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Trabalho,
saúde e consumo: A mídia como um novo consultório
Adriano de Lavor Moreira*
Resumo
Este
artigo visa a identificar indícios da existência
da "partilha do sensível" na construção
da agenda de atividades, discursos e práticas que regem
a saúde pública no Brasil. O conceito, proposto
pelo filósofo francês Jacques Rancière (2005)
aproxima política e estética e defende a idéia
de que a política ocupa-se do que se vê e do que
se pode dizer sobre o que é visto, de quem tem competência
para ver e qualidade para dizer, das propriedades do espaço
e dos possíveis do tempo. Além de reverberar as
idéias de Rancière tomando-se como exemplo a saúde
brasileira, espera-se, também, perceber como a estratégia
de mobilização de afetos, promovida pelo regime
estético da política, interage com as idéias
de consumo e construção da cidadania - à
luz dos conceitos cunhados por Nestor Canclini - , observando
se a produção desta agenda é compartilhada
ou não com a sociedade civil. A questão que se coloca
é perceber se as ações de promoção
à saúde, articuladas pelo Governo Federal e organizações
da sociedade civil - incluindo-se a mídia - ampliam o debate
público e estimulam o desenvolvimento de cidadãos,
ou somente reverberam um discurso normativo e oficial, pautado
pelos organismos multinacionais de saúde, intimamente ligado
às estruturas neoliberais de manutenção de
poder.
Palavras-chave:
Política; Saúde; Consumo.
Introdução
Ao
aproximar política e estética, o filósofo
francês Jacques Rancière (2005) propõe uma
"partilha do sensível". Ele defende a idéia
de que "a política ocupa-se do que se vê e do
que se pode dizer sobre o que é visto, de quem tem competência
para ver e qualidade para dizer, das propriedades do espaço
e dos possíveis do tempo". (p 16-17). Sua definição
aponta para uma "estetização" da atividade
política que diz respeito a um sistema de evidências
sensíveis que torna visível ao mesmo tempo a existência
de "um comum" e os recortes que definem os lugares e
as partes respectivas desse comum.
Assim,
a partilha do sensível faria visível quem pode tomar
parte do comum, em função daquilo que faz e do tempo
e do espaço nos quais a atividade estaria sendo exercida.
Ter essa ou aquela "ocupação" definiria,
portanto, as competências do indivíduo em relação
à comunidade em que vive, e definiria sua visibilidade
no espaço em que ocupa. Esta relação, sustenta
o teórico, não tem nada a ver com a "estetização
da política" própria à "era das
massas", de que fala Benjamin, mas sim
"ao
sistema de formas a priori determinando o que se dá a sentir.
É um recorte dos tempos e dos espaços, do visível
e do invisível, da palavra e do ruído que define
ao mesmo tempo o lugar e o que está em jogo na política
como forma de experiência" (RANCIÈRE, 2005,
p 16).
Este
artigo visa a identificar indícios da existência
desta partilha na construção da agenda de atividades,
discursos e práticas que regem a saúde no Brasil.
Espera-se, também, perceber como a estratégia de
mobilização de afetos, promovida pelo regime estético
da política, interage com as idéias de consumo e
construção da cidadania - à luz dos conceitos
cunhados por Nestor Canclini - , observando se a produção
desta agenda é compartilhada ou não com a sociedade
civil.
A
questão que se coloca é perceber se as ações
de promoção à saúde, articuladas pelo
Governo Federal e organizações da sociedade civil
- incluindo-se a mídia - ampliam o debate público
e estimulam o desenvolvimento de cidadãos, ou somente reverberam
um discurso normativo e oficial, pautado pelos organismos multinacionais
de saúde, intimamente ligado às estruturas neoliberais
de manutenção de poder.
Mídia,
trabalho e consumo
A
comunicação está no centro das decisões
da sociedade contemporânea. As novas tecnologias operam
mudanças concretas nas maneiras de se ver, de fazer e de
sentir a realidade. Esta nova demanda de desejos e necessidades,
pautada pela onipresença dos meios de comunicação
de massa em todos os espaços de convivência da vida
social, aponta para uma maior exigência por capital intelectual
e reflete, ao mesmo tempo, uma maior aproximação
do regime de produção denominado por Lazzarato e
Negri de trabalho imaterial.
"Nessa
transformação não é nem o trabalho
imediato, executado pelo próprio homem, nem é o
tempo que ele trabalha, mas a apropriação de sua
produtividade geral, a sua compreensão da natureza e o
domínio sobre esta através da sua existência
enquanto corpo social - em uma palavra, é o desenvolvimento
do indivíduo social que se apresenta como o grande pilar
de sustentação da produção e da riqueza".
(Lazzarato e Negri, 2001, p 28)
A
redução da força do trabalho a um "capital
fixo", subordinada ao próprio processo de produção,
reflete na instauração daquilo que os autores denominam
"o saber social geral" (Idem, 2001), onde os limites
entre o tempo produtivo e o tempo de lazer quase não existem
mais, abrindo espaço para um novo sujeito político,
cujas ações são pautadas pela subjetividade,
ou pela "intelectualidade de massa":
"Intelectualidade
de massa que se constituiu independentemente, isto é, como
processo de subjetivação autônoma que não
tem necessidade de passar pela organização do trabalho
para impor sua força; é somente sobre a base da
sua autonomia que ela estabelece a sua relação com
o capital". (Ibidem, 2001, p. 30)
A
subjetividade seria o pilar onde se sustentaria uma "nova
economia imaterial", "marcada pela busca constante da
inovação e baseada na utilização intensificada
da informação e do conhecimento". (Pereira
e Herschmann, 2002).
"[...]
na Sociedade da Informação e do Conhecimento a luta
é contra o tempo; a questão é como se gerencia
uma ampla gama de informações em pouco tempo, o
que permite seu emprego antes que se tornem sem valor ou obsoletas.
Ao se tornarem mais reprodutíveis (com a digitalização)
e voláteis (com a velocidade), a informação
e o conhecimento se expandem porque necessitam estar em constante
(re)produção. Aliás, ambos têm que
ter alta visibilidade e forte presença social; caso contrário,
não se tornam interativos e não agregam valor".
(Idem, p 33)
A
visibilidade que necessitam informação e conhecimento,
nesta sociedade pós-fordista, é garantida, em parte
pela presença dos meios de comunicação de
massa na esfera pública e privada, bem como na ampliação
de suas capacidades tecnológicas. Na realidade brasileira,
não poderia acontecer diferente. A mídia e seus
novos recursos tecnológicos promovem um verdadeiro pacto
ficcional com a audiência, legitimando as ações
dos indivíduos na sociedade através da sua capacidade
de se fazerem visíveis.
É
assim que é encenada, para os flashes e os holofotes, a
construção de uma sociedade midiatizada, que legitima
modelos, dita normas, regula comportamentos, promove situações
e elege celebridades momentâneas. Não é senão
na esfera midiática onde são mobilizados os afetos
desta nova era, quando a força produtiva carrega consigo
autonomia - independente do trabalho - e valores agregados se
revestem de uma aura intelectual e sensível. Por isso mesmo,
as grandes negociações por produção
de sentido, incluisive quando se trata de saúde, são
travadas na presença dos meios de comunicação,
com o objetivo de terem ampla divulgação.
Vive-se
o tempo da "cultura do efêmero" (Canclini, 1995),
no qual os valores culturais se submetem ao consumo renovado,
à surpresa e ao divertimento. Daí pode-se entender
por qual motivo, no caso do Brasil, os meios de comunicação
de massa voltam o seu olhar, com tanto interesse, para as questões
ligadas à saúde, neste início de século
XXI. Solidamente baseados no trabalho imaterial, constituíram-se
como porta-vozes da sociedade como um tudo, clamando para si a
responsabilidade de regulação do social, espaço
deixado de portas abertas pelo Estado neoliberal.
Se
hoje as respostas mais imediatas às perguntas feitas pelo
cidadão estão sendo viabilizadas pela mídia,
é sobretudo ela que vai eleger os discursos e as posturas
que serão amplificadas no espaço público.
Os olhos implacáveis das câmeras de TV e das lentes
fotográficas é que irão legitimar inclusive
a viabilidade de determinadas propostas. E a estratégia
principal não é outra, senão a mobilização
dos afetos coletivos. Não é por outro motivo que
os meios de comunicação, hoje, dedicam grande parte
de suas preciosas pautas com as questões ligadas à
manutenção de uma vida saudável - um leque
de amplas possibilidades de identificação por parte
da audiência.
Dada
a falta de clareza entre a diferença entre o tempo produtivo
e o tempo de lazer na sociedade atual, a mídia se insere
em ambos, qual monitora de atitudes. Em velocidade superior a
que se desloca, fisicamente, o seu público, os meios de
comunicação tornam-se quase extensões do
homem, acompanhando-o diariamente em suas atividades mais privadas.
Ao tomar como seu o espaço e o tempo que antes eram privados,
dialogam com a subjetividade, firmando-se como fortes construtores
de sentidos. Pode-se dizer que a mídia funciona como uma
espécie de fiscalizadora de condutas, promovendo um conceito
articulado do que seja saúde e condenando atitudes que
vão de encontro a esta verdade.
Esta
"invasão de privacidade" se dá com maior
força graças à velocidade com que os meios
conseguem se (re)produzir. Emissoras de televisão transmitem
ininterruptamente, 24 horas por dia, propondo uma temporalidade
própria, alicerçada na sua própria programação;
a rede mundial de computadores encurta distâncias e dissemina
discursos provenientes de todos os pontos do globo. A fibra ótica
garante transmissões em alta fidelidade, muitas vezes apresentando
imagens tão fidedignas que se confundem com o próprio
acontecimento; novos artefatos de comunicação, em
especial computadores de bolso e telefones celulares equipados
com câmera, tornam-se acessórios imprescindíveis
para sobreviver a um tempo que corre avassaladoramente mais rápido
que os ponteiros dos próprios relógios. A interação
entre homem e mídia é confirmada por Lévy:
"O
ciberespaço (que também chamarei de "rede")
´pe o novo meio de comunicação que surge da
interconexão mundial dos computadores. O termo especifica
não apenas a infra-estrutura material da comunicação
digital, mas também o universo oceânico de informações
que ela abriga, assim como os seres humanos que navegam e alimentam
esse universo. Quanto ao neologismo "cibercultura",
especifica aqui o conjunto de técnicas (materiais e intelectuais),
de práticas, de atitudes, de modos de pensamento e de valores
que se desenvolvem juntamente com o crescimento do ciberespaço".
(LÈVY, 1999, p. 17).
Neste
cenário, a interação e a identificação
dos indivíduos com a tecnologia e com a informação
acontecem através do que há de humano nestas relações:
a identificação dos sujeitos com exemplos a serem
seguidos. Não são poucos os candidatos a reclamarem
para si a função de representantes das massas. Além
dos políticos e candidatos a autoridades, disputam neste
mercado simbólico uma série de outros atores, que
são alvos da visibilidade midiática. Artistas e
apresentadores de televisão, esportistas e modelos internacionais,
celebridades de meio segundo, ativistas de causas sociais.
Estes
personagens, no entanto, garantem sua visibilidade ao agregar
à sua imagem pública valores relacionados à
afirmação do homem comum como cidadão. São
participantes de uma espécie de estesia, em cujo interior
mais importa o "parecer ser" do que o que realmente
se é. São signos que ligam os anseios populares
aos direitos fundamentais, já não garantidos com
tanta eficácia pelo Estado.
"Desiludidos com as burocracias
estatais, partidárias e sindicais, o público recorre
à rádio e à televisão para conseguir
o que as instituições cidadãs não
proporcionam; serviços, justiça, reparações
ou simples atenção". (Canclini, 1995, p 26)
A
estratégia se vale da prática fundamental do "fazer
ver, fazer pensar e do fazer sentir", (GOMES, 2004), onde
se sobressaem as ações da sociedade civil que têm
forte apelo subjetivo. São campanhas pela paz e pelo desarmamento,
em defesa dos direitos das minorias e dos excluídos, pelo
resgate da cultura nacional e em prol da prevenção
às doenças, que encontram um eco muito mais vigoroso
na sociedade quando alavancados pelos meios de comunicação.
O
crédito que se dá às ações-cidadãs,
hoje, está diretamente relacionado ao comprometimento que
estas têm com lugares legítimos de fala, representados
pelos meios de comunicação de massa e seus elementos
constitutivos. O resultado desta relação simbiótica,
na qual a mídia se apropria dos discursos sociais e, ao
mesmo tempo os toma como seus, tem duas implicações
claras. A primeira delas é o já comentado uso das
causas sociais como suporte sensível de construção
de imagem pública.
"[...] a produção de uma imagem adequada
precisa apoiar-se na compreensão correta dos desejos e
dos temores, das preocupações e das características
fundamentais, em suma, da natureza dos humanos envolvidos em cada
uma das esferas". (GOMES, 2004, p 374)
A
segunda é a disputa dos movimentos da chamada Sociedade
Civil pelos espaços garantidos pela mídia, legítima
reguladora da visibilidade pública. Para isso, associam
suas causas a elementos midiáticos, sejam eles programas
de televisão, artistas, atletas e celebridades em geral.
Quem não produz informação não constrói
sentido. Por outro lado, os movimentos se esforçam para
se fazerem representados na produção de sentidos
que vão ser veiculados pelos meios, legitimando sua participação
através da criação de mecanismos próprios
de comunicação e de manutenção da
imagem pública, sejam eles jornais, inserções
no rádio e na TV ou páginas na Internet.
No
ar, o novo consultório
Ao
levar esta discussão para a realidade específica
da saúde pública brasileira, percebe-se que os discursos
sobre as suas práticas já foram absorvidos pelos
meios de comunicação do país. A estratégia
de arregimentação de afetos é utilizada na
construção de conceitos, modelos e práticas
legitimados como ideais, tanto por estes meios como pelos agentes
que atuam na esfera da saúde pública. Basta que
se observe o que se apresenta como "saúde" no
espaço público.
"Saúde
é uma condição de bem-estar físico,
psíquico e social, e não apenas a ausência
de doença". Apesar de a definição da
Organização Mundial de Saúde (OMS) (1) ser
bastante clara, não é esse o conceito utilizado
em grande parte das ações praticadas hoje no Brasil.
O ideal saudável que se divulga, na verdade, está
diretamente associado, de maneira clara, à manutenção
da força de acumulação do capital (2). Assim,
o cidadão saudável é aquele produtivo, pró-ativo
e incluído na esfera de trabalho - mesmo que imaterial
- e que, portanto, é consumidor em potencial.
O
sensível aparece, neste contexto, mergulhado nas campanhas
empreendidas pelos órgãos governamentais, pelas
instâncias da sociedade civil e pelos meios de comunicação.
Assim, é possível identificar campanhas governamentais
de combate ao câncer de mama protagonizadas por atrizes
de televisão, encontrar celebridades diversas "vestindo
a camisa" de organizações não-governamentais
que lutam pela inclusão dos portadores de necessidades
especiais ou as próprias emissoras televisivas incorporando
a discussão de temas ligados à saúde como
se fizessem parte de seus programas ficcionais (3).
Arregimentam,
assim, afetos, levando a discussão a todas as faixas de
público e horários da programação,
o que certamente confere maiores índices de audiência
e, por consegüinte, garantem a viabilidade econômica
dos programas junto ao mercado anunciante. Em outra via, complementar
aos enredos de ficção, é cada vez mais comum
a inclusão de quadros fixos sobre saúde nos programas
de entrevista, de auditórios e até infantis. A TV
Globo, maior emissora de televisão do país, adotou
um slogan próprio que repetidas vezes anuncia: "Globo,
a saúde passa por aqui".
A estratégia mais comum é de apropriação
do discurso médico-científico, aliado ao valor agregado
da intimidade de alguma celebridade ou dos bastidores de algum
acontecimento. Como a pauta "saúde" é
bastante abrangente, pode-se dar dicas de uma nova dieta a partir
do dia-a-dia de uma modelo internacional, explorar os benefícios
da alimentação orgânica a partir dos conselhos
de um medalhista olímpico ou descobrir a receita caseira
que mantém tão sedosos os cabelos da mais nova atriz
de uma emissora. O que se percebe é que a discussão
vem sempre a reboque da intimidade, do lado privado de pessoas
que já garantiram a sua legitimidade pessoal através
da mídia.
A
prática garante, inclusive, que estas "celebridades"
engordem suas contas bancárias com a associação
de sua imagem a um promissor mercado de produtos e serviços,
que podem variar entre suplementos alimentares, dietas, programas
de exercícios e até medicamentos, dada a ineficiente
regulamentação brasileira sobre o tratamento que
se dá ao assunto.
Em relação a este tema, o Estado adota uma postura
no mínimo ambígua. Por um lado, proíbe a
exibição de material publicitário de cigarros,
produto que já carrega em sua embalagem um alerta de perigo
à saúde. Ao mesmo tempo, quase não inclui
as bebidas alcoólicas em suas campanhas preventivas contra
o uso de drogas. E nem as proíbe de anunciar. Não
por coincidência, o mercado publicitário tem como
um dos mais rentáveis anunciantes as fábricas de
cerveja, cujos anúncios sempre associam o seu consumo a
imagens de vida saudável e festiva.
Por
outro lado, não há o menor controle na publicização
e até mesmo venda de medicamentos através dos meios,
expondo a população a um dos riscos reais mais graves:
a auto-medicação. Analgésicos são
vendidos como se fossem tão mágicos quanto um estalar
de dedos: "a dor sumiu!" (4); suplementos vitamínicos
prometem vigor e sucesso engenhosamente representados pelo Rei
Pelé, em ação com a bola ao lado de Robinho,
jovem promessa dos gramados; atores televisivos interpretam situações
cotidianas, como o tomar de um simples "cafézinho",
com o "saudável" apelo d e um adoçante
cujo número de calorias se diz zero. Na Internet o controle
é ainda menor, favorecendo o comércio ilícito
de substâncias nocivas à saúde como esteróides
anabolizantes e fórmulas para emagrecimento. Tudo ao passo
de um clique do mouse.
Ao
se comunicar com o imaginário, utilizando recursos ficcionais
e se aproximando da realidade cotidiana das pessoas, a publicidade
obtém um recall considerável se comparado à
repercussão quase sempre duvidosa das campanhas governamentais
- didáticas, enfadonhas e normativas. A saúde no
Brasil se opera, segundo o que se assiste, em um plano mais próximo
da ficção. Não é à toa que
as discussões mais eficazes na área de saúde
se apresentam quando incluídas no enredo das telenovelas
e ritualizadas pelos animadores de auditório.
Ao
mesmo tempo, assiste-se a um interesse dos meios em se aproximar
do discurso técnico-científico, legitimado na palavra
do especialista. Por isso mesmo, não são poucas
as vozes da medicina que migram de seus consultórios para
os meios de comunicação. Toda uma série de
conselhos, receitas e consultas é prescrita por profissionais
da área de saúde em programas de rádio e
TV e através de colunas assinadas em jornais, revistas
e sites na Internet, apesar da saúde para todos ser garantida
por lei no Brasil.
"Art.
196. A saúde é direito de todos e dever do Estado,
garantido mediante políticas sociais e econômicas
que visem à redução do risco de doença
e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário
às ações e serviços para sua promoção,
proteção e recuperação". (Constituição
Federal, Título VIII - Da Ordem Social, Cap. II - Da Seguridade
Social, Sessão II - Da Saúde) (5).
Apesar
do direito à saúde estar garantido a todos os brasileiros,
desde a promulgação da Constituição
da Nova República, em 1988, o cidadão tem se consultado,
com muito mais freqüência, através dos meios
de comunicação. A freqüência de tal prática,
na mídia brasileira, é analisada como exercício
da democracia:
"A
coluna de consulta é um espaço em que o público
participa e se manifesta na mídia. Democracia, interatividade,
como preferir - as cartas, assim como todas as outras formas de
participação direta, permitem a cada um desenvolver
o sentimento de ser ouvido e de ter aonde e a quem recorrer, ao
mesmo tempo em que se vê espelhado na exposição
de seu par". (LESSA, 2002, p 7).
O
que se descreve, no entanto, é algo que está muito
mais próximo da associação que Canclini faz
entre cidadania e consumo:
"Ser
cidadão não tem a ver apenas com os direitos reconhecidos
pelos aparelhos estatais para os que nasceram em um território,
mas também com as práticas sociais e culturais que
dão sentido de pertencimento e fazem com que se sintam
diferentes os que possuem uma mesma língua, formas semelhantes
de organização e de satisfação das
necessidades" (CANCLINI, 1995, p 22).
As
colunas de consulta não só se situam entre as lacunas
do serviço público e de um atendimento médico
ainda insuficiente, como reforçam o sentido de pertencimento
a um grupo social. Consultar-se em público, mesmo que sob
pseudônimo, é repartir a solução com
muitos.
Este
poder de identificação com a audiência também
traz amplas vantagens para a retro-alimentação dos
meios de comunicação como geradores de informação:
"Para o veículo, é uma forma de estreitar o
vínculo com seu público e a partir desse movimento
se antenar, orientar seu conteúdo e obter novas pautas.
Até aí, é fácil chegar na experiência
cotidiana" (Lessa, 2002, p 7).
Em
outra direção caminham as ações empreendidas
pelos órgãos governamentais, sejam eles em nível
federal, estadual ou municipal. Apesar do projeto que norteia
o Sistema Único de Saúde (SUS) ser considerado um
dos mais bem planejados do mundo, em tempos neoliberais, a insuficiência
de resolutividade das práticas é freqüentemente
associada a uma política de comunicação que
não investe na nova configuração da sociedade.
Em
tempos onde as operações sensíveis - no sentido
a que se refere Rancière - se dão em um ambiente
onde o tempo de trabalho é cada vez menor e o tempo de
lazer está cada vez mais preenchido pela interação
com os meios de comunicação, falta, na política
estatal de saúde, uma maior compreensão de que o
ritmo de produção, trabalho e associação
de capital se operam de outra maneira. Consumir deixa de ser simplesmente
abrir os cofres e rasgar dinheiro para se alicerçar como
uma nova postura diante da escassez de direitos experimentados
na prática.
"[...]
o consumo é o conjunto de processos socioculturais em que
se realizam a apropriação e os usos dos produtos.
Esta caracterização ajuda a enxergar os atos pelos
quais consumimos como algo mais do que simples exercícios
de gostos, caprichos e compras irrefletidas, segundo os julgamentos
moralistas, ou atitudes individuais, tal como costumam ser explorados
pelas pesquisas de mercado". (CANCLINI, 1995, p. 53)
Ampliando
o conceito
"O
consumo, diz Manuel Castells, é um lugar onde os conflitos
entre classes, originado pela desigual participação
na estrutura produtiva, ganham continuidade através da
distribuição dos bens. Consumir é participar
de um cenário de disputas por aquilo que a sociedade produz
e pelos modos de usá-lo". (CANCLINI, Op. Cit, p. 54).
Na
esfera governamental, a saúde é uma reserva de mercado
eleitoral. Como é eficiente na mobilização
do afeto, sempre é acionada nos períodos que antecedem
as campanhas eleitorais, em especial aquelas que têm em
sua pauta os cargos majoritários. Não sendo este
o período, as ações visam mais à intermediação
de conflitos e recursos, tendo-se de um lado a instância
financiadora - que podem ser organismos multinacionais ou mesmo
um governo estrangeiro - e as organizações da sociedade
civil, que operam pequenas e médias causas localizadas.
São
poucas as iniciativas na área de saúde - com exceção
as promovidas pela mídia - que investem no simbólico,
na relação com o imaginário social. Pode-se
inclusive arriscar que os meios hoje cumprem uma função
ritual coletiva de promoção à saúde,
aproximando-se, ainda, do que descreve Canclini:
"Os
rituais servem para conter o curso dos significados e tornar explícitas
as definições públicas do que o consenso
geral julga valioso. Os rituais eficazes são os que utilizam
objetos materiais para estabelecer o sentido e as práticas
que os preservam" (1995, p. 58)
A
programação televisiva brasileira é um exemplo
claro do que ilustra o teórico, na medida em que seu apelo
a soluções mágicas, receitas infalíveis
e dicas de sucesso substituem a experiência vivida. Em tempos
de trabalho imaterial, maior valor agregado tem a técnica
de congelamento do que as propriedades das ervas medicinais. Com
o tempo cada vez mais regulado pelos meios de comunicação
de massa e os espaços ocupados por produtos e serviços,
o consumidor consome a saúde que quer ter.
Diante
de uma série de condutas a seguir, normas a cumprir e regras
a nunca desobedecer, a sociedade escolhe, nas prateleiras da mídia,
como vai tratar seu corpo, sua mente e até sua alma. Além
disso, diante da oferta de sentidos, os cidadãos-consumidores
podem se posicionar no espaço público, "vestindo
a camisa" e colocando no pulso as reivindicações
que fazem e as campanhas que apóiam na área de saúde.
É
cada vez mais utilizada a associação que se faz
dos movimentos de combate às doenças a símbolos
e cores específicas. Um dos mais conhecidos casos foi idéia
do Visual Aids, grupo de profissionais de arte, de Nova York,
para homenagear amigos e colegas que haviam morrido ou estavam
morrendo em decorrência da Aids. Eles transformaram um simples
laço vermelho em símbolo de solidariedade e de comprometimento
na luta contra a doença.
O
vermelho foi escolhido pela sua ligação ao sangue
e à idéia de paixão, e foi inspirado no laço
amarelo que honrava os soldados americanos da Guerra do Golfo.
Tornou-se moda depois que recebeu um sério valor agregado:
após ser usado pelo ator Jeremy Irons, na cerimônia
de entrega do prêmio Tony Awards, em 1991, tornou-se símbolo
popular entre as celebridades nas cerimônias de entrega
de outros prêmios e virou moda. A proposta logo foi adotada
por outros grupos ativistas: o laço rosa simbolizando a
luta contra o câncer de mama; o azul sinalizando a luta
pela liberdade de expressão.
Estratégia
mais recente foi criada pelo ciclista norte-americano Lance Armstrong.
Ele criou, através da Fundação que leva o
seu nome - e em associação com a Nike - a pulseira
amarela Live Strong. O objetivo é arrecadar recursos para
o tratamento do câncer através da sua venda. O atleta,
celebridade no mundo do esporte, tomou a decisão após
superrar um câncer e voltar a competir.
A
inscrição em inglês "live strong"
("viver com força") é um claro recado
ao imaginário social, conferindo status de saúde
e vigor para quem a compra. O sucesso da investida pode ser auferido
pelo recorde de vendas - e de falsificações - e
o interesse da Nike em ampliar o negócio. A multinacional
lançou, em seguida, outra pulseira, preta e branca, contra
o racismo, desenvolvida com a ONG King Badouin Foundation, de
Bruxelas, para financiar uma pesquisa sobre racismo na Europa,
em especial no futebol.
"Comprar
objetos, pendurá-los ou distribuí-los pela casa,
assinalar-lhes um lugar em uma ordem, atribuir-lhes funções
na comunicação com os outros, são os recursos
para se pensar o próprio corpo, a instável ordem
social e as interações incertas com os demais. Consumir
é tornar mais inteligível um mundo onde o sólido
se evapora". (CANCLINI, 1995, p. 59).
No
que diz respeito à saúde, no Brasil, pode-se concluir
que existe, de fato, uma associação clara entre
o estímulo ao consumo de práticas e comportamentos
orientados pelo mercado, amplamente apoiado pelo capital simbólico
que reveste os meios de comunicação de massa. As
propostas governamentais e perpetradas pelos movimentos sociais,
no entanto, continuam a ignorar a subjetividade deste novo cidadão-
consumidor, colocando-se no espaço público como
uma farmácia sem estoque.
Nas
prateleiras da saúde publica, só se encontram disponíveis
a ausência do Estado e a repetição de velhas
formas, tão ultrapassadas como os ideais fordistas de trabalho
e acumulação do capital. Para estes consumidores
do século XXI, só estão disponíveis,
na esfera estatal, "produtos" de saúde mais apropriados
para aqueles que viviam no século XVIII.
Notas
1) Para maiores detalhes, acessar o site da Organização
Pan-Americana de Saúde (OPAS): www.opas.org.br
2)
Uma tendência que se observa mais nitidamente a partir dos
anos 1980, quando a mídia celebrou a chamada "geração
saúde", inspirada nos jovens executivos dos países
desenvolvidos, chamados yuppies.
3)
Em 2005, a TV Globo exibe na novela "América",
de Glória Perez, dois personagens deficientes visuais,
cujas trajetórias chamam a atenção da audiência
para temas relacionados à saúde como inclusão
social, preconceito e tratamento a partir das células-tronco.
Dentro da própria trama, a autora inseriu um programa de
entrevistas, protagonizado pelo filho do "Rei" Roberto
Carlos - que também é deficiente -, onde semanalmente
outros brasileiros, desconhecidos, mostram como superam, em seu
cotidiano, as dificuldades causadas pela falta da visão.
4)
Texto de um conhecido e já clássico comercial, que
vende um analgésico: "Tomou Doril, a dor sumiu!"
5)
Texto da Constituição da República Federativa
do Brasil, de 1988, disponível no site http://www81.dataprev.gov.br/sislex/paginas/22/Consti.htm#T8.
Acesso em 13/07/2005.
Bibliografia
CANCLINI, Nestor Garcia. Consumidores
e Cidadãos. Rio de Janeiro, RJ, Editora UFRJ, 1995.
GOMES, Wilson. Transformações
da política na era de comunicação de massa.
São Paulo, SP, Editora Paulus, 2004.
LAZZARATO, Maurizio, NEGRI, Antonio.
Trabalho Imaterial - Formas de vida e produção de
subjetividade. Rio de Janeiro, RJ, DP&A Editora, 2001.
LESSA, Ciça. "A importância
das colunas de consulta" em "A mídia como consultório?
- Uma análise técnica e jornalística das
perguntas e respostas sobre saúde e comportamento veiculadas
na mídia impressa e eletrônica". Brasília,
DF, Agência Nacional dos Direitos da Infância (ANDI),
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Adriano de Lavor Moreira
Especialista em Comunicação e Saúde - Escola
Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (ENSP)
/ Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz); mestrando da
Escola de Comunicação (ECO) da Universidade Federal
do Rio de Janeiro (UFRJ).
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