Volume 2
Número 3

20 de dezembro de 2005
 
 * Edição atual    

          Fumo e álcool: por que a mídia não joga duro com eles?

          A constatação é triste: a mídia tem sido, quase sempre, cúmplice da indústria tagabista e de bebidas alcoólicas, exaltando os seus lançamentos ou fazendo a apologia de seu marketing cínico, que identifica meras ações mercadológicas como programas de responsabilidade social.

          Falta, infelizmente, à imprensa brasileira espírito crítico, quando se trata de divulgar produtos que lesam a sociedade, sobretudo quando as mensagens que os promovem insistem em mascarar ou omitir seus efeitos colaterais nocivos , respaldados por milionárias campanhas publicitárias, geralmente destinadas ao público jovem.

          No caso da indústria tabagista, cerceada pela legislação, outras alternativas têm sido empreendidas, como o patrocínio de shows musicais ou espetáculos esportivos, com o objetivo explicito de angariar novos usuários e manter a fidelidade daqueles que já foram seduzidos por suas mensagens (subliminares ou não) que associam o cigarro a sucesso ou bem estar. Enquanto isso, milhões de pessoas morrem anualmente em todo o mundo e os serviços públicos de saúde são onerados brutalmente pelas doenças causadas pelo tabaco.

          Para a indústria de bebidas alcoólicas, a imprensa e o Governo têm sido irresponsavelmente tolerantes. Apesar de iniciativas no sentido de restringir a propaganda destes produtos, eles ocupam o horário nobre da TV e, em ano de Copa do Mundo, disputam as celebridades com o objetivo de aumentar os seus lucros, já exorbitantes. Pouco importa, como sabemos, se o que prevalece é a chamada "ética do Zeca Pagodinho", já que, na verdade, de há muito o cinismo vigora na comunicação do setor. No caso da TV, fica fácil perceber o interesse das emissoras, já que particularmente as fabricantes de cervejas são grandes anunciantes e, a exemplo do que aconteceu com o cigarro, os veículos, nesta hora, estão mais preocupados com os seus bolsos do que com a saúde dos cidadãos.

          O que fica mais difícil entender é porque a adesão, sem espírito crítico, a estes segmentos também ocorre nas seções editoriais dos principais jornais do País, portanto fora do universo (nesse caso contaminado) da Propaganda. Matérias tipo monofonte (apenas uma fonte da indústria é ouvida, sem qualquer contestação) são publicadas com frequência, contribuindo para reforçar o marketing agressivo dos produtos.

          A imprensa brasileira permanece refém dos grandes interesses, pela falta de conscientização e espírito cívico de seus empresários e profissionais, deixando de cumprir à risca o papel que dela se espera, particularmente no campo da educação para a saúde. A mesma situação se repete na cobertura da indústria farmacêutica e da indústria agroquímica e, mais recentemente, da indústria da biotecnologia, com lobbies poderosos buscando a todo custo manipular a opinião pública.

          Está na hora de abrir o olho. A sociedade exige vigilância ética e compromisso.

O Editor

 

 
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