
O
ensino médico está cada vez mais doente
A
situação é dramática: o número
de cursos de Medicina tem aumentado explosivamente no Brasil,
apesar das reclamações do Conselho de Medicina e
de autoridades da área. O problema é gravíssimo
porque as autorizações têm sido concedidas
para novas aberturas, mas a qualidade do ensino não tem
sido fiscalizada. Isto significa que cada vez mais a população
deverá estar refém de profissionais sem qualquer
qualificação para o exercício da Medicina.
O
Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp) acaba
de realizar uma prova, não obrigatória, para os
formados em 2006 em que 38% deles foram reprovados. Esse índice
é maior do que os 31% registrados em 2005, o que pode indicar
que a situação vem mesmo se agravando.
Os
resultados poderiam ser ainda piores se algumas escolas não
tivessem decidido boicotar a prova , temendo a repercussão
que a avaliação negativa poderia ter para os seus
negócios. O Centro Universitário Barão de
Mauá, de Ribeirão Preto, por exemplo, ficou ausente
da prova e muitas outras instituições tiveram participação
inexpressiva, comprometendo a generalização dos
resultados obtidos.
O
Ministério da Educação precisa , urgentemente,
atender à reivindicação do Cremesp e criar
formas de controle adequadas para preservar a qualidade mínima
que deve ser exigida de profissionais que terão a incumbência
de cuidar da saúde dos cidadãos brasileiros.
Não
é possível persistir na política atual que
privilegia a quantidade em vez da qualidade e que favorece empresários
da educação absolutamente descompretidos com a formação
dos alunos. Há, segundo informações, cursos
cuja mensalidade chega próximo a 4 mil reais, o que evidencia
a alta lucratividade deste ensino, nem sempre (muito pelo contrário)
de boa qualidade.
É
preciso reconhecer que a qualidade de ensino não tem a
ver com o fato de as universidades serem públicas ou privadas,
porque há bons cursos nos dois casos. Na avaliação
do Cremesp, inúmeras universidades privadas figuraram nos
primeiros lugares, tanto na capital como no interior do Estado.
Mas certamente as que mais degradam o ensino não estão
entre as universidades públicas e é preciso separar
o joio do trigo.
O
número de casos de erro médico tem aumentado no
País e ele pode ser um indicador de que há algo
errado com a formação dos nossos profissionais.
A
recomendação com respeito ao controle da qualidade
dos cursos superiores no Brasil não vale apenas para a
Medicina, mas é vital nesse caso. O Governo não
pode eximir-se desta obrigação e mesmo de culpa
, se a sociedade continuar sendo penalizada. Afinal de contas,
a abertura de cursos e sua avaliação são
de responsabilidade do Ministério da Educação.
Infelizmente, pelo que temos visto, ele , no momento, é
disputado por políticos, certamente mais interessados no
prestígio do cargo do que com a urgência de uma política
ampla para melhorar a qualidade da saúde no Brasil.
Talvez
tenhamos mesmo que formar políticos responsáveis
(muitos dos integram o Parlamento brasileiro são grandes
empresários da educação ou financiados por
estes) antes de exigirmos dos que aí estão que façam
o que deve ser feito. Como a saúde tem pressa, é
bom começarmos exigindo seriedade deste já.
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