Volume 2
Número 2

20 de julho de 2005
 
 * Edição atual    

          Os vários discursos do discurso jornalístico sobre saúde

Elisa Kopplin Ferraretto*

          Uma abordagem do jornalismo sobre saúde na mídia impressa pela ótica da análise de discursos proporciona múltiplas reflexões sobre esse tipo de cobertura. O objetivo do presente artigo é centrar-se em uma delas: o fato de estarem presentes, em um discurso sobre saúde, múltiplos discursos, que são ordenados não só pelas regras inerentes à prática jornalística, mas também segundo condições dadas pelo exercício do poder e pela ideologia que permeiam as relações sociais.

          É importante esclarecer, antes de mais nada, que essa constatação remete a uma visão particular do jornalismo, a qual foge à idéia tradicional de que a notícia espelha a realidade para os leitores, a partir da observação e do relato dos fatos pelo jornalista de forma objetiva e neutra. A visão que estamos levando em consideração tem três pressupostos fundamentais: a condição simbólica da atividade jornalística, a caracterização da língua como fator de interação social e o dialogismo do processo de comunicação.

           Quanto ao primeiro ponto, afirmar que o jornalismo é uma atividade simbólica significa considerar que, ao elaborar uma notícia, o jornalista não está desenvolvendo uma tarefa meramente técnica, mas uma atividade caracterizada pela produção de sentido. Para Fausto Neto (1991, p. 33):

           O jornalista se depara com campos e saberes com os quais 'negocia' procedimentos de apropriação, para utilizá-los no processo de formalização dos discursos. Neste sentido, vários 'saberes' operam como espécie de 'scripts' ou 'unidades de construção', a partir dos quais o trabalho de produção, enquanto leitura da realidade, se constrói.

           Isso equivale a dizer, acompanhando Chillón (1998, p. 73), que não existe uma só realidade objetiva externa aos indivíduos, "senão múltiplas realidades subjetivas, inumeráveis experiências. E estas realidades subjetivas múltiplas e inevitáveis adquirem sentido para um e são comunicáveis para os demais na medida em que são verbalizadas". Chegamos, então, ao segundo aspecto da caracterização de nossa visão do jornalismo, que diz respeito à aborda-gem da língua como fator de interação social. Ainda segundo Chillón (1998, p.70), a lin-guagem não é um mero veículo ou ferramenta com que damos conta de nossas idéias, mas estas só se formam na medida em que são verbalizadas, ou, como prefere o autor, "empalavradas":

           Conhecemos o mundo, sempre de modo tentativo, à medida que o designamos com palavras e o construímos sintaticamente em enunciados, ou seja, à medida que o empalavramos. Mais além da percepção sensorial imediata do entorno ou do jogo interior com as sensações registradas na memória, o mundo adquire sentido somente na medida em que o traduzimos lingüisticamente.

           Segundo Pinto (1999, p. 24), "os textos são partes integrantes do contexto sócio-histórico e não alguma coisa de caráter puramente instrumental, externa às pressões sociais. Têm assim papel fundamental na reprodução, manutenção ou transformação das representações que as pessoas fazem e das relações e identidades com que se definem numa sociedade". Neste ponto, podemos introduzir o terceiro e último aspecto de nossas observações iniciais: a co-municação se dá dentro de um contexto e, dele, fazem parte tanto quem produz um texto - o locutor ou enunciador - como aqueles que o recebem - os interlocutores ou co-enunciadores. Estes parceiros possuem uma relação marcada, segundo Bakhtin, pelo dialo-gismo: toda palavra tem duas faces, sendo determinada tanto pelo fato de que procede de alguém quanto pelo de que se dirige a alguém:

           Os outros, para os quais o meu pensamento se torna, pela primeira vez, um pensamento real (e, com isso, real para mim) não são ouvintes passivos, mas participantes ativos da comunicação verbal. Logo de início, o locutor espera deles uma resposta, uma compreensão responsiva ativa. Todo o enunciado se elabora como para ir ao encontro dessa resposta. (apud VIZEU, 2004, p. 2-3)

           No campo do jornalismo, isso não significa dizer que a comunicação midiática seja marcadamente dialógica, com a existência de uma "conversa" real e uma troca efetiva entre os jornais e seus leitores. Trata-se, isso sim, de reconhecer que "toda enunciação, mesmo produzida sem a presença de um destinatário (...), é uma troca, explícita ou implícita, com outros enunciadores, virtuais ou reais, e supõe sempre a presença de uma outra instância de enunciação à qual se dirige o enunciador e com relação à qual constrói seu próprio discur-so" (MAINGUENEAU, 2001, p. 54). O outro, diz Fausto Neto (1991, p. 37), "não é apenas um personagem revestido com certas matizes de indicadores sociais, mas alguém que é construído na própria produção imaginária dos organizadores e enunciadores do discurso". Pressupõe-se, ainda, para que a comunicação seja bem-sucedida, a existência do contrato de leitura um acordo implícito, que a viabiliza e legimita:

           Dizer que o gênero de discurso é um contrato significa afirmar que ele é fundamentalmente cooperativo e regido por normas. (...) Um jornalista assume o contrato implicado pelo gênero de discurso do qual participa; um fait divers, por exemplo, dever ser verídico (relatar somente a verdade), apresentar um tema adequado ao fait divers (...), conter todas as informações necessárias à compreensão (...), não pressupor quaisquer saberes que não sejam os de seu leitor-modelo (...). De forma recíproca, é natural que o leitor de um fait divers espere que sejam repetidas essas normas que correspondem às suas expectativas em relação ao gênero, e não poderá avaliar negativamente o texto se elas forem respeitadas. (MAINGUENEAU, 2001, p. 69)

           É, portanto, dentro deste contexto em que jornalista elabora matérias sobre saúde partindo de múltiplos saberes a respeito do tema; interpreta-os segundo os seus próprios conhecimentos, de acordo com as regras da profissão e do veículo, com o contexto e com os prová-veis saberes prévios dos leitores; e, em um processo social compartilhado, utiliza-se da lín-gua para produzir sentidos que podemos retornar à reflexão inicial.

           A polifonia e a ordem dos discursos

           Afirmamos que, em um discurso sobre saúde, estão presentes vários discursos. É o que Bakhtin define como polifonia, ou a fala simultânea de diversas vozes. De acordo com Fausto Neto (1991, p. 31), "se tomarmos pois o discurso da atualidade como uma espécie de cadeia significante, veremos que ela se constitui numa complexa cadeia polifônica, na medida em que ela é engendrada pelo trabalho e por aquilo que lhe conferem várias vozes vindas de outros campos".

           Como destaca Pinto (1999, p. 52), "os textos não surgem isoladamente num universo discursivo dado. Eles pertencem a séries ou redes organizadas por oposição ou seqüencialidade". O autor cita três diferentes séries utilizadas na análise de discursos, das quais nos interessa, aqui, a proposta por Norman Fairclough, que, ampliando a compreensão da ordem de discursos de Foucalt constituída por todos os gêneros de discursos produzidos no interior de uma instituição social ou de uma comunidade discursiva sugere que se dê a mesma denominação a uma seqüência temporal de textos, em que cada um substitui o anterior, em cadeia. A análise de discursos dá atenção, nesta concepção, às trans-formações que os textos sofrem através das redes sociais de práticas discursivas e considera que todo processo de produção nada mais é do que um processo de recepção de outros textos já dados na cultura, como também defende Van Dijk (1996, p. 177-8):

           (...) os repórteres, em geral, não 'saem' ao mundo a ver que 'ocorram' coisas. (...) O mais freqüente é que o repórter se inteire dos acontecimentos através de outros tipos de discursos, aos que poderíamos chamar 'textos de fonte' (...). De fato, os próprios acontecimentos das notícias com freqüência são de natureza textual. (...) Esta natureza discursiva dos acon-tecimentos implica que a prática de fazer notícias é primordialmente de caráter discursivo, uma forma de manejo do texto. Em cada fase dessa cadeia textual, os acontecimentos se codificam e recodificam, com o que incorporam as cognições sociais de cada escritor, locu-tor ou instituição.

           Adotando essa abordagem, podemos identificar, no jornalismo sobre saúde, a presença de diferentes gêneros de discursos, relacionados à origem das informações postas em circulação. Alguns exemplos:

           1. O discurso dos profissionais especializados, comunidade científica e acadêmica, que do-minam, em um nível aprofundado, o conhecimento sobre o funcionamento do corpo humano; as doenças, seus sintomas, formas de prevenção, diagnóstico, tratamento e, eventualmente, cura; as pesquisas em desenvolvimento e as possibilidades terapêuticas que prognosticam.

           2. O discurso dos estabelecimentos públicos de saúde (hospitais, postos de saúde, clínicas, laboratórios...), responsáveis pelos serviços preventivos, diagnósticos e terapêuticos ofertados à maioria da população.

           3. O discurso dos estabelecimentos privados e dos planos de saúde, que se apresentam como uma alternativa às dificuldades de utilização dos serviços públicos.

           4. O discurso das autoridades e organismos públicos (Ministério da Saúde, secretarias estaduais e municipais, entidades internacionais...), que regulamentam a oferta de serviços, definem políticas e detêm o controle estatístico das patologias.

           5. O discurso das entidades não-governamentais, que reúnem portadores de determinadas doenças, com finalidades educativas, integrativas e reivindicatórias.

           6. O discurso dos pacientes, pessoas portadoras de determinadas doenças que relatam sua experiência pessoal como casos exemplares.

           7. O discurso do cidadão, que busca seus direitos de atendimento qualificado e digno nos serviços públicos de saúde.

           8. O discurso dos laboratórios farmacêuticos, que produzem medicamentos e desejam aumentar suas vendas, para o que, devido à legislação em vigor, podem contar cada vez menos com os recursos da publicidade.

           9. O discurso das chamadas terapias alternativas, que ofertam opções diferenciadas daqueles métodos considerados tradicionais para os cuidados com a saúde.

           10. O discurso das entidades representativas de profissionais da saúde, que apresentam problemas e reivindicações corporativas, além de posicionamentos das categorias diantes de assuntos de interesse público.

           Discurso sobre sexualidade ou publicidade de medicamento?

           Dependendo do tema abordado, a partir de uma determinada pauta, diversos tipos de discurso poderão se fazer presentes. Vamos observar, através da análise de um texto, como isso se dá. A reportagem reproduzida a seguir foi publicada no jornal Zero Hora, de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, no dia 3 de abril de 2004. Ela ocupa as páginas centrais do caderno Vida (suplemento semanal dedicado exclusivamente à saúde) e constitui a chamada na capa do caderno, em página inteira, com ilustração, anunciando: "SEXO: quando falar é um problema. O brasileiro gosta de falar de sexo, mas se cala quando o assunto é a sua relação. Estar atento a essa necessidade faz muito bem à saúde. Veja os resultados de uma pesquisa que apontou essa dificuldade e as dicas de especialistas para lidar com os problemas mais comuns".

           Nas páginas centrais do caderno, mais de meia página é ocupada por uma reprodução da escultura O beijo, de Rodin. A matéria principal, que tem dimensão de apenas duas colunas de 15 cm, é secundada por outra, um pouco menor, intitulada "Sexo resolvido, saúde em dia", além de diversos quadros, em que são apresentados os "dramas" masculinos e os femininos, o que acontece quando o paciente não procura ajuda, dicas para solução de problemas e a relação dos 11 itens que, segunda a pesquisa mencionada na manchete da capa, mais prejudicam a sexualidade dos gaúchos, seguidos de seus respectivos percentuais.

          A dificuldade para falar sobre temas ligados ao sexo PODE AFASTAR O CASAL e trazer prejuízos à saúde, mas é possível buscar ajuda para resolver o problema.

           Uma conversa complicada

           Imagine uma conversa entre um homem e uma mulher. Ela diz que não quer ter relações sexuais aquela noite porque está sem desejo. Ele diz que tudo bem, afinal não havia tomado o medicamento para ereção a tempo. Seria possível? Segundo especialistas, um diálogo assim sincero é raríssimo. E pode fazer o casal perder chances de melhorar a relação.

           Segundo uma pesquisa realizada em 2003 pelo Projeto Sexualidade do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, sexo é importantíssimo para homens e mulheres, apesar de eles demonstrarem dificuldades para falar sobre o tema com seus parceiros. Um dado novo do Estudo da Vida Sexual do Brasileiro, apresentado pela psiquiatra Carmita Abdo durante a Conferência Médica Regional Latino-Americana, realizada pelo Laboratório Eli Lilly en Cancún, no final de março, é de que, a partir dos 41 anos, metade dos homens não conta para suas parcei-ras que toma medicamento para tratar a disfunção erétil.

           Falta falar sobre isso. Mas em geral as pessoas envolvidas sabem o que está acontecendo explica Carmita.

           Apesar da aparente liberalidade do brasileiro, falar de sexo é difícil. O estudo revelou que, diante das dificuldades de ereção, os homens percebem com precisão a reação feminina, uma vez que ambos avaliaram de forma semelhante a situação. Ou seja, mesmo sem falar de sexo, o casal sempre sabe o que não está funcionando.

           A principal razão para essa falta de diálogo é o medo da rejeição. Segundo o psiquiatra e terapeuta sexual Carlos Eduardo Carrion, sexo faz parte dos instintos básicos do homem e, para permitir a vida social, tem de ser disfarçado.

           As pessoas não põem esses impulsos para fora por medo de serem ridicularizadas. Elas não querem correr o risco de dizer algo que desagrade a quem amam explica Carrion.

           Por trás dessa dificuldade, está também o modo diferente com que homem e mulher encaram o sexo. Homens são mais focados no desempenho, enquanto as mulheres são mais subjetivas. Muitas vezes, compreender essa diferença e conversar pode ajudar a enfrentar com mais tranqüilidade eventuais problemas. Segundo a psicóloga e sexóloga Lúcia Pesca, um levantamento mostrou que, se um homem tem problemas sexuais e conta com o apoio da parceira, ele leva de dois a três anos para procurar ajuda profissional. Sem esse apoio, o tempo se estende para mais de cinco anos.

           - O homem resiste a falar, não conversa, não vai ao médico e não fala com a parceira - explica Lúcia.

           Um bom argumento a ser usado é a relação cada vez mais evidente entre sexo e boa saúde (veja texto abaixo). A conversa sobre o tema poderá não resolver todos os problemas, mas é um incentivo extra para procurar auxílio. E a relação só tem a ganhar.

           Na referida matéria secundária, é traçada uma relação entre "a vida sexual saudável" e "a saúde do organismo". Depois de mostrar que existe uma associação entre problemas cardíacos e sexuais especialmente entre os homens , o texto encerra com as seguintes observações:

           O surgimento de medicamentos específicos para tratar da disfunção erétil teve um papel importante nessa descoberta. Com o aumento do fluxo de pacientes nos consultórios, os médicos passaram a perceber mais claramente a associação entre coração e disfunção erétil. A possibilidade de resolver com medicamentos um problema levado tão a sério como a disfunção erétil entusiasmou os homens e fez muitos procurarem ajuda.

           Os remédios levaram mais pessoas aos consultórios. Passou a se discutir mais o assunto e, sabendo dos avanços, elas passaram a procurar mais ajuda avalia a ginecologista Jaqueline Brendler.

           A reportagem inteira tem sua autora identificada. O nome da repórter, logo abaixo do título principal, é seguido de um asterisco, que remete à informação, ao final do texto central, de que a profissional viajou a Cancún, onde foi divulgada a referida pesquisa, "a convite do laboratório Eli Lilly".

           Antes de analisar essa cobertura do ponto de vista dos discursos presentes, é preciso notar, antes de mais nada, os principais discursos ausentes: mesmo sendo um problema tão comum e sobre o qual "falta falar", não é apresentado nenhum depoimento de homens ou mu-lheres que o enfrentam recurso comum, no jornalismo, para criar proximidade com o leitor. E, embora envolvendo questões que, como é dito, podem ser acompanhadas e tratadas por profissionais, não há a indicação de serviços, públicos ou privados, em que é possível buscar assistência.

           Sobre a ordenação dos discursos presentes, em um primeiro olhar seria possível imaginar que o discurso predominante é o dos profissionais especializados, comunidade científica e acadêmica, através dos depoimentos da pesquisadora, de um terapeuta sexual, uma sexóloga e uma ginecologista. No entanto, é preciso deter-se a outros detalhes antes de chegar a essa equivocada conclusão.

           A autora do texto, conforme está identificado, viajou a Cancún "a convite" de um laborató-rio farmacêutico que tem, como um de seus carros-chefe, um medicamento contra disfunção erétil, o Cialis (em nenhum momento citado, abertamente, na reportagem). O evento em que foi divulgado o resultado da pesquisa foi igualmente patrocinado pela Eli Lilly. Um dos principais resultados do estudo anunciados na ocasião, segundo a reportagem, foi de que "a partir dos 41 anos, metade dos homens não conta para suas parceiras que toma medicamento para tratar a disfunção erétil". No suposto diálogo apresentado na abertura da matéria, que representaria o nível máximo de franqueza e intimidade entre um casal, o homem confessa à parceira que "não havia tomado o medicamento para ereção a tempo". Mais adiante, para exemplificar as dificuldades que o brasileiro tem para falar sobre sexo, é usada uma situação que envolve dificuldades de ereção. É mencionado, ainda, que os homens "são mais focados no desempenho" e que "se um homem tem problemas sexuais e conta com o apoio da parceira, ele deva de dois a três anos para procurar ajuda profissional". Por fim, na matéria complementar, é apontada a importância do surgimento de medicamentos específicos para tratar da disfunção erétil na descoberta das relações, para o homem, entre sexo e saúde.

           Todas essas afirmações são feitas em meio a outras que, muitas vezes sem a clara menção da fonte específica, reproduzem assertativas que pertencem ao senso comum mas acabam legitimadas pelo discurso (já que ele também contém a voz de especialistas e a matéria está publicada em um caderno que, como reza o "contrato de leitura", deve levar ao público informações confirmadas, confiáveis, corretas e úteis): "falar de sexo é difícil", "a principal razão para essa falta de diálogo é o medo da rejeição", "por trás dessa dificuldade, está também o modo diferente com que homem e mulher encaram o sexo", "homens são mais focados no desempenho, enquanto as mulheres são mais subjetivas", "a conversa sobre o tema poderá não resolver todos os problemas, mas é um incentivo extra para procurar auxílio", "a relação só tem a ganhar"...

           Portanto, a reportagem, que promete apresentar os resultados de uma pesquisa a respeito das dificuldades de homens e mulheres falarem sobre sexo, pouco aprofundamento dá a essa temática e, ao abordá-la, usa quase sempre, como exemplos, questões relacionadas à disfunção erétil masculina que pode ser compreendida, nesse contexto, como a principal causa de dificuldades de relacionamento sexual dos casais, muito embora, no quadro que divulga os resultados da pesquisa, apontando os 11 fatores que mais prejudicam o desem-penho sexual dos gaúchos, o "medo de falhar" apareça apenas na oitava posição para os homens e na última para as mulheres. Aliás, a dificuldade mais comum referida pelos dois grupos o cansaço não é sequer mencionada no corpo da matéria. Assim, a forma de construção discursiva oferta o sentido de que se os casais falarem sobre a disfunção erétil, o homem irá procurar um médico; se procurar um médico, irá tomar um medicamento; e se tormar o medicamento, não só encontrará grandes benefícios para si e para sua parceira, como terá ganhos mais abrangentes em termos de saúde.

           Fica evidente, então, que o discurso que verdadeiramente predomina é o do laboratório farmacêutico, embora seu nome seja mencionado, nas duas ocasiões em que aparece, de forma discreta, sem nenhuma ênfase. Cabe acrescentar que, alguns meses antes da publicação des-sa reportagem, mais precisamente em 25 de julho de 2003, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determinou a suspensão de toda divulgação, em qualquer veículo de comunicação de massa, do Laboratório Eli Lylli e de dois de seus concorrentes, a Bayer e a Pfizer, que relacionem de forma direta ou indireta os medicamentos que os três produzem para tratar a disfunção erétil. A medida foi justificada pela Anvisa como uma forma de evi-tar os efeitos que esse tipo de publicidade pode causar, ao estimular o consumo indiscriminado de tais medicamentos, já que eles exigem receita e acompanhamento médico.

           A reportagem referida, então, aparece como um hábil subterfúgio para burlar a determinação legal. O texto utiliza como "gancho", a pretexto de se tratar do assunto principal, uma pesquisa a respeito da sexualidade, de forma a introduzir a abordagem de problemas comuns ao cotidiano de muitos leitores e acenar com soluções. Aquele que seria um aspecto secundário o uso de medicamento contra disfunção erétil , mesmo não sendo objeto de uma abordagem direta nem de uma clara recomendação, permeia, entretanto, toda a cobertura, que sugere ao leitor portador de disfunção sexual, ou à leitora cujo parceiro tem esse problema, que seja buscada orientação médica, a qual, provavelmente, resultará na indicação do tratamento medicamentoso que trará resultados positivos. São cumpridas, assim, as três funções que Pinto (1999, p. 62) atribui aos discursos: mostração (construir o referente ou universo do qual o texto fala), interação (estabelecer vínculos socioculturais para se dirigir ao leitor, na tentativa de cooptá-lo e de agir sobre ele ou sobre o mundo por seu intermédio) e sedução (marcar as pessoas, coisas e acontecimentos referidos com valores positivos ou eufóricos e negativos ou disfóricos, a fim de reforçar os valores hegemônicos vigentes).

           Poder e ideologia, sempre presentes

           Observamos, então, que, na ordem dos discursos, um (ou alguns deles) vai se sobrepor aos demais. Isso, por um lado, faz parte das práticas jornalísticas, em que diversos critérios são empregados para hierarquizar as notícias e suas fontes, em busca daquilo que tenha, de a-cordo com o que se conhece do leitor, mais condições de atrair seu interesse. Mas está relacionado, também, a outros dois elementos que não podem ser desvinculados da prática discursiva: a ideologia e o poder. Conforme Bordieu (1998, p. 11),

           As relações de comunicação são, de modo inseparável, sempre, relações de poder que dependem, na forma e no conteúdo, do poder material ou simbólico acumulado pelos agentes (ou pelas instituições) envolvidos nessas relações e que (...) podem permitir acumular poder simbólico. (...) os 'sistemas simbólicos' cumprem a sua função política de instrumentos de imposição ou de legitimação da dominação, que contribuem para assegurar o domínio de uma classe sobre outra (violência simbólica) dando o reforço de sua própria força às relações de força que a fundamenta, e contribuindo assim, segundo a expressão de Weber, para a 'domesticação dos domesticados'

           No entender de Pinto, (1999, p. 41), relações de poder estão sempre em jogo em qualquer processo interacional, e o ideológico pode assumir seu status em embates discursivos, que "criam relações de dominância entre os discursos reconhecidos como hegemônicos e os discursos subordinados, favorecendo a naturalização ou reificação dos primeiros". Assim, no processo de produção de sentido, os meios de comunicação fazem mais do que informar, como aponta Fausto Neto (1991, p. 149-50):

           (...) um dos aspectos da comunicação de massa é trabalhar com um discurso segundo, no sentido de 'estar a serviço' da produção/construção de algo que se passa fora dos parâmetros internos de sua amplitude institucional. Porém, tal é a complexidade da sociedade moderna, configurada pela diferenciação de campos de saberes e de poderes, de um lado, e por outro lado, pela autoridade com que o campo da informação funciona: à comunicação se pode atribuir não apenas 'funções' de irradiação de mensagens, mas, ao mesmo tempo, a-quelas de engendramento de produção/leituras das próprias mensagens. Noutras palavras: a leitura não seria algo que caberia apenas ao campo da recepção, que, dotado de sua autonomia conferida pelo espectro social, se facultaria à interpretação do que lhe é oferecido pela 'mídia'. Nosso ponto de vista diz que, operando segundo pedagogias específicas, a 'mídia', de acordo com gêneros e conseqüentes estratégias específicas, já oferece ao campo da recepção o sistema de leituras, algo que vem imbuído nas 'maneiras de dizer' (...).

           Van Dijk (1996, p. 177) exemplifica como se dá a relação entre as práticas discursivas e as ideológicas:

           Os esquemas das notícias, seus temas, seus atores e seu estilo de representação ou de citação estão todos intimamente relacionados com os meios e as estratégias de produção. As rotinas de coleta de notícias dependem muito estreitamente das fontes disponíveis e dos dispositivos institucionais como as agências de imprensa, os boletins de imprensa e as entrevistas coletivas. A seleção dos atores importantes nas notícias depende de seu poder político ou social, de sua acessibilidade ou de muitas outras condições sociopolíticas. Assim, cada passo da produção dos discurso da notícia é uma manifestação das práticas ideológicas nas quais os jornalistas e as instituições da imprensa se acham inseridos de múltiplas formas.

           Ao analisar essas questões, Verón (s.d., p. 197) considera que a noção de poder designa "os efeitos do discurso no interior de um tecido determinado de relações sociais" e que "esses efeitos não podem ter outra forma que não seja a de uma outra produção de sentido". Assim, para o autor, o poder dos meios de comunicação sobre os interlocutores do processo comunicativo só existe sob a forma de sentido produzido: "comportamentos, falas, gestos, que definem, por sua vez, relações sociais determinadas entretidas por esses 'receptores' e que se entrelaçam assim na rede infinita da semiose social". Por outro lado, a ideologia, para Verón, não pode ser compreendida como um repertório de conteúdos, mas sim como uma "gramática de engendramento de sentido, de investimento de sentido em matérias significantes". O "efeito ideológico" é apontado, desta forma, como "o do discurso absoluto: aquele discurso que se mostra como o único discurso possível acerca daquilo de que se fala", em contraposição ao "efeito da cientificidade", em que "o discurso é reconhecido como instaurador de uma relação com sua relação com o 'real' que descreve" (VERÓN, s.d., p. 198).

           O conceito de ethos de Maingueneau a existência da "voz" de um sujeito situado para além do texto mostra que um texto escrito possui, mesmo quando o denega, um tom que dá autoridade ao que é dito e lhe confere caráter persuasivo:

           O universo de sentido propiciado pelo discurso impõe-se tanto pelo ethos como pelas 'idéias' que transmite; na realidade, essas idéias se apresentam por intermédio de uma maneira de dizer que remete a uma maneira de ser, à participação imaginária de uma experiência vivida. (...) O poder de persuasão de um discurso consiste em parte em levar o leitor a se identificar com a movimentação de um corpo investido de valores socialmente especificados.

           Para Van Dijk (1996, p. 174), o discurso das notícias influi no conteúdo e nos princípios fundamentais de nossos conhecimentos e outras representações sociais. "Em suma, o discurso dos meios exerce um impacto nos conhecimentos, atitudes e ideologias sociais, apesar das diferenças sociais ou políticas dos leitores. Se nem sempre influi diretamente em nossas opiniões, bem pode ser que determine, em parte, os princípios e estratégias de nosso processamento social da informação". De acordo com o autor, não é apenas o conteúdo das notícias que ocasiona essa influência, mas também a estrutura em que elas são reportadas, que ajuda a legitimar e reproduzir as forças em conflito na sociedade.

           Isso nos leva de regresso à importante interação entre as estruturas e estratégias do discurso e das representações sociais. Se os leitores não contam com outra informação, nem com outras representações sociais que lhes possam proporcionar a informação necessária para a contra-argumentação, o rechaço ou a resistência, as estruturas das reportagens noticiosas podem exercer um efeito complexo em suas cognições sociais (...). (VAN DIJK, 1996, p. 176-7).

           Tomando como ponto de partida essa última observação de Van Dijk, cabe lembrar que o jornalismo sobre saúde lida, em grande parte, com informações oriundas do meio científico, que, tanto por seu conteúdo como pelo "dialeto" que empregam, são distantes do universo cotidiano do indivíduo comum. É, portanto, nos meios de comunicação, muitas vezes, que este irá buscar subsídios para a construção de seu conhecimento sobre saúde, aceitando como legítimas e confiáveis as informações transmitidas.

           Considerações finais

           O discurso sobre saúde na mídia impressa foi apresentado, no início deste artigo, como portador, em si, de diversos discursos. Concluímos afirmando que ele possui, igualmente, várias faces.

           Por um lado, este é um setor da cobertura jornalística muitas vezes apontado como potencial instrumento para a construção e fortalecimento da cidadania, na medida em que coloca em circulação informações de alto grau de interesse público. De fato, pode sê-lo e muitas vezes o é , ao divulgar não só informações e orientações sobre prevenção, diagnóstico e tratamento de doenças, mas também a respeito dos direitos dos cidadãos nesta área e dos serviços assistenciais públicos disponíveis.

           Outra face do jornalismo em saúde é o papel que assume na produção de sentidos, influenciando na construção social do que significa, por exemplo, ser sadio, jovem e bonito. Como diz Fausto Neto (1999, p. 9), "as mídias, além de serem instrumentos de representação, são, ao mesmo tempo, dispositivos, espécies de verdadeiros nichos, onde a realidade se estrutura como referência. (...) O poder das mídias está na sua capacidade de construir via discursos conceitos e referências que, em última análise, vão se tornando o nosso próprio cotidiano". Se, de um lado, a atuação da mídia tem efeitos positivos ao indicar a necessidade de cada pessoa cuidar melhor de si própria, de outro, acaba por definir no imaginário coletivo padrões homogeneizadores de saúde, beleza e juventude que reforçam a competição e a rejeição quando não a exclusão do diferente.

           Por último, e bem a propósito do exemplo que analisamos anteriormente, Martini (2000, p. 19-20) alerta que "dois problemas graves cercam a notícia: sua oferta e circulação como qualquer mercadoria e, em relação direta, sua espetacularização, que desloca o eixo da relevância e trivializa o interesse público". Nessa linha, o jornalismo em saúde mostra, ainda que disfarçadamente, uma outra face. É aquela em que serve, acima de tudo, como instrumento para a defesa dos interesses hegemônicos na sociedade, em especial o de vender cada vez mais produtos, serviços e idéias.

           No mosaico dos jornais, estas faces mesclam-se a todo momento. Ao leitor, interlocutor do processo comunicativo, fica o desafio, nem sempre fácil, nem sempre possível, de encará-las e perceber que algumas, para ser olhadas de frente, precisam, antes, ser desmascaradas.

           Referências

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CHILLÓN, Albert. El "giro lingüístico" y sua incidencia en la comunicación periodística. Análisi, n. 22, 1998, p. 63-98.

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___. Comunicação & mídia impressa: estudos sobre a Aids. São Paulo: Hacker, 1999. 168p.

FERREIRA, Giovandro Marcus. Contribuições da análise do discurso ao estudo de jornalismo. (mimeo)

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VIZEU, Alfredo. A produção de sentidos no jornalismo: da teoria da enunciação à enunciação jornalística. Disponível em: <http://www.bocc.ubi.pt>. Acesso em: 18 jun. 2004.

 

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Elisa Kopplin Ferraretto
Jornalista, mestranda no Programa de Pós-graduação em Comunicação e Informação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

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