
Terapia
de Reposição Hormonal e outras Terapias Complementares
no Climatério: Usos e Controvérsias
Cláudia Serafim Giaccio*
Norma Farias*
O
climatério é a fase da vida da mulher onde ocorre
a transição do período reprodutivo para o
não reprodutivo. Menopausa é a última menstruação.
O elenco de sintomas que se manifesta nesse período é
denominado de síndrome climatérica . Apesar de ser
uma condição fisiológica presente em todas
as mulheres de meia-idade, pode ter repercussões patológicas
em um número considerável delas, sob a forma de
manifestações genitais e extragenitais cujo resultado
é a aceleração do processo de envelhecimento
(1).
O climatério pode ser dividido em três partes: pré-menopausa
(período entre o final da menacme - período da vida
da mulher no qual ocorre a mesntruação), peri-menopausa
(período de 3 a 5 anos que precede a última menstruação)
e pós menopausa (intervalo de tempo entre o último
catamênio (sangramento mesntrual) e a senectude) (2).

Como conseqüência do avanço da Medicina e do
aprimoramento tecnológico nos vários campos das
ciências, tem-se alcançado uma diminuição
significativa de mortes devido a doenças infecciosas agudas
e também a doenças crônicas e degenerativas,
com prolongamento da esperança média de vida.
Ao
mesmo tempo em que houve aumento da longevidade, as mulheres tornam-se
mais susceptíveis a uma série de condições
clínicas próprias do envelhecimento que comprometem
a qualidade de vida. A mulher climatérica começa
a ter alterações de humor que podem variar desde
uma leve tristeza até um quadro depressivo, distúrbios
do sono e suas conseqüências, tais como fadiga e irritabilidade,
transtornos da sexualidade, somados às alterações
atróficas do aparelho urogenital.
Atualmente a população possui maior acesso a informações
concernentes à saúde. A cobertura da mídia
e as demandas crescentes entre as mulheres pelos cuidados de saúde
dirigidos às suas necessidades particulares, em tudo contribuíram
para uma conscientização sobre a importância
da menopausa e sua conduta.
Torna-se portanto, primordial, conhecer, entender e prevenir as
desordens biopsicossociais que incidem no climatério, abordando
as mesmas de uma forma multidisciplinar, onde vários campos
da ciência e vários profissionais devem estar envolvidos,
a fim de responder essa questão da saúde da mulher.
A terapia hormonal (TH) foi o marco inicial para a abordagem da
mulher climatérica, vendendo-se o conceito de "eterna
juventude "para suas adeptas.
De fato, inúmeras pesquisas iniciais mostravam benefícios
significativos da terapêutica hormonal, proporcionando uma
indiscutível melhora da qualidade de vida das mulheres
na menopausa e na terceira idade.
Contudo, apesar desses estudos mostrarem benefícios, era
imperioso aprofundar questões referentes à avaliação
dos riscos dessa terapêutica, pois descartadas as contra-indicações
formais (doença tromboembólica aguda e recorrente
- "tromboses", doença hepática grave,
câncer de endométrio recente, sangramento vaginal
não diagnosticado e porfiria - "distúrbios
que podem causar lesões de pele e alterações
no sistema nervoso"), as pacientes eram cartesianamente apresentadas
a um regime terapêutico hormonal.
Porém, os profissionais médicos começaram
a questionar sobre a segurança do tratamento: estaria sendo
avaliada apenas a parte submersa do iceberg? Haveriam riscos embutidos
nessa terapêutica que estariam camuflados pela ausência
de grandes estudos populacionais?
Os grandes estudos científicos
Os
estudos denominados HERS (Heart and Estrogen/progestin Replacement
Study) e WHI (Women's and Health initiative, publicados em 2002
e 2004) trouxeram novos conhecimentos sobre a terapia com estrogênio
e progestagênio (2), pois vieram preencher uma lacuna no
conhecimento sobre o risco-benefício da TH.
O estrogênio é o hormônio feminino produzido
nos ovários, que influencia uma grande variedade de tecidos
e órgãos no corpo da mulher, e em termos gerais,
a sua perda após a falência ovariana reverte esses
efeitos e produz a gama de sintomas associados à menopausa.
A reposição hormonal poderia ser baseada apenas
na reposição do estrogênio, porém,
esse quando usado isoladamente em mulheres com útero, pode
desencadear alterações no tecido interno do mesmo,
o endométrio, a ponto de desenvolver câncer endometrial.
Isso pode ser controlado ou mesmo eliminado com o uso da progesterona.
A progesterona é também um hormônio feminino,
igualmente produzido pelo ovário e é usada na terapia
hormonal para proteger o endométrio contra o estímulo
estrogênico constante. Portanto é fácil concluir
que seu uso é dispensado em mulheres histerectomizadas
(sem útero).
O WHI (3) e o HERS (4), ambos são grandes estudos em populações
de mulheres onde observou-se que a administração
combinada dos dois hormônios estrogênio e progesterona,
em mulheres não histerectomizadas, aumentava o risco de
fenômenos tromboembólicos ("tromboses")
.
O HERS (4) foi um estudo conduzido para averiguar a eficácia
e segurança do uso de estrogênio mais progesterona
para prevenção ou recorrência de doença
coronariana em mulheres. As participantes eram mulheres menopausadas
com útero, com antecedente de doença coronariana.
As participantes foram recrutadas entre fevereiro de 1993 a setembro
de 1994, em 20 centros coordenados pela Universidade da Califórnia,
em São Francisco (EUA), com um total de 2.763 participantes
com idades entre 44 e 79 anos. Ao contrário de todos os
estudos anteriormente publicados, os quais apontavam uma considerável
redução no risco de doença coronariana em
mulheres com terapia hormonal, o HERS mostrou uma maior ocorrência
de novos eventos cardiovasculares nas mulheres que receberam hormônio
durante o primeiro ano de segmento, mas sendo semelhante nos anos
seguintes, ao grupo que não recebeu hormônio.
Em vista dessa situação, optou-se pela continuação
do HERS, porém com adaptações metodológicas
que visassem maior segurança, passando, então, a
ser chamado HERS II, que teve seus dados publicados em 2004, mostrando
após 6 anos de acompanhamento, (5) não haver diferença
entre à ocorrência de infarto agudo não fatal
do miocárdio, mortes por doença coronariana ou outros
eventos cardiovasculares, exceto para arritimia cardivascular
não fatal, que foi maior no grupo que recebeu hormônio,
em relação ao grupo que não recebeu hormônio.
Quanto a outros eventos como o tromboembolismo venoso ou complicações
na vesícula biliar, os resultados foram os mesmos do primeiro
estudo HERS4.
O WHI, pesquisa patrocinada pelo National Institute of Health
(NIH) dos Estados Unidos, foi o estudo mais importante sobre terapêutica
hormonal no climatério, onde foram estudadas 27.000 mulheres
americanas pós-menopáusicas. O estudo foi concebido
em 1992 e o período de inclusão de pacientes no
estudo, em 40 centros clínicos da América do Norte,
encerrado em 1995. Aguardavam-se os seus resultados para 2005,
com tempo máximo de observação previsto para
cada paciente de 10 anos.
O WHI foi iniciado para buscar evidências sobre as experiências
até então acumuladas através de estudos anteriores-
porém de menor porte-, sobre associações
entre terapêutica hormonal no climatério e doenças
coronarianas, câncer (mama, colorretal e endométrio,
fraturas por osteoporose, e as principais causa de morte, além
de baixa qualidade de vida entre mulheres na pós-menopausa.
Os resultados mostraram um aumento de 26% no risco para câncer
de mama nas usuárias de terapêutica hormonal combinada
(estrogênio mais progesterona), comparadas com o grupo que
não recebeu hormônio. No entanto, o número
de casos de câncer de mama tem relação com
o tempo: contam-se 2 casos extras/1.000 em 5 anos de TH, 6/1.000
e 12/1.000 para 10 e 15 anos de TH, respectivamente.
Em relação aos benefícios, o WHI mostrou
redução dos riscos para fraturas (24%) e de câncer
colorretal (37%) no grupo de mulheres que receberam TH, em relação
àquelas que não receberam.
No que concerne às questões ligadas à qualidade
de vida, o WHI evidenciou que mulheres entre 50 e 54 anos, portadoras
de distúbios vasomotores ( que provocam ondas de calor
e transpiração) moderados ou severos, obtêm
discretos benefícios em relação aos distúrbios
do sono. Porém, não foi observada melhora na função
cognitiva nas mulheres com idade superior a 65 anos, bem como
houve aumento da probabilidade de demência, sendo o risco
cerca de 2 (duas) vezes superior no grupo dessas mulheres mais
idosas submetidas à TH.
Assim, antes do tempo de seguimento previsto, o NIH, patrocinador
do WHI, em março de 2004 descontinuou o estudo envolvendo
cerca de 11.000 mulheres estavam recebendo estrogênio, devido
o aumento do risco observado para Acidente Vascular Cerebral (6).
Algumas limitações podem ser apontadas em relação
ao estudo WHI. Analisando os achados, pode-se concluir que o estudo
refere-se a um único regime terapêutico, com doses
padronizadas, contrapondo-se à preconização
da individualização da terapêutica hormonal.
Além disso, a idade média das pacientes do estudo
está certamente acima da observadas em pacientes que fazem
uso de terapia hormonal. Observou-se também, um grande
número de abandono do tratamento. Sabe-se que a aderência
ao tratamento está relacionada com a motivação
da paciente, portanto, ao instituir a TH às mulheres com
algum tempo de pós-menopausa e já adaptadas à
essa nova condição em suas vidas, provavelmente
esse fato levou essas pacientes a não encarar a TH como
algo não tão necessário, principalmente quando
não apresentam sintomas.
Seria temerário, portanto, extrapolar os resultados desse
estudo para outras vias de administração, outros
hormônios e, sobretudo, outras apresentações
como as baixas doses.
No entanto, deve ficar claro que não se trata de um defeito
do estudo, dado que a metodologia utilizada obedeceu a critérios
científicos rigorosos. Mas esse fato não o torna
imune às críticas. Por outro lado, para se generalizar
conclusões para a população geral através
de um estudo científico, faz-se necessário repetir
estudos em populações e condições
diferentes. De qualquer forma, as conclusões desses estudos
são importantes e introduziram uma nova discussão
sobre a abordagem terapêutica no climatério. Todas
essas questões são delicadas e devem ser julgadas
com bom senso por parte de pesquisadores e profissionais de saúde.
Outros
estudos
Em
1976 foi desenvolvido o Nurse's Health Study, onde foram recrutadas
121.700 enfermeiras entre 35 e 55 anos, residentes em onze grandes
estados Americanos. Esse estudo mostrou um risco aumentado para
câncer de mama de 3,3% para uso de estrogênio isolado,
e de 9,0% para a combinação de estrogênio
e progestagênio (7).
A pesquisa Million Women Study constituiu-se em um estudo desenhado
para avaliar o impacto da TH sobre a saúde das mulheres.
Mais de um milhão de mulheres foram recrutadas entre 1996
a 2001 e o estudo teve seu início em 1999 na Inglaterra
e Austrália. As conclusões obtidas mostram dados
favoráveis na proteção contra fraturas ósseas
em mulheres sob qualquer tipo de TH, principalmente em mulheres
com idade mais avançada (8).
Estudos recentes mostram que há efeitos positivos da terapia
com estrógeno sobre as funções cognitivas
e a redução da doença de Alzheimer, porém
esse efeito está diretamente relacionado ao momento em
que essa é introduzida, bem como ao tipo de progesterona
associada, portanto, há um momento oportuno para a utilização
da TH com esse objetivo e, esse momento é no período
da perimenopausa (9).
Qual
o impacto desses estudos para a decisão: usar ou não
usar terapia hormonal?
O
impacto do WHI sobre a TH no climatério foi extremamente
negativo. Como exemplo, pôde ser observada a mudança
de atitude de médicos israelitas após a divulgação
dos resultados do WHI. Apesar de 95% dos ginecologistas israelenses
acreditarem na legitimidade da TH pós menopausa, essa passou
a ser usada com reserva, deixando de ser administrada como terapêutica
para prevenção de doença cardíaca
e osteoporose: 40% dos ginecologistas limitaram seu uso para o
tratamento da síndrome climatérica; 65% dos médicos
recomendaram que 30% de sua pacientes suspendessem a TH, e 40%
das pacientes pararam a TH por opção (10).
A exemplo do que foi observado com mulheres israelitas, as mulheres
passaram a ter uma opinião crítica sobre a TH na
transição do climatério, essas passaram a
necessitar de informações e buscar o arbítrio
sobre tratar ou não a menopausa (11). Dessa forma, as mulheres
e seus médicos começaram um questionamento, formou-se
então, uma massa crítica visando avaliar os reais
benefícios e riscos envolvidos em cada paciente.
A partir da divulgação dos primeiros resultados
desses principais estudos em 2002, a mídia deu grande cobertura
ao tema, seja através da grande imprensa ou da divulgação
específica sobre ciência. Como geralmente acontece
quando um tema polêmico é abordado, o "pânico"
gerado nem sempre corresponde às evidências científicas,
com tendência de ser maior que o risco observado e causando
impacto negativo na população. As interrogações
principais eram pertinentes: que fazer? Quais recomendações
seguir? No entanto, não era possível e ainda não
é possível ter respostas claramente conclusivas
sobre "SIM" ou "NÂO".
A questão que se coloca atualmente é não
somente usar ou não a terapia hormonal, mas também
por quanto tempo submeter uma paciente ao regime terapêutico
hormonal.
Ainda não há consenso sobre a questão. A
SOBRAC (Associação Brasileira do Climatério)
preconiza que, uma vez iniciada a TH a sua continuação
irá depender da manutenção dos benefícios
para os quais nela foi iniciada, do aparecimento de efeitos adversos,
do perfil dos riscos e benefícios durante seu seguimento,
da melhora da qualidade de vida, da preferência da mulher
em continuar a TH após se suficientemente informada e da
experiência e consciência clínica de cada médico.
Cabe ao médico apresentar um comportamento aberto, promovendo
e incentivando a participação da paciente no processo
de decisão, procurando nunca omitir informações,
fornecê-las de modo claro, porém, tomando cuidado
para não transformar a consulta num ato social, pois a
prescrição ou a condução de um tratamento
é um ato médico com todas as responsabilidades nele
envolvidas.
O papel de divulgação e de discussão com
organizações de profissionais e da sociedade civil,
assim como a divulgação científica pelos
meios de comunicação, de forma clara e adequada
sobre o que está acontecendo na "ordem do dia"
são também componentes fundamentais.
Alternativas
utilizadas para mulheres portadoras de síndrome climatérica
Em
conseqüência das controvérsias presentes sobre
o uso de terapia hormonal, há uma grande necessidade de
alternativas para mulheres portadoras de síndrome climatérica,
e essas têm de estar em compasso com mudanças no
estilo de vida, como por exemplo a reeducação alimentar
(priorizando alimentos ricos em cálcio, pobre em gordura
saturada e com baixo teor calórico) e atividade física
(2).
A pesquisa sobre o uso da medicina complementar (CAM - Complementary
and Alternative Medicine) e prescrição de medicamentos
não hormonais para os sintomas do climatério têm
aumentado (12).
No entanto, no Brasil a expressão CAM não deve ser
utilizada para designá-la, pois em nosso país, por
resolução do Conselho Federal de Medicina - CFM
(13), as medicinas complementares - anteriormente conhecidas como
medicinas alternativas - devem ser praticadas apenas por médicos
especialistas e integra a lista de especialidades do CFM. Dentre
essas, a Homeopatia tem papel de destaque no tratamento dos problemas
do climatério.
Segundo a homeopatia, o médico poderá utilizar medicamentos
de origem hormonal que, nas formas dinamizadas, reforçam
as ações terapêuticas, elegendo para isso
as baixas doses para estimular, as médias para regular
ou altas para frear, repetindo as doses com mais freqüência
nos casos agudos para obter efeitos mais rápidos e doses
menos freqüentes em tratamento a médio e longo prazo
para reafirmar e controlar resultados (14).
Diversos trabalhos têm demonstrado eficácia da homeopatia
aparentemente maior que a esperada com placeboterapia. Porém,
são trabalhos de casuística pequena e com grupos
não randomizados14 (não alocados aleatoriamente).
A alocação aleatória é metodologia
de eleição para se comprovar a eficácia de
um medicamento e julgar a validade científica do estudo,
tornando os resultados confiáveis. Por outro lado, há
controvérsias entre os profissionais da área biomédica,
sobre a própria eficácia da homeopatia, uma vez
que essa terapêutica se baseia na dinamização
da substância farmacologicamente ativa até o ponto
em que ela não seja mais detectada, o que gera questionamentos
sobre a ação de um medicamento, onde já não
se encontra mais seu princípio ativo.
Assim, a fitoterapia começa a ganhar espaço como
modalidade de tratamento. Os fitomedicamentos são produtos
medicinais, cujos componentes farmacologicamente ativos consistem
exclusivamente em materiais vegetais e os fitormônios por
sua vez, são substâncias encontradas em plantas e
têm atividade biológica semelhante aos estrogênios
(15).
Os fitormônios podem ser classificados nos seguintes grupos:
Isoflavonas: constitui a mais importante forma de fitormônio.
As principais fontes são: soja, lentilha verde, feijão
e seus derivados.
Coumestano: encontrados no broto de feijão, alfafa e feijão.
Lignanos: podem ser encontrados em legumes, arroz integral, aveia,
trigo, germe de trigo, cevada e farelo de trigo.
Os flavonóides, embora nem sempre considerados fontes de
fitormônio, apresentam algumas características que
fazem com que sejam incluídos entre os mesmos. São
encontrados principalmente na linhaça, cenoura, alho e
óleos vegetais.
As
terapêuticas complementares são eficazes?
Existem
referências na literatura que os fitormônios diminuem
os distúrbios vasomotores em 45% contra 70% da TH convencional.
A pele das mulheres no climatério também se beneficia
devido a ação antioxidante das isoflavonas, porém
não substitui a ação trófica dos estrogênios.
Já no sistema cardiovascular, os fitoestrogênios
teriam ação semelhante à do estrogênio
natural, melhorando o perfil lipoprotéico (redução
do colesterol) e diversos efeitos favoráveis nos vasos
(14).
Kronemderg (2003) realizou uma revisão dos estudos controlados
e randomizados que envolviam o uso das terapias complementares
na pós-menopausa. Foram pesquisados estudos publicados
nas bases de dados médicas MEDLINE entre janeiro de 1996
a março de 2002 e na Alternative and Complementaty Database
(Amed) of the English Library abordando artigos publicados de
janeiro de 1985 a dezembro de 2000. Foram selecionados 29 ensaios
clínicos que estudavam a CAM no climatério. Essa
revisão mostrou que os preparados de isoflavona (cápsulas)
são menos efetivos do que a ingestão de alimentos
ricos em soja, portanto, esses estudos não embasam como
efetivo o uso de fitohormônios para a terapia no período
pós-menopausa (15).
Em outro ensaio clínico realizado na Universidade Federal
de São Paulo (16), os resultados foram discrepantes com
a revisão de Kronenberg. Nesse estudo conclui-se que a
isoflavona foi efetiva nos sintomas do climatério, melhora
da qualidade de vida, sem alterar a atrofia vaginal, endométrio
e densidade mamária. O grupo que recebeu estrogênio,
quanto a melhora dos sintomas climatéricos e qualidade
de vida, não apresentou diferença com o grupo que
recebeu apenas isoflavona.
Em 2003, Nahas et al (l7). ao estudarem o efeito da isoflavona
sobre os níveis de colesterol das mulheres em menopausa
publicaram dados favoráveis da ação da isoflavona
do gérmen de soja sobre o nível adequado de colesterol.
Esse achado é compatível com o estudo de Hang et
al. (18), que concluiu após a realização
de um estudo controlado, a diminuição dos níveis
de colesterol total com o uso de isoflavonas.
A osteoporose constitui-se nos dias atuais em importante problema
de Saúde Pública. É a afecção
ósseo metabólica mais comum nas mulheres no final
de suas vidas. Consiste em uma deterioração da microarquitetura
do tecido ósseo, com redução da massa óssea
para níveis insuficientes para a função de
sustentação acarretando um nível alto de
fratura.
Quando decorrente da menopausa, assim como a do tipo senil, são
formas primárias de osteoporose. Nos Estados Unidos da
América afetam mais de 25 milhões de pessoas e predispõe
a mais de 1,3 milhão de fraturas ao ano, incluindo mais
de 500 mil fraturas vertebrais, 250 mil fraturas de punho, com
custo estimado para a atenção médica de 10
bilhões de dólares (19). No Brasil, a incidência
de osteoporose está ao redor de 2,5 milhões de indivíduos.
As fraturas do quadril estariam na casa dos 105 mil casos anuais,
com um custo estimado /ano de 630 milhões de reais (20).
Estudos demonstram a atuação dos estrogênios
na prevenção da perda óssea pós-menopáusica.
A ação de alguns progestagênios, parecem aumentar
também os efeitos dos estrogênios. (21)
Hoje em dia, podemos lançar mão de alternativas
de tratamento para a osteoporose que não a reposição
hormonal. São esses: os bifosfonados, o alendronato sódico,
a calcitonina e os SERM moduladores seletivos de estrogênios
(SERM - selective estrogen modulator) (22,23,24).
A ginkgo biloba tem sido estudada como tratamento complementar
para a melhora da cognição e memória, porém
relatos obtidos através de um ensaio clínico realizado
por Hartley (2003) (25), em Londres, mostrou que os benefícios
da ginkgo biloba na memória e funções do
lobo frontal são modestos.
Dos sintomas climatéricos, os sintomas vasomotores são
um dos mais característicos. É um evento neuroendócrino
relacionado à carência estrogênica decorrente
da falência ovariana (26). Segundo a The North American
Society (NAMS) (23) os sintomas de instabilidade vasomotora associados
com a menopausa são denominados de ondas de calor ou fogachos.
Os fogachos são episódios transitórios recorrentes
de ruborização, perspiração e uma
sensação que varia desde o aquecimento até
o intenso calor na parte superior da face, algumas vezes seguidos
de calafrios. As ondas de calor que ocorrem com transpiração
durante o sono, são denominados de suores noturnos (26).
No mercado há opções para o alívio
do fogacho para as pacientes que não querem ou não
podem submeter-se à TH, e não tiveram sucesso com
os fitormônios, tais como o venlafaxime, cinarizina, veraliprida
e o ciclofenil (27).
Estilos de vida
Um
ítem importante na abordagem da mulher no climatério
é frisar a importância de instituir um estilo de
vida saudável, salientando a necessidade de uma alimentação
adequada do ponto de vista de nutrientes, prática de exercício
físico, abolição do fumo e uso criterioso
do álcool.
O alimento considerado "saudável" é aquele
que contém 10% ou mais das necessidades diárias
de vitaminas A, C, ferro cálcio, proteína ou fibra.
O alimento não é considerado "saudável"
se for rico em gordura saturada, colesterol e sódio (28).
Para cada 1% de diminuição de colesterol sérico
ocorre 2-3% de redução do risco de doença
cardiovascular. As mudanças dietéticas podem reduzir
as concentrações plasmáticas de colesterol
em aproximadamente 10% (28).
A maioria das mulheres no climatério, para obter níveis
plasmáticos adequados de antioxidante, necessita consumir
diariamente 60 a 80 mg de vitamina C (não fumantes) e 125
a 130mg (fumantes); 67mg ou mais de vitamina E; 2 a 3 mg de betacaroteno
(não fumantes) e 9mg (fumantes) (28).
A dose recomendada de cálcio na pós-menopausa é
1000mg/dia. As necessidades diárias de vitamina D (400
a 800UI) são essenciais para a adequada absorção
de cálcio (27).
A atividade física é um comportamento complexo e
multidimensional que implica em movimentos corporais, produz gasto
energético e se correlaciona com bom estado de saúde.
A duração mínima e eficaz de uma atividade
física é de 20 minutos. Não se aconselha
ultrapassar os 60 minutos. A freqüência recomendada
é de 3 a 5 dias por semana, com a finalidade de melhorar
o consumo de Oxigênio (28). A atividade física promove
a capacidade funcional e ajuda a equilibrar a relação
inatividade/ saúde.
Outro tópico de importância na qualidade de vida
da mulher no climatério é a atrofia genital e que
se acompanha de várias sintomas urogenitais como: ressecamento
vaginal, dor nas relações sexuais, prurido vulvar,
corrimentos, dificuldades de esvaziamento vesical e a vaginite
atrófica. A atividade sexual freqüente e infecções
recorrentes do trato urinário são fatores que mantém
a mulher motivada a cuidar da saúde vaginal(29).
Todos os tipos de terapia hormonal (local ou sistêmica)
são eficazes para o tratamento da atrofia genital, porém
quando há somente essa indicação, a administração
local é preferível. Fármacos de uso vaginal
utilizados de modo regular têm eficácia semelhante
à TH sistêmica nos sintomas urogenitais. Embora haja
absorção hormonal pela circulação,
os níveis de estrogênio presentes nesses preparados
não são suficientes para causar transtornos no endométrio
e, podem ser usados com segurança, por mulheres com contra-indicações
para terapia hormonal sistêmica (29).
Considerações
e recomendações
O que nunca deve ser esquecido nessa questão é o
bem estar da paciente e sua vontade própria e, uma vez
informada sobre os riscos e benefícios, a própria
paciente pode decidir sobre qual terapia seguir, desde que sejam
seguidas por consultas de reavaliação para uma estreita
vigilância médica.
Ainda há estudos em curso sobre a TH e as Terapias Complementares.
Os estudos sobre essas últimas são recentes e pouco
conclusivos, necessitando ainda de mais pesquisas para avaliar
seu real impacto sobre a síndrome climatérica, porém,
a observação na prática clínica tem
mostrado resultados animadores e estimulado do seu uso.
A atitude da mulher na menopausa é fortemente influenciada
por fenômenos biopsicossociais, portanto, a postura de uma
mulher durante esse período nem sempre é negativa.
Como exemplo dessa afirmativa, pode-se verificar que mulheres
nigerianas têm uma disposição positiva e,
apesar de admitirem queda da libido e alteração
da lubrificação vaginal, procuram ressaltar as vantagens
desse período, dizendo-se satisfeitas com o cessar do sangramento
vaginal (30).
Por outro lado, as mulheres ocidentais encaram esse período
como um momento de estresse e de conflitos. Torna-se muito difícil
a comprovação que a queda dos níveis de estrógeno
seja a única causa. É provável que esses
sintomas tenham uma origem multifatorial (ambiental, sócio-cultural
e individual) (31).
Para abordar uma mulher no período do climatério
faz-se necessário criar programas que combinem informações
e avaliação das experiências cognitiva, emocional
e social de cada paciente, buscando melhora da atitude frente
a esse período. Com uma avaliação clínica
criteriosa dos sintomas e das limitações de cada
mulher no climatério, cabe aos profissionais de saúde
buscarem a terapia que traga o melhor impacto sobre a qualidade
de vida dessa mulher.
Podemos oferecer a essa mulheres um período produtivo,
com uma beleza própria, madura, porém não
menos radiante.


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Cláudia Serafim Giaccio
Médica gineco-obstetra do Hospital Leonor Mendes de
Barros, Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo
(SES/SP). Pós-graduanda em Ciências,área da
Saúde Coletiva, Instituto de Saúde - Coordenadoria
de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos, SES/SP.
Norma Farias
Médica epidemiologista, PHD e Pós Doutorado
pela Universidade de São Paulo, Professora de Epidemiologia
da Pós-Graduação em Ciências, Secretaria
de Estado da Saúde de São Paulo.
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