
Cartel
das vitaminas: quando chega a punição?
Ainda
não foi desta vez que as empresas (Basf, Roche e Aventis)
acusadas de formação de cartel no caso das vitaminas
tiveram seu julgamento finalizado pelo Cade - Conselho Administrativo
de Defesa Econômica. Um pedido de vista suspendeu, temporariamente,
o julgamento impedindo que estes laboratórios, integrantes
da chamada Big Pharma, possam ser finalmente punidos. Estas três
empresas já foram punidas pelo mesmo motivo nos Estados
Unidos e na Europa, mas tem se valido de inúmeros recursos
para não receberem a multa devida no Brasil.
As
empresas processadas alegam que não há provas de
formação de cartel no Brasil e que a denúncia
apresentada pelo Cade se baseia nos mesmos argumentos das autoridades
de defesa da concorrência americanas e européias.
O
relator do caso, o conselheiro Ricardo Cueva, defende a aplicação
de uma multa de 17,6 milhões para as empresas, mas essa
multa, segundo ele, só deveria ser aplicada para as sedes.
O conselheiro esclarece que as subsidiárias brasileiras
não têm pode de decisão e que pouco podem
fazer para interferir em políticas de preço ou mesmo
para impedir que posturas ilícitas, socialmente irresponsáveis
sejam praticadas pelas matrizes.
O
julgamento maior fica por conta de todos nós: subsidiária
ou não, a verdade é que, mais uma vez, temos provas
de que os grandes laboratórios, ao longo da história,
não têm jogado limpo com os cidadãos. Muitos
deles, por aqui, repetem o cínico discurso da responsabilidade
social. Parodiando o ditado popular, engana que eu não
gosto.
Propaganda
com imagens fortes contra tabaço funciona mesmo
Pesquisa realizada por David Hammond, da Universidade de Waterloo,
no Canadá, entre 2002 e 2005, comprovou que as imagens
impactantes sobre o efeito nocivo do cigarro nos maços
vendidos no Brasil e em outros países contribuem para desencorajar
os fumantes.
No caso do Canadá (lá a imagem cobre metade da parte
da frente e metade da parte de trás do maço de cigarro),
40% dos fumantes consultados relataram o desejo (muitas vezes
realizado) de parar de fumar.
Segundo o tratado que estipula o controle do tabaco em todo o
mundo (Convenção-Quadro da ONU para Controle do
Tabaco), os maços devem conter advertências que cubram
no mínimo 30% da embalagem, mas ele sugere que o aviso
de prevenção ocupe pelo menos 50% e inclua imagens.
Os Estados Unidos, por exemplo, contrariam abertamente o tratado
e apenas incluem mensagens negativas na lateral dos maços.
Outros países (Austrália e Reino Unido) não
seguem o padrão considerado ideal.
No Brasil, quando a campanha que envolvia a publicação
de imagens dramáticas nos maços entrou no ar, os
telefonemas para o Disque-Pare de Fumar (o número do fone
foi incluído no maço) triplicaram. Pesquisa realizada
nesta época sobre as imagens teve a aprovação
de 92% das pessoas (das quais 80% fumantes), que pediam inclusive
imagens mais fortes.
Na verdade, é preciso mais, muito mais,
para reduzir a ação dos vendedores de drogas lícitas
no Brasil. Em particular, será necessário multiplicar
ações coletivas para responsabilizar as empresas
pelo prejuízo que causam ao sistema de saúde, aumentar
brutalmente o preço do cigarro, combater ferozmente a pirataria
e penalizar as campanhas e ações dos fabricantes.
Quem mata tanta gente, na verdade, deveria estar na cadeia, mas
a sociedade moderna tem sido complacente com os vilões
da saúde. O importante é que os cidadãos
não acreditem no discurso cínico das empresas (Souza
Cruz e Philip Morris) que, embora sejam responsáveis por
tantos danos, ainda desejam aparecer como benfeitoras da saúde
e do meio ambiente. Socialmente responsáveis? Com certeza,
por milhões de mortes em todo o mundo. É
pouco?
Beber
com moderação? O cinismo continua solto e dando
altos lucros
Apesar
da mensagem hipócrita dos fabricantes de bebidas em suas
campanhas agressivas pela televisão, os jovens brasileiros
estão bebendo cada vez mais, o que está a indicar
que o Governo e a sociedade deveriam buscar novas medidas para
resolver o problema.
O
número de acidentes de trânsito envolvendo jovens
é dramático, mas o lobby dos fabricantes, das agências
de propaganda/comunicação e dos veículos
é poderoso para impedir que algo de concreto seja feito,
sempre com a alegação cínica de afronta à
liberdade de expresão.
Pesquisa
recente, realizado em São Paulo e no Rio de Janeiro, mostrou
que quase 40% dos jovens admitem dirigir depois de beber e que
mais de 80% dos que não dirigem aceitam caronas de amigos
alcoolizados.
A
pesquisa foi feita com jovens universitários, de 18 a 30
anos, e trouxe dados reveladores: por exemplo, apenas 12% dos
entrevistados declararam que, ao sairem para beber, combinam que
um deles vai ficar sóbrio para trazer a turma com segurança
para casa. E acrescentam: 38% deles já tiveram colegas
envolvidos em colisões por causa do álcool.
Segundo
especialistas, com o consumo de 5 copos de chope a chance de sofrer
um acidente ao volante triplica e não é incomum,
pelo contrário, observar, particularmente nas festas universitárias
ou em períodos como o Carnaval, que há muitos jovens
que excedem inclusive este limite dramático.
A
Ambev vai continuar proclamando a sua condição de
socialmente responsável doando bafômetros para a
Polícia e criando o selo de comerciante responsável
(que não vende bebida para menores de 18 anos), quando
pesquisa da Unifesp já demonstrou que a desobediência
é geral.
Está
na hora de a sociedade dar um basta ao cinismo dos fabricantes
e agir com rigor. Esperar que algo seja feito por veículos
e agências que lucram muito com os anúncios e campanhas
é acreditar que a raposa será mesmo capaz de tomar
conta do galinheiro.
Uma
saída: responsabilizar criminalmente os fabricantes por
cada jovem morto em decorrência do consumo de álcool.
Como os fabricantes de cigarros, os de bebidas sempre dirão
que o problema não é com eles. Na prática,
eles continuam vendendo e lucrando sem moderação.
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