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Os
vários discursos do discurso jornalístico sobre
saúde
Elisa Kopplin Ferraretto*
Uma
abordagem do jornalismo sobre saúde na mídia impressa
pela ótica da análise de discursos proporciona múltiplas
reflexões sobre esse tipo de cobertura. O objetivo do presente
artigo é centrar-se em uma delas: o fato de estarem presentes,
em um discurso sobre saúde, múltiplos discursos,
que são ordenados não só pelas regras inerentes
à prática jornalística, mas também
segundo condições dadas pelo exercício do
poder e pela ideologia que permeiam as relações
sociais.
É
importante esclarecer, antes de mais nada, que essa constatação
remete a uma visão particular do jornalismo, a qual foge
à idéia tradicional de que a notícia espelha
a realidade para os leitores, a partir da observação
e do relato dos fatos pelo jornalista de forma objetiva e neutra.
A visão que estamos levando em consideração
tem três pressupostos fundamentais: a condição
simbólica da atividade jornalística, a caracterização
da língua como fator de interação social
e o dialogismo do processo de comunicação.
Quanto ao primeiro ponto, afirmar que o jornalismo é uma
atividade simbólica significa considerar que, ao elaborar
uma notícia, o jornalista não está desenvolvendo
uma tarefa meramente técnica, mas uma atividade caracterizada
pela produção de sentido. Para Fausto Neto (1991,
p. 33):
O jornalista se depara com campos e saberes com os quais
'negocia' procedimentos de apropriação, para utilizá-los
no processo de formalização dos discursos. Neste
sentido, vários 'saberes' operam como espécie de
'scripts' ou 'unidades de construção', a partir
dos quais o trabalho de produção, enquanto leitura
da realidade, se constrói.
Isso equivale a dizer, acompanhando Chillón (1998, p. 73),
que não existe uma só realidade objetiva externa
aos indivíduos, "senão múltiplas realidades
subjetivas, inumeráveis experiências. E estas realidades
subjetivas múltiplas e inevitáveis adquirem sentido
para um e são comunicáveis para os demais na medida
em que são verbalizadas". Chegamos, então,
ao segundo aspecto da caracterização de nossa visão
do jornalismo, que diz respeito à aborda-gem da língua
como fator de interação social. Ainda segundo Chillón
(1998, p.70), a lin-guagem não é um mero veículo
ou ferramenta com que damos conta de nossas idéias, mas
estas só se formam na medida em que são verbalizadas,
ou, como prefere o autor, "empalavradas":
Conhecemos o mundo, sempre de modo tentativo, à medida
que o designamos com palavras e o construímos sintaticamente
em enunciados, ou seja, à medida que o empalavramos. Mais
além da percepção sensorial imediata do entorno
ou do jogo interior com as sensações registradas
na memória, o mundo adquire sentido somente na medida em
que o traduzimos lingüisticamente.
Segundo Pinto (1999, p. 24), "os textos são partes
integrantes do contexto sócio-histórico e não
alguma coisa de caráter puramente instrumental, externa
às pressões sociais. Têm assim papel fundamental
na reprodução, manutenção ou transformação
das representações que as pessoas fazem e das relações
e identidades com que se definem numa sociedade". Neste ponto,
podemos introduzir o terceiro e último aspecto de nossas
observações iniciais: a co-municação
se dá dentro de um contexto e, dele, fazem parte tanto
quem produz um texto - o locutor ou enunciador - como aqueles
que o recebem - os interlocutores ou co-enunciadores. Estes parceiros
possuem uma relação marcada, segundo Bakhtin, pelo
dialo-gismo: toda palavra tem duas faces, sendo determinada tanto
pelo fato de que procede de alguém quanto pelo de que se
dirige a alguém:
Os outros, para os quais o meu pensamento se torna, pela
primeira vez, um pensamento real (e, com isso, real para mim)
não são ouvintes passivos, mas participantes ativos
da comunicação verbal. Logo de início, o
locutor espera deles uma resposta, uma compreensão responsiva
ativa. Todo o enunciado se elabora como para ir ao encontro dessa
resposta. (apud VIZEU, 2004, p. 2-3)
No campo do jornalismo, isso não significa dizer que a
comunicação midiática seja marcadamente dialógica,
com a existência de uma "conversa" real e uma
troca efetiva entre os jornais e seus leitores. Trata-se, isso
sim, de reconhecer que "toda enunciação, mesmo
produzida sem a presença de um destinatário (...),
é uma troca, explícita ou implícita, com
outros enunciadores, virtuais ou reais, e supõe sempre
a presença de uma outra instância de enunciação
à qual se dirige o enunciador e com relação
à qual constrói seu próprio discur-so"
(MAINGUENEAU, 2001, p. 54). O outro, diz Fausto Neto (1991, p.
37), "não é apenas um personagem revestido
com certas matizes de indicadores sociais, mas alguém que
é construído na própria produção
imaginária dos organizadores e enunciadores do discurso".
Pressupõe-se, ainda, para que a comunicação
seja bem-sucedida, a existência do contrato de leitura um
acordo implícito, que a viabiliza e legimita:
Dizer que o gênero de discurso é um contrato
significa afirmar que ele é fundamentalmente cooperativo
e regido por normas. (...) Um jornalista assume o contrato implicado
pelo gênero de discurso do qual participa; um fait divers,
por exemplo, dever ser verídico (relatar somente a verdade),
apresentar um tema adequado ao fait divers (...), conter todas
as informações necessárias à compreensão
(...), não pressupor quaisquer saberes que não sejam
os de seu leitor-modelo (...). De forma recíproca, é
natural que o leitor de um fait divers espere que sejam repetidas
essas normas que correspondem às suas expectativas em relação
ao gênero, e não poderá avaliar negativamente
o texto se elas forem respeitadas. (MAINGUENEAU, 2001, p. 69)
É, portanto, dentro deste contexto em que jornalista elabora
matérias sobre saúde partindo de múltiplos
saberes a respeito do tema; interpreta-os segundo os seus próprios
conhecimentos, de acordo com as regras da profissão e do
veículo, com o contexto e com os prová-veis saberes
prévios dos leitores; e, em um processo social compartilhado,
utiliza-se da lín-gua para produzir sentidos que podemos
retornar à reflexão inicial.
A polifonia e a ordem dos discursos
Afirmamos que, em um discurso sobre saúde, estão
presentes vários discursos. É o que Bakhtin define
como polifonia, ou a fala simultânea de diversas vozes.
De acordo com Fausto Neto (1991, p. 31), "se tomarmos pois
o discurso da atualidade como uma espécie de cadeia significante,
veremos que ela se constitui numa complexa cadeia polifônica,
na medida em que ela é engendrada pelo trabalho e por aquilo
que lhe conferem várias vozes vindas de outros campos".
Como destaca Pinto (1999, p. 52), "os textos não surgem
isoladamente num universo discursivo dado. Eles pertencem a séries
ou redes organizadas por oposição ou seqüencialidade".
O autor cita três diferentes séries utilizadas na
análise de discursos, das quais nos interessa, aqui, a
proposta por Norman Fairclough, que, ampliando a compreensão
da ordem de discursos de Foucalt constituída por todos
os gêneros de discursos produzidos no interior de uma instituição
social ou de uma comunidade discursiva sugere que se dê
a mesma denominação a uma seqüência temporal
de textos, em que cada um substitui o anterior, em cadeia. A análise
de discursos dá atenção, nesta concepção,
às trans-formações que os textos sofrem através
das redes sociais de práticas discursivas e considera que
todo processo de produção nada mais é do
que um processo de recepção de outros textos já
dados na cultura, como também defende Van Dijk (1996, p.
177-8):
(...) os repórteres, em geral, não 'saem'
ao mundo a ver que 'ocorram' coisas. (...) O mais freqüente
é que o repórter se inteire dos acontecimentos através
de outros tipos de discursos, aos que poderíamos chamar
'textos de fonte' (...). De fato, os próprios acontecimentos
das notícias com freqüência são de natureza
textual. (...) Esta natureza discursiva dos acon-tecimentos implica
que a prática de fazer notícias é primordialmente
de caráter discursivo, uma forma de manejo do texto. Em
cada fase dessa cadeia textual, os acontecimentos se codificam
e recodificam, com o que incorporam as cognições
sociais de cada escritor, locu-tor ou instituição.
Adotando essa abordagem, podemos identificar, no jornalismo sobre
saúde, a presença de diferentes gêneros de
discursos, relacionados à origem das informações
postas em circulação. Alguns exemplos:
1. O discurso dos profissionais especializados, comunidade científica
e acadêmica, que do-minam, em um nível aprofundado,
o conhecimento sobre o funcionamento do corpo humano; as doenças,
seus sintomas, formas de prevenção, diagnóstico,
tratamento e, eventualmente, cura; as pesquisas em desenvolvimento
e as possibilidades terapêuticas que prognosticam.
2. O discurso dos estabelecimentos públicos de saúde
(hospitais, postos de saúde, clínicas, laboratórios...),
responsáveis pelos serviços preventivos, diagnósticos
e terapêuticos ofertados à maioria da população.
3. O discurso dos estabelecimentos privados e dos planos de saúde,
que se apresentam como uma alternativa às dificuldades
de utilização dos serviços públicos.
4. O discurso das autoridades e organismos públicos (Ministério
da Saúde, secretarias estaduais e municipais, entidades
internacionais...), que regulamentam a oferta de serviços,
definem políticas e detêm o controle estatístico
das patologias.
5. O discurso das entidades não-governamentais, que reúnem
portadores de determinadas doenças, com finalidades educativas,
integrativas e reivindicatórias.
6. O discurso dos pacientes, pessoas portadoras de determinadas
doenças que relatam sua experiência pessoal como
casos exemplares.
7. O discurso do cidadão, que busca seus direitos de atendimento
qualificado e digno nos serviços públicos de saúde.
8. O discurso dos laboratórios farmacêuticos, que
produzem medicamentos e desejam aumentar suas vendas, para o que,
devido à legislação em vigor, podem contar
cada vez menos com os recursos da publicidade.
9. O discurso das chamadas terapias alternativas, que ofertam
opções diferenciadas daqueles métodos considerados
tradicionais para os cuidados com a saúde.
10. O discurso das entidades representativas de profissionais
da saúde, que apresentam problemas e reivindicações
corporativas, além de posicionamentos das categorias diantes
de assuntos de interesse público.
Discurso sobre sexualidade ou publicidade de medicamento?
Dependendo do tema abordado, a partir de uma determinada pauta,
diversos tipos de discurso poderão se fazer presentes.
Vamos observar, através da análise de um texto,
como isso se dá. A reportagem reproduzida a seguir foi
publicada no jornal Zero Hora, de Porto Alegre, Rio Grande do
Sul, no dia 3 de abril de 2004. Ela ocupa as páginas centrais
do caderno Vida (suplemento semanal dedicado exclusivamente à
saúde) e constitui a chamada na capa do caderno, em página
inteira, com ilustração, anunciando: "SEXO:
quando falar é um problema. O brasileiro gosta de falar
de sexo, mas se cala quando o assunto é a sua relação.
Estar atento a essa necessidade faz muito bem à saúde.
Veja os resultados de uma pesquisa que apontou essa dificuldade
e as dicas de especialistas para lidar com os problemas mais comuns".
Nas páginas centrais do caderno, mais de meia página
é ocupada por uma reprodução da escultura
O beijo, de Rodin. A matéria principal, que tem dimensão
de apenas duas colunas de 15 cm, é secundada por outra,
um pouco menor, intitulada "Sexo resolvido, saúde
em dia", além de diversos quadros, em que são
apresentados os "dramas" masculinos e os femininos,
o que acontece quando o paciente não procura ajuda, dicas
para solução de problemas e a relação
dos 11 itens que, segunda a pesquisa mencionada na manchete da
capa, mais prejudicam a sexualidade dos gaúchos, seguidos
de seus respectivos percentuais.
A
dificuldade para falar sobre temas ligados ao sexo PODE AFASTAR
O CASAL e trazer prejuízos à saúde, mas é
possível buscar ajuda para resolver o problema.
Uma conversa complicada
Imagine uma conversa entre um homem e uma mulher. Ela diz que
não quer ter relações sexuais aquela noite
porque está sem desejo. Ele diz que tudo bem, afinal não
havia tomado o medicamento para ereção a tempo.
Seria possível? Segundo especialistas, um diálogo
assim sincero é raríssimo. E pode fazer o casal
perder chances de melhorar a relação.
Segundo uma pesquisa realizada em 2003 pelo Projeto Sexualidade
do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade
de São Paulo, sexo é importantíssimo para
homens e mulheres, apesar de eles demonstrarem dificuldades para
falar sobre o tema com seus parceiros. Um dado novo do Estudo
da Vida Sexual do Brasileiro, apresentado pela psiquiatra Carmita
Abdo durante a Conferência Médica Regional Latino-Americana,
realizada pelo Laboratório Eli Lilly en Cancún,
no final de março, é de que, a partir dos 41 anos,
metade dos homens não conta para suas parcei-ras que toma
medicamento para tratar a disfunção erétil.
Falta falar sobre isso. Mas em geral as pessoas envolvidas sabem
o que está acontecendo explica Carmita.
Apesar da aparente liberalidade do brasileiro, falar de sexo é
difícil. O estudo revelou que, diante das dificuldades
de ereção, os homens percebem com precisão
a reação feminina, uma vez que ambos avaliaram de
forma semelhante a situação. Ou seja, mesmo sem
falar de sexo, o casal sempre sabe o que não está
funcionando.
A principal razão para essa falta de diálogo é
o medo da rejeição. Segundo o psiquiatra e terapeuta
sexual Carlos Eduardo Carrion, sexo faz parte dos instintos básicos
do homem e, para permitir a vida social, tem de ser disfarçado.
As pessoas não põem esses impulsos para fora por
medo de serem ridicularizadas. Elas não querem correr o
risco de dizer algo que desagrade a quem amam explica Carrion.
Por trás dessa dificuldade, está também o
modo diferente com que homem e mulher encaram o sexo. Homens são
mais focados no desempenho, enquanto as mulheres são mais
subjetivas. Muitas vezes, compreender essa diferença e
conversar pode ajudar a enfrentar com mais tranqüilidade
eventuais problemas. Segundo a psicóloga e sexóloga
Lúcia Pesca, um levantamento mostrou que, se um homem tem
problemas sexuais e conta com o apoio da parceira, ele leva de
dois a três anos para procurar ajuda profissional. Sem esse
apoio, o tempo se estende para mais de cinco anos.
- O homem resiste a falar, não conversa, não vai
ao médico e não fala com a parceira - explica Lúcia.
Um bom argumento a ser usado é a relação
cada vez mais evidente entre sexo e boa saúde (veja texto
abaixo). A conversa sobre o tema poderá não resolver
todos os problemas, mas é um incentivo extra para procurar
auxílio. E a relação só tem a ganhar.
Na referida matéria secundária, é traçada
uma relação entre "a vida sexual saudável"
e "a saúde do organismo". Depois de mostrar que
existe uma associação entre problemas cardíacos
e sexuais especialmente entre os homens , o texto encerra com
as seguintes observações:
O surgimento de medicamentos específicos para tratar
da disfunção erétil teve um papel importante
nessa descoberta. Com o aumento do fluxo de pacientes nos consultórios,
os médicos passaram a perceber mais claramente a associação
entre coração e disfunção erétil.
A possibilidade de resolver com medicamentos um problema levado
tão a sério como a disfunção erétil
entusiasmou os homens e fez muitos procurarem ajuda.
Os remédios levaram mais pessoas aos consultórios.
Passou a se discutir mais o assunto e, sabendo dos avanços,
elas passaram a procurar mais ajuda avalia a ginecologista Jaqueline
Brendler.
A reportagem inteira tem sua autora identificada. O nome da repórter,
logo abaixo do título principal, é seguido de um
asterisco, que remete à informação, ao final
do texto central, de que a profissional viajou a Cancún,
onde foi divulgada a referida pesquisa, "a convite do laboratório
Eli Lilly".
Antes de analisar essa cobertura do ponto de vista dos discursos
presentes, é preciso notar, antes de mais nada, os principais
discursos ausentes: mesmo sendo um problema tão comum e
sobre o qual "falta falar", não é apresentado
nenhum depoimento de homens ou mu-lheres que o enfrentam recurso
comum, no jornalismo, para criar proximidade com o leitor. E,
embora envolvendo questões que, como é dito, podem
ser acompanhadas e tratadas por profissionais, não há
a indicação de serviços, públicos
ou privados, em que é possível buscar assistência.
Sobre a ordenação dos discursos presentes, em um
primeiro olhar seria possível imaginar que o discurso predominante
é o dos profissionais especializados, comunidade científica
e acadêmica, através dos depoimentos da pesquisadora,
de um terapeuta sexual, uma sexóloga e uma ginecologista.
No entanto, é preciso deter-se a outros detalhes antes
de chegar a essa equivocada conclusão.
A autora do texto, conforme está identificado, viajou a
Cancún "a convite" de um laborató-rio
farmacêutico que tem, como um de seus carros-chefe, um medicamento
contra disfunção erétil, o Cialis (em nenhum
momento citado, abertamente, na reportagem). O evento em que foi
divulgado o resultado da pesquisa foi igualmente patrocinado pela
Eli Lilly. Um dos principais resultados do estudo anunciados na
ocasião, segundo a reportagem, foi de que "a partir
dos 41 anos, metade dos homens não conta para suas parceiras
que toma medicamento para tratar a disfunção erétil".
No suposto diálogo apresentado na abertura da matéria,
que representaria o nível máximo de franqueza e
intimidade entre um casal, o homem confessa à parceira
que "não havia tomado o medicamento para ereção
a tempo". Mais adiante, para exemplificar as dificuldades
que o brasileiro tem para falar sobre sexo, é usada uma
situação que envolve dificuldades de ereção.
É mencionado, ainda, que os homens "são mais
focados no desempenho" e que "se um homem tem problemas
sexuais e conta com o apoio da parceira, ele deva de dois a três
anos para procurar ajuda profissional". Por fim, na matéria
complementar, é apontada a importância do surgimento
de medicamentos específicos para tratar da disfunção
erétil na descoberta das relações, para o
homem, entre sexo e saúde.
Todas essas afirmações são feitas em meio
a outras que, muitas vezes sem a clara menção da
fonte específica, reproduzem assertativas que pertencem
ao senso comum mas acabam legitimadas pelo discurso (já
que ele também contém a voz de especialistas e a
matéria está publicada em um caderno que, como reza
o "contrato de leitura", deve levar ao público
informações confirmadas, confiáveis, corretas
e úteis): "falar de sexo é difícil",
"a principal razão para essa falta de diálogo
é o medo da rejeição", "por trás
dessa dificuldade, está também o modo diferente
com que homem e mulher encaram o sexo", "homens são
mais focados no desempenho, enquanto as mulheres são mais
subjetivas", "a conversa sobre o tema poderá
não resolver todos os problemas, mas é um incentivo
extra para procurar auxílio", "a relação
só tem a ganhar"...
Portanto, a reportagem, que promete apresentar os resultados de
uma pesquisa a respeito das dificuldades de homens e mulheres
falarem sobre sexo, pouco aprofundamento dá a essa temática
e, ao abordá-la, usa quase sempre, como exemplos, questões
relacionadas à disfunção erétil masculina
que pode ser compreendida, nesse contexto, como a principal causa
de dificuldades de relacionamento sexual dos casais, muito embora,
no quadro que divulga os resultados da pesquisa, apontando os
11 fatores que mais prejudicam o desem-penho sexual dos gaúchos,
o "medo de falhar" apareça apenas na oitava posição
para os homens e na última para as mulheres. Aliás,
a dificuldade mais comum referida pelos dois grupos o cansaço
não é sequer mencionada no corpo da matéria.
Assim, a forma de construção discursiva oferta o
sentido de que se os casais falarem sobre a disfunção
erétil, o homem irá procurar um médico; se
procurar um médico, irá tomar um medicamento; e
se tormar o medicamento, não só encontrará
grandes benefícios para si e para sua parceira, como terá
ganhos mais abrangentes em termos de saúde.
Fica evidente, então, que o discurso que verdadeiramente
predomina é o do laboratório farmacêutico,
embora seu nome seja mencionado, nas duas ocasiões em que
aparece, de forma discreta, sem nenhuma ênfase. Cabe acrescentar
que, alguns meses antes da publicação des-sa reportagem,
mais precisamente em 25 de julho de 2003, a Agência Nacional
de Vigilância Sanitária (Anvisa) determinou a suspensão
de toda divulgação, em qualquer veículo de
comunicação de massa, do Laboratório Eli
Lylli e de dois de seus concorrentes, a Bayer e a Pfizer, que
relacionem de forma direta ou indireta os medicamentos que os
três produzem para tratar a disfunção erétil.
A medida foi justificada pela Anvisa como uma forma de evi-tar
os efeitos que esse tipo de publicidade pode causar, ao estimular
o consumo indiscriminado de tais medicamentos, já que eles
exigem receita e acompanhamento médico.
A reportagem referida, então, aparece como um hábil
subterfúgio para burlar a determinação legal.
O texto utiliza como "gancho", a pretexto de se tratar
do assunto principal, uma pesquisa a respeito da sexualidade,
de forma a introduzir a abordagem de problemas comuns ao cotidiano
de muitos leitores e acenar com soluções. Aquele
que seria um aspecto secundário o uso de medicamento contra
disfunção erétil , mesmo não sendo
objeto de uma abordagem direta nem de uma clara recomendação,
permeia, entretanto, toda a cobertura, que sugere ao leitor portador
de disfunção sexual, ou à leitora cujo parceiro
tem esse problema, que seja buscada orientação médica,
a qual, provavelmente, resultará na indicação
do tratamento medicamentoso que trará resultados positivos.
São cumpridas, assim, as três funções
que Pinto (1999, p. 62) atribui aos discursos: mostração
(construir o referente ou universo do qual o texto fala), interação
(estabelecer vínculos socioculturais para se dirigir ao
leitor, na tentativa de cooptá-lo e de agir sobre ele ou
sobre o mundo por seu intermédio) e sedução
(marcar as pessoas, coisas e acontecimentos referidos com valores
positivos ou eufóricos e negativos ou disfóricos,
a fim de reforçar os valores hegemônicos vigentes).
Poder e ideologia, sempre presentes
Observamos, então, que, na ordem dos discursos, um (ou
alguns deles) vai se sobrepor aos demais. Isso, por um lado, faz
parte das práticas jornalísticas, em que diversos
critérios são empregados para hierarquizar as notícias
e suas fontes, em busca daquilo que tenha, de a-cordo com o que
se conhece do leitor, mais condições de atrair seu
interesse. Mas está relacionado, também, a outros
dois elementos que não podem ser desvinculados da prática
discursiva: a ideologia e o poder. Conforme Bordieu (1998, p.
11),
As relações de comunicação são,
de modo inseparável, sempre, relações de
poder que dependem, na forma e no conteúdo, do poder material
ou simbólico acumulado pelos agentes (ou pelas instituições)
envolvidos nessas relações e que (...) podem permitir
acumular poder simbólico. (...) os 'sistemas simbólicos'
cumprem a sua função política de instrumentos
de imposição ou de legitimação da
dominação, que contribuem para assegurar o domínio
de uma classe sobre outra (violência simbólica) dando
o reforço de sua própria força às
relações de força que a fundamenta, e contribuindo
assim, segundo a expressão de Weber, para a 'domesticação
dos domesticados'
No entender de Pinto, (1999, p. 41), relações de
poder estão sempre em jogo em qualquer processo interacional,
e o ideológico pode assumir seu status em embates discursivos,
que "criam relações de dominância entre
os discursos reconhecidos como hegemônicos e os discursos
subordinados, favorecendo a naturalização ou reificação
dos primeiros". Assim, no processo de produção
de sentido, os meios de comunicação fazem mais do
que informar, como aponta Fausto Neto (1991, p. 149-50):
(...) um dos aspectos da comunicação de massa
é trabalhar com um discurso segundo, no sentido de 'estar
a serviço' da produção/construção
de algo que se passa fora dos parâmetros internos de sua
amplitude institucional. Porém, tal é a complexidade
da sociedade moderna, configurada pela diferenciação
de campos de saberes e de poderes, de um lado, e por outro lado,
pela autoridade com que o campo da informação funciona:
à comunicação se pode atribuir não
apenas 'funções' de irradiação de
mensagens, mas, ao mesmo tempo, a-quelas de engendramento de produção/leituras
das próprias mensagens. Noutras palavras: a leitura não
seria algo que caberia apenas ao campo da recepção,
que, dotado de sua autonomia conferida pelo espectro social, se
facultaria à interpretação do que lhe é
oferecido pela 'mídia'. Nosso ponto de vista diz que, operando
segundo pedagogias específicas, a 'mídia', de acordo
com gêneros e conseqüentes estratégias específicas,
já oferece ao campo da recepção o sistema
de leituras, algo que vem imbuído nas 'maneiras de dizer'
(...).
Van Dijk (1996, p. 177) exemplifica como se dá a relação
entre as práticas discursivas e as ideológicas:
Os esquemas das notícias, seus temas, seus atores
e seu estilo de representação ou de citação
estão todos intimamente relacionados com os meios e as
estratégias de produção. As rotinas de coleta
de notícias dependem muito estreitamente das fontes disponíveis
e dos dispositivos institucionais como as agências de imprensa,
os boletins de imprensa e as entrevistas coletivas. A seleção
dos atores importantes nas notícias depende de seu poder
político ou social, de sua acessibilidade ou de muitas
outras condições sociopolíticas. Assim, cada
passo da produção dos discurso da notícia
é uma manifestação das práticas ideológicas
nas quais os jornalistas e as instituições da imprensa
se acham inseridos de múltiplas formas.
Ao analisar essas questões, Verón (s.d., p. 197)
considera que a noção de poder designa "os
efeitos do discurso no interior de um tecido determinado de relações
sociais" e que "esses efeitos não podem ter outra
forma que não seja a de uma outra produção
de sentido". Assim, para o autor, o poder dos meios de comunicação
sobre os interlocutores do processo comunicativo só existe
sob a forma de sentido produzido: "comportamentos, falas,
gestos, que definem, por sua vez, relações sociais
determinadas entretidas por esses 'receptores' e que se entrelaçam
assim na rede infinita da semiose social". Por outro lado,
a ideologia, para Verón, não pode ser compreendida
como um repertório de conteúdos, mas sim como uma
"gramática de engendramento de sentido, de investimento
de sentido em matérias significantes". O "efeito
ideológico" é apontado, desta forma, como "o
do discurso absoluto: aquele discurso que se mostra como o único
discurso possível acerca daquilo de que se fala",
em contraposição ao "efeito da cientificidade",
em que "o discurso é reconhecido como instaurador
de uma relação com sua relação com
o 'real' que descreve" (VERÓN, s.d., p. 198).
O conceito de ethos de Maingueneau a existência da "voz"
de um sujeito situado para além do texto mostra que um
texto escrito possui, mesmo quando o denega, um tom que dá
autoridade ao que é dito e lhe confere caráter persuasivo:
O universo de sentido propiciado pelo discurso impõe-se
tanto pelo ethos como pelas 'idéias' que transmite; na
realidade, essas idéias se apresentam por intermédio
de uma maneira de dizer que remete a uma maneira de ser, à
participação imaginária de uma experiência
vivida. (...) O poder de persuasão de um discurso consiste
em parte em levar o leitor a se identificar com a movimentação
de um corpo investido de valores socialmente especificados.
Para Van Dijk (1996, p. 174), o discurso das notícias influi
no conteúdo e nos princípios fundamentais de nossos
conhecimentos e outras representações sociais. "Em
suma, o discurso dos meios exerce um impacto nos conhecimentos,
atitudes e ideologias sociais, apesar das diferenças sociais
ou políticas dos leitores. Se nem sempre influi diretamente
em nossas opiniões, bem pode ser que determine, em parte,
os princípios e estratégias de nosso processamento
social da informação". De acordo com o autor,
não é apenas o conteúdo das notícias
que ocasiona essa influência, mas também a estrutura
em que elas são reportadas, que ajuda a legitimar e reproduzir
as forças em conflito na sociedade.
Isso nos leva de regresso à importante interação
entre as estruturas e estratégias do discurso e das representações
sociais. Se os leitores não contam com outra informação,
nem com outras representações sociais que lhes possam
proporcionar a informação necessária para
a contra-argumentação, o rechaço ou a resistência,
as estruturas das reportagens noticiosas podem exercer um efeito
complexo em suas cognições sociais (...). (VAN DIJK,
1996, p. 176-7).
Tomando como ponto de partida essa última observação
de Van Dijk, cabe lembrar que o jornalismo sobre saúde
lida, em grande parte, com informações oriundas
do meio científico, que, tanto por seu conteúdo
como pelo "dialeto" que empregam, são distantes
do universo cotidiano do indivíduo comum. É, portanto,
nos meios de comunicação, muitas vezes, que este
irá buscar subsídios para a construção
de seu conhecimento sobre saúde, aceitando como legítimas
e confiáveis as informações transmitidas.
Considerações finais
O discurso sobre saúde na mídia impressa foi apresentado,
no início deste artigo, como portador, em si, de diversos
discursos. Concluímos afirmando que ele possui, igualmente,
várias faces.
Por um lado, este é um setor da cobertura jornalística
muitas vezes apontado como potencial instrumento para a construção
e fortalecimento da cidadania, na medida em que coloca em circulação
informações de alto grau de interesse público.
De fato, pode sê-lo e muitas vezes o é , ao divulgar
não só informações e orientações
sobre prevenção, diagnóstico e tratamento
de doenças, mas também a respeito dos direitos dos
cidadãos nesta área e dos serviços assistenciais
públicos disponíveis.
Outra face do jornalismo em saúde é o papel que
assume na produção de sentidos, influenciando na
construção social do que significa, por exemplo,
ser sadio, jovem e bonito. Como diz Fausto Neto (1999, p. 9),
"as mídias, além de serem instrumentos de representação,
são, ao mesmo tempo, dispositivos, espécies de verdadeiros
nichos, onde a realidade se estrutura como referência. (...)
O poder das mídias está na sua capacidade de construir
via discursos conceitos e referências que, em última
análise, vão se tornando o nosso próprio
cotidiano". Se, de um lado, a atuação da mídia
tem efeitos positivos ao indicar a necessidade de cada pessoa
cuidar melhor de si própria, de outro, acaba por definir
no imaginário coletivo padrões homogeneizadores
de saúde, beleza e juventude que reforçam a competição
e a rejeição quando não a exclusão
do diferente.
Por último, e bem a propósito do exemplo que analisamos
anteriormente, Martini (2000, p. 19-20) alerta que "dois
problemas graves cercam a notícia: sua oferta e circulação
como qualquer mercadoria e, em relação direta, sua
espetacularização, que desloca o eixo da relevância
e trivializa o interesse público". Nessa linha, o
jornalismo em saúde mostra, ainda que disfarçadamente,
uma outra face. É aquela em que serve, acima de tudo, como
instrumento para a defesa dos interesses hegemônicos na
sociedade, em especial o de vender cada vez mais produtos, serviços
e idéias.
No mosaico dos jornais, estas faces mesclam-se a todo momento.
Ao leitor, interlocutor do processo comunicativo, fica o desafio,
nem sempre fácil, nem sempre possível, de encará-las
e perceber que algumas, para ser olhadas de frente, precisam,
antes, ser desmascaradas.
Referências
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Elisa Kopplin Ferraretto
Jornalista, mestranda no Programa de Pós-graduação
em Comunicação e Informação da Universidade
Federal do Rio Grande do Sul.
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