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Qual
será o calçado esportivo adequado?
Raphael Luiz Araújo*
Para se adequar à preferência do consumidor, as grandes
multinacionais têm buscado criar diversos tipos de calçados
esportivos, determinando que para cada prática é
recomendável um modelo específico. Assim, para o
corredor, haverá um tênis com maior estabilidade
e com sistema de amortecedores, para o jogador de tênis
calçados com maior flexibilidade, para o jogador de futebol
diferentes tipos de chuteiras próprias para diferentes
tipos de campo, e assim por diante. Ao oferecer estes diversos
modelos de calçados esportivos, as empresas garantem benefícios
adicionais para o consumidor que compra o seu produto. Mas será
mesmo que o usuário se beneficia, em sua prática
esportiva, com o uso desses calçados específicos?
Em diversos casos, a publicidade mitifica o produto ao prometer
que o tênis novo é o responsável pelo bom
desempenho do atleta, sendo capaz de transferir "poderes"
ao usuário. Relevar tal afirmação é
um equívoco pois pesquisas comprovam que um mesmo calçado
, no estado de novo ou usado, apresentam desempenhos equivalentes
depois de um determinado período. O calçado usado,
pelo fato de estar mais bem moldado ao formato do pé do
atleta, proporciona maior conforto. Há pesquisas que garantem
que atletas de determinadas modalidades, realizadas com os pés
descalços, podem ter o mesmo desempenho de indivíduos
que sempre treinaram com os melhores calçados. Tais resultados
evidenciam que a função principal do calçado
que é proteger parte do aparelho locomotor e não
proporcionar habilidades para o atleta melhorar sua performance.
Sabe-se que, mesmo na ausência do calçado, o aparelho
locomotor é capaz de criar mecanismos próprios de
proteção.Em práticas esportivas que usualmente
dispensam o uso de tênis, como a capoeira e o vôlei
de praia, a adaptação do aparelho locomotor ao choque
direto e constante com a superfície ocorre naturalmente,
conforme os indivíduos vão se habituando à
prática.
As propagandas de calçados para corrida ressaltam o papel
dos amortecedores como elemento de conforto para a prática
deste esporte. Elas afirmam que o sistema de amortecedores "protege"
o pé do impacto absorvendo-o e, em seguida, transfere a
energia acumulada pela absorção para propulsionar
o usuário. Tal informação, porém,
é inadequada, visto que este sistema não reúne
condições de reutilizar a energia do impacto para
auxiliar na impulsão, já que as regiões do
pé onde se geram estas energias são diferentes,
isto é, o impacto é recebido na região do
calcanhar e a propulsão e gerada na região do antepé.
Não há, pois, na prática como transferir
a energia de uma região à outra. Os mecanismos de
transmissão de propulsão são naturais do
próprio aparelho locomotor que os realiza através
das forças geradas na articulação do tornozelo
e mediante a execução da passada.
Outra jogada publicitária usada pelas empresas é
a afirmação de que um tipo específico de
calçado pode modelar o pé do usuário, garantindo
uma postura correta e mais segura. Ultimamente, tais empresas
têm definido modelos específicos de calçados
para cada "modelo" de pé. Em exposições
e feiras de calçados e artigos esportivos há testes
que afirmam definir o modo de pisar do indivíduo. Nestes
eventos as empresas mostram ao consumidor que há modos
de pisar genéricos. Definem a pisada do indivíduo
como modo supinação (o pé aponta "para
dentro") , pronação (o pé aponta "para
fora"), ou neutra, em que o pé apontará para
frente, estando assim numa postura simétrica. No entanto,
em análises de laboratório, ficou provado que todos
os seres humanos, no ato de pisar, realizam uma discreta supinação
seguida de pronação, embora alguns indivíduos
tendam para uma maior supinação ou pronação.
Esta tendência só pode ser observada através
de câmeras específicas, diferentes das câmeras
convencionais que são usadas nas feiras. O calçado
pode influenciar na estabilidade do pé do usuário,
proporcionando-lhe maior equilíbrio e mesmo evitar que
ocorram lesões, no caso de pés que pendem em excesso
para o modo pronação ou supinação
, mas não é capaz de modelar a pisada. Até
porque não há modelo genérico de pé,
cada indivíduo terá características próprias
às quais o calçado se adaptará modelando-se
com o tempo de uso.
A classificação dos três tipos de pisada não
é suficiente para abranger as características específicas
do pé de cada usuário. Deve-se observar cada caso
para optar pelo calçado mais apropriado, levando em conta
que este se modelará ao aparelho locomotor e não
o contrário. Devemos atentar para o fato de que o calçado
deve se modelar ao pé do usuário, mas não
deve ter a forma fiel do pé, pois nesse caso não
irá servir.
Há casos em que o próprio calçado pode alterar
características do aparelho locomotor, prejudicando o usuário.
Um calçado que se propõe a "forçar"
o usuário a mudar seu estilo de pisada não leva
em conta as experiências prévias que seu pé
pode ter passado, pois cada indivíduo possui seu próprio
histórico de lesões, entre outros fatores particulares.
O uso deste tipo de calçado pode prejudicar o aparelho
locomotor através de lesões nos pés, até
(como conseqüência desta lesão) instabilidades
para as articulações do joelho, quadril, e, em casos
mais graves, danos à coluna do usuário.
Para evitar tais problemas, deve-se ter cautela ao optar pelo
calçado. Deve-se buscar sempre o conforto do aparelho locomotor.
Mas, nossa concepção de conforto, muitas vezes simplifica
um termo que abrange diversos fatores, normalmente conotamos conforto
a tudo que contribui para bem estar do pé.
Segundo o artigo "A Questão de Confortos de Sapatos",
do doutor em biomecânica Aluísio Otávio Vargas
Ávila, o mercado não apresenta todas as características
que abrange o termo conforto.Usam-no, na verdade, para valorizar
os calçados.O biomecânico destaca que um calçado
confortável deve ser facilmente calçado, adaptar-se
a diferentes ambientes, manter a integridade do pé do usuário,
proporcionar estabilidade e segurança na caminhada e se
identificar com a concepção psicológica do
usuário sobre sua personalidade e aparência.
Em relação aos fatores biomecânicos, o cientista
afirma que deve-se atentar para fatores como temperatura interna
do tênis, impacto, vibrações, pressão
e força que se dispersam pela cadeia cinemática
do corpo.Tais condições aproximam o calçado
de maneira mais abrangente às diferentes interpretações
de conforto. Teremos o conforto quando houver harmonia funcional
entre os aspectos biomecânicos, fisiológicos e morfológicos
entre o calçado e o pé do usuário.
Ultimamente, ao optar pelo calçado esportivo , além
de avaliações de aspectos estéticos, financeiros
e de durabilidade etc., o fator conforto tem ganhado espaço
para a escolha do calçado e as empresas sabem usar tal
tendência em prol das suas vendas. É fundamental
que o consumidor saiba analisar os fatores realmente responsáveis
pelo conforto do calçado para então fazer a opção
certa na hora das compras.
A escolha do calçado esportivo está associada a
vários fatores e é importante destacar que não
há formatos genéricos do aparelho locomotor, o calçado
não influencia a habilidade prática do atleta, e
não há calçado universal. O consumidor deve
estar alerta para não cair nas idealizações
da indústria de calçados e poder, através
do senso crítico, optar pelo modelo adequado.
Referências bibliográficas
-AVILA,Aluísio O. Vargas
"Calçados para corrida"Disponível no site:
http://ctcca.locaweb.com.br/index.php?idiomas_id=1&menus_site_id=29&acao
=conteudo&conteudos_id=190
_______________ "A questão
do conforto dos calçados". Artigo disponível
no site:
http://www.assintecal.org.br/assintecal/web/index.asp?area=1&codmenu=1341
-BENEVIDES, André "Amaciar
calçados novos pode trazer benefícios para atletas
de corrida" . O artigo está disponível no site:
http://www.usp.br/agen/bols/2005/rede1655.htm#primdestaq
-FERREIRA,Mariana "Calçado,
Confortáveis mas nem sempre saudáveis"
O artigo está disponível no site: http://www.usp.br/jorusp/arquivo/1999/jusp467/
manchet/rep_res/rep_int/pesqui4.html
-NIGG, Benno
Maurus "Biomechanics of running shoes" . Human Kiinetics
Publishers, IncChampaign, Illinois 1986.
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Raphael Luiz Araújo
Aluno do curso de Jornalismo da Escola de Comunicações
e Artes da USP.
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