Volume 3
Número 5

20 de dezembro de 2006
 
 * Edição atual    

          Qual será o calçado esportivo adequado?

Raphael Luiz Araújo*

           Para se adequar à preferência do consumidor, as grandes multinacionais têm buscado criar diversos tipos de calçados esportivos, determinando que para cada prática é recomendável um modelo específico. Assim, para o corredor, haverá um tênis com maior estabilidade e com sistema de amortecedores, para o jogador de tênis calçados com maior flexibilidade, para o jogador de futebol diferentes tipos de chuteiras próprias para diferentes tipos de campo, e assim por diante. Ao oferecer estes diversos modelos de calçados esportivos, as empresas garantem benefícios adicionais para o consumidor que compra o seu produto. Mas será mesmo que o usuário se beneficia, em sua prática esportiva, com o uso desses calçados específicos?

           Em diversos casos, a publicidade mitifica o produto ao prometer que o tênis novo é o responsável pelo bom desempenho do atleta, sendo capaz de transferir "poderes" ao usuário. Relevar tal afirmação é um equívoco pois pesquisas comprovam que um mesmo calçado , no estado de novo ou usado, apresentam desempenhos equivalentes depois de um determinado período. O calçado usado, pelo fato de estar mais bem moldado ao formato do pé do atleta, proporciona maior conforto. Há pesquisas que garantem que atletas de determinadas modalidades, realizadas com os pés descalços, podem ter o mesmo desempenho de indivíduos que sempre treinaram com os melhores calçados. Tais resultados evidenciam que a função principal do calçado que é proteger parte do aparelho locomotor e não proporcionar habilidades para o atleta melhorar sua performance.

           Sabe-se que, mesmo na ausência do calçado, o aparelho locomotor é capaz de criar mecanismos próprios de proteção.Em práticas esportivas que usualmente dispensam o uso de tênis, como a capoeira e o vôlei de praia, a adaptação do aparelho locomotor ao choque direto e constante com a superfície ocorre naturalmente, conforme os indivíduos vão se habituando à prática.

           As propagandas de calçados para corrida ressaltam o papel dos amortecedores como elemento de conforto para a prática deste esporte. Elas afirmam que o sistema de amortecedores "protege" o pé do impacto absorvendo-o e, em seguida, transfere a energia acumulada pela absorção para propulsionar o usuário. Tal informação, porém, é inadequada, visto que este sistema não reúne condições de reutilizar a energia do impacto para auxiliar na impulsão, já que as regiões do pé onde se geram estas energias são diferentes, isto é, o impacto é recebido na região do calcanhar e a propulsão e gerada na região do antepé. Não há, pois, na prática como transferir a energia de uma região à outra. Os mecanismos de transmissão de propulsão são naturais do próprio aparelho locomotor que os realiza através das forças geradas na articulação do tornozelo e mediante a execução da passada.

           Outra jogada publicitária usada pelas empresas é a afirmação de que um tipo específico de calçado pode modelar o pé do usuário, garantindo uma postura correta e mais segura. Ultimamente, tais empresas têm definido modelos específicos de calçados para cada "modelo" de pé. Em exposições e feiras de calçados e artigos esportivos há testes que afirmam definir o modo de pisar do indivíduo. Nestes eventos as empresas mostram ao consumidor que há modos de pisar genéricos. Definem a pisada do indivíduo como modo supinação (o pé aponta "para dentro") , pronação (o pé aponta "para fora"), ou neutra, em que o pé apontará para frente, estando assim numa postura simétrica. No entanto, em análises de laboratório, ficou provado que todos os seres humanos, no ato de pisar, realizam uma discreta supinação seguida de pronação, embora alguns indivíduos tendam para uma maior supinação ou pronação. Esta tendência só pode ser observada através de câmeras específicas, diferentes das câmeras convencionais que são usadas nas feiras. O calçado pode influenciar na estabilidade do pé do usuário, proporcionando-lhe maior equilíbrio e mesmo evitar que ocorram lesões, no caso de pés que pendem em excesso para o modo pronação ou supinação , mas não é capaz de modelar a pisada. Até porque não há modelo genérico de pé, cada indivíduo terá características próprias às quais o calçado se adaptará modelando-se com o tempo de uso.

           A classificação dos três tipos de pisada não é suficiente para abranger as características específicas do pé de cada usuário. Deve-se observar cada caso para optar pelo calçado mais apropriado, levando em conta que este se modelará ao aparelho locomotor e não o contrário. Devemos atentar para o fato de que o calçado deve se modelar ao pé do usuário, mas não deve ter a forma fiel do pé, pois nesse caso não irá servir.

           Há casos em que o próprio calçado pode alterar características do aparelho locomotor, prejudicando o usuário. Um calçado que se propõe a "forçar" o usuário a mudar seu estilo de pisada não leva em conta as experiências prévias que seu pé pode ter passado, pois cada indivíduo possui seu próprio histórico de lesões, entre outros fatores particulares. O uso deste tipo de calçado pode prejudicar o aparelho locomotor através de lesões nos pés, até (como conseqüência desta lesão) instabilidades para as articulações do joelho, quadril, e, em casos mais graves, danos à coluna do usuário.

           Para evitar tais problemas, deve-se ter cautela ao optar pelo calçado. Deve-se buscar sempre o conforto do aparelho locomotor. Mas, nossa concepção de conforto, muitas vezes simplifica um termo que abrange diversos fatores, normalmente conotamos conforto a tudo que contribui para bem estar do pé.

           Segundo o artigo "A Questão de Confortos de Sapatos", do doutor em biomecânica Aluísio Otávio Vargas Ávila, o mercado não apresenta todas as características que abrange o termo conforto.Usam-no, na verdade, para valorizar os calçados.O biomecânico destaca que um calçado confortável deve ser facilmente calçado, adaptar-se a diferentes ambientes, manter a integridade do pé do usuário, proporcionar estabilidade e segurança na caminhada e se identificar com a concepção psicológica do usuário sobre sua personalidade e aparência.

           Em relação aos fatores biomecânicos, o cientista afirma que deve-se atentar para fatores como temperatura interna do tênis, impacto, vibrações, pressão e força que se dispersam pela cadeia cinemática do corpo.Tais condições aproximam o calçado de maneira mais abrangente às diferentes interpretações de conforto. Teremos o conforto quando houver harmonia funcional entre os aspectos biomecânicos, fisiológicos e morfológicos entre o calçado e o pé do usuário.

           Ultimamente, ao optar pelo calçado esportivo , além de avaliações de aspectos estéticos, financeiros e de durabilidade etc., o fator conforto tem ganhado espaço para a escolha do calçado e as empresas sabem usar tal tendência em prol das suas vendas. É fundamental que o consumidor saiba analisar os fatores realmente responsáveis pelo conforto do calçado para então fazer a opção certa na hora das compras.

           A escolha do calçado esportivo está associada a vários fatores e é importante destacar que não há formatos genéricos do aparelho locomotor, o calçado não influencia a habilidade prática do atleta, e não há calçado universal. O consumidor deve estar alerta para não cair nas idealizações da indústria de calçados e poder, através do senso crítico, optar pelo modelo adequado.

           Referências bibliográficas

-AVILA,Aluísio O. Vargas "Calçados para corrida"Disponível no site:
http://ctcca.locaweb.com.br/index.php?idiomas_id=1&menus_site_id=29&acao =conteudo&conteudos_id=190

_______________ "A questão do conforto dos calçados". Artigo disponível no site:
http://www.assintecal.org.br/assintecal/web/index.asp?area=1&codmenu=1341

-BENEVIDES, André "Amaciar calçados novos pode trazer benefícios para atletas de corrida" . O artigo está disponível no site: http://www.usp.br/agen/bols/2005/rede1655.htm#primdestaq

-FERREIRA,Mariana "Calçado, Confortáveis mas nem sempre saudáveis"
O artigo está disponível no site: http://www.usp.br/jorusp/arquivo/1999/jusp467/
manchet/rep_res/rep_int/pesqui4.html

-NIGG, Benno Maurus "Biomechanics of running shoes" . Human Kiinetics Publishers, IncChampaign, Illinois 1986.

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Raphael Luiz Araújo
Aluno do curso de Jornalismo da Escola de Comunicações e Artes da USP.

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