Volume 2
Número 3

20 de dezembro de 2005
 
 * Edição atual    

            A Comunicação para a Saúde como campo de estudos e pesquisas

            Comunicação & Saúde entrevistou Arquimedes Pessoni, jornalista, professor universitário, com mestrado e doutorado na área de Comunicação & Saúde. Conversamos com ele sobre a tese, recém defendia, e sobre temas relevantes do processo de comunicação para a saúde e sobre a cobertura de saúde pela mídia brasileira. Confira, vale a pena.

Arquimedes Pessoni é jornalista formado em 1987 na Faculdade de Comunicação Social do Instituto Metodista de Ensino Superior (atual UMESP), fez mestrado e doutorado pela mesma instituição tendo sempre como objeto de estudo a Comunicação para a Saúde. Desde 1991 ocupa por concurso público o cargo de repórter-redator na Assessoria de Imprensa da Prefeitura de Santo André, atualmente respondendo pela Secretaria de Saúde daquele município. Atua há 8 anos como assessor de comunicação da Fundação do ABC, mantenedora da Faculdade de Medicina do ABC, onde também ministrou algumas disciplinas ligadas ao Marketing aplicado à Saúde no curso de pós-graduação. É membro do Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Medicina do ABC e faz parte do Conselho Editorial do jornal Diário do Grande ABC. É professor também dos cursos de Jornalismo e Relações Públicas do UniFIAMFAAM (SP).

Arquimedes acaba de defender o seu doutorado na UMESP, onde analisou as contribuições da ComSaúde na construção do conhecimento em Comunicação para a Saúde. Aqui, ele apresenta informações relevantes sobre o campo de estudos e pesquisas conhecido como Comunicação para a Saúde, fala da ComSaúde e da cobertura de saúde pela mídia brasileira.

Revista: Como se poderia definir o campo da Comunicação para a Saúde?

Arquimedes Pessoni: Vários autores tentaram definir o foco e a abrangência deste campo e podemos citar alguns deles. Em geral, essas definições associam a comunicação para a saúde à mudança de comportamento. Holtgrave Mailbach, por exemplo, define comunicação em saúde pública como "o uso das técnicas de comunicação e tecnologias para (positivamente) influenciar indivíduos, populações e organizações no propósito de promover condições planejadas para a saúde humana e ambiental". Já Gloria Coe afirma que "a comunicação para a Saúde se define como a modificação do comportamento humano e os fatores ambientais relacionados com esse comportamento que direta ou indiretamente promovam a saúde, previnam doenças ou protejam os indivíduos de danos" ou como "um processo de oferecer e avaliar informação educativa persuasiva, interessante e atrativa que dê como resultado comportamentos individuais e socialmente saudáveis. " Os elementos chave, segundo ela, para um programa de comunicação para a saúde são o uso da teoria da persuasão, a investigação e a segmentação da audiência e um processo sistemático de desenvolvimento de programas. Para Luis Ramiro Beltran, "a comunicação para a saúde consiste na aplicação planejada e sistemática de meios de comunicação para mudança de comportamentos ativos da comunidade, compatíveis com as aspirações expressadas em políticas, estratégias e planos de saúde pública. Vista como processo social, é um mecanismo de intervenção para gerar, em escala múltipla, influência social que proporcione conhecimentos, forje atitudes e provoque práticas favoráveis ao cuidado com a saúde pública. Como exercício profissional, a comunicação para a saúde é o emprego sistemático dos meios de comunicação individuais, de grupo, de massa e mistos, assim como tradicionais e modernos como ferramentas de apoio à mudança de comportamentos coletivos funcionais ao cumprimento de objetivos de programas de saúde pública.!" Podemos ainda mencionar a definição citada por Virgínia Silva Pintos e que consta do Journal of Health Communication:" um campo de especialização dos estudos comunicacionais inclusive os processos de agenda setting para assuntos de saúde: o envolvimento dos meios massivos com a saúde; a comunicação científica entre profissionais da biomedicina; a comunicação médico/paciente; e, particularmente, o desenho e a evolução de campanhas de comunicação para a prevenção da saúde".

Revista: É possível identificar, cronologicamente, o início da construção deste campo?

Arquimedes Pessoni: Nem sempre é fácil resgatar , com absoluta precisão, as primeiras manifestações desta área de estudo, mas Beltrán admite que os médicos William Alison, escocês, e Louis René Villermé, francês, ao estabelecerem as relações entre pobreza e enfermidade, no início do século XIX, ressaltaram a importância, hoje assumida amplamente, da promoção da saúde e contemplaram nela a comunicação. Pesquisadores citam também Florence Nightingale, considerada pioneira nas atividades de enfermagem e que deu muita importância à comunicação e destacam, já no início do século XX, o surgimento da Oficina Sanitária PanAmericana, que depois se transformaria na Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS/OMS). Há uma corrente significativa que associa a comunicação para a saúde ao processo de difusão de inovações na área agrícola, que teve profundo impacto na saúde pública e em particular no planejamento familiar.

Revista: Na sua tese, você resgata o Caso Molinas, que foi emblemático neste sentido. Poderia falar um pouco a respeito dele e da sua importância.

Arquimedes Pessoni: Simplificadamente, trata-se de uma história de fracasso da agência de saúde pública do governo peruano para fazer com que a população do vilarejo de 200 famílias de uma região costeira do Peru, denominada Los Molinas, adotasse novas normas de comportamento saudáveis. A proposta da campanha era que os habitantes do local adotassem o consumo da água fervida visando reduzir o risco de propagar o tifo, doença presente no local, por diversos motivos, entre eles o uso da água da irrigação para beber. Quando terminou a campanha, apenas 5% das famílias haviam adotado o consumo de água fervida, o que, efetivamente, representou um fracasso. Descobriu-se que problemas culturais contribuíram para o insucesso da campanha. A tradição local ligava comidas quentes com doença. A água fervida torna a água "menos fria" e, portanto, própria apenas para pessoas doentes. Mas se o indivíduo não estivesse doente, pelas normas locais da tribo indígena à qual pertenciam as famílias, ele estaria proibido de consumir água fervida. O caso Molinas se tornou mesmo uma referência porque explicitou a importância da cultura, muitas vezes relegada a um segundo plano em processos de comunicação para o desenvolvimento.

Revista: Dê um panorama geral sobre as pesquisas em Comunicação para a Saúde, em particular no Brasil.

Arquimedes Pessoni: Em primeiro lugar, é preciso afirmar que a comunicação para a saúde se constitui numa área limítrofe entre ciências distintas: a Comunicação e a Saúde e que será possível encontrar sempre duas situações: pesquisas de profissionais de Comunicação que elegem a saúde como objeto de estudo e pesquisadores com formação em Saúde que se preocupam com a Comunicação como ferramenta de trabalho em sua área de atuação.

No caso dos Estados Unidos, reconhecidamente líder em estudos e pesquisas nessa área, as linhas de investigação mais recorrentes atualmente, conforme indica o Handbook of Health Communication, são: teorização em Comunicação para a Saúde, Comunicação cliente-provedor (relacionada aos planos de saúde), interação médico-paciente, comunicação em saúde para a comunidade (organização, riscos à comunidade, serviço social, comunicação interpessoal do dia-a-dia e populações marginalizadas), campanhas de saúde, estratégias comunicacionais em saúde, mensagens na mídia eletrônica (narrowcasting), telemedicina, relações públicas em Comunicação para a Saúde, Comunicação para a Saúde na mídia e políticas de saúde. Trata-se de uma área que tem se desenvolvido bastante e que, inclusive, conta, nos EUA, com a contribuição de diversos programas educacionais em Comunicação para a Saúde, distribuídos pelo país. Pode-se citar o exemplo da Universidade de Minnesota, onde há uma parceria entre a escola de Jornalismo e Comunicação de Massa e a escola de Saúde Pública.

No Brasil, segundo levantamento que fizemos e que consta da tese, no Diretório de Grupos de Pesquisa do Brasil do CNPq, identificamos 80 linhas de pesquisa em 48 grupos de pesquisa que estudam Comunicação em Saúde. Trata-se de uma área também em expansão por aqui: somente em 2004, 17,5% do total das linhas de pesquisas criadas se devem a este campo.

Revista: Quantitativamente, como está a produção desta área nos Programas de Pós-Graduação brasileiros?

Arquimedes Pessoni:Levando em conta os programas reconhecidos pela CAPES até 2003 podemos identificar 78 dissertações e 26 teses na área de Comunicação para a Saúde, incluída aí a produção da UMESP, com dados atualizados até 2004. A USP, a UFRJ e a UMESP são os programas que mais têm contribuído para esta produção total.

Revista: Qual a contribuição da ComSaúde para o campo? Dê uma idéia geral do perfil dos trabalhos e autores.

Arquimedes Pessoni: A ComSaúde - Conferência Nacional de Comunicação e Saúde é um evento nacional, que teve início em 1998 e que já realizou 8 edições. Na tese, fizemos um levantamento geral e comparativo entre as 7 primeiras edições e chegamos à conclusão de que foram efetivamente apresentados 215 trabalhos, com participação inclusive de pesquisadores e entidades internacionais. Como era de esperar, os pesquisadores de São Paulo e Rio de Janeiro, sobretudo os que atuam em universidades paulistas, predominaram, respondendo por cerca de 60% dos trabalhos apresentados. A área de Comunicação prevaleceu sobre a de Saúde e as mulheres foram mais presentes do que os homens, enquanto autoras, respondendo por 63,23% do total de trabalhos apresentados contra 36,77% encaminhados pelos homens. A temática Comunicação para Saúde na mídia predominou com 37% do total de trabalhos, vindo a seguir Comunicação em Saúde para a comunidade, com 16% do total. Outros temas importantes foram Teorização da Comunicação para a Saúde , Estratégias Comunicacionais, em particular as do Poder Público, e Interação médico-paciente.

Revista: Como você avalia a cobertura de saúde pela mídia brasileira? Quais os principais problemas ou desafios a superar?

Arquimedes Pessoni: Como pude comprovar no meu mestrado, a cobertura mostra falhas e os temas geralmente são descolados da realidade da saúde no país. Não há conhecimento - e tampouco preocupação - dos editores em pautar matérias que tenham impacto social, que traduzam para o leitor ações educativas que possam contribuir para a promoção da saúde e prevenção de doenças. A espetacularização da saúde que a mídia promove está calcada mais em descobertas de remédios e tratamentos normalmente inacessíveis para os usuários do Sistema Único de Saúde (SUS).

Revista: A seu ver, como deveria ser, em resumo, os conteúdos básicos em um curso para formação de jornalistas/comunicadores para a saúde?

Arquimedes Pessoni: Acho que o curso deveria contemplar algumas informações básicas em epidemiologia, uso de termos médicos (que beiram o jargão), muita prática de divulgação científica para que os alunos possam aprender a transformar comunicação primária em secundária e terciárias sem que essa perca qualidade. É claro que as linhas de pesquisa mais presentes em Health Communication também devem estar previstas no curso para que os alunos possam ter um panorama geral de atuação, entre elas comunicação interpessoal (médico-paciente), comunicação de riscos, narrowcasting, merchandising social aplicado à saúde, campanhas de saúde, entre outros.

Revista: Como neutralizar a ação agressiva dos grandes interesses na divulgação de saúde pela mídia?

Arquimedes Pessoni: Neutralizar é utopia em sociedade capitalista. Temos nessa área uma rara junção da fome com a vontade de comer: as redações mais enxutas, profissionais nem sempre habituados à cobertura da saúde (sobretudo matérias que contemplem os novos medicamentos), o jabaculê comendo solto e o departamento comercial dando as cartas com o excesso da chamada "publireportagem". Nesse ambiente promíscuo fica difícil separar o joio do trigo. Ao tentar fugir do canto da sereia, o repórter fica à mercê do departamento comercial que está mais interessado nos grandes anunciantes (entre os quais as grandes empresas farmacêuticas e planos de saúde privados) e acaba forçando a cobertura mais chapa-branca das notícias. Num ambiente assim os idealistas são mais desprezados e a ética nem sempre é respeitada, por ambas as partes. Talvez beber em uma maior quantidade de fontes com credibilidade possa ser a solução...

 

 
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