
Doenças
crônicas: pandemia invisível
Roberto Duarte*
Resumo
Um relatório da Organização Mundial de Saúde,
divulgado em 2005, aponta as doenças crônicas como
as principais causas de morte nos países de baixa e média
renda, ultrapassando em mortalidade as doenças infecciosas.
Segundo a estimativa do documento, as doenças crônicas
foram responsáveis por 35 milhões de mortes em todo
o mundo - cerca de 60% do total, estimado em 58 milhões.
Palavras-chave:
Doenças crônicas - Diabetes - Doenças cardiovasculares-
Doenças respiratórias - Organização
Mundial de Saúde
Em
outubro de 2005, a Organização Mundial de Saúde
(OMS) divulgou o relatório "Prevenção
de doenças crônicas. Um investimento vital".
O documento mostra dados preocupantes sobre o impacto das doenças
crônicas em todo o mundo, principalmente nos países
de baixa e média renda (segundo a classificação
do Banco Mundial), onde vive a maior parte da população
do mundo. Ao mesmo tempo, põe por terra o que era considerado,
até então, uma verdade: de que as doenças
infecciosas eram as principais causas de mortalidade nos países
subdesenvolvidos e em desenvolvimento.
A
OMS classifica como doenças crônicas diabetes, diversos
tipos de câncer, desordens respiratórias, cardiovasculares,
neuropsiquiátricas e dos órgãos da percepção,
doenças orais, digestivas, genitais e urinárias,
anomalias congênitas e doenças da pele.
Segundo
o relatório, essas patologias terão contribuído,
em 2005, para 35 milhões do total de 58 milhões
de mortes ocorridas no mundo, o que corresponde a cerca de 60%
dos óbitos. É o dobro do número de mortes
causadas por todas as doenças infecciosas (incluindo HIV/aids,
tuberculose e malária), por condições materno-perinatais
e por deficiências de nutrição.
As
projeções para daqui a dez anos são preocupantes.
Segundo o relatório da OMS, até 2015, as doenças
crônicas terão provocado a morte de 338 milhões
de pessoas em todo o mundo. Destas, apenas 20% terão ocorrido
nos países de alta renda.
Somente
no Brasil, do total de 1,289 milhão de óbitos previstos
para 2005, 72%, ou, aproximadamente, 928 mil, foram causados por
essas enfermidades. Em 2015, esse número terá ultrapassado
10 milhões. Nesses dez anos, as mortes por doenças
crônicas devem crescer 22% no país. Deste percentual,
o diabetes será responsável por 82%. Enquanto isso,
os óbitos provocados por doenças infecciosas, condições
materno-perinatais e deficiências de nutrição
serão 22% menores.
As
doenças crônicas também representam um grande
prejuízo para a economia. Esse impacto é considerável
porque a maioria dos óbitos ocorre em pessoas que se situam
dentro da faixa etária economicamente ativa, ou seja, abaixo
de 70 anos.
A
estimativa para o Brasil é de que, em 2005, o país
perdeu 3 bilhões de dólares por conta de mortes
prematuras que tiveram como causa doenças cardíacas,
acidentes vasculares cerebrais (AVC) e diabetes tipo 2. Segundo
a estimativa do relatório da OMS, as perdas para a economia
brasileira em 2015 serão de 49 bilhões de dólares.
Na mesma época, países como China, Federação
Russa e Índia terão contabilizado prejuízos
de US$ 558 bilhões, US$ 303 bilhões e US$ 236 bilhões,
respectivamente.
As
principais doenças
No
Brasil, as principais doenças crônicas apontadas
pelo relatório da OMS são as cardiovasculares, câncer,
problemas respiratórios e diabetes. A Tabela 1 compara
o percentual de mortes por essas doenças com as causadas
por deficiências materno-perinatais, ferimentos e outras
doenças crônicas
Tabela
1: Estimativa de causas de mortes no Brasil em 2005, em
todas as idades (Fonte: Relatório da OMS "Prevenção
de doenças crônicas. Um investimento vital")
| Doenças cardiovasculares |
32% |
| Deficiências materno-perinatais e nutricionais |
17% |
| Câncer |
15% |
| Outras doenças crônicas |
12% |
| Ferimentos |
11% |
| Doenças respiratórias crônicas
(enfisema pulmonar, asma, bronquite etc) |
8% |
| Diabetes tipo 1 e 2 |
5% |
Existem
diversos fatores de risco que podem levar um indivíduo
a sofrer de problemas cardiovasculares, como infarto e derrame.
Entre eles, o fumo é um dos mais importantes, juntamente
com a alimentação inadequada e o sedentarismo.
O
relatório da OMS aponta a hipertensão arterial como
a principal causa de mortes por ano de pacientes que apresentam
doenças crônicas, seguido do uso do tabaco, dos níveis
elevados de colesterol e do excesso de peso ou obesidade (Tabela
2)
Tabela
2: Mortes por ano em pessoas com doenças crônicas
(Fonte: Relatório da OMS "Prevenção
de doenças crônicas. Um investimento vital")
| Hipertensão |
7,1 milhões |
| Fumo |
4,9 milhões |
| Níveis elevados de colesterol |
4,4 milhões |
| Excesso de peso ou obesidade |
2,6 milhões |
Fuster
e Voûte lembram que 2005 foi o quinto aniversário
da Declaração do Milênio das Nações
Unidas, assinada por 189 países e traduzida em oito Metas
Globais de Desenvolvimento do Milênio, para serem cumpridas
até 2015. Dessas metas, três referem-se à
saúde. São elas: reduzir a mortalidade infantil
em 2/3 dos níveis de 1990; melhorar a saúde materna
em 3/4 dos índices de 1990; e evitar a expansão
do HIV/aids, da malária e de outras doenças. No
entanto, nenhuma dessas metas menciona as doenças cardiovasculares,
por exemplo. Em 2005, quando elas foram revistas, novamente as
doenças crônicas ficaram de fora.
Fuster
e Voûlte apontam quatro argumentos a favor da inclusão
das doenças crônicas ente as metas para o milênio.
Em primeiro lugar, os dados do relatório da OMS mostram
a predominância dessas patologias nos países de baixa
e média renda.
"Em
segundo lugar, as doenças cardiovasculares atacam a população
jovem economicamente ativa desses países, em taxas altas,
afetando o crescimento econômico, enquanto aumentam a ameaça
do fumo com a obesidade." (Fuster e Voûlte, 2005)
O
terceiro argumento é que os sistemas de saúde não
podem crescer, atacando individualmente cada doença. O
trabalho a ser feito deve abordar todas as doenças crônicas
em conjunto. Finalmente, segundo Fuster e Voûlte, a orientação
das políticas de saúde nesse sentido pode ajudar
a combater a pobreza e melhorar a saúde em geral.
Estudo
é feito desde 1950
Segundo
Strong et al., a avaliação do crescimento do influência
das doenças crônicas no mudo foi estudada entre 1950
e 2003. Não se pode deixar de reconhecer que têm
sido tomadas medidas eficazes para combatê-las, inclusive
com atuações no comportamento dos pacientes, na
prevenção e controle dessas patologias.
No
entanto, essas ações não são feitas
em grande escala e nem alcançam a maioria da população.
"Além disso, existe uma grande lacuna entre a realidade
da influência global das doenças crônicas em
todo o mundo e a responsabilidade dos governos, da sociedade civil
e das agências internacionais nessa influência."
(Strong et al., 2005)
Na
apuração dos dados e nas projeções
para os países apresentadas no relatório da OMS
foram usadas as relações entre as taxas de mortalidade
para todas as causas principais (exceto HIV/aids) e três
variáveis:
1) Renda média per capita
medida a partir do Produto Interno Bruto por pessoa;
2) Número médio de anos de escolaridade em adultos;
3) O tempo, como medida dos efeitos das mudanças tecnológicas
na saúde. (Strong et al., 2005)
"As
taxas de mortalidade foram determinadas usando as projeções
do Banco Mundial para o Produto Interno Bruto por pessoa; as projeções
da idade média de escolaridade foram fornecidas pela OMS;
e a influência do fumo foi baseada nos padrões históricos
do uso do tabaco. As projeções separadas para HIV/aids
foram fornecidas pelo Unaids e pela OMS, e as projeções
de mortalidade por tuberculose foram modificadas para a interação
entre HIV e tuberculose." (Strong et al., 2005)
Mitos
e mal-entendidos
O
relatório da OMS aponta dez mitos e mal-entendidos que
levam os indivíduos e os governos a negligenciarem a importância
das doenças crônicas.
1)
"Todos têm que morrer de alguma coisa" - Esta
afirmação é verdadeira, mas a morte não
precisa ser lenta, dolorosa e prematura. A maioria das doenças
crônicas não provoca morte imediata. Elas vão
debilitando o indivíduo, principalmente se ele não
recebe o tratamento adequado. A prevenção e o controle
dessas doenças pode levar as pessoas a viverem mais tempo
e de forma mais saudável.
2)
"Meu avô fumou, tinha excesso de peso e viveu até
os 96 anos" - Esse tipo de declaração, que
menciona casos específicos, é disseminada e acaba
se tornando uma "verdade", contribuindo para criar mitos.
Em qualquer população, existem pessoas que fogem
do padrão, mas elas são exceções.
No caso das doenças crônicas, podem ocorrer dois
tipos de situações. Em uma delas, pessoas com poucos
fatores de risco para doenças crônicas (ou nenhum)
levam uma vida longa e saudável. A segunda situação
é apresentada por pessoas com poucos fatores de risco para
doenças crônicas (ou nenhum), que desenvolvem essas
doenças ao longo da vida e/ou morrem por causa delas ainda
jovens.
3)
"A prevenção e o controle das doenças
crônicas é muito caro" - Muitas das medidas
que podem ser adotadas para prevenir complicações
em pacientes com doenças crônicas têm baixo
custo, até mesmo para países de baixa renda. Elas
podem custar menos de 1 dólar por paciente por mês.
4)
"As doenças crônicas não podem ser prevenidas"
- As principais causas de doenças crônicas são
conhecidas. Com a eliminação dos fatores de risco
é possível prevenir, no mínimo, 80% de todas
as doenças cardíacas, AVCs e diabetes tipo 2, assim
como 40% dos cânceres.
5)
"As doenças crônicas são resultado de
estilos de vida não saudáveis" - A responsabilidade
de cada um por apresentar doença crônica só
pode ser completa quando os indivíduos têm acesso
igual a condições de vida saudável e podem
optar pela forma de viver.
Os governos têm papel fundamental na melhoria das condições
de saúde e bem-estar das populações, principalmente
dando atenção especial aos grupos mais vulneráveis,
como as crianças e os mais pobres. As primeiras não
podem escolher o ambiente em que vivem, seu tipo e alimentação
e a exposição passiva ao fumo. Ao mesmo tempo, não
têm capacidade de compreender as conseqüências
futuras de seu estilo de vida.
Os
mais pobres têm opções muito limitadas para
a sua alimentação, condições de vida,
acesso à educação e cuidados com a saúde.
6)
"As doenças crônicas afetam mais aos homens"
- Este é um mito que foi derrubado. Essas doenças,
inclusive as cardiovasculares, afetam homens e mulheres quase
na mesma quantidade.
7)
"As doenças crônicas afetam principalmente pessoas
idosas" - Quase a metade das mortes por doenças crônicas
ocorre em indivíduos com menos de 70 anos. Desses óbitos,
25% são registrados abaixo dos 60 anos de idade. Os adultos
de meia idade em países menos desenvolvidos costumam apresentar
complicações - que poderiam ser evitadas - e morrem
mais cedo do que pessoas de mesma idade em países de renda
mais alta.
8)
"As doenças crônicas afetam principalmente pessoas
ricas" - Ao contrário, nos países menos desenvolvidos,
as pessoas com menor poder aquisitivo estão mais propensas
a adquirir doenças crônicas e a morrer em conseqüência
delas. Além disso, essas doenças provocam grande
prejuízo financeiro às famílias porque afetam
aqueles que as sustentam, aumentando os índices de pobreza
e miséria.
9)
"Países de baixa e média renda deveriam controlar
primeiro as doenças infecciosas antes de enfrentar o problema
das doenças crônicas" - Esses países
encontram-se no centro de antigos e novos desafios da saúde
pública. Enquanto eles derem mais atenção
às doenças infecciosas, os fatores de risco para
as doenças crônicas continuarão a crescer
rapidamente, principalmente nos centros urbanos.
10)
"Doenças crônicas afetam principalmente países
de maior renda" - A verdade é que, de cada cinco mortes
provocadas por doenças crônicas, quatro ocorrem em
países de média e baixa renda.
Desafio
global para 2015
O
relatório da OMS alerta que as doenças crônicas
terão grande influência no número de mortes
prematuras e de pessoas incapacitadas nos próximos dez
anos.
Alguns
países já tomaram medidas que têm se mostrado
eficazes, o que melhorou as condições de vida de
pessoas de meia idade e de idosos. Nos últimos 30 anos,
caíram em mais de 70% os níveis de doenças
cardíacas na Austrália, Canadá, Reino Unido
e Estados Unidos. Países de renda média, como a
Polônia, também conseguiram bons resultados através
de políticas de saúde pública que atuam na
população, como um todo e individualmente, combatendo
os fatores de risco.
Entre
1970 e 2000, a OMS estima que foram evitadas 14 milhões
de mortes por doenças cardiovasculares, somente nos Estados
Unidos. No Reino Unido, a estimativa é de 3 milhões
de pessoas no mesmo período, enquanto no Japão foram
salvas 8 milhões de vidas. Esses dados correspondem a redução
nas mortes por doenças crônicas em taxas que variam
de 1% a 3%, durante 30 anos, aproximadamente (Strong et al., 2005)
O
relatório da OMS apresenta como objetivo global para 2015
reduzir em 2% ao ano as taxas de mortalidade provocadas por todas
as doenças crônicas, em relação aos
níveis atuais. Essa meta representa evitar 36 milhões
de mortes nos próximos dez anos, além de resultar
na diminuição de perdas econômicas para os
países.
No
caso do Brasil, pelo menos 80% das doenças cardiovasculares
e diabetes tipo 2 e 40% dos cânceres poderiam ser evitados
adotando-se uma dieta saudável, praticando atividades físicas
e abolindo o fumo.
A
OMS estima que uma redução anual de 2% nos índices
nacionais de mortes por doenças crônicas no Brasil,
nos próximos dez anos, resultaria em uma economia para
o país de aproximadamente 4 bilhões de dólares.
Referências
FUSTER, Valentin; VOÛTE,
Janet. MDGs: chronic diseases are not on the agenda. The Lancet,
2005. Disponível em <http://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140673605676106/fulltext>.
Acesso em 27 jan 2006.
Organização Mundial
de Saúde. Prevenção de doenças crônicas.
Um investimento vital. Tradução de Marcelo Carvalho
Oliveira. 2005. Disponível em <http://www.who.int/chp/chronic_disease_report/contents/en/index.html>.
Acesso em 27 jan 2006.
STRONG, Kathleen et al. Preventing
chronic diseases: how many lives can we save? The Lancet, 2005.
Disponível em <http://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIs0140673605673412/fuultext>.
Acesso em 27 jan 2006.
World Health Organization. Stop
the global epidemic of chronic disease. Disponível em <http://www.who.int/mediacentre/news/releases/2005/pr47/en/print.html>
Acesso em 27 jan 2006.
World Health Organization. The
impact of chronic disease in Brazil. Disponível em <http://www.who.int/chp/chronic_disease_report/media/brazil.pdf>.
Acesso em 27 jan 2006.
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Roberto Duarte
Jornalista, formado pelas Faculdades Integradas Hélio
Alonso - Facha (RJ), pós-graduado em Assessoria de Comunicação
pela Universidade Estácio de Sá (RJ), trabalha como
jornalista na Sociedade Brasileira de Patologia Clínica,
no Rio de Janeiro.
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