Volume 3
Número 5

20 de dezembro de 2006
 
 * Edição atual    

          Doenças crônicas: pandemia invisível

Roberto Duarte*

          Resumo

           Um relatório da Organização Mundial de Saúde, divulgado em 2005, aponta as doenças crônicas como as principais causas de morte nos países de baixa e média renda, ultrapassando em mortalidade as doenças infecciosas. Segundo a estimativa do documento, as doenças crônicas foram responsáveis por 35 milhões de mortes em todo o mundo - cerca de 60% do total, estimado em 58 milhões.

          Palavras-chave: Doenças crônicas - Diabetes - Doenças cardiovasculares- Doenças respiratórias - Organização Mundial de Saúde

          Em outubro de 2005, a Organização Mundial de Saúde (OMS) divulgou o relatório "Prevenção de doenças crônicas. Um investimento vital". O documento mostra dados preocupantes sobre o impacto das doenças crônicas em todo o mundo, principalmente nos países de baixa e média renda (segundo a classificação do Banco Mundial), onde vive a maior parte da população do mundo. Ao mesmo tempo, põe por terra o que era considerado, até então, uma verdade: de que as doenças infecciosas eram as principais causas de mortalidade nos países subdesenvolvidos e em desenvolvimento.

          A OMS classifica como doenças crônicas diabetes, diversos tipos de câncer, desordens respiratórias, cardiovasculares, neuropsiquiátricas e dos órgãos da percepção, doenças orais, digestivas, genitais e urinárias, anomalias congênitas e doenças da pele.

          Segundo o relatório, essas patologias terão contribuído, em 2005, para 35 milhões do total de 58 milhões de mortes ocorridas no mundo, o que corresponde a cerca de 60% dos óbitos. É o dobro do número de mortes causadas por todas as doenças infecciosas (incluindo HIV/aids, tuberculose e malária), por condições materno-perinatais e por deficiências de nutrição.

          As projeções para daqui a dez anos são preocupantes. Segundo o relatório da OMS, até 2015, as doenças crônicas terão provocado a morte de 338 milhões de pessoas em todo o mundo. Destas, apenas 20% terão ocorrido nos países de alta renda.

          Somente no Brasil, do total de 1,289 milhão de óbitos previstos para 2005, 72%, ou, aproximadamente, 928 mil, foram causados por essas enfermidades. Em 2015, esse número terá ultrapassado 10 milhões. Nesses dez anos, as mortes por doenças crônicas devem crescer 22% no país. Deste percentual, o diabetes será responsável por 82%. Enquanto isso, os óbitos provocados por doenças infecciosas, condições materno-perinatais e deficiências de nutrição serão 22% menores.

          As doenças crônicas também representam um grande prejuízo para a economia. Esse impacto é considerável porque a maioria dos óbitos ocorre em pessoas que se situam dentro da faixa etária economicamente ativa, ou seja, abaixo de 70 anos.

          A estimativa para o Brasil é de que, em 2005, o país perdeu 3 bilhões de dólares por conta de mortes prematuras que tiveram como causa doenças cardíacas, acidentes vasculares cerebrais (AVC) e diabetes tipo 2. Segundo a estimativa do relatório da OMS, as perdas para a economia brasileira em 2015 serão de 49 bilhões de dólares. Na mesma época, países como China, Federação Russa e Índia terão contabilizado prejuízos de US$ 558 bilhões, US$ 303 bilhões e US$ 236 bilhões, respectivamente.

          As principais doenças

          No Brasil, as principais doenças crônicas apontadas pelo relatório da OMS são as cardiovasculares, câncer, problemas respiratórios e diabetes. A Tabela 1 compara o percentual de mortes por essas doenças com as causadas por deficiências materno-perinatais, ferimentos e outras doenças crônicas

          Tabela 1: Estimativa de causas de mortes no Brasil em 2005, em todas as idades (Fonte: Relatório da OMS "Prevenção de doenças crônicas. Um investimento vital")

Doenças cardiovasculares 32%
Deficiências materno-perinatais e nutricionais 17%
Câncer 15%
Outras doenças crônicas 12%
Ferimentos 11%
Doenças respiratórias crônicas (enfisema pulmonar, asma, bronquite etc) 8%
Diabetes tipo 1 e 2 5%

          Existem diversos fatores de risco que podem levar um indivíduo a sofrer de problemas cardiovasculares, como infarto e derrame. Entre eles, o fumo é um dos mais importantes, juntamente com a alimentação inadequada e o sedentarismo.

          O relatório da OMS aponta a hipertensão arterial como a principal causa de mortes por ano de pacientes que apresentam doenças crônicas, seguido do uso do tabaco, dos níveis elevados de colesterol e do excesso de peso ou obesidade (Tabela 2)

          Tabela 2: Mortes por ano em pessoas com doenças crônicas (Fonte: Relatório da OMS "Prevenção de doenças crônicas. Um investimento vital")

Hipertensão 7,1 milhões
Fumo 4,9 milhões
Níveis elevados de colesterol 4,4 milhões
Excesso de peso ou obesidade 2,6 milhões

          Fuster e Voûte lembram que 2005 foi o quinto aniversário da Declaração do Milênio das Nações Unidas, assinada por 189 países e traduzida em oito Metas Globais de Desenvolvimento do Milênio, para serem cumpridas até 2015. Dessas metas, três referem-se à saúde. São elas: reduzir a mortalidade infantil em 2/3 dos níveis de 1990; melhorar a saúde materna em 3/4 dos índices de 1990; e evitar a expansão do HIV/aids, da malária e de outras doenças. No entanto, nenhuma dessas metas menciona as doenças cardiovasculares, por exemplo. Em 2005, quando elas foram revistas, novamente as doenças crônicas ficaram de fora.

          Fuster e Voûlte apontam quatro argumentos a favor da inclusão das doenças crônicas ente as metas para o milênio. Em primeiro lugar, os dados do relatório da OMS mostram a predominância dessas patologias nos países de baixa e média renda.

          "Em segundo lugar, as doenças cardiovasculares atacam a população jovem economicamente ativa desses países, em taxas altas, afetando o crescimento econômico, enquanto aumentam a ameaça do fumo com a obesidade." (Fuster e Voûlte, 2005)

          O terceiro argumento é que os sistemas de saúde não podem crescer, atacando individualmente cada doença. O trabalho a ser feito deve abordar todas as doenças crônicas em conjunto. Finalmente, segundo Fuster e Voûlte, a orientação das políticas de saúde nesse sentido pode ajudar a combater a pobreza e melhorar a saúde em geral.

          Estudo é feito desde 1950

          Segundo Strong et al., a avaliação do crescimento do influência das doenças crônicas no mudo foi estudada entre 1950 e 2003. Não se pode deixar de reconhecer que têm sido tomadas medidas eficazes para combatê-las, inclusive com atuações no comportamento dos pacientes, na prevenção e controle dessas patologias.

          No entanto, essas ações não são feitas em grande escala e nem alcançam a maioria da população. "Além disso, existe uma grande lacuna entre a realidade da influência global das doenças crônicas em todo o mundo e a responsabilidade dos governos, da sociedade civil e das agências internacionais nessa influência." (Strong et al., 2005)

          Na apuração dos dados e nas projeções para os países apresentadas no relatório da OMS foram usadas as relações entre as taxas de mortalidade para todas as causas principais (exceto HIV/aids) e três variáveis:

1) Renda média per capita medida a partir do Produto Interno Bruto por pessoa;
2) Número médio de anos de escolaridade em adultos;
3) O tempo, como medida dos efeitos das mudanças tecnológicas na saúde. (Strong et al., 2005)

          "As taxas de mortalidade foram determinadas usando as projeções do Banco Mundial para o Produto Interno Bruto por pessoa; as projeções da idade média de escolaridade foram fornecidas pela OMS; e a influência do fumo foi baseada nos padrões históricos do uso do tabaco. As projeções separadas para HIV/aids foram fornecidas pelo Unaids e pela OMS, e as projeções de mortalidade por tuberculose foram modificadas para a interação entre HIV e tuberculose." (Strong et al., 2005)

          Mitos e mal-entendidos

          O relatório da OMS aponta dez mitos e mal-entendidos que levam os indivíduos e os governos a negligenciarem a importância das doenças crônicas.

          1) "Todos têm que morrer de alguma coisa" - Esta afirmação é verdadeira, mas a morte não precisa ser lenta, dolorosa e prematura. A maioria das doenças crônicas não provoca morte imediata. Elas vão debilitando o indivíduo, principalmente se ele não recebe o tratamento adequado. A prevenção e o controle dessas doenças pode levar as pessoas a viverem mais tempo e de forma mais saudável.

          2) "Meu avô fumou, tinha excesso de peso e viveu até os 96 anos" - Esse tipo de declaração, que menciona casos específicos, é disseminada e acaba se tornando uma "verdade", contribuindo para criar mitos. Em qualquer população, existem pessoas que fogem do padrão, mas elas são exceções. No caso das doenças crônicas, podem ocorrer dois tipos de situações. Em uma delas, pessoas com poucos fatores de risco para doenças crônicas (ou nenhum) levam uma vida longa e saudável. A segunda situação é apresentada por pessoas com poucos fatores de risco para doenças crônicas (ou nenhum), que desenvolvem essas doenças ao longo da vida e/ou morrem por causa delas ainda jovens.

          3) "A prevenção e o controle das doenças crônicas é muito caro" - Muitas das medidas que podem ser adotadas para prevenir complicações em pacientes com doenças crônicas têm baixo custo, até mesmo para países de baixa renda. Elas podem custar menos de 1 dólar por paciente por mês.

          4) "As doenças crônicas não podem ser prevenidas" - As principais causas de doenças crônicas são conhecidas. Com a eliminação dos fatores de risco é possível prevenir, no mínimo, 80% de todas as doenças cardíacas, AVCs e diabetes tipo 2, assim como 40% dos cânceres.

          5) "As doenças crônicas são resultado de estilos de vida não saudáveis" - A responsabilidade de cada um por apresentar doença crônica só pode ser completa quando os indivíduos têm acesso igual a condições de vida saudável e podem optar pela forma de viver.

           Os governos têm papel fundamental na melhoria das condições de saúde e bem-estar das populações, principalmente dando atenção especial aos grupos mais vulneráveis, como as crianças e os mais pobres. As primeiras não podem escolher o ambiente em que vivem, seu tipo e alimentação e a exposição passiva ao fumo. Ao mesmo tempo, não têm capacidade de compreender as conseqüências futuras de seu estilo de vida.

          Os mais pobres têm opções muito limitadas para a sua alimentação, condições de vida, acesso à educação e cuidados com a saúde.

          6) "As doenças crônicas afetam mais aos homens" - Este é um mito que foi derrubado. Essas doenças, inclusive as cardiovasculares, afetam homens e mulheres quase na mesma quantidade.

          7) "As doenças crônicas afetam principalmente pessoas idosas" - Quase a metade das mortes por doenças crônicas ocorre em indivíduos com menos de 70 anos. Desses óbitos, 25% são registrados abaixo dos 60 anos de idade. Os adultos de meia idade em países menos desenvolvidos costumam apresentar complicações - que poderiam ser evitadas - e morrem mais cedo do que pessoas de mesma idade em países de renda mais alta.

          8) "As doenças crônicas afetam principalmente pessoas ricas" - Ao contrário, nos países menos desenvolvidos, as pessoas com menor poder aquisitivo estão mais propensas a adquirir doenças crônicas e a morrer em conseqüência delas. Além disso, essas doenças provocam grande prejuízo financeiro às famílias porque afetam aqueles que as sustentam, aumentando os índices de pobreza e miséria.

          9) "Países de baixa e média renda deveriam controlar primeiro as doenças infecciosas antes de enfrentar o problema das doenças crônicas" - Esses países encontram-se no centro de antigos e novos desafios da saúde pública. Enquanto eles derem mais atenção às doenças infecciosas, os fatores de risco para as doenças crônicas continuarão a crescer rapidamente, principalmente nos centros urbanos.

          10) "Doenças crônicas afetam principalmente países de maior renda" - A verdade é que, de cada cinco mortes provocadas por doenças crônicas, quatro ocorrem em países de média e baixa renda.

          Desafio global para 2015

          O relatório da OMS alerta que as doenças crônicas terão grande influência no número de mortes prematuras e de pessoas incapacitadas nos próximos dez anos.

          Alguns países já tomaram medidas que têm se mostrado eficazes, o que melhorou as condições de vida de pessoas de meia idade e de idosos. Nos últimos 30 anos, caíram em mais de 70% os níveis de doenças cardíacas na Austrália, Canadá, Reino Unido e Estados Unidos. Países de renda média, como a Polônia, também conseguiram bons resultados através de políticas de saúde pública que atuam na população, como um todo e individualmente, combatendo os fatores de risco.

          Entre 1970 e 2000, a OMS estima que foram evitadas 14 milhões de mortes por doenças cardiovasculares, somente nos Estados Unidos. No Reino Unido, a estimativa é de 3 milhões de pessoas no mesmo período, enquanto no Japão foram salvas 8 milhões de vidas. Esses dados correspondem a redução nas mortes por doenças crônicas em taxas que variam de 1% a 3%, durante 30 anos, aproximadamente (Strong et al., 2005)

          O relatório da OMS apresenta como objetivo global para 2015 reduzir em 2% ao ano as taxas de mortalidade provocadas por todas as doenças crônicas, em relação aos níveis atuais. Essa meta representa evitar 36 milhões de mortes nos próximos dez anos, além de resultar na diminuição de perdas econômicas para os países.

          No caso do Brasil, pelo menos 80% das doenças cardiovasculares e diabetes tipo 2 e 40% dos cânceres poderiam ser evitados adotando-se uma dieta saudável, praticando atividades físicas e abolindo o fumo.

          A OMS estima que uma redução anual de 2% nos índices nacionais de mortes por doenças crônicas no Brasil, nos próximos dez anos, resultaria em uma economia para o país de aproximadamente 4 bilhões de dólares.

          Referências

FUSTER, Valentin; VOÛTE, Janet. MDGs: chronic diseases are not on the agenda. The Lancet, 2005. Disponível em <http://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140673605676106/fulltext>. Acesso em 27 jan 2006.

Organização Mundial de Saúde. Prevenção de doenças crônicas. Um investimento vital. Tradução de Marcelo Carvalho Oliveira. 2005. Disponível em <http://www.who.int/chp/chronic_disease_report/contents/en/index.html>. Acesso em 27 jan 2006.

STRONG, Kathleen et al. Preventing chronic diseases: how many lives can we save? The Lancet, 2005. Disponível em <http://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIs0140673605673412/fuultext>. Acesso em 27 jan 2006.

World Health Organization. Stop the global epidemic of chronic disease. Disponível em <http://www.who.int/mediacentre/news/releases/2005/pr47/en/print.html> Acesso em 27 jan 2006.

World Health Organization. The impact of chronic disease in Brazil. Disponível em <http://www.who.int/chp/chronic_disease_report/media/brazil.pdf>. Acesso em 27 jan 2006.

 

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Roberto Duarte
Jornalista, formado pelas Faculdades Integradas Hélio Alonso - Facha (RJ), pós-graduado em Assessoria de Comunicação pela Universidade Estácio de Sá (RJ), trabalha como jornalista na Sociedade Brasileira de Patologia Clínica, no Rio de Janeiro.

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