Volume 3
Número 5

20 de dezembro de 2006
 
 * Edição atual    

           A saúde indígena em pauta

          Nesta edição, entrevistamos Nilda Rodrigues, jornalista e consultora em comunicação, sobre a situação dramática dos indígenas brasileiros que, por negligência de autoridades e governos, pela falta de compromisso dos parlamentares com a questão indígena e mesmo pela omissão da mídia, estão, gradativamente, sendo penalizados em sua qualidade de vida e saúde. A morte de crianças indígenas por desnutrição, a propagação de doenças, a falta recorrente de recursos e de assistência exigem uma tomada de consciência e a nossa mobilização.

          Nilda Rodrigues é jornalista, atua como consultora de comunicação em organizações não governamentais ligadas a questões indígenas, e outros, há mais de 6 anos. Foi organizadora do I Fórum e Congresso Brasileiro de Jornalismo Ambiental, coordenou a Oficina de Jornalismo Experimental da ONG Papel Jornal (atua com jovens na periferia de São Paulo com o projeto Oficina Experimental de Jornalismo), editou a revista Com Ciência Ambiental, entre outros.

Comunicação & Saúde: A mídia tem divulgado ultimamente com mais freqüência notícias dramáticas sobre a saúde indígena no Brasil. Qual é, na prática a verdadeira situação dos indígenas brasileiros?

Nilda Rodriguez: Os jornalistas, em geral, têm interesse por questões indígenas, mas os veículos não. Assim, os problemas indígenas só têm evidência na grande imprensa quando viram calamidade. Não há espaço para suas especificidades. A sensação de que a mídia tem falado mais dos indígenas é porque o espaço sobre meio ambiente ganhou um novo status, entretanto os problemas cotidianos dos índios têm pouca visibilidade.

Comunicação & Saúde: Se é verdade que o Governo Lula aumentou os recursos para os índios, por que isso efetivamente ocorre? Quem gerencia esta área no Governo? Existe uma política pública adequada para dar conta desta situação?

Nilda Rodriguez: É possível que o Governo considere a distribuição dos recursos entre os ministérios/secretarias (meio ambiente, educação, saúde, etc), mas esse aumento de recursos nem sempre vem precedido da eficiência na aplicação dos mesmos. A saúde indígena, por exemplo, que é gerida pela FUNASA - Fundação Nacional de Saúde, é muito criticada pelos indígenas. No momento, os índios consideram a situação como gravíssima.

É importante compreender que a saúde indígena tem condições muito diferentes do modelo aplicado nos demais sistemas. As áreas são de difícil acesso, a cultura tem suas peculiaridades e o atendimento é totalmente diferenciado. Portanto, o investimento que parece grande acaba não sendo o bastante para atender às especificidades. E ainda, segundo os indígenas, a burocracia e a gestão do sistema público dificultam a boa aplicação das verbas destinadas.

Comunicação & Saúde: Como as comunidades indígenas estão se organizando para denunciar esta situação e revertê-la?

Nilda Rodriguez: Na verdade, são muito solitários nessa luta. Contam com o apoio das organizações não governamentais, basicamente. Procuram soluções "jurídicas", fazem manifestações, pressionam as políticas públicas por meio dos órgãos destinados a atendê-los. Fora isso, têm formado políticos indígenas, cobram pela presença de educadores indígenas no sistema educacional, exigem a participação efetiva de representantes indígenas em todas as instâncias do sistema.

Comunicação & Saúde: Quais as medidas necessárias para eliminar o problema no presente e no futuro?

Nilda Rodriguez: Nossa ! a resposta para esta questão é bem difícil. Mas é possível começar pela aplicação adequada dos recursos. Outro ponto é a própria sociedade reconhecer o direito ao atendimento/tratamento diferenciado para esses povos.

Acima de tudo, o governo tem que assegurar a questão orçamentária para esses povos, pois a falta desta garantia provoca uma vulnerabilidade enorme. Se não é lei, cada governo pode agir da forma que julgar adequado.

Comunicação & Saúde: Como os indígenas administram a relação entre as soluções dos brancos para a questão da saúde e as soluções da sua própria cultura?

Nilda Rodriguez: Esse é um ponto bastante delicado. Em algumas regiões, as iniciativas já prevêem ações harmonizadas com os sistemas de tratamento e cura tradicionais. Dizer que se faz a atenção diferenciada é uma coisa, aplicá-la no dia-a-dia é outra completamente diferente. Por exemplo, profissionais contratados para o serviço de saúde têm salários, pajés não. As curas por meio dos tratamentos alopatas são distintas, e, inicialmente, provocaram instabilidade entre os curadores tradicionais. O assunto é tema para um doutorado.

Comunicação & Saúde: A saúde precária dos indígenas tem a ver também com a questão da terra, da propriedade, da proximidade com os brancos?

Nilda Rodriguez: Sim, tem tudo a ver. Não que eles não tivessem problemas de saúde antes da chegada dos "brancos", mas eles se agravaram diante desse contexto de invasão, da redução de recursos naturais e de pouca mobilidade. O indígena entende saúde como um conjunto de coisas, holístico, ou seja, quem tem terra, comida, momentos de lazer e vive de acordo com os seus valores culturais tem mais chance de ser uma pessoa saudável.

Comunicação & Saúde: Como você avalia a cobertura da mídia a respeito da questão indígena? O que os meios de comunicação de massa e os jornalistas em particular podem fazer para contribuir para este debate?

Nilda Rodriguez: Muito displicente. Não pensam, sequer, no montante que o governo investe nessa questão, na cobrança pela aplicação do recurso público. Os meios de comunicação de massa parecem não entender com propriedade a questão dos direitos humanos. Operam como no passado, ainda vêem notícia como algo extraordinário, exótico, que foge do comum. Mas o comum é o que perturba as pessoas, que mina a qualidade de vida. É desanimador levar os problemas indígenas para os grandes meios de comunicação porque a receptividade é insignificante, eles desconhecem a cultura e os problemas dos povos indígenas, e, quando falam , distorcem as informações ou deixam o que mais relevante de fora.

A evolução tecnológica surge como solução no horizonte, uma vez que amplia a capacidade de comunicação de quem vive distante dos grandes centros, fisicamente, econômica ou "antropologicamente". A necessidade de contar a história do seu próprio ponto de vista - a dos índios -começa a ser resolvida com o surgimento desses meios "alternativos" .

Em tempo: As comunidades indígenas elaboraram a respeito da grave situação que enfrentam dois documentos - uma carta ao Ministério Público e uma moção de repúdio, que anexamos em PDF. Vale a pena tomar conhecimento deles. Basta clicar nos links abaixo para fazer o download dos documentows (é necessário dispor do Adobe Acrobate Reader, mas esse é um software gratuito e fácil de encontrar na Web, se você ainda não tem).

Documento 1: Carta ao Ministério Público

Documento 2: Moção de repúdio

 

 
Imprimir   Enviar para um amigo
     
Webdesign e hospedagem por @ms public