
Cirurgia
Plástica: interesses privados e o desserviço da
mídia
Dayanne Martins Sousa*
O número de anúncios e promoções que
envolvem cirurgia plástica é cada vez maior. Diversos
tipos de propaganda irregular podem ser encontrados em revistas
não especializadas, ônibus, outdoors e programas
de TV. Mesmo existindo restrições éticas
para a propaganda na medicina, estas são sistematicamente
desrespeitadas.
Em julho de 2006, o Conar (Conselho Nacional de Auto-Regulamentação
Publicitária) decidiu pelo impedimento da veiculação
de uma peça de propaganda da Winner Life Cirurgia Plástica.
O comercial de TV foi sustado por, dentre outras faltas, divulgar
o preço de procedimentos médicos, o que o Conselho
Regional de Medicina considera irregular.
Como essa, muitas outras peças publicitárias violam
princípios básicos do Código de Ética
Médica. O Código proíbe a divulgação
de assuntos médicos "de forma sensacionalista, promocional,
ou de conteúdo inverídico" e exige que ela
tenha "caráter exclusivamente de esclarecimento e
educação da coletividade".
Dentre as práticas publicitárias está o uso
do "antes e depois". "A divulgação
de imagens está vinculada diretamente a uma promessa pura
e simples de resultado comercial", diz o Jornal do Cremesp
(Conselho Regional de Medicina de São Paulo).
Além disso, as diferentes ações promocionais
que entregam cirurgias como prêmios são entendidas
como fortemente inapropriadas. Segundo o presidente nacional da
Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), Dr. Osvaldo
Saldanha, essas promoções que premiam seus participantes
com uma "cirurgia plástica" são antiéticas
e desrespeitosas, já que desvirtuam a relação
médico-paciente.
Apesar de condenadas, as formas de fiscalização
e punição para tais práticas são poucas.
Além dos conselhos de medicina não existe nenhuma
outra entidade com poder de punição sob os médicos.
Mas o ponto chave é que às determinações
dos conselhos regionais e federal de medicina só estão
sujeitos os médicos. Assim, clínicas de cirurgia
plástica se utilizam de alguns artifícios para evitar
punições. Algumas entidades que se apresentam como
clínicas são, na verdade, registradas como "financiadoras",
ou seja, empresas comerciais, e não médicas - esse
é o caso da Winner Life. Esse recurso restringe a atuação
dos conselhos. A regulação publicitária,
portanto, tem sido realizada apenas pelo Conar, mas esse não
pode estabelecer nem tem qualquer relação com a
atividade médica.
Além disso, a aceitação da "divulgação
educativa" permite a existência de meios como revistas
e programas de TV que fazem uma espécie de "propaganda
disfarçada". Algumas matérias se estruturam
como se revelassem novas técnicas ou dicas de saúde
e beleza, mas o que de fato muitos desses veículos têm
feito é se apoiar na possibilidade de divulgação
"educativa" para promover clínicas e médicos.
"Sabe-se que algumas revistas 'especializadas' oferecem espaço
pago para que os profissionais divulguem o que bem entenderem,
seja verdadeiro ou não", como informa o site da SBCP.
Uma solução que a Sociedade tentou implantar foi
a consulta ao cadastro de médicos associados. A lógica
é a de que seus membros costumam ser mais comprometidos
com os valores que ela defende. Todavia, não é difícil
encontrar o nome de alguns membros em anúncios de todo
o tipo, coisa que a Sociedade diz condenar. O Dr. Douglas Jorge,
diretor geral da SBCP, afirma que a Sociedade não tem controle
sob todos os seus membros. "É muito difícil
controlar as pessoas. Não tem como fiscalizar todo mundo.
Cada um age por si. Segundo ele, a função da Sociedade
é "alertar as pessoas", o que se faz "individualmente,
dentro de cada consultório".
O que as regulamentações e as associações
médicas tentam sem sucesso evitar é que a cirurgia
plástica seja desvinculada da idéia geral de prática
médica. A comercialização de cirurgias desconsidera
que este é um procedimento médico como qualquer
outro.
Para o antropólogo Alexander Edmonds, embora a cirurgia
plástica tenha aparecido como a "forma medicalizada
da cultura de aperfeiçoamento pessoal", ela também
passou a forçar os limites que definem a medicina. "Na
cirurgia plástica é o paciente, e não o médico,
que deve diagnosticar a doença".
"Infelizmente, tudo o que é ligado à beleza
vende com facilidade", afirma o Dr. Douglas. Ele reforça
a idéia de que o cirurgião plástico é
tão médico como qualquer outro e diz: "somos
primeiro médicos, depois especialistas. Curiosamente, o
paciente é que vê de outra forma".
A prática das mídias tem facilitado a propagação
dessa idéia errônea. Programas no formato reality
show apresentam cirurgias sendo realizadas na TV de forma explícita
e ignoram as restrições. Atrações
como I Want a Famous Face (MTV), Extreme Makeover (Sony), The
Swan (Warner) e Doctor 90201 (E! Entertainment) exibem cenas de
intervenções cirúrgicas com grande naturalidade.
Os programas são todos importados dos Estados Unidos. No
Brasil, dificilmente são feitas apostas em fórmulas
tão arriscadas. Apesar disso, o programa Methamorphoses,
que estreou em 2004 na Rede Record, assumiu o formato e teve grande
sucesso.
A veiculação de atrações
do tipo na TV é também uma forma de promover as
clínicas e os médicos que delas participam.
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Dayanne Martins Sousa
Aluna do curso de Jornalismo da Escola de Comunicações
e Artes da USP.
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