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A Comunicação para
a Saúde como campo de estudos e pesquisas
Comunicação &
Saúde entrevistou Arquimedes Pessoni, jornalista, professor
universitário, com mestrado e doutorado na área
de Comunicação & Saúde. Conversamos com
ele sobre a tese, recém defendia, e sobre temas relevantes
do processo de comunicação para a saúde e
sobre a cobertura de saúde pela mídia brasileira.
Confira, vale a pena.
Arquimedes
Pessoni é jornalista formado em 1987 na Faculdade de
Comunicação Social do Instituto Metodista de Ensino
Superior (atual UMESP), fez mestrado e doutorado pela mesma instituição
tendo sempre como objeto de estudo a Comunicação
para a Saúde. Desde 1991 ocupa por concurso público
o cargo de repórter-redator na Assessoria de Imprensa da
Prefeitura de Santo André, atualmente respondendo pela
Secretaria de Saúde daquele município. Atua há
8 anos como assessor de comunicação da Fundação
do ABC, mantenedora da Faculdade de Medicina do ABC, onde também
ministrou algumas disciplinas ligadas ao Marketing aplicado à
Saúde no curso de pós-graduação. É
membro do Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade
de Medicina do ABC e faz parte do Conselho Editorial do jornal
Diário do Grande ABC. É professor também
dos cursos de Jornalismo e Relações Públicas
do UniFIAMFAAM (SP).
Arquimedes acaba de defender o
seu doutorado na UMESP, onde analisou as contribuições
da ComSaúde na construção do conhecimento
em Comunicação para a Saúde. Aqui, ele apresenta
informações relevantes sobre o campo de estudos
e pesquisas conhecido como Comunicação para a Saúde,
fala da ComSaúde e da cobertura de saúde pela mídia
brasileira.
Revista: Como se poderia definir
o campo da Comunicação para a Saúde?
Arquimedes Pessoni: Vários
autores tentaram definir o foco e a abrangência deste campo
e podemos citar alguns deles. Em geral, essas definições
associam a comunicação para a saúde à
mudança de comportamento. Holtgrave Mailbach, por exemplo,
define comunicação em saúde pública
como "o uso das técnicas de comunicação
e tecnologias para (positivamente) influenciar indivíduos,
populações e organizações no propósito
de promover condições planejadas para a saúde
humana e ambiental". Já Gloria Coe afirma que "a
comunicação para a Saúde se define como a
modificação do comportamento humano e os fatores
ambientais relacionados com esse comportamento que direta ou indiretamente
promovam a saúde, previnam doenças ou protejam os
indivíduos de danos" ou como "um processo de
oferecer e avaliar informação educativa persuasiva,
interessante e atrativa que dê como resultado comportamentos
individuais e socialmente saudáveis. " Os elementos
chave, segundo ela, para um programa de comunicação
para a saúde são o uso da teoria da persuasão,
a investigação e a segmentação da
audiência e um processo sistemático de desenvolvimento
de programas. Para Luis Ramiro Beltran, "a comunicação
para a saúde consiste na aplicação planejada
e sistemática de meios de comunicação para
mudança de comportamentos ativos da comunidade, compatíveis
com as aspirações expressadas em políticas,
estratégias e planos de saúde pública. Vista
como processo social, é um mecanismo de intervenção
para gerar, em escala múltipla, influência social
que proporcione conhecimentos, forje atitudes e provoque práticas
favoráveis ao cuidado com a saúde pública.
Como exercício profissional, a comunicação
para a saúde é o emprego sistemático dos
meios de comunicação individuais, de grupo, de massa
e mistos, assim como tradicionais e modernos como ferramentas
de apoio à mudança de comportamentos coletivos funcionais
ao cumprimento de objetivos de programas de saúde pública.!"
Podemos ainda mencionar a definição citada por Virgínia
Silva Pintos e que consta do Journal of Health Communication:"
um campo de especialização dos estudos comunicacionais
inclusive os processos de agenda setting para assuntos de saúde:
o envolvimento dos meios massivos com a saúde; a comunicação
científica entre profissionais da biomedicina; a comunicação
médico/paciente; e, particularmente, o desenho e a evolução
de campanhas de comunicação para a prevenção
da saúde".
Revista: É possível
identificar, cronologicamente, o início da construção
deste campo?
Arquimedes Pessoni: Nem
sempre é fácil resgatar , com absoluta precisão,
as primeiras manifestações desta área de
estudo, mas Beltrán admite que os médicos William
Alison, escocês, e Louis René Villermé, francês,
ao estabelecerem as relações entre pobreza e enfermidade,
no início do século XIX, ressaltaram a importância,
hoje assumida amplamente, da promoção da saúde
e contemplaram nela a comunicação. Pesquisadores
citam também Florence Nightingale, considerada pioneira
nas atividades de enfermagem e que deu muita importância
à comunicação e destacam, já no início
do século XX, o surgimento da Oficina Sanitária
PanAmericana, que depois se transformaria na Organização
Pan-Americana de Saúde (OPAS/OMS). Há uma corrente
significativa que associa a comunicação para a saúde
ao processo de difusão de inovações na área
agrícola, que teve profundo impacto na saúde pública
e em particular no planejamento familiar.
Revista: Na sua tese, você
resgata o Caso Molinas, que foi emblemático neste sentido.
Poderia falar um pouco a respeito dele e da sua importância.
Arquimedes Pessoni: Simplificadamente,
trata-se de uma história de fracasso da agência de
saúde pública do governo peruano para fazer com
que a população do vilarejo de 200 famílias
de uma região costeira do Peru, denominada Los Molinas,
adotasse novas normas de comportamento saudáveis. A proposta
da campanha era que os habitantes do local adotassem o consumo
da água fervida visando reduzir o risco de propagar o tifo,
doença presente no local, por diversos motivos, entre eles
o uso da água da irrigação para beber. Quando
terminou a campanha, apenas 5% das famílias haviam adotado
o consumo de água fervida, o que, efetivamente, representou
um fracasso. Descobriu-se que problemas culturais contribuíram
para o insucesso da campanha. A tradição local ligava
comidas quentes com doença. A água fervida torna
a água "menos fria" e, portanto, própria
apenas para pessoas doentes. Mas se o indivíduo não
estivesse doente, pelas normas locais da tribo indígena
à qual pertenciam as famílias, ele estaria proibido
de consumir água fervida. O caso Molinas se tornou mesmo
uma referência porque explicitou a importância da
cultura, muitas vezes relegada a um segundo plano em processos
de comunicação para o desenvolvimento.
Revista: Dê um panorama
geral sobre as pesquisas em Comunicação para a Saúde,
em particular no Brasil.
Arquimedes Pessoni: Em primeiro
lugar, é preciso afirmar que a comunicação
para a saúde se constitui numa área limítrofe
entre ciências distintas: a Comunicação e
a Saúde e que será possível encontrar sempre
duas situações: pesquisas de profissionais de Comunicação
que elegem a saúde como objeto de estudo e pesquisadores
com formação em Saúde que se preocupam com
a Comunicação como ferramenta de trabalho em sua
área de atuação.
No caso dos Estados Unidos, reconhecidamente
líder em estudos e pesquisas nessa área, as linhas
de investigação mais recorrentes atualmente, conforme
indica o Handbook of Health Communication, são:
teorização em Comunicação para a Saúde,
Comunicação cliente-provedor (relacionada aos planos
de saúde), interação médico-paciente,
comunicação em saúde para a comunidade (organização,
riscos à comunidade, serviço social, comunicação
interpessoal do dia-a-dia e populações marginalizadas),
campanhas de saúde, estratégias comunicacionais
em saúde, mensagens na mídia eletrônica (narrowcasting),
telemedicina, relações públicas em Comunicação
para a Saúde, Comunicação para a Saúde
na mídia e políticas de saúde. Trata-se de
uma área que tem se desenvolvido bastante e que, inclusive,
conta, nos EUA, com a contribuição de diversos programas
educacionais em Comunicação para a Saúde,
distribuídos pelo país. Pode-se citar o exemplo
da Universidade de Minnesota, onde há uma parceria entre
a escola de Jornalismo e Comunicação de Massa e
a escola de Saúde Pública.
No Brasil, segundo levantamento
que fizemos e que consta da tese, no Diretório de Grupos
de Pesquisa do Brasil do CNPq, identificamos 80 linhas de pesquisa
em 48 grupos de pesquisa que estudam Comunicação
em Saúde. Trata-se de uma área também em
expansão por aqui: somente em 2004, 17,5% do total das
linhas de pesquisas criadas se devem a este campo.
Revista: Quantitativamente,
como está a produção desta área nos
Programas de Pós-Graduação brasileiros?
Arquimedes Pessoni:Levando
em conta os programas reconhecidos pela CAPES até 2003
podemos identificar 78 dissertações e 26 teses na
área de Comunicação para a Saúde,
incluída aí a produção da UMESP, com
dados atualizados até 2004. A USP, a UFRJ e a UMESP são
os programas que mais têm contribuído para esta produção
total.
Revista: Qual a contribuição
da ComSaúde para o campo? Dê uma idéia geral
do perfil dos trabalhos e autores.
Arquimedes Pessoni: A ComSaúde
- Conferência Nacional de Comunicação e Saúde
é um evento nacional, que teve início em 1998 e
que já realizou 8 edições. Na tese, fizemos
um levantamento geral e comparativo entre as 7 primeiras edições
e chegamos à conclusão de que foram efetivamente
apresentados 215 trabalhos, com participação inclusive
de pesquisadores e entidades internacionais. Como era de esperar,
os pesquisadores de São Paulo e Rio de Janeiro, sobretudo
os que atuam em universidades paulistas, predominaram, respondendo
por cerca de 60% dos trabalhos apresentados. A área de
Comunicação prevaleceu sobre a de Saúde e
as mulheres foram mais presentes do que os homens, enquanto autoras,
respondendo por 63,23% do total de trabalhos apresentados contra
36,77% encaminhados pelos homens. A temática Comunicação
para Saúde na mídia predominou com 37% do total
de trabalhos, vindo a seguir Comunicação em Saúde
para a comunidade, com 16% do total. Outros temas importantes
foram Teorização da Comunicação para
a Saúde , Estratégias Comunicacionais, em particular
as do Poder Público, e Interação médico-paciente.
Revista: Como você avalia
a cobertura de saúde pela mídia brasileira? Quais
os principais problemas ou desafios a superar?
Arquimedes Pessoni: Como
pude comprovar no meu mestrado, a cobertura mostra falhas e os
temas geralmente são descolados da realidade da saúde
no país. Não há conhecimento - e tampouco
preocupação - dos editores em pautar matérias
que tenham impacto social, que traduzam para o leitor ações
educativas que possam contribuir para a promoção
da saúde e prevenção de doenças. A
espetacularização da saúde que a mídia
promove está calcada mais em descobertas de remédios
e tratamentos normalmente inacessíveis para os usuários
do Sistema Único de Saúde (SUS).
Revista: A seu ver, como deveria
ser, em resumo, os conteúdos básicos em um curso
para formação de jornalistas/comunicadores para
a saúde?
Arquimedes Pessoni: Acho
que o curso deveria contemplar algumas informações
básicas em epidemiologia, uso de termos médicos
(que beiram o jargão), muita prática de divulgação
científica para que os alunos possam aprender a transformar
comunicação primária em secundária
e terciárias sem que essa perca qualidade. É claro
que as linhas de pesquisa mais presentes em Health Communication
também devem estar previstas no curso para que os alunos
possam ter um panorama geral de atuação, entre elas
comunicação interpessoal (médico-paciente),
comunicação de riscos, narrowcasting, merchandising
social aplicado à saúde, campanhas de saúde,
entre outros.
Revista: Como neutralizar a
ação agressiva dos grandes interesses na divulgação
de saúde pela mídia?
Arquimedes Pessoni: Neutralizar
é utopia em sociedade capitalista. Temos nessa área
uma rara junção da fome com a vontade de comer:
as redações mais enxutas, profissionais nem sempre
habituados à cobertura da saúde (sobretudo matérias
que contemplem os novos medicamentos), o jabaculê comendo
solto e o departamento comercial dando as cartas com o excesso
da chamada "publireportagem". Nesse ambiente promíscuo
fica difícil separar o joio do trigo. Ao tentar fugir do
canto da sereia, o repórter fica à mercê do
departamento comercial que está mais interessado nos grandes
anunciantes (entre os quais as grandes empresas farmacêuticas
e planos de saúde privados) e acaba forçando a cobertura
mais chapa-branca das notícias. Num ambiente assim os idealistas
são mais desprezados e a ética nem sempre é
respeitada, por ambas as partes. Talvez beber em uma maior quantidade
de fontes com credibilidade possa ser a solução...
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