Volume 3
Número 5

20 de dezembro de 2006
 
 * Edição atual    

          Os tentáculos asfixiantes da Big Pharma

          Os dados costumam ser estarrecedores e algumas situações e crises apontam para a necessidade de uma ação planetária urgente contra os monopólios da indústria da saúde.

          Vejamos alguns casos recentes.

          A Novartis, com o apoio de outras empresas farmacêuticas e do próprio Governo Bush (já conhecido por todos nós pela sua atuação contra a saúde , o meio ambiente e a favor da guerra), está tentando a todo custo modificar a lei que regula a patente de medicamentos na Índia. O que quer a gigante farmacêutica? Impedir que milhões de indianos contaminados pela Aids possam receber drogas genéricas mais baratas, fabricadas na Índia, submetendo-se aos preços abusivos do laboratório. Sob a alegação de que precisa proteger as suas patentes, busca condenar à morte milhões de pessoas. E mais do que isso: quer tentar sustar, com a vitória nesse caso, processos semelhantes desencadeados em outros países que, em nome da vida, questionam o poder da indústria farmacêutica. A Tailândia acaba de tomar medida similar para produzir cópias de um medicamento barato para o coração. O Brasil, em alguns momentos, tem ameaçado fazer o mesmo.

          Aqui no Brasil a Novartis repete o discurso de apoio à pesquisa brasileira. Mas se envolveu recentemente no caso da BioAmazônia, com acusações pesadas (inclusive do ministro do meio ambiente à época e de cientistas de prestígio) de biopirataria, de tentativa de ataque à biodiversidade. Na verdade, está implantando por aqui um centro de distribuição para venda internacional de genéricos (o negócio é ganhar dinheiro de todo o lado!). Quem se dispuser a resgatar o caso BioAmazônia, basta colocar a palavra BioAmazônia seguida de Novartis como palavra chave nos principais sistemas de busca como o Google. É cada vez mais difícil apagar a história, particularmente a recente. Não há programa de limpeza de imagem que consiga isso, felizmente para todos nós.

          A Abbot, um grande laboratório norte-americano, segundo reportagem recente do The Wall Street Journal (que cita e-mails internos trocados por seus executivos), quintuplicou em 2003 os preços do Novir, uma droga mais antiga e utilizada junto com outras para afugentar rivais do mercado e permitir o crescimento de vendas do Kaletra, outra de suas drogas modernas. Quem perdeu? O consumidor certamente, obrigado a pagar mais caro pelo novo remédio contra Aids. O Governo brasileiro andou também tendo um problema com a Abbot por causa do Kaletra, mas aceitou um acordo. Foi bom para o País e para os cidadãos brasileiros?

          O Cade está tentando, há algum tempo, punir a Basf, a Aventis e a Roche, outros 3 gigantes da área, pela formação de um cartel de vitaminas que também impôs preços abusivos para os cidadãos. Nos Estados Unidos e Europa, as empresas já foram condenadas, mas aqui, graças aos lobbies, às relações com autoridades e à frouxidão da Justiça, lenta e injusta, continuam impunes. As subsidiárias devem estar alegando que só as matrizes são irresponsáveis, que nada têm a ver com a história. E talvez tenham razão: não têm mesmo autonomia alguma, são apenas prepostos do poder central, não definem política de preços, apenas cumprem ordens.

          Há denúncias de pressões sobre o FDA para liberação cada vez mais rápida de medicamentos, mesmo numa época em que tantos deles têm se mostrado prejudiciais à saúde, com retiradas sucessivas de mercado após a comprovação de milhares de mortes ( o caso Vioxx, da Merck, repercute ainda hoje depois que a empresa, de forma irresponsável, tentou ludibriar a opinião pública, mesmo após evidências dos riscos para os pacientes). Tem perdido e ganho processos nos EUA, alguns de doer no bolso.

          A literatura no mundo sobre a ação nefasta da Big Pharma tem aumentado bastante (você, leitor, pode consultar a Amazon que traz vários títulos sobre a Big Pharma, eles é a chamam assim por lá). O lobby da poderosa indústria farmacêutica pressiona fortemente o Governo brasileiro para que arque com os custos de medicamentos que os brasileiros individualmente não podem pagar. a Big Pharma não pesquisa ou investe em medicamentos para doenças de gente pobre, seu foco é apenas os que podem pagar e caro pelas suas pílulas mágicas. Você já ouviu falar de doenças negligenciadas? Para quem vive ferozmente para o lucro, a saúde não é compromisso, apenas um grande negócio.

          A crise experimentada por muitas destas empresas as impele para ações deletérias contra a humanidade para preservar os seus altos lucros. Andam desesperadas com o fim de algumas de suas patentes, maqueiam novos produtos para parecerem novos , buscam estender o tempo dos monopólios, enfim jogam com todas as armas.

          A Pfizer (está na mídia nacional, pode consultar) pretende demitir 10 mil funcionários e fechar fábricas em todo o mundo para recuperar a sua saúde financeira, abalada também no Brasil com a perda do mercado do Viagra. Parece que, com a concorrência, as próprias finanças da empresa sofreram de uma particular "síndrome da disfunção", ou seja murcharam.

          A ação da Big Pharma é conhecida: além de campanhas de mídia, age nos bastidores (por que não se fala mais do processo contra dezenas de laboratórios que se uniram no Brasil para boicotar os genéricos?), transita com desenvoltura pelos corredores do Parlamento (gasta mais em marketing do que em pesquisa, você sabia disso?) e assedia médicos e entidades profissionais para empurrar seus medicamentos. É uma das maiores patrocinadoras das campanhas presidenciais nos EUA e usa , sem escrúpulos, de chantagem (sair do país, não produzir medicamentos, contra os impostos etc) para fazer valer os seus grandes interesses.

          Certamente há exceções, mas a maioria destas corporações, multinacionais ou não, precisa ser fiscalizada melhor, merecer a atenção das autoridades, da sociedade civil, da Justiça, dos cidadãos em geral. Elas agem contra a saúde e não a favor dela.

          É fundamental que os jornalistas e comunicadores se dêem conta de que a Big Pharma tem como objetivo principal o lucro e não a saúde e que é muito sensível às oscilações do mercado. Por isso, muitas das organizações que a integram estão dispostas a qualquer coisa para continuarem crescendo e distribuindo lucros para os seus investidores. Por isso, ao tomá-las como fontes, devem ter presente de que, na maioria dos casos, não estão diante de benfeitores da humanidade, como costuma ser o seu discurso hipócrita de responsabilidade social, mas de vilões na verdadeira acepção da palavra.

          É preciso separar o joio do trigo, mas sobretudo ficar com os olhos bem abertos. Por aqui, a crítica a elas tem sido bastante atenuada, mas é ilustrativo consultar organizações independentes e mesmo profissionais ou representantes de entidades científicas lá de fora (sabia que pesquisadores receberam dinheiro da Big Pharma para assumirem a autoria de artigos encaminhados a revistas científicas que nen mesmo tiveram o trabalho de ler? Lógico, artigos produzidos por elas!). Basta colocar Big Pharma como palavra chave no Google para recuperar um conjunto formidável de denúncias e processos que a envolvem no mundo todo.

          Olho vivo e mão no bolso. A Big Pharma tem tentáculos poderosos. Ela costuma matar por asfixia.

Em tempo 1: todas os casos citados aqui têm sido relatados pela imprensa brasileira ou internacional. É fácil ter acesso a este material. Não são novidade portanto. Apenas trouxemos para um único texto para que você, leitor, possa contextualizá-los, juntar os pedaços. A Big Pharma sabe disso e tem sido acusada de processar jornalistas, ameaçar médicos e cientistas para sufocar as vozes contrárias. Nem sempre tem dado certo e por isso sua imagem é tão ruim. Convenhamos, ela merece a fama. A ânsia voraz pelo lucro deixa muitas empresas com a cara suja no filme. Não há agência de propaganda ou de comunicação que consiga limpá-la, embora muitas agências se esforcem e ganhem muito dinheiro para isso.

Em tempo 2: No livro Crimes Corporativos, que saiu por aqui e anda com a edição esgotada, há inúmeros capítulos sobre a Big Pharma. Num deles, que vem a calhar em função deste editorial, o pai do presidente Bush também comparece com desenvoltura comprometido com os interesses dos gigantes farmacêuticos. Você não se surpreende com isso, não é verdade?

Em tempo 3: Algumas empresas farmacêuticas também atuam na indústria agroquímica, de biotecnologia e de sementes. Sempre com a mesma disposição para o monopólio e a mesma prática lesiva aos interesses de países e de cidadãos.

 

 
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