
A saúde indígena em pauta
Nesta edição, entrevistamos
Nilda Rodrigues, jornalista e consultora em comunicação,
sobre a situação dramática dos indígenas
brasileiros que, por negligência de autoridades e governos,
pela falta de compromisso dos parlamentares com a questão
indígena e mesmo pela omissão da mídia, estão,
gradativamente, sendo penalizados em sua qualidade de vida e saúde.
A morte de crianças indígenas por desnutrição,
a propagação de doenças, a falta recorrente
de recursos e de assistência exigem uma tomada de consciência
e a nossa mobilização.
Nilda Rodrigues é jornalista,
atua como consultora de comunicação em organizações
não governamentais ligadas a questões indígenas,
e outros, há mais de 6 anos. Foi organizadora do I Fórum
e Congresso Brasileiro de Jornalismo Ambiental, coordenou a Oficina
de Jornalismo Experimental da ONG Papel Jornal (atua com jovens
na periferia de São Paulo com o projeto Oficina Experimental
de Jornalismo), editou a revista Com Ciência Ambiental,
entre outros.
Comunicação &
Saúde: A mídia tem divulgado ultimamente com mais
freqüência notícias dramáticas sobre
a saúde indígena no Brasil. Qual é, na prática
a verdadeira situação dos indígenas brasileiros?
Nilda Rodriguez: Os jornalistas,
em geral, têm interesse por questões indígenas,
mas os veículos não. Assim, os problemas indígenas
só têm evidência na grande imprensa quando
viram calamidade. Não há espaço para suas
especificidades. A sensação de que a mídia
tem falado mais dos indígenas é porque o espaço
sobre meio ambiente ganhou um novo status, entretanto os problemas
cotidianos dos índios têm pouca visibilidade.
Comunicação &
Saúde: Se é verdade que o Governo Lula aumentou
os recursos para os índios, por que isso efetivamente ocorre?
Quem gerencia esta área no Governo? Existe uma política
pública adequada para dar conta desta situação?
Nilda Rodriguez: É
possível que o Governo considere a distribuição
dos recursos entre os ministérios/secretarias (meio ambiente,
educação, saúde, etc), mas esse aumento de
recursos nem sempre vem precedido da eficiência na aplicação
dos mesmos. A saúde indígena, por exemplo, que é
gerida pela FUNASA - Fundação Nacional de Saúde,
é muito criticada pelos indígenas. No momento, os
índios consideram a situação como gravíssima.
É importante compreender
que a saúde indígena tem condições
muito diferentes do modelo aplicado nos demais sistemas. As áreas
são de difícil acesso, a cultura tem suas peculiaridades
e o atendimento é totalmente diferenciado. Portanto, o
investimento que parece grande acaba não sendo o bastante
para atender às especificidades. E ainda, segundo os indígenas,
a burocracia e a gestão do sistema público dificultam
a boa aplicação das verbas destinadas.
Comunicação &
Saúde: Como as comunidades indígenas estão
se organizando para denunciar esta situação e revertê-la?
Nilda Rodriguez: Na verdade,
são muito solitários nessa luta. Contam com o apoio
das organizações não governamentais, basicamente.
Procuram soluções "jurídicas",
fazem manifestações, pressionam as políticas
públicas por meio dos órgãos destinados a
atendê-los. Fora isso, têm formado políticos
indígenas, cobram pela presença de educadores indígenas
no sistema educacional, exigem a participação efetiva
de representantes indígenas em todas as instâncias
do sistema.
Comunicação &
Saúde: Quais as medidas necessárias para eliminar
o problema no presente e no futuro?
Nilda Rodriguez: Nossa !
a resposta para esta questão é bem difícil.
Mas é possível começar pela aplicação
adequada dos recursos. Outro ponto é a própria sociedade
reconhecer o direito ao atendimento/tratamento diferenciado para
esses povos.
Acima de tudo, o governo tem que
assegurar a questão orçamentária para esses
povos, pois a falta desta garantia provoca uma vulnerabilidade
enorme. Se não é lei, cada governo pode agir da
forma que julgar adequado.
Comunicação &
Saúde: Como os indígenas administram a relação
entre as soluções dos brancos para a questão
da saúde e as soluções da sua própria
cultura?
Nilda Rodriguez: Esse é
um ponto bastante delicado. Em algumas regiões, as iniciativas
já prevêem ações harmonizadas com os
sistemas de tratamento e cura tradicionais. Dizer que se faz a
atenção diferenciada é uma coisa, aplicá-la
no dia-a-dia é outra completamente diferente. Por exemplo,
profissionais contratados para o serviço de saúde
têm salários, pajés não. As curas por
meio dos tratamentos alopatas são distintas, e, inicialmente,
provocaram instabilidade entre os curadores tradicionais. O assunto
é tema para um doutorado.
Comunicação &
Saúde: A saúde precária dos indígenas
tem a ver também com a questão da terra, da propriedade,
da proximidade com os brancos?
Nilda Rodriguez: Sim, tem
tudo a ver. Não que eles não tivessem problemas
de saúde antes da chegada dos "brancos", mas
eles se agravaram diante desse contexto de invasão, da
redução de recursos naturais e de pouca mobilidade.
O indígena entende saúde como um conjunto de coisas,
holístico, ou seja, quem tem terra, comida, momentos de
lazer e vive de acordo com os seus valores culturais tem mais
chance de ser uma pessoa saudável.
Comunicação &
Saúde: Como você avalia a cobertura da mídia
a respeito da questão indígena? O que os meios de
comunicação de massa e os jornalistas em particular
podem fazer para contribuir para este debate?
Nilda Rodriguez: Muito displicente.
Não pensam, sequer, no montante que o governo investe nessa
questão, na cobrança pela aplicação
do recurso público. Os meios de comunicação
de massa parecem não entender com propriedade a questão
dos direitos humanos. Operam como no passado, ainda vêem
notícia como algo extraordinário, exótico,
que foge do comum. Mas o comum é o que perturba as pessoas,
que mina a qualidade de vida. É desanimador levar os problemas
indígenas para os grandes meios de comunicação
porque a receptividade é insignificante, eles desconhecem
a cultura e os problemas dos povos indígenas, e, quando
falam , distorcem as informações ou deixam o que
mais relevante de fora.
A evolução tecnológica
surge como solução no horizonte, uma vez que amplia
a capacidade de comunicação de quem vive distante
dos grandes centros, fisicamente, econômica ou "antropologicamente".
A necessidade de contar a história do seu próprio
ponto de vista - a dos índios -começa a ser resolvida
com o surgimento desses meios "alternativos" .
Em tempo: As comunidades
indígenas elaboraram a respeito da grave situação
que enfrentam dois documentos - uma carta ao Ministério
Público e uma moção de repúdio, que
anexamos em PDF. Vale a pena tomar conhecimento deles. Basta clicar
nos links abaixo para fazer o download dos documentows (é
necessário dispor do Adobe Acrobate Reader, mas esse é
um software gratuito e fácil de encontrar na Web, se você
ainda não tem).
Documento
1: Carta ao Ministério Público
Documento
2: Moção de repúdio
|