Volume 3
Número 5

20 de dezembro de 2006
 
 * Edição atual    

          O ensino médico está cada vez mais doente

          A situação é dramática: o número de cursos de Medicina tem aumentado explosivamente no Brasil, apesar das reclamações do Conselho de Medicina e de autoridades da área. O problema é gravíssimo porque as autorizações têm sido concedidas para novas aberturas, mas a qualidade do ensino não tem sido fiscalizada. Isto significa que cada vez mais a população deverá estar refém de profissionais sem qualquer qualificação para o exercício da Medicina.

          O Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp) acaba de realizar uma prova, não obrigatória, para os formados em 2006 em que 38% deles foram reprovados. Esse índice é maior do que os 31% registrados em 2005, o que pode indicar que a situação vem mesmo se agravando.

          Os resultados poderiam ser ainda piores se algumas escolas não tivessem decidido boicotar a prova , temendo a repercussão que a avaliação negativa poderia ter para os seus negócios. O Centro Universitário Barão de Mauá, de Ribeirão Preto, por exemplo, ficou ausente da prova e muitas outras instituições tiveram participação inexpressiva, comprometendo a generalização dos resultados obtidos.

          O Ministério da Educação precisa , urgentemente, atender à reivindicação do Cremesp e criar formas de controle adequadas para preservar a qualidade mínima que deve ser exigida de profissionais que terão a incumbência de cuidar da saúde dos cidadãos brasileiros.

          Não é possível persistir na política atual que privilegia a quantidade em vez da qualidade e que favorece empresários da educação absolutamente descompretidos com a formação dos alunos. Há, segundo informações, cursos cuja mensalidade chega próximo a 4 mil reais, o que evidencia a alta lucratividade deste ensino, nem sempre (muito pelo contrário) de boa qualidade.

          É preciso reconhecer que a qualidade de ensino não tem a ver com o fato de as universidades serem públicas ou privadas, porque há bons cursos nos dois casos. Na avaliação do Cremesp, inúmeras universidades privadas figuraram nos primeiros lugares, tanto na capital como no interior do Estado. Mas certamente as que mais degradam o ensino não estão entre as universidades públicas e é preciso separar o joio do trigo.

          O número de casos de erro médico tem aumentado no País e ele pode ser um indicador de que há algo errado com a formação dos nossos profissionais.

          A recomendação com respeito ao controle da qualidade dos cursos superiores no Brasil não vale apenas para a Medicina, mas é vital nesse caso. O Governo não pode eximir-se desta obrigação e mesmo de culpa , se a sociedade continuar sendo penalizada. Afinal de contas, a abertura de cursos e sua avaliação são de responsabilidade do Ministério da Educação. Infelizmente, pelo que temos visto, ele , no momento, é disputado por políticos, certamente mais interessados no prestígio do cargo do que com a urgência de uma política ampla para melhorar a qualidade da saúde no Brasil.

          Talvez tenhamos mesmo que formar políticos responsáveis (muitos dos integram o Parlamento brasileiro são grandes empresários da educação ou financiados por estes) antes de exigirmos dos que aí estão que façam o que deve ser feito. Como a saúde tem pressa, é bom começarmos exigindo seriedade deste já.

 

 
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