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Impressões
sobre dois regimes: a ditadura nazista versus a sociedade da aparência
Cíntia Langie*
Resumo
Este
trabalho procura fazer uma comparação entre dois
períodos históricos, contrastando a cultura da pureza
étnica, traçada por Adolf Hitler durante a Alemanha
Nazista, e a cultura do corpo belo, vivida socialmente pelos sujeitos
contemporâneos. O objetivo é compreender como o corpo
vem sendo encarado ao longo dos anos e como a mídia contribui
para a disseminação dos modelos estipulados. Como
ponto de partida, defende-se a idéia de que há grandes
diferenças entre as duas situações estudadas,
porém, em ambos regimes, percebe-se a hegemonia de um modelo
padrão.
A
sociedade contemporânea, desvencilhada das amarras de um
Estado controlador, torna-se cada vez mais liberal, provocando
o florescimento de um ofensivo individualismo. Como princípio
complementar dessa premissa, percebe-se uma crescente preocupação
com a aparência física, originando marionetes determinadas
a se encaixar no padrão estético oferecido.
Buscando
questionar a proporção dessa atual situação
do culto ao corpo, este artigo pretende elucidar algumas similitudes
entre a sociedade nazista e a sociedade liberal. O objetivo é
mostrar que toda cultura possui um padrão ideal a ser seguido,
e que as formas pelas quais este padrão é imposto
aos sujeitos é que pode variar de sociedade para sociedade.
O intuito é trazer algumas informações sobre
o regime nazista de Hitler e, posteriormente, comentar a hoje
constante busca pelo corpo belo, fazendo algumas ligações
entre as duas formas de controle. Desse modo, a proposta é
ilustrar o processo de imposição social, contrastando
duas realidades antagônicas, porém, ainda assim,
semelhantes.
A
idéia de fazer essa brincadeira comparativa surgiu ao assistir-se
a um documentário sobre o nazismo, chamado Arquitetura
da Destruição (Peter Cohen, 1992). O filme mostra
a estrutura do regime, destacando as estratégias de pureza
traçadas por Hitler. Ao entrar em contato com essa história,
fez-se uma relação imediata com a sociedade atual.
Parou-se para pensar como as futuras gerações irão
enxergar as práticas cotidianas desta época tão
marcada pelos regimes e lipoaspirações, que se achou
conveniente chamar de sociedade da aparência. Optou-se
por fazer um paralelo entre essas duas realidades, por se acreditar
que há semelhanças entre elas. Ambas enfrentam a
mesma problemática: enquadrar o maior número de
pessoas num padrão estético estabelecido.
Sucintamente,
a ironia comparativa que este escrito se propõe a externar
é que, enquanto os alemães queriam limpar
o país daqueles que estavam impedindo seu progresso, hoje
as pessoas querem acabar com a gordura acumulada em seus
corpos, o que supostamente impede seu sucesso no universo da aparência.
A brincadeira feita no título, valendo-se do fato de que
as palavras podem ter dupla interpretação, procura
revelar o tom metafórico do artigo: regime como
forma de governo, regime como dieta para emagrecer. O que
aqui se perceberá é que tanto um quanto outro impõem
o contágio. Desde já se deixa claro que a proposta
é trabalhar em cima de generalizações, como
forma de melhor escancarar as semelhanças entre os dois
regimes.
Uma
outra discussão que este trabalho pretende circundar é
a diferença entre a noção de modernidade
e de pós-modernidade. Muitas divergências são
apontadas entre essas duas esferas, mas aqui se quer ilustrar
a passagem de uma ótica nacionalista para um viés
mais individualista. Ou seja, acredita-se que a modernidade se
baseava na força das instituições, com o
Estado representando um papel de ditador das regras sociais. Já
na pós-modernidade, nota-se a transgressão dessa
realidade e a consolidação de um individualismo.
Como sugere Paula Sibilia, "com a crise do Estado benfeitor
cada um deve cuidar de si" (2004, p. 72).
Para
sustentar teoricamente essa mudança de visão, as
idéias de Gilles Lipovetsky serão exploradas. O
autor classifica o individualismo atual como neoliberalismo e
o define como um trabalho de construção pessoal,
no qual cada sujeito toma posse de seu corpo e de sua vida, fazendo
deles o que bem entender. Essa nova vertente deve ser caracterizada
pela invenção de si próprio e pelo esvaziamento
de uma via social traçada por antecipação,
isto é, hoje não é mais o Estado quem impõe
as regras, como na modernidade, mas cada um se constrói
por si só. Claro que, para isso, o sujeito recebe influências
externas, mas nunca imposições, como antigamente.
De acordo com o pensador, todos são convocados a atender
a exigência de se autogovernar na indeterminação
do futuro. "A condição social pós-moderna
é comandada por esse ideal de controle soberano de si"
(2004, p. 21).
Afirmando
que hoje se vive na época da mobilidade subjetiva, Lipovetsky
indica que cada ser humano é autônomo, capaz de criar,
à sua forma, seu ambiente pessoal. De acordo com o autor,
essa liberdade possui um custo, pois, ao passo que o homem vive
na mobilidade das escolhas, ele perde-se num labirinto de ansiedade
e depressão. Antes, o indivíduo contava com um apoio
paterno, ele recebia imposições de fora,
seguia normas sociais e partilhava referências coletivas.
Hoje, sem bases sociais sólidas que lhes sirvam de respostas,
os sujeitos vivem no medo e na insegurança, cada vez mais
perdidos na liberdade total. Talvez seja por isso que aceitem
os modelos estéticos massificados na sociedade, enxergando
neles uma resposta coletiva para seus questionamentos psicológicos.
A
partir dessas afirmativas, sugere-se que advenha daí a
justificativa para o atual culto da saúde perfeita e para
a obstinada busca da beleza a qualquer preço. Para compreender
de que forma se consegue a normalização da população
em torno de uma proposta ideal, faz-se necessário, primeiramente,
apresentar algumas características das duas situações
escolhidas para servir de aporte deste estudo.
Nazismo:
a incansável batalha pela pureza
De
acordo com o professor de filosofia Gerson Schulz, Adolf Hitler
assumiu a presidência do Partido Nazista em 1921, impondo,
desde então, o anti-semitismo como marca-chave de suas
idéias. Em 1933, foi nomeado Führer (condutor) da
Alemanha, ganhando plena liberdade para controlar o país.
Com Hitler no comando, a cultura nazista da beleza passou a agir
como maquiagem mental, e os assassinatos tomaram caráter
de medida higiênica. Analisando cautelosamente as idéias
do ditador, nota-se que a força do nazismo era antes estética
que política. Isso porque o regime tinha como um dos seus
princípios fundamentais a missão de embelezar o
mundo, nem que, para isso, fosse preciso destruir metade dele.
Como ilustra o documentário Arquitetura da Destruição,
o sonho do nazismo era criar um mundo mais harmonioso, através
da pureza. Hitler acreditava que, purificada e preservada da decadência,
uma nova e mais forte Alemanha surgiria.
A
essência nazista encontrava-se na vontade de conservar e
promover os alemães que possuíam semelhanças
físicas e psíquicas, ou seja, aqueles que faziam
parte da raça ariana. Então, existia um modelo padrão,
e somente pela conservação desse modelo é
que o país poderia progredir. Havia uma atmosfera de limpeza,
na qual os cidadãos depositavam suas esperanças.
Para os adeptos do nazismo, eliminar todos que estavam fora do
padrão era a primeira meta para construir uma sociedade
mais forte e mais eficaz, capaz de dominar todas as nações.
Assim,
o anti-semitismo, o culto ao legado nórdico e o mito do
sangue puro eram as três esferas que davam contorno à
visão de Hitler sobre o mundo. O que estimulava o anti-semitismo
era o pensamento de que os judeus haviam traído a Alemanha,
sendo os responsáveis pela miséria do país,
visto que muitos controlavam os bancos e as fábricas na
época. Essa crença não ficou somente na mente
do ditador, pois ele não poupava esforços para propagá-la,
o que resultou em um ódio em massa de todo o povo alemão.
A perseguição de Hitler aos judeus é conhecida
no mundo inteiro, mas não somente eles serviram como alvo
do regime. "Os ciganos, homossexuais, eslavos e maçons
recebiam o mesmo tratamento dado aos judeus" (LENHARO, 1986,
p. 83-84).
O
ideal de limpeza étnica, traçado por Hitler, também
previa a morte dos próprios alemães, caso esses
fossem considerados por ele como desvios do modelo ideal.
O desejo era criar uma sociedade mais forte, composta apenas por
exemplares da raça pura. Sebastian Haffner (1985, pp. 121-122)
conta:
No
dia 1º de setembro de 1939, dia da deflagração
da guerra, Hitler deu ordem escrita para a eliminação
dos doentes na Alemanha. Em virtude dessa ordem, cerca de cem
mil alemães - "boca inúteis" - seriam
mortos ao longo dos próximos dois anos: de sessenta a oitenta
mil pacientes em hospitais e hospícios, de dez a vinte
mil inválidos ou enfermos escolhidos nos campos de concentração,
todos pacientes judeus dos asilos psiquiátricos e cerca
de três mil crianças de dois a treze anos, em sua
maioria inválidos ou retardados sob os cuidados da Assistência
Pública.
Eliminar
as falhas humanas era a melhor estratégia para progredir
como país. Em 1938, uma criança nascida cega, sem
uma perna e sem parte de um braço, foi dada como "idiota".
Hitler ordenou que um médico aplicasse a eutanásia
no recém nascido. A eutanásia, que pode ser encarada
como uma forma de ajudar a morrer quem está sofrendo, ganhou
novo sentido no período nazista. Passou a significar uma
forma de legitimar um ditador a impor seu mundo ideal a uma nação.
Deve ficar registrado que esse foi apenas um dentre vários
casos similares. Inúmeros eram os doentes mentais e deficientes
físicos destinados às câmaras de gás.
O seguinte trecho, retirado do documentário Arquitetura
da destruição, resume bem a situação
da Alemanha nazista:
Assassinato
em massa foi a conseqüência final da ambição
de Hitler em criar o novo homem. A maquiagem do culto nazista
à beleza encontrou seu caminho na câmara de gás.
A matança era uma missão biológica, um tributo
sagrado ao sangue puro. As fábricas de morte faziam saneamento
antropológico. Eram o instrumento de embelezamento.
É
interessante colocar que o Reich alemão era povoado por
artistas frustrados. Hitler é o melhor exemplo: pintor
fracassado que sonhava ser arquiteto. Assim, torna-se mais fácil
compreender a insanidade de suas propostas: trata-se de um sujeito
que não conseguiu trabalhar com a arte e, como resposta
às suas inquietudes, resolveu impor ao mundo um padrão
de beleza por ele idealizado.
Todo
o regime nazista era baseado em um egocentrismo moralista, ou
seja, Hitler acreditava que aquilo que ele considerava bom deveria
ser imposto para todos os demais. A frase do Presidente da Câmara
de Literatura do Reich, Hans Blunk, funciona como um bom exemplo
dessa afirmativa: "Este governo conhece o desejo do povo
e seus sonhos maiores" (Arquitetura da Destruição).
Mas,
pergunta-se como é possível um governo conhecer
o sonho de toda gente? Não é possível. Mas
pode-se convencer a população de que se sabe o que
é melhor para ela. E era justamente isso que o regime nazista
fazia, através do uso da propaganda e do cinema. "Algo
muito forte percorria o interior da sociedade, agitava corações
e mentes. Razões profundas levavam milhões de pessoas
a concentrar seu investimento afetivo nas promessas e palavras
de ordem nazista" (LENHARO, 1986, p. 13).
A
propaganda dava vazão às ambições
artísticas de Hitler, sendo uma ferramenta eficaz na disseminação
do anti-semitismo. Com isso, cada alemão passava a ter
preocupação com sua árvore genealógica.
"O anti-semitismo nazi levava o cidadão comum a sair
dos limites da mera opinião para adotar um princípio
de definição pessoal" (LENHARO, 1986, p. 83).
Uma
frase retirada do livro de Haffner resume essa situação:
"Não é este homem que assusta, mas antes o
barulho que faz" (1985, p. 23). A postura do exagero de propaganda
contribuía para a formação de uma massa de
admiradores do regime. O que se pode concluir é que eles
sabiam como invadir o imaginário do povo, através
de audaciosas estratégias de propaganda. Além disso,
eles utilizavam o cinema como um grande aliado para comandar a
massa. "A produção do cinema nazista encontra-se
estreitamente vinculada ao crescimento do próprio partido"
(LENHARO, 1986, p. 52). De acordo com Lenharo, 1.350 longas-metragens,
aproximadamente, foram produzidos nos doze anos de domínio
nazista. Muitos eram filmes românticos, alguns, comédias
e outros, documentários de guerra, mas todos centrados
em disseminar os valores preconceituosos do regime. Para dinamizar
o alcance dos filmes, 40 mil escolas da Alemanha, das 62 mil existentes,
dispunham de salas de projeção (LENHARO, 1986, p.
53).
Paralelamente
ao uso da propaganda e do cinema, o regime aplicava uma série
de leis para alcançar os objetivos almejados. Dentre as
tomadas de decisão do período nazista, destaca-se
a proibição da arte bolchevique, tida como degenerada,
por trabalhar o corpo humano de forma abstrata. De acordo com
as idéias vigentes, a arte deveria mostrar o homem na sua
perfeição física. Assim sendo, as obras modernas
abstratas eram vistas como uma ameaça, como depravação
espiritual e intelectual. Como medida punitiva, alguns quadros
foram expostos e depois queimados, servindo como exemplo para
quem desobedecesse à regra.
Para
a mentalidade nazista, essa frente ofensiva contra a arte moderna
tinha um caráter higiênico. Na busca pela defesa
da cultura alemã, Paul Schultze-Naumburg fazia palestras
pelo país, menosprezando a cultura abstrata. Ele comparava
fotos de casos de deformações tiradas de revistas
médicas com as pinturas da arte moderna. O intuito era
sugerir que esses quadros eram uma perversão artística.
Hitler acreditava que a arte deveria ser, como no Renascimento,
um espelho da saúde racial. A arte deveria representar
a raça pura, e não reproduzir as deformidades
do corpo humano. Sob o ponto de vista dos nazistas, as pinturas
modernas, assim como os doentes de manicômios, constituíam
a degeneração da espécie.
Além
desse, muitos outros exemplos podem ser aqui citados. Em 1933,
foi sancionada uma lei para "ajudar a eliminar a doença"
da sociedade alemã. De acordo com essa imposição,
a esterilização dos doentes era obrigatória,
por causa da hereditariedade. Outra medida tomada foi a recomendação
dos médicos para a missão da limpeza racial. Eles
deixaram de servir aos indivíduos e passaram a cuidar da
raça ariana. O médico era visto como um guerreiro
na luta contra as doenças que ameaçavam o corpo
do povo alemão. Como justificativa para seus atos, Hitler
declarava: "nosso primeiro princípio de beleza é
a saúde".
Uma
outra curiosidade é que, de acordo com Lenharo (1986, p.
70), em 1935 o regime nazista criou as Lebensborn, que funcionavam
num estágio intermediário entre maternidades e haras
humanos. O objetivo principal desse projeto era incrementar a
expansão da raça ariana através do controle
biológico da concepção e da procriação
das chamadas crianças SS (1986, p. 70). Ou seja, era como
uma creche para os filhos dos soldados, na qual as crianças
eram educadas com o intuito de se tornarem também futuros
soldados. Ligado a esse sistema, os governantes passaram a incentivar
as pesquisas biológicas no sentido de obter meios de previsão
do sexo dos bebês, a fim de se estimular a geração
de meninos. Sem esquecer que deviam ser crianças com traços
típicos arianos.
A
que essa história remete? Ao projeto Genoma (1), à
inseminação artificial e até mesmo à
clonagem. Todos esses procedimentos estão vinculados a
uma análise prévia das características do
bebê, evitando, assim, que crianças fora do padrão
sejam geradas. A seleção natural é
hoje científica. "Pois os mecanismos da seleção
natural descritos por Charles Darwin em meados do século
XIX estariam sendo transferidos para as mãos dos homens,
incluindo a novíssima possibilidade de seleção
pré-natal" (SIBILIA, 2002, p. 13).
Sem
aprofundar o estudo na questão da clonagem, ainda não
sedimentada para a raça humana (estando restrita ao universo
animal, basicamente no caso ovelha Dolly), é valido lembrar
o processo de procriação chamado inseminação
artificial. Nesse procedimento, mais de um óvulo é
fecundado, e aquele que melhor se formar, irá dar origem
a uma pessoa. Caso mais de um óvulo consiga gerar uma vida,
os demais são eliminados do processo. Claro que existem
diferenças gritantes entre esse procedimento e o assassinato
de crianças já nascidas, como acontecia na Alemanha
nazista. Mas ambos os casos têm como princípio a
eliminação das falhas e a conservação
de um exemplar padrão.
Ainda,
é conveniente mencionar um outro episódio que pode
ser relevante para esse debate. Foram criadas, durante o governo
nazista, algumas organizações novas dentro da Frente
do Trabalho, como a Força para a Alegria e a Beleza
do Trabalho (LENHARO, 1986, p. 34). Essa última tinha
como propósito incentivar o trabalhador alemão a
se aprimorar fisicamente, por meio do culto da musculatura e da
eliminação da gordura supérflua. Ou seja,
o objetivo principal era deixar o corpo mais eficaz para o trabalho
pesado e para a guerra. Essa circunstância já foi
comentada por Michel Foucault, em seu livro Vigiar e punir.
Nessa obra, ao abordar a questão da disciplina, o autor
dá atenção especial à problemática
do adestramento. Ele fala em corpos dóceis
e relata que o corpo passou a ser controlado, a fim de servir
com eficácia para as propostas das instituições.
Através da disciplina, os sujeitos deveriam modelar seus
corpos para uma finalidade específica.
Como
a linha de raciocínio deste artigo atravessa o processo
de adestramento de corpos em função de um padrão
ideal, é interessante perceber a diferença que aqui
surge. Na ditadura nazista, existia um incentivo ao corpo eficaz.
Na sociedade liberal da aparência, existe uma procura pessoal
pelo corpo belo, como forma de se encaixar no padrão. Os
dois momentos trabalham com o medo. O nazismo governava pela violência
e hoje o controle se dá pela exclusão. Porém,
antes de traçar as diferenças e semelhanças
entre os dois momentos, é necessário disponibilizar
algumas nuanças sobre a atual sociedade da aparência.
A
sociedade da aparência: o corpo como carteira de identidade
Este
artigo defende a idéia de que, hoje, os sujeitos vivem
no cosmos da aparência, preocupados com a imagem que estampam
aos olhos alheios. Para sustentar esse ponto de vista, o pensamento
de Paula Sibilia será aqui explicitado. De acordo com a
autora, atualmente se percebe um evidente enaltecimento do corpo
humano. As práticas de embelezamento se tornam compulsivas
para muitas pessoas que almejam alcançar o padrão
estético estabelecido.
E
que padrão seria este? A busca é pelo corpo magro,
liberto da poluição que a gordura traz consigo.
O desejo geral é possuir (se pudesse comprar, comprava
- e se está bem perto disso) o corpo jovem e belo, igual
àqueles estampados em revistas de moda e em comerciais
de televisão. No fundo, o sonho dos replicantes pós-modernos
é o de dominar a carnalidade imperfeita, "visando
esconjurar o fantasma da gordura". É por isso que
se percebe uma overdose de regimes (dietas), um excesso
de matrículas nas academias de ginásticas e salas
de espera lotadas nas clínicas de silicone e lipoaspiração
(sem entrar em outros campos, como: o dos bronzeamentos artificiais,
chapinhas definitivas, piercings e tatuagens).
Ao
descrever a utopia da saúde perfeita, Lucien Sfez
salienta que, na atualidade, "o corpo vai à desforra,
reaparece na frente do palco, exige cuidados, uma atenção
constante, oferece-se como sujeito e como objeto" (1996,
p. 41). O corpo belo torna-se o primeiro degrau a ser galgado
na escada da sociedade da aparência. O autor, ao traçar
uma distinção entre aparência e ser,
esclarece que aparência é tudo o que é "exterior,
a forma, o peso, o tamanho" (1996, p. 48), enquanto o ser
seria a essência, ou o que os filósofos costumam
chamar de alma. Seguindo a proposta de seu livro, Sfez
comenta que esta alma estaria sendo substituída
pelos genes, visto que, com as atuais técnicas científicas,
agir sobre os genes é agir sobre o ser individuado.
Para
Sibilia, o desejo de possuir o corpo belo é um desejo geral
da população, pois o mercado das aparências
tomou proporções gigantescas. Hoje, se dá
muita importância para os sinais visíveis. Como salienta
a autora, o que se vê é uma luta pela "adequação
dos corpos humanos a um ideal exaltado pelas imagens midiáticas
cada vez mais onipresentes e tirânicas, impondo por toda
parte um modelo corporal hegemônico" (2004, p. 69).
E não é apenas isso: está implícita
nessa realidade, também, uma feroz rejeição
para com aqueles que escapam do padrão. Ficar de fora desse
modelo é visto como um sinal de fraqueza, pois num mundo
onde cada um governa sua vida, "só é gordo
quem quer".
Como
já foi mencionado, de acordo com Lipovetsky, hoje cada
um é dono de si, cada um deve cuidar de sua aparência
e lutar para não escorregar na passarela. Conforme
relata o autor, a sociedade contemporânea é neo-individualista,
e cada um governa seu destino. Assim, a responsabilidade de manter
o corpo belo e saudável constitui um dos pontos-chave das
novas condenações morais. Lipovetsky anuncia: não
é o fim da moral, e sim o nascimento de uma nova moral.
A imposição de um padrão ideal implica a
propagação de novos tipos de condenações
morais, como, por exemplo, o preconceito para com os que não
se encaixam no padrão.
Essa
questão facilita a generalização da obsessão
pela juventude e pela beleza. Percebe-se, então, a presença
de um forte controle moral. Na Alemanha nazista, o poder vinha
de fora, do Estado, do Führer. Era um poder que agia através
da força, abusando do medo individual da punição.
Já na sociedade pós-moderna, nota-se um biopoder,
que vem de dentro. É o próprio indivíduo
quem se cobra, estimulado pelo medo de ser taxado como aberração.
Paula
Sibilia enfatiza a autonomia do homem na construção
de sua aparência, ao dizer que "agora a criatura humana
passaria a dispor, de fato, das condições técnicas
necessárias para se autocriar, tornando-se um gestor
de si na administração do seu próprio
capital privado e na escolha das opções disponíveis
no mercado para modelar seu corpo e sua alma" (2002, p. 16).
De acordo com a autora, o mundo atual vive um paradoxo, pois de
um lado se tem o problema da fome, e, do outro, o da obesidade,
alavancada pelo excesso de consumo. Indo bem longe, ela garante
que o problema da obesidade está sufocando o da fome, visto
que aquele é culpa do próprio indivíduo,
enquanto este deveria ser de responsabilidade dos governantes.
Sibilia
defende a idéia de que "o corpo se torna uma imagem
a ser exibida; e essa imagem deve ser jovem, bela e magra"
(2004, p. 73). Então, resumidamente, seu pensamento pode
ser assim transmitido:
Último
grande refúgio da subjetividade, o corpo é obstinadamente
submetido a toda uma série de estratégias de design
epidérmico que apontam para o cultivo das "boas aparências",
numa era na qual a visibilidade e o reconhecimento no olhar alheio
são fundamentais na definição do que cada
um é (2004, p. 68).
Nessa perspectiva, percebe-se um incansável duelo contra
a gordura e um estrondoso desejo de atingir o patamar de magreza
(0% de gordura). Essa meta pode ser alcançada através
de dietas, exercícios ou cirurgias plásticas. E,
o mais grave, é que as formas de libertação
dos indesejáveis quilos a mais não estão
somente nesse plano, invadindo também o universo patológico.
Como informa Sibilia (2004), a anorexia nervosa é a terceira
doença crônica mais freqüente entre as mulheres
adolescentes. Andando ao lado da anorexia (recusar-se a comer
quase até a morte), a bulimia (comer muito e depois provocar
o vômito) também se faz perceptível entre
as meninas contemporâneas. Sobre isso, é interessante
remeter ao filme Elefante, de Gus Van Sant, lançado
em 2003. Nesse trabalho, o diretor apresenta sua versão
para a tragédia de Columbine, na qual dois meninos
decidem comprar armas pela internet e invadir o colégio,
matando diversas pessoas. O filme conta a história sob
uma perspectiva peculiar, estereotipando alguns perfis psicológicos
típicos em adolescentes norte-americanos.
No
desenrolar da trama, três amigas inseparáveis ficam
em dúvida sobre o que comer na hora do lanche e, todas,
optam pelo prato mais leve: a salada. As meninas fazem sua refeição
muito rapidamente, dando três ou quatro garfadas e saem
da mesa. Vão direto ao banheiro, onde reclamam estarem
lotadas de comida, e sentindo o nojento pneuzinho
emergindo em suas barrigas. Cada uma entra em um banheiro, fechando
as respectivas portas. Curiosamente, o barulho que o espectador
ouve indica que as meninas estão forçando o vômito.
Depois de feita a higiene diária, as três
garotas saem aliviadas, contentes por terem liberado o que estava
poluindo seus corpos. Cena de filme ou não, o fato
é que esse quadro é típico entre as adolescentes
da sociedade da aparência.
Mas a cultura do corpo magro não fica restrita apenas à
sala de cinema. Uma matéria publicada em agosto deste ano,
na Revista Veja , revela que o padrão estético
na Argentina é ainda mais magro que no Brasil. Na
Argentina, até mesmo a Gisele Bündchen é considerada
cheinha. A situação lá está
tão grave, que as autoridades tiveram que intervir, aprovando
uma lei que obriga as lojas a expor, nas vitrines, tamanhos que
vão do 38 ao 48. Isso porque a maioria das lojas só
disponibiliza roupas tamanho P, constrangendo quem não
encontra o que comprar. De acordo com a matéria, a Argentina
está em segundo lugar no mundo, atrás apenas do
Japão, em número de pessoas com bulimia e anorexia.
A psiquiatra entrevistada pela revista pronuncia: "ser mais
magra que o padrão considerado saudável virou passaporte
para a felicidade, a vida perfeita e a aceitação
da família e dos amigos".
Muitos
outros casos poderiam ser aqui mencionados. Mas, acredita-se que
estes já sejam suficientes para mostrar que existe, de
fato, uma preocupação social com a aparência.
Parte-se, agora, para fazer alguns contrapontos entre o regime
nazista e a sociedade liberal.
Conclusões
e comparações
A
sociedade está modificada, este é o fato. Antes
os indivíduos agiam pelo medo da punição,
vivendo sob a pressão dos regimes sólidos. Na ditadura
brasileira, por exemplo, era preciso seguir as regras do governo.
Na Alemanha era a mesma coisa: por medo da morte ou do castigo,
os indivíduos eram subordinados às imposições
ditadas pelo Führer. No período contemporâneo,
por sua vez, existem outras fraquezas. "O indivíduo
liberado da sujeição ao coletivo acha-se cada vez
mais submetido aos poderes do medo e da inquietude" (LIPOVETSKY,
2004, p. 76). A pressão social continua presente, mas não
se dá mais pela disciplina, e sim pelo controle, mais precisamente
pelo autocontrole. Lucien Sfez colabora com esse ponto
de vista, ao decretar que "o inimigo não está
mais no exterior, não tem mais de ser combatido ou civilizado.
Não é mais o selvagem, o negro, o amarelo, o judeu
[...] O inimigo está em nós [...], em nossos corpos
enfermos, em nossos genes" (1996, p. 25).
A
moral mudou de figura. O que na modernidade era visto como proibido,
ou como importante, já não é mais assim encarado.
Na pós-modernidade se dá um distensionamento da
moral, mas não um apagamento dela. Hoje se observa uma
crescente condenação moral a quem não se
enquadra no padrão imposto. Sfez alerta que, hoje, "desdobra-se
uma espécie de atividade de controle destinada a preservar
a espécie humana dos hábitos singulares dos indivíduos,
culminando na introdução de uma moral sanitária
'politicamente correta'" (1996, p. 41). Assim, nota-se que
o liberalismo da sociedade atual é um liberalismo entre
aspas. Os indivíduos possuem uma maior liberdade, sem dúvida,
para exercer suas escolhas pessoais. Porém, isso não
implica dizer que não há mais cobrança social.
Mesmo na sociedade liberal existe um controle moral, só
que este controle não vem mais do Estado, e sim do próprio
eu que, por não querer ser motivo de chacota, procura
enquadrar-se no padrão estético.
O
essencial deste artigo, e o que deve ser sempre ressaltado, é
que nos dois casos aqui trabalhados - sociedade nazista da pureza
e sociedade liberal da aparência - percebe-se uma busca
pela adequação do maior número de pessoas
ao modelo hegemônico. A principal diferença é
que na sociedade pós-moderna o sujeito quer se ajustar
ao padrão, para não ser excluído, enquanto
na Alemanha nazista era Hitler quem queria impor as regras aos
membros de sua nação. As conseqüências
também mudam de um regime para o outro. Por mais
que este artigo objetive fazer uma comparação entre
as duas situações, é ingênuo, e até
inviável, comparar a exclusão social com
o genocídio que Hitler provocou. O regime nazista
é uma marca obscura na história da humanidade, e
as proporções da sociedade atual da aparência,
embora também sejam chocantes, nunca serão tão
drásticas.
O
fato é que, guardadas as devidas proporções,
os dois regimes possuem um quê de delírio, exagero,
compulsão. Na internet, é possível acessar
sites de grupos femininos que lutam pelo corpo ideal. O discurso
de seus componentes assemelha-se com o discurso apelativo nazista:
"Tenho que tirar essa banha que está no meu corpo,
tenho que conseguir e vou conseguir; nós todas vamos ser
magras e lindas, vamos ser perfeitas; unidas, temos muito mais
força para combater a comida" (SIBILIA, 2004, p. 78).
No
terreno dos alimentos diets, é válido qualquer
sacrifício para combater as impurezas que afastam o sujeito
do corpo belo. No universo nazista, Hitler impunha a idéia
de que os resultados do sacrifício (para limpar a raça
e manter apenas indivíduos puros e sadios) seriam compensadores
a todos, visto que só assim a Alemanha iria dominar o mundo.
Os nazistas queriam criar o novo homem alemão. Hoje, os
adeptos da teoria cibernética querem criar o novo corpo
digital. Os nazistas queriam liquidar os judeus e os doentes incuráveis,
e a cibernética quer eliminar qualquer desvio no corpo
humano. Hitler queria um povo puro e saudável, lutando
por um objetivo comum. Atualmente, as pessoas querem fazer parte
do grupo que mantém o corpo magro e saudável, para
fazer bonito na sociedade da aparência.
A
tendência anti-semita considera os judeus uma raça
inferior à raça ariana, tanto física quanto
psicologicamente. E a tendência atual considera os obesos
sujeitos inferiores àqueles que se encaixam no padrão
estético de beleza. Os gordinhos são considerados
fracos e incapazes de controlar o próprio corpo. Ao tratar
desse problema, Paula Sibilia afirma que aqueles que não
conseguem cuidar adequadamente de sua imagem são seres
"eventualmente excluídos até da própria
categoria de sujeitos" (2004, p. 74). Essa frase de Sibilia
pode ser posta ao lado da frase do ditador Hitler, transposta
no filme Arquitetura da Destruição: "indivíduos
inferiores a qualquer animal", referindo-se aos doentes mentais.
É
a briga entre o regime nazista e o regime dieta.
Ambos utilizam os meios de comunicação de massa
para promover suas idéias. Nota-se, desse modo, que a mídia
é uma forma rápida e prática para impor um
modelo. Nos dois períodos (modernidade e pós-modernidade),
a propaganda se apresenta como uma interessante ferramenta para
compreender a sociedade. Na Alemanha nazista, os sujeitos eram
bombardeados por uma grande carga de propaganda, como já
foi comentado. Quanto às sociedades pós-modernas,
Sibilia enfatiza: "constantemente, os indivíduos são
interpelados por esses discursos midiáticos e por essa
aluvião de imagens que ensinam as formas e as leis do 'corpo
bom'" (2004, p. 69). Assim, observa-se que a mídia
estimula no público o desejo de alcançar o corpo-ícone,
desenhado para o consumo exclusivamente visual.
E
devido a todas essas constatações, não é
possível ignorar o papel da mídia nesse processo.
Não se defende a bandeira da manipulação,
nem se acredita que a mídia impõe as coisas. Mas
ela age através da sedução, e alguns indivíduos
acabam por querer se aproximar do modelo disseminado. "Aquilo
que outrora dependia dos princípios internos da educação
moral depende agora dos lances de mídia. A mídia
fixa as prioridades, orquestra a generosidade, consegue, de resto
com muito sucesso, mobilizar esporadicamente o público"
(LIPOVETSKY, 2004, p. 29).
As
imagens publicitárias, as fotos de moda e a imprensa feminina
exemplificam essa penetração da mídia no
cotidiano social, principalmente no que diz respeito à
aparência do corpo. Isso é possibilitado pelo fator
padronizável dos meios de comunicação. De
acordo com Lipovetsky, a mídia busca alcançar indivíduos
diferentes e, para isso, ela massifica os gostos, as práticas
e os modos de vida: "quanto menos a moda (vestuário)
é diretiva, mais a lei da magreza e da juventude é
exaltada e valorizada" (2004, p. 69). Assim, é por
buscar atingir o maior número de pessoas, que os conteúdos
midiáticos acabam por padronizar os gostos.
Então,
conclui-se que o foco social foi transferido de lugar. Passou-se
da sociedade moderna nacionalista da submissão à
sociedade liberal individualista da aparência. Na modernidade
vigoravam a disciplina e as fortes instituições
para controlar a massa. Já na atualidade, percebe-se mais
o controle que a disciplina, e um controle vindo dos próprios
indivíduos que vivem em sociedade. O que pode ser assustador
é a força poderosa do autocontrole. Quando
o próprio sujeito se monitora, as conseqüências
do fracasso podem ocasionar sérios casos de depressão
e baixa auto-estima.
Notas
1)
Projeto mundial de mapeamento e de seqüenciação
do genoma humano, que funciona através de testes genéticos
que incidem sobre a vida pré-natal. O projeto busca a perfectibilidade
do corpo humano e a reconciliação do homem com a
natureza (SFEZ, 1996, p. 129-181).
Referências
FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir:
nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 1987.
HAFFNER, Sebastian. Um tal de Adolf
Hitler: considerações particulares sobre um fenômeno
psicológico e político. São Paulo: Civilização
Brasileira, 1985.
LENHARO, Alcir. Nazismo: "o
triunfo da vontade". São Paulo: Ática, 1986.
93 p.
LIPOVETSKY, Gilles. Sedução,
publicidade e pós-modernidade. In: A genealogia do Virtual:
comunicação, cultura e tecnologias do imaginário.
Porto Alegre: Sulina: 2004a. 278 p.
________. Metamorfoses da cultura
liberal: ética, mídia e empresa. Porto Alegre: Sulina,
2004b. 88 p.
SFEZ, Lucien. A saúde perfeita:
crítica de uma nova utopia. São Paulo: Loyola, 1996.
357 p.
SIBILIA, Paula. O homem pós-orgânico:
corpo, subjetividade e tecnologias digitais. Rio de Janeiro: Relume
Dumará, 2002. 228p.
________. O pavor da carne: riscos
da pureza e do sacrifício no corpo-imagem contemporâneo.
Revista FAMECOS: mídia, cultura e tecnologia, número
25. Porto Alegre, 2004. Págs. 68-84.
Matérias de Jornal
CAMAROTTI, Mariana. Fofinhas, só
por decreto. Revista Veja. Edição 1917 - 10 de agosto
de 2005
SCHULZ, Gerson N. L. Nietzsche
e o nazismo. Diário Popular. Segunda-feira. 1o. de agosto
de 2005.
Filmografia
A queda - as últimas horas
de Hitler (Oliver Hirschbiegel, 2004)
Arquitetura da destruição
(Peter Cohen, 1992)
Elefante (Gus Van Sant, 2003)
Igual a tudo na vida (Woody Allen,
2003)
Minha vida sem mim (Isabel Coixet,
2003)
O plano para matar Hitler (Lawrence
Schiller, 1990)
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Cíntia Langie
Jornalista e mestranda em comunicação na PUCRS.
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