financiadas pelo Estado
e, em grande parte, pela iniciativa privada, que nem sempre tem
interesse em divulgar os resultados de suas pesquisas (BIZZOCCHI,
1999: 51).
Pouco
se sabe a respeito de como os cidadãos leigos julgam o
fazer científico. Para GOULD (1998: 812) parece prevalecer
o consenso de que:
a
ciência é monolítica, incompreensível,
desprovida de alma, e basicamente má para nós, forma
o núcleo de um paradoxo central dos nossos tempos: a ciência
se tornou menos popular e mais temida, apesar de sua influência
e relação intrínseca com a nossa vida e atividades
quotidianas; menos perseguida e acalentada, embora cada vez mais
essencial à base da educação de todos os
seres humanos.
Essa
crítica ao comportamento da comunidade científica,
muitas vezes, provém dessa própria comunidade, pois
a ciência da atualidade ainda não conseguiu se colocar
como promotora de igualdade social (BIZZOCCHI, 1999: 51). Ao contrário,
manifesta-se mais como instrumento de intimidação
sócio política, o que se constata na noção
de competência proposta por CHAUÍ (1983:58) não
é qualquer um que pode dizer qualquer coisa a qualquer
outro em qualquer lugar e sob qualquer circunstância.
Para
FOUREZ (1995: 903-15), uma ciência se origina de uma rede
de interesses. Todavia, seus paradigmas, seu conjunto de regras
e as representações que regem seu surgimento, não
são culturalmente neutros. FEYERABEND (1975) considera
que a ciência é a religião dos cientistas
pois ambas se valem da retórica, do carisma e do apelo,
que forjam um modelo comunicacional controverso. Para BIZZOCCHI
(1999:29), os intelectuais, com a elitização
da ciência, terminaram isolados, inatingíveis, desconectados
do contexto social e não compreendidos pela comunidade
em benefício da qual a atividade científica se justifica.
Os
estudiosos da história da ciência consideram que
o distanciamento entre o conhecimento produzido pela ciência
e o público é a forma que a comunidade científica
encontrou para manter seu status. CHAUÍ chega, inclusive,
a questionar a utilidade da pesquisa científica no contexto
brasileiro.
A
aquisição do conhecimento científico pelo
público leigo é um instrumento de democratização
que alimentaria o debate público a respeito de problemas
importantes para a sociedade. Além disso, previniria a
centralização das decisões pelos tecnocratas
e influenciaria melhor qualidade de vida (EPSTEIN, 2002: 98-100).
Em
decorrência desse panorama, cabe perguntar que poder de
influência tem a comunidade cientifica brasileira para agir
sobre a Comunicação e Saúde. Para TARGINO
(1997: 252-62), contudo, essa é uma questão equacionável,
já que o conhecimento científico é passível
de formalização para ser divulgado e essa tarefa
cabe ao Jornalismo Científico.
No
que se refere ao Jornalismo Científico dedicado à
saúde, embora se saiba que a relação entre
esses dois campos do conhecimento seja antiga, não se pode
determinar exatamente quando ocorreu a convergência entre
ambos e se inaugurou a interface Comunicação e Saúde.
Para
BELTRÁN (2001: 355-7), os primeiros indícios da
construção do conceito de Comunicação
e Saúde remontam ao século XIX, entre 1820 e 1840,
quando os médicos Willian Alison, escocês, e Louis
René Villermé, francês, estabeleceram as relações
causais entre doença e condições sócio-econômicas
e culturais do povo. Esses médicos consideraram que as
precárias condições de vida e trabalho dos
operários eram responsáveis pelas enfermidades que
os acometiam e pela baixa expectativa de vida registrada entre
eles. BELTRÁN considera que, na visão desses médicos
está implícita a origem do conceito de Comunicação
e Saúde, já que privilegiavam a comunicação
como ferramenta de promoção da saúde.
Uma
personagem de destaque neste contexto é a enfermeira Florence
Nightingale (1), cujo sucesso das medidas que adotou levaram-na
a criar, em 1860, no St. Thomas Hospital, em Londres, a primeira
escola de enfermagem que se tornou modelo do ensino da profissão
no Ocidente. Por isso, é considerada como um marco no surgimento
da comunicação humanista com cuidados em saúde.
Atualmente,
o ideal de Nightingale quanto à importância da comunicação
nos tratamentos de saúde já tem muitos adeptos.
Para REBECCA BEBB, apud ZINN et al, do Hospital Universitário
de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo
- USP, a comunicação é parte do tratamento
do paciente.
Em
1848, na Alemanha, por causa do conturbado clima político
da Europa, forja-se um movimento de reforma da medicina que proclama
que a saúde do povo é responsabilidade de toda a
sociedade, e não somente da medicina. Por isso, passa a
ser, ao menos teoricamente, dever do Estado assegurá-la.
Essa convicção se apoiou na afirmação
do médico Rudolf Virchow (2), que atribuiu a epidemia de
febre tifóide de 1947 à pobreza e à falta
de acesso às informações para a adoção
de hábitos saudáveis a que era relegada a maioria
da população. Para ele, as condições
sócio-econômicas têm impacto direto sobre a
saúde e seus efeitos devem merecer tratamento científico.
Além disso, considerava ainda que medidas médicas
e sociais devem ser adotadas para a promover a saúde e
prevenir doenças. Esse é um posicionamento inovador
para a época.
EPSTEIN
(2002: 95-100) considera que, atualmente, para a maioria da população
mundial, as informações sobre os acontecimentos
no mundo da ciência só são acessíveis
quando intermediadas pelos meios de comunicação
de massa e que o cidadão comum obtém mais informações
sobre saúde pela mídia que pela educação
oferecida pela escola. Além disso, dentre as informações
científicas, os temas relacionados à saúde
causam maior impacto sobre o cotidiano.
Evidentemente,
esses preceitos só começaram a merecer atenção
recentemente. Em 1940, o médico Henry Sigerist (3) analisou-os
criticamente e os sistematizou, afirmando que a promoção
da saúde e a prevenção de doenças
devem ser obtidas pela coordenação de esforços
de médicos, educadores, industriais e trabalhadores. Suas
idéias não frutificaram em sua época. Contudo,
encontraram eco na OMS - Organização Mundial de
Saúde - que adotou como conceito que a saúde
é um bem-estar físico, mental e social e não
simplesmente a ausência de enfermidades.
Em
1947, o governo do Canadá adotou o enfoque de promoção
da saúde por meio da educação, enfatizando
a prevenção e privilegiando a comunicação
como caminho estratégico, já que considerava a orientação
do povo indispensável para a gerência da saúde
pública, tão onerosa ao Estado.
Em 1978, a necessidade de instrumentalização da
Comunicação e Saúde já se delineia
com mais clareza, pois a visão preventiva tomou fôlego
com a Declaración de Alma-Ata, fruto da cooperação
de 134 países reunidos pela UNICEF e pela OMS, que concordaram
que o povo tem o direito e o dever de participar individual
e coletivamente no planejamento de políticas de saúde.
Era a adoção da comunicação como estratégia
de divulgação das informações sobre
saúde para as grandes massas.
Em
1979, os Estados Unidos adotaram a prevenção como
principal forma de manutenção da saúde da
população, reforçando a convicção
de que a Comunicação se constitui como ferramenta
de divulgação indispensável para alcançar
os objetivos de programas de ação governamental
em Saúde.
No
Brasil, muito da história da Comunicação
para a promoção da saúde da população
se perdeu, impossibilitando o aproveitamento da experiência
brasileira neste campo. PORTO & PONTES (2003) consideram esse
fato com pesar, já que nesse material estão registrados
os ambientes onde os procedimentos de prevenção
e cura eram postos em prática; os veículos e estratégias
de convencimento e comunicação de massa, bem como
o conhecimento e as crenças que se tinha a respeito das
doenças e dos recursos usados para combatê-las. Para
os autores:
Tal
fato deve-se, entre outras razões, à ausência
no âmbito da administração pública,
de uma política efetiva de arquivos que oriente e estimule
a preservação criteriosa de acervos e a sistematização
de informações, propiciando a perda de registros
relevantes e agravando os problemas decorrentes do elevado grau
de dispersão das fontes primárias disponíveis
sobre o tema.
No
Brasil, o uso da comunicação como ferramenta para
os profissionais de saúde, embora antigo, só tomou
fôlego a partir de 1960. Antes dessa época, as ações
que aliavam Comunicação e Saúde para a promoção
de ações sanitárias e de saúde pública
eram pautadas por meio práticas coercitivas e repressivas,
como ilustra bem o episódio conhecido como a Revolta da
Vacina, que entrou para a história da Comunicação
e Saúde como um movimento popular que ocorreu em 1904,
no Rio de Janeiro, contra a vacinação obrigatória
de combate à varíola determinada pelo governo.
Naquela época, o Rio de Janeiro era a maior cidade do país,
contudo não dispunha de saneamento básico e isso
deixava seus 720 mil habitantes vulneráveis a epidemias
de febre amarela, varíola e outras doenças, sendo
a população pobre a principal vítima dessas
moléstias. O presidente Rodrigues Alves apóia os
planos do então Prefeito Pereira Passos para a urbanizar
a cidade e nomeia Osvaldo Cruz para comandar o Departamento Nacional
de Saúde Pública e promover a reforma sanitária.
Contudo, como não houve comunicação entre
o governo e a população, o povo não entende
o teor dessas medidas e reage a elas. A remoção
dos moradores dos cortiços e morros para outros bairros
provoca grande tensão social.
Apesar
disso, a lei que torna a vacina contra a varíola obrigatória
é aprovada pelo Congresso Nacional em 31 de outubro de
1904. Em 5 de novembro, nasce a Liga contra a Vacina Obrigatória,
e, em 10 de novembro, iniciam-se os confrontos entre populares
e forças policiais. No dia 14, os cadetes da Escola Militar
da Praia Vermelha rebelam-se contra o Governo Federal. Em 16 de
novembro, Rodrigues Alves revoga a Lei da Vacina Obrigatória.
No dia seguinte, a polícia ocupa o bairro da Saúde
e, com o apoio do Exército e da Marinha, acaba com a revolta.
(4)
Depois
desse impacto social provocado pela obrigatoriedade da vacina,
as ações sanitárias passam a agregar os conceitos
de Comunicação e Saúde. É assim que
técnicas comunicacionais de esclarecimento e persuasão
são adotadas com o intuito de superar as resistências.
Isso se verifica em 1920, durante a Reforma Carlos Chagas, que
aliou técnicas comunicacionais de propaganda nas atividades
sanitárias da campanha (PITTA, 1994).
Em
1925, em São Paulo, ocorre a Reforma Paula Souza, que já
privilegiava a comunicação e usava a persuasão
do indivíduo, como instrumento para a formação
de uma consciência sanitária. Criou-se o Centro de
Saúde como espaço de prática, no qual se
ministravam palestras e se usava até a projeção
de fitas cinematográficas para educar a população
pobre sobre os preceitos da boa higiene, da boa nutrição
e da boa dietética (RIBEIRO, 1993: 259). Para esse autor
(246),
(...)
o eixo dessa nova orientação deslocou-se do policiamento
para a educação e as ações sanitárias
transferiram-se da população em geral para o indivíduo
em particular. Com isso, na prática sanitária, o
policiar as coisas, habitação, água, esgoto,
lixo, o vigiar a cidade ganhava um novo aliado - a persuasão
do indivíduo, o uso das palavras para forjar no indivíduo
a consciência sanitária, a prática sanitária
definiu-se como policiar e persuadir.
Vale
lembrar que em 1923, Roquete Pinto funda o rádio, que passa
a ser uma ferramenta de Comunicação e Saúde,
pois difunde palestras e conferências, conforme afirma ASSUMPÇÃO
(5). Com relação a isso, CHAGAS DE CARVALHO (1989:
78-9) menciona:
(...)
A formação de hábitos saudáveis era
objeto de atenções especiais. A saúde não
era somente um dos temas preferidos das preleções
cívicas nas festividades, como também objeto de
celebração em inúmeras competições
esportivas oferecidas em espetáculos como modelos exemplares
de comportamento. (...) Preceitos de higiene eram divulgados em
palestras e folhetos ou constituídos, ainda, pelo incentivo
à organização de Pelotões de Saúde,
em preceitos cívicos de bom comportamento.
Nesta
mesma perspectiva, DÂNGELO (1994:41), em sua dissertação
de mestrado defendida na PUC-SP, a respeito das rádios
educativas no período compreendido entre 1920 e 1940, afirma:
A
institucionalização dos efeitos moralizantes preconizados
pela Escola Nova, encontraram eco com a criação
de órgão específico no Manifesto da Educação
e Saúde, que se utilizava de todos os meios de comunicação
que a técnica moderna apontava, para levar às massas
os conhecimentos e as informações, que lhes proporcionassem
melhores condições de vida (...).
É
evidente que todas essas estratégias de Comunicação
e Saúde se pautavam no modelo comunicacional de Lasswell,
que se articula no binômio Estímulo-Resposta. No
panorama desenvolvimentista dos anos 50 e 60, esse modelo ficou
conhecido como comunicação para o desenvolvimento.
PAULO FREIRE (1975: 22) considera que
(...) isso se contrapõe à busca de uma educação
libertadora, o que impede a sobreposição de um saber
sobre outro. (...) essa ação extensionista envolve,
qualquer que seja o setor em que se realize, a necessidade que
sentem aqueles que a fazem, de ir até a outra parte do
mundo, considerada inferior, para à sua maneira, normalizá-la.
Contudo, essas concepções, mesmo atualmente, ainda
parecem hegemônicas no campo da Comunicação
e Saúde, já que se constatam freqüentemente
práticas cujo intuito é somente o de modificar o
comportamento do indivíduo por meio da mera intimidação.
Ainda no enfoque de FREIRE (1975: 69), para que as estratégias
de Comunicação e Saúde atinjam seus objetivos
é preciso considerar que:
(...)
a educação não é a transferência
de saber, mas um encontro de sujeitos interlocutores que buscam
a significação dos significados (...). A educação
é comunicação, é diálogo.
FREIRE
considerou a necessidade de repensar o enfoque dominante das práticas
de Comunicação e Saúde, pois entendeu comunicação
como um processo de troca simbólica, lugar de uma mensagem
e de uma resposta, no qual os papéis de falante e ouvinte
são intercambiáveis. Para CYRINO (1997: 159) (6),
as produções simbólicas se assumem
enquanto tal, seja remetendo a um processo permanente de interlocução,
envolvendo os interlocutores numa constante interação
simbólica ou divulgando de modo explícito e transparente,
uma dada postura ideológica no campo da saúde.
Nos
anos 80, no Brasil, o resgate do estado democrático se
reflete no setor da saúde com a reforma sanitária
e com a legitimação constitucional do direito social
à saúde. Esse novo contexto impõe novas necessidades
para os domínios da Comunicação e Saúde,
pois o SUS - Sistema Único de Saúde tem uma estrutura
que permite, até certo ponto, a participação
da sociedade. A esse respeito, CYRINO (1997: 160) considera que:
Neste
contexto passa-se a valorizar o direito à informação
como condição básica para o exercício
pleno da cidadania e a buscar práticas e meios adequados
a sua difusão. Mas ao identificar-se a necessidade de não
só tornar a informação disponível
mas compreensível pela maior parcela possível da
população, há uma aproximação
da área de informação com os campos da comunicação
e da educação em saúde.
Essa
aproximação entre a Comunicação e
a Saúde facilita a interlocução entre o serviço
público de saúde e a população. Contudo
essa interloução se articula sobre o eixo da informação
para o controle social, enfatizando a disseminação
das informações e os meios usados para sua produção
e difusão. Para TEIXEIRA (apud CYRINO 1997: 161), este
eixo não é tão limitante se for observado
como passo inicial para a interação entre o serviço
público de saúde e os usuários e não
como um fim em si mesmo. Além disso, vale lembrar também
que as produções desse período apontam para
perspectivas comuns de desafios trazidos a diferentes áreas
do saber, como a Saúde e a Comunicação que,
juntas, incorporam um viés mais antropológico em
suas rotinas, o que evidencia a predisposição para
entender o cidadão.
Contudo,
no que se refere à Comunicação e Saúde,
no Brasil, percebe-se que esta subárea do Campo da Comunicação
tem se robustecido e legitimado pela criação de
programas de pós-graduação e de diversas
publicações científicas. Além disso,
os profissionais de divulgação em Comunicação
e Saúde têm-se organizado em associações
nacionais e internacionais e promovido eventos. Isso concorre
para reforçar sua consolidação. Para SILVA
PINTOS (2000:122), do Uruguai, a relação entre Comunicação
e Saúde vem se afirmando paulatinamente nos últimos
anos; profissionais destes campos reconheceram e provam que a
articulação entre Comunicação e Saúde
se constitui em ferramenta que afeta de maneira direta a saúde
e, em um sentido mais amplo, a qualidade de vida dos indivíduos,
das famílias e das sociedades. Para ela:
La
Communicación para Salud (o Communicación y Salud)
refiere no solo a la difusión y análisis de la información
- actividad comúnmente denominada periodismo científico
o periodismo especializado em salud -, sino que refiere también
a la produción y aplicación de estratégias
comunicacionales -masivas y comunitárias - orientadas a
la prevención, protección sanitária y a la
promoción de estilos de vida saludables, así como
al diseño e implemento de políticas de salud y educación
más globales.
Ao
lado dessa conscientização de que a comunicação
constitui-se como ferramenta estratégica para a obtenção
de sucesso das políticas de saúde pública,
tanto no que se refere à adoção de práticas
de manutenção da saúde como às de
cura de doenças, a sociedade foi se articulando e forjando
os instrumentos, na tentativa de assegurar que as informações
referentes à saúde tivessem maior penetração
junto à população, já que os gastos
com saúde são vultosos para os governos, planos
de saúde e pra a população, em geral.
Para BELTRÁN (2001: 363), é indispensável
o diálogo entre povos e governos, especialistas e leigos
e entre países pobres e ricos para que a promoção
da saúde. Esse é um compromisso que deve ser articulado
pelos comunicadores, que, utilizando-se de diversas estratégias
e de múltiplos meios, interpessoais e massivos, estejam
cientes de que os públicos-alvos compõem um espectro
tão amplo que demandam dos comunicadores a segmentação:
Em
principio, la promoción aspira a llegar a toda a población,
pero tiene que hacerlo dirigindóse, em varias formas y
en distintos grados, a diversas sub-audiencias com distintos propósitos
específicos.
Percebe-se, atualmente, um crescente interesse do grande público
pela informação científica provinda da área
da saúde, exemplo disso são os cadernos e as editorias
segmentadas dos veículos de maior penetração
que têm se preocupado com sua divulgação.
No âmbito do debate acadêmico, podemos citar as sete
edições da COMSAÚDE - Conferência Brasileira
de Comunicação e Saúde, promovidas pela Cátedra
UNESCO de Comunicação para o Desenvolvimento Regional
e pela Universidade Metodista de São Paulo que tem proporcionado
acumulação e o debate do conhecimento produzido.
Notas
1) http://www.google.com/search?q=cache:TK-WgadIyuAJ:pt.wikipedia.org/wiki
/Florence_Nightingale+Florence+Nightingale&hl=pt-BR&lr=lang_pt
2)
Médico e ativista político ligado às lutas
pela melhoria das condições de vida e saúde
da população de sua época.
3)
Médico francês, formado na Suíça e
radicado nos Estados Unidos. Catedrático da Universidade
John Hopkins e da Universidade de Yale, consagrado como o maior
historiador da medicina de todos os tempos.
4)
http://www.google.com/search?q=cache:pigAq_HYn48J:geocities.yahoo.com.br
/vinicrashbr/historia/brasil/revoltadavacina.htm+%22revolta+da+vacina%22&hl=pt-BR&lr=lang_pt
5)
http://www.google.com/search?q=cache:z1kbstBvhksJ:www.jornalismo.ufsc.br
/redealcar/anais.htm+%22O+r%C3%A1dio+ontem+e+hoje:+promotor+de+educa%C3%A7%C3
%A3o+e+de+cultura%22++%22Zeneida +Alves+de+Assump%C3%A7%C3%A3o%22&hl=pt-BR&lr=lang_pt
6)
http://www.interface.org.br/revista1/artigo4.pdf.
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ZINN, Gabriela Rodrigues, SILVA,
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Conceição Sanches
Mestre e doutoranda em Comunicação Social pela
UMESP - Universidade Metodista de São Paulo.
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