
A Comunicação como instrumento de promoção
à saúde: a Vigilância Sanitária de
Vitória na mídia impressa
Fabiana Campos Franco*
Resumo
O
presente trabalho refere-se a uma análise da cobertura
impressa das ações da Vigilância Sanitária
de Vitória - ES. O eixo central da análise compreende
em verificar se as matérias publicadas abordam as ações
coercitivas e ou punitivas ou se destacam também a questão
educativa e instrutiva da Vigilância Sanitária.
O
período estabelecido para pesquisa compreendeu entre o
dia e primeiro de janeiro a 30 de junho de 2004. Selecionamos
todas as matérias que mencionaram a Vigilância Sanitária
e a partir do material coletado traçamos uma análise
quantitativa e qualitativa das matérias, considerando principalmente
quais foram as informações e orientações
oferecidas aos leitores. Traçamos alguns eixos centrais
de análise para tentar verificar se as mensagens publicadas
esclarecem ao leitor sobre as ações da Vigilância
Sanitária? Quais são as fontes mais consultadas
para falar do tema? O assunto é abordado de forma que o
leitor compreenda a problemática? Quais são as abordagens
e argumentações preponderantes? A mídia usa
linguagem adequada e acessível ao público? O público
recebe informações preventivas e educativas nas
matérias? De que forma a mídia pode exercer papel
educativo na divulgação de informações?
Os resultados elucidados nesta pesquisa sugerem reflexões
profundas sobre a importância da divulgação
das ações do órgão na imprensa escrita
como instrumento de apoio no cumprimento da missão de proteger
e promover a saúde da população e garantir
a segurança sanitária de produtos e serviços
oferecidos.
Palavras
chaves: Mídia, comunicação, educativo,
Vigilância Sanitária.
"Temos
que entrar no coração desse SUS desumanizado e medicalizado
e resgatar a promoção" Sérgio
Arouca
A
sociedade pós-industrial assume atualmente uma dependência
inegável com a comunicação que se baseia
na transmissão da informação. A informação
passou a ser encarada como uma espécie de cimento social,
capaz de unir e sustentar alicerces. Informação
virou sinônimo de poder. Gauderer enfatiza esse poder:
Quanto
mais informada uma pessoa, mais opções e escolhas
terá, conseqüentemente mais livre irá se sentir,
pois a informação liberta o indivíduo das
trevas da ignorância, já a desinformação
perpetua o claustro. A informação é a base
de decisão, do julgamento e da ponderação.
É com ela que aprendemos e podemos questionar, levantarmos
novas hipóteses e possibilidades diminuindo conseqüentemente
a margem de erro e aumentando os acertos. A informação
soma, acrescenta, logo faz crescer. (1996)
A
informação aliada a um processo eficaz e eficiente
de comunicação se transforma em um instrumento capaz
de modificar a consciência do homem e da sociedade. Para
Barreto (1994) a informação, quando adequadamente
assimilada, produz conhecimento. "E se informação
é poder, em lugar algum isto é tão claro
quanto no campo da saúde".
A questão que instiga é: como se trabalhar com a
informação enquanto estrutura significante, no sentido
de direcioná-la ao seu propósito de produtora de
conhecimento para a sociedade? Como se organiza, controla e distribui
de maneira correta, política e socialmente, a informação,
considerando a sua relevância na produção
do conhecimento?
No
campo da saúde o direito a informação é
tão importante que a partir dos anos 90, passou a ser garantido
pela Lei Orgância da Saúde nº 8080/90 em seu
artigo 7º:
V
- direito à informação, às pessoas
assistidas, sobre sua saúde;
VI - divulgação de informações quanto
ao potencial dos serviços de saúde e a sua utilização
pelo usuário;
A
questão é que apesar de termos adquirido alguns
direitos legais o Brasil ainda sofre com a ausência de democracia
plenamente consolidada e com o não cumprimento de leis.
Ainda que os assuntos relacionados à área de saúde
ganhem cada vez mais espaços nos meios de comunicação,
o que se divulga é muitas vezes parte de um denuncismo
exacerbado que visa o cumprimento dos objetivos da mídia.
"É preciso saber que a imprensa busca o novo, o que
chama atenção, mas em muitos casos também,
que necessita de uma certa sensibilidade" (MONTEIRO FILHO,
1996, p.30).
Se
o tema saúde não consegue pautar a mídia
no intuito de divulgar plenamente ações de promoção
e prevenção na área, o profissional de saúde
que é a fonte alimentadora da imprensa, deve usar a teoria
das brechas e inserir nas matérias informações
que possam divulgar o novo paradigma sanitário que o Brasil
luta, desde a década de 80, para conseguir implantar.
O
antigo paradigma curativo vem aos poucos sendo substituído
pelo paradigma preventivo e é cada vez mais visível
a presença de ações de promoção
e de prevenção norteando as estratégias de
saúde do país. Neste sentido a comunicação
exerce um papel ímpar na implantação dos
objetivos propostos pela reforma sanitária: "uma população
alfabetizada em saúde sabe lidar melhor em termos de prevenção
e mesmo de cura de muitas das enfermidades transmissíveis"
(EPSTEIN, 2001, p. 26,27)
Mas
se estou atribuindo ao profissional de saúde a responsabilidade
de lidar de forma astuciosa com a mídia é porque
continuo defendendo a posição dos participantes
da III Conferência Brasileira de Comunicação
e Saúde ocorrida em Adamantina, SP em novembro de 2000
que sugeriram por unanimidade a moção que em algumas
partes considera:
Que
os problemas de saúde podem ser solucionados, em parte,
com os recursos de comunicação e que isso pode potencializar
uma revolução cultural no sentido de disseminar
uma nova concepção da prevenção e
da promoção dos valores da saúde;
Que a comunicação não é um fator adjetivo
que se agrega secundariamente ao sistema de saúde, mas
sim um fator substantivo que se integra à própria
estratégia da ação;
Que os meios de comunicação de massa podem e devem
contribuir com sua parte no esclarecimento dos problemas e no
equacionamento das soluções(....);
(...) E finalmente, que isso só será possível
com a participação ativa criativa dos comunicadores
sociais como verdadeiros agentes de promoção da
saúde;
Propomos;
Que as faculdades de Saúde Pública, Faculdades de
Medicina e Escolas de Enfermagem do Brasil sejam chamadas a implementar
ao longo dos próximos quatro anos, cursos de Extensão
sobre Saúde Pública para estudantes de comunicação,
profissionais da grande imprensa e comunicadores populares (...);
Que as Faculdades de Comunicação Social sejam convidadas
a implementar linhas de investigação em Comunicação
e saúde e promovam cursos de extensão sobre comunicação
para médicos, enfermeiros, estudantes das ciências
da saúde;
Que as Faculdades de Ciências da saúde venham a incluir
nos seus currículos disciplinas sobre a comunicação
social (EPSTEIN 2001, p. 843,844).
Mais
de quatro anos se passaram e as mudanças ainda estão
longe da efetivação concreta. Acredito que isso
também é fruto da imagem que alguns órgãos
de saúde possuem perante a população, como
é o caso da Vigilância Sanitária.
Quando
o assunto é Vigilância Sanitária o problema
dessa distorção da imagem real ainda é visível.
Perdura o seu poder de polícia de fiscalizar, multar, punir,
advertir, apreender e inutilizar. Essas são atribuições
importantes, que visam a garantia da excussão das leis
e que garantem e asseguram a saúde da população,
mas poucos reconhecem as características normativas, educativas
e instrutivas do setor. Essas, que na verdade são ou ao
menos deveriam ser, as atividades necessárias para a formação
de uma consciência sanitária baseada na educação
e para a garantia das condições saudáveis
de vida da população.
É
necessário que haja um reconhecimento do papel conscientizador
da Vigilância Sanitária e que essa utilize corretamente
a comunicação a seu favor para despir-se dos aspectos
burocráticos, cartoriais e assumir definitivamente sua
tarefa de promover e proteger a saúde da população.
Com
a Lei Orgânica, a Vigilância Sanitária passa
a ser vista como "um conjunto de ações capazes
de eliminar, diminuir, ou prevenir riscos à saúde
e de intervir nos problemas sanitários decorrentes do meio
ambiente, da produção e circulação
de bens e da prestação de serviços de interesse
a saúde" (LEI 8080/90). A nova definição
introduz o conceito de risco e minimiza o caráter burocrático
e normativo anterior, a Vigilância Sanitária passa
então, perante a lei, a atuar sobre fatores de risco assumindo
o papel de promover, proteger, recuperar e reabilitar a saúde
da população.
Ediná
Costa (2000, p.18) completa "a comunicação
e a educação em saúde são de fundamental
importância para as ações de Vigilância
Sanitária, tanto pela democratização do conhecimento,
quanto pelo caráter pedagógico dos atos administrativos".
Mas
a própria Vigilância Sanitária deve assumir
esse papel e utilizar insumos que possam exaltar sua verdadeira
função. A análise que realizei da cobertura
da mídia impressa sobre ações da Vigilância
Sanitária de Vitória, ES, no período de primeiro
de janeiro a 30 de junho de 2004 confirmou as hipóteses
anteriormente pensadas de que a valorização da mídia
em relação a questões referente à
promoção e proteção não é,
e está longe de ser, a almejada pelos sanitaristas e pesquisadores,
e que a culpa não é exclusiva da mídia ou
da ausência de um jornalismo científico adequado.
A comunicação é sem dúvida um insumo
desconhecido e pouco utilizado pelo próprio setor.
Vitória,
capital do Espírito Santo, é um município
com cerca de 291.889 habitantes (1) e aproximadamente 89 km²
de extensão sendo que destes, apenas uma pequena área
é continental e o restante é composto por 34 ilhas,
divididos em 83 bairros agrupados pela prefeitura em sete regiões
administrativas, que visam facilitar a descentralização
das obras e os serviços de manutenção da
cidade. Possui três veículos de comunicação
impressa que são os maiores do Estado: o jornal A Tribuna,
Notícia Agora e o jornal A Gazeta.
O
objetivo inicial da pesquisa era avaliar as matérias publicadas
nos dois veículos, no período de primeiro de janeiro
a 30 de junho de 2004, referentes à Vigilância Sanitária
de Vitória. A hipótese era que o setor de assessoria
de imprensa localizado na Prefeitura Municipal de Vitória
possuísse o clipping das inserções midiáticas
ou que a própria Secretaria Municipal de Saúde fizesse
a coleta de matérias publicadas sobre a Vigilância
Sanitária.
As
dificuldades para a coleta de dados desta pesquisa confirmaram
que existe uma falta de cuidado e de preocupação
do setor com a questão comunicação, neste
caso especificamente, com o que a mídia impressa do município
divulga sobre a Vigilância Sanitária.
O
Setor não possui sequer assinatura de jornal. Ao procurar
a Assessoria de Comunicação da Prefeitura Municipal
de Vitória para solicitar autorização para
acesso ao material de clipagem, descobri no local a pesquisa não
poderia ser realizada devido a uma irresponsabilidade funcional:
um antigo diretor, desprovido da consciência da importância
da história da Prefeitura de Vitória, jogou fora
(no lixo) a clipagem de anos alegando que a documentação
não passava de papel velho e inútil. As informações
obtidas foram o desabafo de um funcionário que se recusou
a fornecer formalmente a resposta do pedido que fiz através
de ofício, para acessar o material, alegando que este tipo
de informação poderia prejudicá-lo.
A
opção passou a ser procurar as redações
para solicitar acesso ao arquivo. Outra frustração:
os arquivos, de ambos veículos, só são abertos
para funcionários, não sendo permitido a entrada
de "estranhos" para pesquisas. A Biblioteca Estadual
também não possui arquivo completo dos jornais,
o que demonstrou uma despreocupação geral com a
questão da pesquisa no município. A solução
encontrada foi efetuar a coleta de dados on line, via arquivos
dos jornais na Internet.
Somente
o jornal A Gazeta provia deste recurso, sendo assim o material
analisado foi colhido nos arquivos do jornal disponibilizados
via Internet na página http://gazetaonline.globo.com/jornalagazeta/.
Atualmente este recurso de pesquisa só é possível
para assinantes do jornal.
No
período pesquisado foram divulgadas 06 matérias
sobre a Vigilância Sanitária nos dias: 14 de janeiro,
31 de janeiro, 18 de fevereiro, 29 de fevereiro, 25 de março,
05 de maio do ano de 2004, no jornal A Gazeta.
Para
facilitar a análise das matérias optei por usar
um formulário de identificação (anexo) que
facilitou a quantificação dos dados para posterior
análise qualitativa que é o objetivo desta pesquisa.
No formulário foram analisados oito critérios: gênero
jornalístico, matéria assinada, enfoques, descritores
temáticos, fontes, tipo de apelo predominante, sujeito
a que se fazem referência à mensagem, linguagem.
Todas
as seis matérias observadas foram de caráter informativo
e em formato de reportagem, assinadas por jornalistas. Quanto
à questão do enfoque apenas duas matérias
continham informações sobre promoção
e prevenção à saúde.
As
matérias que incluíram em seu conteúdo informações
sobre prevenção e promoção foram divulgadas
nos dia 31 de janeiro com o título: Uso da tesoura e alicate
exige cuidados e no dia 25 de março, com o título:
Compra de peixe pede atenção extra. Em ambas é
possível notar o enfoque da prevenção desde
o título. As duas tiveram como fonte referências
técnicas do setor de Vigilância Sanitária
Municipal, um profissional formado em medicina para a primeira
matéria e um formado em medicina veterinária para
a segunda publicação. Com linguagem coloquial as
duas matérias tinham apelo cognitivo e faziam referências
aos profissionais e aos consumidores envolvidos com o tema.
A
matéria sobre o cuidado com o uso de tesouras e alicates
em salões de beleza traz informações sobre
como se prevenir para minimizar o risco de contração
de doenças virais nesses estabelecimentos. As informações
contidas nas matérias incluíram orientações
para os profissionais, além de disponibilizar o telefone
da Vigilância Sanitária para denúncias.
A
reportagem sobre a importância de atentar para cuidados
especiais na compra de pescado tem como informação
principal a divulgação do Projeto Peixaria, desenvolvido
pela Vigilância Sanitária de Vitória nas semanas
que antecedem a Semana Santa. Nesta época o consumo de
pescado se intensifica, principalmente no Espírito Santo,
onde há tradição no consumo de uma iguaria
típica chamada Torta Capixaba, que tem como ingredientes
uma variedades de frutos do mar.
O
setor intensifica a fiscalização em peixarias e
supermercados em que há a venda de pescado. Os estabelecimentos
recebem orientações e são classificados,
de acordo com uma fixa de identificação de riscos,
entre Ótimo, Bom, Ruim e Deficiente, sendo que sua classificação
geralmente é publicada na grande imprensa. A presença
de informações preventivas nesta matéria
demonstra a possibilidade de divulgar uma ação de
fiscalização desenvolvida pelo órgão
com acréscimo de dicas das condições favoráveis
para o consumo de pescado.
A
matéria divulgada no dia 14 de janeiro chamou atenção
pela falta de informações consistentes. Com o título
"Inspeção aprova a maioria de quiosques em
Vitória", a matéria teve como fonte o então
secretário Municipal de Saúde de Vitória,
Luciano Rezende, que fez uma análise positiva de um projeto
desenvolvido pelo setor de Vigilância Sanitária.
O Projeto Verão avalia, quanto às condições
sanitárias, os quiosques da orla do município. Na
matéria o secretário afirmou que houve uma evolução
na qualidade das condições higiênico-sanitárias
dos quiosques, informando que no ano de 2003 foram necessárias
interdições, e no ano de 2004 este tipo de ação
não se fez necessária.
Há
ainda divulgação de dados que mencionam a classificação
dos estabelecimentos dizendo que, na orla de Camburi, dos 40 quiosques
fiscalizados 27 são ótimos, sete são bons
e seis regulares, e que na, Curva da Jurema, dos 15 quiosques
inspecionados, 12 foram avaliados como ótimos, dois como
bons e apenas um como regular. Essas informações
seriam suficientes se fosse divulgada uma lista de quem é
realmente bom e quem é ruim, porque o consumidor tem o
direito de saber qual estabelecimento está mais apropriado,
para que através da informação ele possa
escolher qual é o local que vai freqüentar. A população
tem o direito de saber qual é a real condição
sanitária dos estabelecimentos de sua cidade e uma matéria
como essa de informação pública deve ser
clara, explicitando quais as condições de cada um
deles, para que seja do consumidor a opção de freqüentar
ou não um local que está em condições
ruim.
Apesar
da matéria usar linguagem coloquial ter como fonte representantes
da Vigilância Sanitária e o secretário Municipal
de Saúde, prevaleceu uma abordagem superficial com ausência
de informações que são relevantes.
A
matéria divulgada em 18 de fevereiro é intitulada:
Uma tonelada de carne é apreendida. O mote é a apreensão
feita pelo Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal
do Espírito Santo (IDAF) de 1,34 mil quilos de carne dentro
de uma caminhonete que estava estacionada em frente a uma churrascaria
do município de Vitória. O responsável pela
carne apreendida disse tê-la trazido de um município
que fica há aproximadamente três horas de Vitória,
dentro do veículo sem refrigeração. O produto
também não apresentava nota fiscal e certificado
de inspeção. A Vigilância Sanitária
foi acionada, mas não pode multar o estabelecimento porque
não tinha como provar que a carne estava sendo comprada.
"Doze
produtos proibidos no mercado" foi a matéria publicada
no dia 05 de maio, informando sobre uma determinação
da Agência Nacional de Vigilância Sanitária
(ANVISA) de retirar do mercado 12 produtos dentre eles cosméticos,
medicamentos e inseticidas. A matéria informa que Vigilância
Sanitária de Vitória iniciaria a fiscalização
no mesmo dia, mas não informa em nenhum momento a lista
dos produtos que estão impróprios para consumo.
Mais uma vez a ausência de informações claras
impossibilitam o consumidor de se proteger não adquirindo
produtos impróprios.
A
matéria "Moradores que circulam com animais em praça
serão multados" foi a que mais chamou atenção.
Tendo como fonte o secretário Municipal de Saúde,
Luciano Rezende, a reportagem informou que a partir da segunda
quinzena do mês de março de 2004 as pessoas, que
foram encontradas caminhando com animais em praças públicas
e parques, seriam multadas. A medida visa evitar contaminações
das areias destes locais por fezes e urinas de animais. A matéria
informou ainda que a Secretaria estaria distribuindo sacolas para
os transeuntes para que fosse efetuada a coleta das fezes, que
os animais só poderiam circular em calçadas e quarteirões,
e que as areias das praças estariam sendo trocadas e tratadas
pela Secretaria de Saúde.
A
Associação de Moradores do bairro de Jardim da Penha
alertou as autoridades sobre o índice de contaminação
das praças de seu bairro e afixou faixas informando aos
moradores os riscos a que estão expostas crianças
que brincam nas areias das praças e parques, apesar disso
muitas mães permitem que as crianças brinquem no
local.
O
que mais chamou a atenção na matéria foi
o depoimento de uma enfermeira de 45 anos que ignorou o aviso
e deixou a filha de dois anos brincar na areia e salientou: "Ela
brinca aqui desde um ano de idade e nuca aconteceu nada. Deixá-la
em casa trancada é que eu não posso. Se ela pegar
alguma doença, processo a prefeitura, que tem obrigação
de fazer a troca do material". A declaração
demonstra que, mesmo portando a informação do perigo
da exposição ao risco, alguns membros da população
não possuem a consciência plena da importância
de hábitos saudáveis de vida e da prevenção.
O trabalho da Vigilância Sanitária é muito
mais árduo e complicado do que o simples atendimento das
leis e da punição.
É
preciso um trabalho educativo, transformador, conscientizador.
Processar a Prefeitura certamente não garantirá
o resgate da saúde perdida. O trabalho informativo e educativo
da Vigilância Sanitária deve ser intensificado, a
convivência com uma população analfabeta em
questões de saúde aumenta o risco de exposição
e diminui a qualidade de saúde coletiva.
Julio
Abramczyk salienta a importância da participação
popular:
Para
que as ações de saúde tenham um impacto positivo
e duradouro na população, devem ter a participação
de um público devidamente informado. E o que desperta o
interesse por uma informação é o que pode
afetar ou melhorar a vida das pessoas. (ABRAMCZYK, 2001, p.41)
As
informações midiáticas quanto mais precisas
e elucidativas mais facilitarão a assimilação
da informação pelo público leitor. No caso
de matérias sobre a Vigilância Sanitária a
fonte deve estar preparada para disponibilizar informações
claras que permitam despertar na população de atos
de proteção e prevenção de sua própria
saúde, como explica Lovatto:
um discurso se torna mais eficiente quanto mais se ajustar
às condições específicas do público
envolvido, através de um vocabulário acessível
e da maleabilidade lingüística e técnica, que
faz com que o receptor compreenda o que está sendo dito
e porque está sendo dito. (LOVATTO, 2001, p. 72)
É necessário salientar que não há
como transformar a saúde ou qualquer outro setor público
sem a participação popular. Bernardo Toro chama
atenção para necessidade da mobilização
social que é "uma forma de construir na prática
o projeto ético proposto na constituição
brasileira: soberania, cidadania, dignidade da pessoa humana,
valores do trabalho e da livre iniciativa e pluralismo político"
(2004, p.10) e o uso adequado de ações de comunicação
incluindo a cobertura midiática são insumos que
podem transformar a saúde pública que temos na que
almejamos ter.
Notas
1) Dados do IBGE 2000. http://www.ceturb.gov.br/site/menu_grande-vitoria.php
em 28.02.2005
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Fabiana Campos Franco
Jornalista, mestranda em Comunicação e Saúde
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