Volume 2
Número 3

20 de dezembro de 2005
 
 * Edição atual    

          Impressões sobre dois regimes: a ditadura nazista versus a sociedade da aparência

Cíntia Langie*

          Resumo

          Este trabalho procura fazer uma comparação entre dois períodos históricos, contrastando a cultura da pureza étnica, traçada por Adolf Hitler durante a Alemanha Nazista, e a cultura do corpo belo, vivida socialmente pelos sujeitos contemporâneos. O objetivo é compreender como o corpo vem sendo encarado ao longo dos anos e como a mídia contribui para a disseminação dos modelos estipulados. Como ponto de partida, defende-se a idéia de que há grandes diferenças entre as duas situações estudadas, porém, em ambos regimes, percebe-se a hegemonia de um modelo padrão.

          A sociedade contemporânea, desvencilhada das amarras de um Estado controlador, torna-se cada vez mais liberal, provocando o florescimento de um ofensivo individualismo. Como princípio complementar dessa premissa, percebe-se uma crescente preocupação com a aparência física, originando marionetes determinadas a se encaixar no padrão estético oferecido.

          Buscando questionar a proporção dessa atual situação do culto ao corpo, este artigo pretende elucidar algumas similitudes entre a sociedade nazista e a sociedade liberal. O objetivo é mostrar que toda cultura possui um padrão ideal a ser seguido, e que as formas pelas quais este padrão é imposto aos sujeitos é que pode variar de sociedade para sociedade. O intuito é trazer algumas informações sobre o regime nazista de Hitler e, posteriormente, comentar a hoje constante busca pelo corpo belo, fazendo algumas ligações entre as duas formas de controle. Desse modo, a proposta é ilustrar o processo de imposição social, contrastando duas realidades antagônicas, porém, ainda assim, semelhantes.

          A idéia de fazer essa brincadeira comparativa surgiu ao assistir-se a um documentário sobre o nazismo, chamado Arquitetura da Destruição (Peter Cohen, 1992). O filme mostra a estrutura do regime, destacando as estratégias de pureza traçadas por Hitler. Ao entrar em contato com essa história, fez-se uma relação imediata com a sociedade atual. Parou-se para pensar como as futuras gerações irão enxergar as práticas cotidianas desta época tão marcada pelos regimes e lipoaspirações, que se achou conveniente chamar de sociedade da aparência. Optou-se por fazer um paralelo entre essas duas realidades, por se acreditar que há semelhanças entre elas. Ambas enfrentam a mesma problemática: enquadrar o maior número de pessoas num padrão estético estabelecido.

          Sucintamente, a ironia comparativa que este escrito se propõe a externar é que, enquanto os alemães queriam limpar o país daqueles que estavam impedindo seu progresso, hoje as pessoas querem acabar com a gordura acumulada em seus corpos, o que supostamente impede seu sucesso no universo da aparência. A brincadeira feita no título, valendo-se do fato de que as palavras podem ter dupla interpretação, procura revelar o tom metafórico do artigo: regime como forma de governo, regime como dieta para emagrecer. O que aqui se perceberá é que tanto um quanto outro impõem o contágio. Desde já se deixa claro que a proposta é trabalhar em cima de generalizações, como forma de melhor escancarar as semelhanças entre os dois regimes.

          Uma outra discussão que este trabalho pretende circundar é a diferença entre a noção de modernidade e de pós-modernidade. Muitas divergências são apontadas entre essas duas esferas, mas aqui se quer ilustrar a passagem de uma ótica nacionalista para um viés mais individualista. Ou seja, acredita-se que a modernidade se baseava na força das instituições, com o Estado representando um papel de ditador das regras sociais. Já na pós-modernidade, nota-se a transgressão dessa realidade e a consolidação de um individualismo. Como sugere Paula Sibilia, "com a crise do Estado benfeitor cada um deve cuidar de si" (2004, p. 72).

          Para sustentar teoricamente essa mudança de visão, as idéias de Gilles Lipovetsky serão exploradas. O autor classifica o individualismo atual como neoliberalismo e o define como um trabalho de construção pessoal, no qual cada sujeito toma posse de seu corpo e de sua vida, fazendo deles o que bem entender. Essa nova vertente deve ser caracterizada pela invenção de si próprio e pelo esvaziamento de uma via social traçada por antecipação, isto é, hoje não é mais o Estado quem impõe as regras, como na modernidade, mas cada um se constrói por si só. Claro que, para isso, o sujeito recebe influências externas, mas nunca imposições, como antigamente. De acordo com o pensador, todos são convocados a atender a exigência de se autogovernar na indeterminação do futuro. "A condição social pós-moderna é comandada por esse ideal de controle soberano de si" (2004, p. 21).

          Afirmando que hoje se vive na época da mobilidade subjetiva, Lipovetsky indica que cada ser humano é autônomo, capaz de criar, à sua forma, seu ambiente pessoal. De acordo com o autor, essa liberdade possui um custo, pois, ao passo que o homem vive na mobilidade das escolhas, ele perde-se num labirinto de ansiedade e depressão. Antes, o indivíduo contava com um apoio paterno, ele recebia imposições de fora, seguia normas sociais e partilhava referências coletivas. Hoje, sem bases sociais sólidas que lhes sirvam de respostas, os sujeitos vivem no medo e na insegurança, cada vez mais perdidos na liberdade total. Talvez seja por isso que aceitem os modelos estéticos massificados na sociedade, enxergando neles uma resposta coletiva para seus questionamentos psicológicos.

          A partir dessas afirmativas, sugere-se que advenha daí a justificativa para o atual culto da saúde perfeita e para a obstinada busca da beleza a qualquer preço. Para compreender de que forma se consegue a normalização da população em torno de uma proposta ideal, faz-se necessário, primeiramente, apresentar algumas características das duas situações escolhidas para servir de aporte deste estudo.

          Nazismo: a incansável batalha pela pureza

          De acordo com o professor de filosofia Gerson Schulz, Adolf Hitler assumiu a presidência do Partido Nazista em 1921, impondo, desde então, o anti-semitismo como marca-chave de suas idéias. Em 1933, foi nomeado Führer (condutor) da Alemanha, ganhando plena liberdade para controlar o país. Com Hitler no comando, a cultura nazista da beleza passou a agir como maquiagem mental, e os assassinatos tomaram caráter de medida higiênica. Analisando cautelosamente as idéias do ditador, nota-se que a força do nazismo era antes estética que política. Isso porque o regime tinha como um dos seus princípios fundamentais a missão de embelezar o mundo, nem que, para isso, fosse preciso destruir metade dele. Como ilustra o documentário Arquitetura da Destruição, o sonho do nazismo era criar um mundo mais harmonioso, através da pureza. Hitler acreditava que, purificada e preservada da decadência, uma nova e mais forte Alemanha surgiria.

          A essência nazista encontrava-se na vontade de conservar e promover os alemães que possuíam semelhanças físicas e psíquicas, ou seja, aqueles que faziam parte da raça ariana. Então, existia um modelo padrão, e somente pela conservação desse modelo é que o país poderia progredir. Havia uma atmosfera de limpeza, na qual os cidadãos depositavam suas esperanças. Para os adeptos do nazismo, eliminar todos que estavam fora do padrão era a primeira meta para construir uma sociedade mais forte e mais eficaz, capaz de dominar todas as nações.

          Assim, o anti-semitismo, o culto ao legado nórdico e o mito do sangue puro eram as três esferas que davam contorno à visão de Hitler sobre o mundo. O que estimulava o anti-semitismo era o pensamento de que os judeus haviam traído a Alemanha, sendo os responsáveis pela miséria do país, visto que muitos controlavam os bancos e as fábricas na época. Essa crença não ficou somente na mente do ditador, pois ele não poupava esforços para propagá-la, o que resultou em um ódio em massa de todo o povo alemão. A perseguição de Hitler aos judeus é conhecida no mundo inteiro, mas não somente eles serviram como alvo do regime. "Os ciganos, homossexuais, eslavos e maçons recebiam o mesmo tratamento dado aos judeus" (LENHARO, 1986, p. 83-84).

          O ideal de limpeza étnica, traçado por Hitler, também previa a morte dos próprios alemães, caso esses fossem considerados por ele como desvios do modelo ideal. O desejo era criar uma sociedade mais forte, composta apenas por exemplares da raça pura. Sebastian Haffner (1985, pp. 121-122) conta:

          No dia 1º de setembro de 1939, dia da deflagração da guerra, Hitler deu ordem escrita para a eliminação dos doentes na Alemanha. Em virtude dessa ordem, cerca de cem mil alemães - "boca inúteis" - seriam mortos ao longo dos próximos dois anos: de sessenta a oitenta mil pacientes em hospitais e hospícios, de dez a vinte mil inválidos ou enfermos escolhidos nos campos de concentração, todos pacientes judeus dos asilos psiquiátricos e cerca de três mil crianças de dois a treze anos, em sua maioria inválidos ou retardados sob os cuidados da Assistência Pública.

          Eliminar as falhas humanas era a melhor estratégia para progredir como país. Em 1938, uma criança nascida cega, sem uma perna e sem parte de um braço, foi dada como "idiota". Hitler ordenou que um médico aplicasse a eutanásia no recém nascido. A eutanásia, que pode ser encarada como uma forma de ajudar a morrer quem está sofrendo, ganhou novo sentido no período nazista. Passou a significar uma forma de legitimar um ditador a impor seu mundo ideal a uma nação. Deve ficar registrado que esse foi apenas um dentre vários casos similares. Inúmeros eram os doentes mentais e deficientes físicos destinados às câmaras de gás. O seguinte trecho, retirado do documentário Arquitetura da destruição, resume bem a situação da Alemanha nazista:

          Assassinato em massa foi a conseqüência final da ambição de Hitler em criar o novo homem. A maquiagem do culto nazista à beleza encontrou seu caminho na câmara de gás. A matança era uma missão biológica, um tributo sagrado ao sangue puro. As fábricas de morte faziam saneamento antropológico. Eram o instrumento de embelezamento.

          É interessante colocar que o Reich alemão era povoado por artistas frustrados. Hitler é o melhor exemplo: pintor fracassado que sonhava ser arquiteto. Assim, torna-se mais fácil compreender a insanidade de suas propostas: trata-se de um sujeito que não conseguiu trabalhar com a arte e, como resposta às suas inquietudes, resolveu impor ao mundo um padrão de beleza por ele idealizado.

          Todo o regime nazista era baseado em um egocentrismo moralista, ou seja, Hitler acreditava que aquilo que ele considerava bom deveria ser imposto para todos os demais. A frase do Presidente da Câmara de Literatura do Reich, Hans Blunk, funciona como um bom exemplo dessa afirmativa: "Este governo conhece o desejo do povo e seus sonhos maiores" (Arquitetura da Destruição).

          Mas, pergunta-se como é possível um governo conhecer o sonho de toda gente? Não é possível. Mas pode-se convencer a população de que se sabe o que é melhor para ela. E era justamente isso que o regime nazista fazia, através do uso da propaganda e do cinema. "Algo muito forte percorria o interior da sociedade, agitava corações e mentes. Razões profundas levavam milhões de pessoas a concentrar seu investimento afetivo nas promessas e palavras de ordem nazista" (LENHARO, 1986, p. 13).

          A propaganda dava vazão às ambições artísticas de Hitler, sendo uma ferramenta eficaz na disseminação do anti-semitismo. Com isso, cada alemão passava a ter preocupação com sua árvore genealógica. "O anti-semitismo nazi levava o cidadão comum a sair dos limites da mera opinião para adotar um princípio de definição pessoal" (LENHARO, 1986, p. 83).

          Uma frase retirada do livro de Haffner resume essa situação: "Não é este homem que assusta, mas antes o barulho que faz" (1985, p. 23). A postura do exagero de propaganda contribuía para a formação de uma massa de admiradores do regime. O que se pode concluir é que eles sabiam como invadir o imaginário do povo, através de audaciosas estratégias de propaganda. Além disso, eles utilizavam o cinema como um grande aliado para comandar a massa. "A produção do cinema nazista encontra-se estreitamente vinculada ao crescimento do próprio partido" (LENHARO, 1986, p. 52). De acordo com Lenharo, 1.350 longas-metragens, aproximadamente, foram produzidos nos doze anos de domínio nazista. Muitos eram filmes românticos, alguns, comédias e outros, documentários de guerra, mas todos centrados em disseminar os valores preconceituosos do regime. Para dinamizar o alcance dos filmes, 40 mil escolas da Alemanha, das 62 mil existentes, dispunham de salas de projeção (LENHARO, 1986, p. 53).

          Paralelamente ao uso da propaganda e do cinema, o regime aplicava uma série de leis para alcançar os objetivos almejados. Dentre as tomadas de decisão do período nazista, destaca-se a proibição da arte bolchevique, tida como degenerada, por trabalhar o corpo humano de forma abstrata. De acordo com as idéias vigentes, a arte deveria mostrar o homem na sua perfeição física. Assim sendo, as obras modernas abstratas eram vistas como uma ameaça, como depravação espiritual e intelectual. Como medida punitiva, alguns quadros foram expostos e depois queimados, servindo como exemplo para quem desobedecesse à regra.

          Para a mentalidade nazista, essa frente ofensiva contra a arte moderna tinha um caráter higiênico. Na busca pela defesa da cultura alemã, Paul Schultze-Naumburg fazia palestras pelo país, menosprezando a cultura abstrata. Ele comparava fotos de casos de deformações tiradas de revistas médicas com as pinturas da arte moderna. O intuito era sugerir que esses quadros eram uma perversão artística. Hitler acreditava que a arte deveria ser, como no Renascimento, um espelho da saúde racial. A arte deveria representar a raça pura, e não reproduzir as deformidades do corpo humano. Sob o ponto de vista dos nazistas, as pinturas modernas, assim como os doentes de manicômios, constituíam a degeneração da espécie.

          Além desse, muitos outros exemplos podem ser aqui citados. Em 1933, foi sancionada uma lei para "ajudar a eliminar a doença" da sociedade alemã. De acordo com essa imposição, a esterilização dos doentes era obrigatória, por causa da hereditariedade. Outra medida tomada foi a recomendação dos médicos para a missão da limpeza racial. Eles deixaram de servir aos indivíduos e passaram a cuidar da raça ariana. O médico era visto como um guerreiro na luta contra as doenças que ameaçavam o corpo do povo alemão. Como justificativa para seus atos, Hitler declarava: "nosso primeiro princípio de beleza é a saúde".

          Uma outra curiosidade é que, de acordo com Lenharo (1986, p. 70), em 1935 o regime nazista criou as Lebensborn, que funcionavam num estágio intermediário entre maternidades e haras humanos. O objetivo principal desse projeto era incrementar a expansão da raça ariana através do controle biológico da concepção e da procriação das chamadas crianças SS (1986, p. 70). Ou seja, era como uma creche para os filhos dos soldados, na qual as crianças eram educadas com o intuito de se tornarem também futuros soldados. Ligado a esse sistema, os governantes passaram a incentivar as pesquisas biológicas no sentido de obter meios de previsão do sexo dos bebês, a fim de se estimular a geração de meninos. Sem esquecer que deviam ser crianças com traços típicos arianos.

          A que essa história remete? Ao projeto Genoma (1), à inseminação artificial e até mesmo à clonagem. Todos esses procedimentos estão vinculados a uma análise prévia das características do bebê, evitando, assim, que crianças fora do padrão sejam geradas. A seleção natural é hoje científica. "Pois os mecanismos da seleção natural descritos por Charles Darwin em meados do século XIX estariam sendo transferidos para as mãos dos homens, incluindo a novíssima possibilidade de seleção pré-natal" (SIBILIA, 2002, p. 13).

          Sem aprofundar o estudo na questão da clonagem, ainda não sedimentada para a raça humana (estando restrita ao universo animal, basicamente no caso ovelha Dolly), é valido lembrar o processo de procriação chamado inseminação artificial. Nesse procedimento, mais de um óvulo é fecundado, e aquele que melhor se formar, irá dar origem a uma pessoa. Caso mais de um óvulo consiga gerar uma vida, os demais são eliminados do processo. Claro que existem diferenças gritantes entre esse procedimento e o assassinato de crianças já nascidas, como acontecia na Alemanha nazista. Mas ambos os casos têm como princípio a eliminação das falhas e a conservação de um exemplar padrão.

          Ainda, é conveniente mencionar um outro episódio que pode ser relevante para esse debate. Foram criadas, durante o governo nazista, algumas organizações novas dentro da Frente do Trabalho, como a Força para a Alegria e a Beleza do Trabalho (LENHARO, 1986, p. 34). Essa última tinha como propósito incentivar o trabalhador alemão a se aprimorar fisicamente, por meio do culto da musculatura e da eliminação da gordura supérflua. Ou seja, o objetivo principal era deixar o corpo mais eficaz para o trabalho pesado e para a guerra. Essa circunstância já foi comentada por Michel Foucault, em seu livro Vigiar e punir. Nessa obra, ao abordar a questão da disciplina, o autor dá atenção especial à problemática do adestramento. Ele fala em corpos dóceis e relata que o corpo passou a ser controlado, a fim de servir com eficácia para as propostas das instituições. Através da disciplina, os sujeitos deveriam modelar seus corpos para uma finalidade específica.

          Como a linha de raciocínio deste artigo atravessa o processo de adestramento de corpos em função de um padrão ideal, é interessante perceber a diferença que aqui surge. Na ditadura nazista, existia um incentivo ao corpo eficaz. Na sociedade liberal da aparência, existe uma procura pessoal pelo corpo belo, como forma de se encaixar no padrão. Os dois momentos trabalham com o medo. O nazismo governava pela violência e hoje o controle se dá pela exclusão. Porém, antes de traçar as diferenças e semelhanças entre os dois momentos, é necessário disponibilizar algumas nuanças sobre a atual sociedade da aparência.

          A sociedade da aparência: o corpo como carteira de identidade

          Este artigo defende a idéia de que, hoje, os sujeitos vivem no cosmos da aparência, preocupados com a imagem que estampam aos olhos alheios. Para sustentar esse ponto de vista, o pensamento de Paula Sibilia será aqui explicitado. De acordo com a autora, atualmente se percebe um evidente enaltecimento do corpo humano. As práticas de embelezamento se tornam compulsivas para muitas pessoas que almejam alcançar o padrão estético estabelecido.

          E que padrão seria este? A busca é pelo corpo magro, liberto da poluição que a gordura traz consigo. O desejo geral é possuir (se pudesse comprar, comprava - e se está bem perto disso) o corpo jovem e belo, igual àqueles estampados em revistas de moda e em comerciais de televisão. No fundo, o sonho dos replicantes pós-modernos é o de dominar a carnalidade imperfeita, "visando esconjurar o fantasma da gordura". É por isso que se percebe uma overdose de regimes (dietas), um excesso de matrículas nas academias de ginásticas e salas de espera lotadas nas clínicas de silicone e lipoaspiração (sem entrar em outros campos, como: o dos bronzeamentos artificiais, chapinhas definitivas, piercings e tatuagens).

          Ao descrever a utopia da saúde perfeita, Lucien Sfez salienta que, na atualidade, "o corpo vai à desforra, reaparece na frente do palco, exige cuidados, uma atenção constante, oferece-se como sujeito e como objeto" (1996, p. 41). O corpo belo torna-se o primeiro degrau a ser galgado na escada da sociedade da aparência. O autor, ao traçar uma distinção entre aparência e ser, esclarece que aparência é tudo o que é "exterior, a forma, o peso, o tamanho" (1996, p. 48), enquanto o ser seria a essência, ou o que os filósofos costumam chamar de alma. Seguindo a proposta de seu livro, Sfez comenta que esta alma estaria sendo substituída pelos genes, visto que, com as atuais técnicas científicas, agir sobre os genes é agir sobre o ser individuado.

          Para Sibilia, o desejo de possuir o corpo belo é um desejo geral da população, pois o mercado das aparências tomou proporções gigantescas. Hoje, se dá muita importância para os sinais visíveis. Como salienta a autora, o que se vê é uma luta pela "adequação dos corpos humanos a um ideal exaltado pelas imagens midiáticas cada vez mais onipresentes e tirânicas, impondo por toda parte um modelo corporal hegemônico" (2004, p. 69). E não é apenas isso: está implícita nessa realidade, também, uma feroz rejeição para com aqueles que escapam do padrão. Ficar de fora desse modelo é visto como um sinal de fraqueza, pois num mundo onde cada um governa sua vida, "só é gordo quem quer".

          Como já foi mencionado, de acordo com Lipovetsky, hoje cada um é dono de si, cada um deve cuidar de sua aparência e lutar para não escorregar na passarela. Conforme relata o autor, a sociedade contemporânea é neo-individualista, e cada um governa seu destino. Assim, a responsabilidade de manter o corpo belo e saudável constitui um dos pontos-chave das novas condenações morais. Lipovetsky anuncia: não é o fim da moral, e sim o nascimento de uma nova moral. A imposição de um padrão ideal implica a propagação de novos tipos de condenações morais, como, por exemplo, o preconceito para com os que não se encaixam no padrão.

          Essa questão facilita a generalização da obsessão pela juventude e pela beleza. Percebe-se, então, a presença de um forte controle moral. Na Alemanha nazista, o poder vinha de fora, do Estado, do Führer. Era um poder que agia através da força, abusando do medo individual da punição. Já na sociedade pós-moderna, nota-se um biopoder, que vem de dentro. É o próprio indivíduo quem se cobra, estimulado pelo medo de ser taxado como aberração.

          Paula Sibilia enfatiza a autonomia do homem na construção de sua aparência, ao dizer que "agora a criatura humana passaria a dispor, de fato, das condições técnicas necessárias para se autocriar, tornando-se um gestor de si na administração do seu próprio capital privado e na escolha das opções disponíveis no mercado para modelar seu corpo e sua alma" (2002, p. 16). De acordo com a autora, o mundo atual vive um paradoxo, pois de um lado se tem o problema da fome, e, do outro, o da obesidade, alavancada pelo excesso de consumo. Indo bem longe, ela garante que o problema da obesidade está sufocando o da fome, visto que aquele é culpa do próprio indivíduo, enquanto este deveria ser de responsabilidade dos governantes.

          Sibilia defende a idéia de que "o corpo se torna uma imagem a ser exibida; e essa imagem deve ser jovem, bela e magra" (2004, p. 73). Então, resumidamente, seu pensamento pode ser assim transmitido:

          Último grande refúgio da subjetividade, o corpo é obstinadamente submetido a toda uma série de estratégias de design epidérmico que apontam para o cultivo das "boas aparências", numa era na qual a visibilidade e o reconhecimento no olhar alheio são fundamentais na definição do que cada um é (2004, p. 68).

           Nessa perspectiva, percebe-se um incansável duelo contra a gordura e um estrondoso desejo de atingir o patamar de magreza (0% de gordura). Essa meta pode ser alcançada através de dietas, exercícios ou cirurgias plásticas. E, o mais grave, é que as formas de libertação dos indesejáveis quilos a mais não estão somente nesse plano, invadindo também o universo patológico. Como informa Sibilia (2004), a anorexia nervosa é a terceira doença crônica mais freqüente entre as mulheres adolescentes. Andando ao lado da anorexia (recusar-se a comer quase até a morte), a bulimia (comer muito e depois provocar o vômito) também se faz perceptível entre as meninas contemporâneas. Sobre isso, é interessante remeter ao filme Elefante, de Gus Van Sant, lançado em 2003. Nesse trabalho, o diretor apresenta sua versão para a tragédia de Columbine, na qual dois meninos decidem comprar armas pela internet e invadir o colégio, matando diversas pessoas. O filme conta a história sob uma perspectiva peculiar, estereotipando alguns perfis psicológicos típicos em adolescentes norte-americanos.

          No desenrolar da trama, três amigas inseparáveis ficam em dúvida sobre o que comer na hora do lanche e, todas, optam pelo prato mais leve: a salada. As meninas fazem sua refeição muito rapidamente, dando três ou quatro garfadas e saem da mesa. Vão direto ao banheiro, onde reclamam estarem lotadas de comida, e sentindo o nojento pneuzinho emergindo em suas barrigas. Cada uma entra em um banheiro, fechando as respectivas portas. Curiosamente, o barulho que o espectador ouve indica que as meninas estão forçando o vômito. Depois de feita a higiene diária, as três garotas saem aliviadas, contentes por terem liberado o que estava poluindo seus corpos. Cena de filme ou não, o fato é que esse quadro é típico entre as adolescentes da sociedade da aparência.

           Mas a cultura do corpo magro não fica restrita apenas à sala de cinema. Uma matéria publicada em agosto deste ano, na Revista Veja , revela que o padrão estético na Argentina é ainda mais magro que no Brasil. Na Argentina, até mesmo a Gisele Bündchen é considerada cheinha. A situação lá está tão grave, que as autoridades tiveram que intervir, aprovando uma lei que obriga as lojas a expor, nas vitrines, tamanhos que vão do 38 ao 48. Isso porque a maioria das lojas só disponibiliza roupas tamanho P, constrangendo quem não encontra o que comprar. De acordo com a matéria, a Argentina está em segundo lugar no mundo, atrás apenas do Japão, em número de pessoas com bulimia e anorexia. A psiquiatra entrevistada pela revista pronuncia: "ser mais magra que o padrão considerado saudável virou passaporte para a felicidade, a vida perfeita e a aceitação da família e dos amigos".

          Muitos outros casos poderiam ser aqui mencionados. Mas, acredita-se que estes já sejam suficientes para mostrar que existe, de fato, uma preocupação social com a aparência. Parte-se, agora, para fazer alguns contrapontos entre o regime nazista e a sociedade liberal.

          Conclusões e comparações

          A sociedade está modificada, este é o fato. Antes os indivíduos agiam pelo medo da punição, vivendo sob a pressão dos regimes sólidos. Na ditadura brasileira, por exemplo, era preciso seguir as regras do governo. Na Alemanha era a mesma coisa: por medo da morte ou do castigo, os indivíduos eram subordinados às imposições ditadas pelo Führer. No período contemporâneo, por sua vez, existem outras fraquezas. "O indivíduo liberado da sujeição ao coletivo acha-se cada vez mais submetido aos poderes do medo e da inquietude" (LIPOVETSKY, 2004, p. 76). A pressão social continua presente, mas não se dá mais pela disciplina, e sim pelo controle, mais precisamente pelo autocontrole. Lucien Sfez colabora com esse ponto de vista, ao decretar que "o inimigo não está mais no exterior, não tem mais de ser combatido ou civilizado. Não é mais o selvagem, o negro, o amarelo, o judeu [...] O inimigo está em nós [...], em nossos corpos enfermos, em nossos genes" (1996, p. 25).

          A moral mudou de figura. O que na modernidade era visto como proibido, ou como importante, já não é mais assim encarado. Na pós-modernidade se dá um distensionamento da moral, mas não um apagamento dela. Hoje se observa uma crescente condenação moral a quem não se enquadra no padrão imposto. Sfez alerta que, hoje, "desdobra-se uma espécie de atividade de controle destinada a preservar a espécie humana dos hábitos singulares dos indivíduos, culminando na introdução de uma moral sanitária 'politicamente correta'" (1996, p. 41). Assim, nota-se que o liberalismo da sociedade atual é um liberalismo entre aspas. Os indivíduos possuem uma maior liberdade, sem dúvida, para exercer suas escolhas pessoais. Porém, isso não implica dizer que não há mais cobrança social. Mesmo na sociedade liberal existe um controle moral, só que este controle não vem mais do Estado, e sim do próprio eu que, por não querer ser motivo de chacota, procura enquadrar-se no padrão estético.

          O essencial deste artigo, e o que deve ser sempre ressaltado, é que nos dois casos aqui trabalhados - sociedade nazista da pureza e sociedade liberal da aparência - percebe-se uma busca pela adequação do maior número de pessoas ao modelo hegemônico. A principal diferença é que na sociedade pós-moderna o sujeito quer se ajustar ao padrão, para não ser excluído, enquanto na Alemanha nazista era Hitler quem queria impor as regras aos membros de sua nação. As conseqüências também mudam de um regime para o outro. Por mais que este artigo objetive fazer uma comparação entre as duas situações, é ingênuo, e até inviável, comparar a exclusão social com o genocídio que Hitler provocou. O regime nazista é uma marca obscura na história da humanidade, e as proporções da sociedade atual da aparência, embora também sejam chocantes, nunca serão tão drásticas.

          O fato é que, guardadas as devidas proporções, os dois regimes possuem um quê de delírio, exagero, compulsão. Na internet, é possível acessar sites de grupos femininos que lutam pelo corpo ideal. O discurso de seus componentes assemelha-se com o discurso apelativo nazista: "Tenho que tirar essa banha que está no meu corpo, tenho que conseguir e vou conseguir; nós todas vamos ser magras e lindas, vamos ser perfeitas; unidas, temos muito mais força para combater a comida" (SIBILIA, 2004, p. 78).

          No terreno dos alimentos diets, é válido qualquer sacrifício para combater as impurezas que afastam o sujeito do corpo belo. No universo nazista, Hitler impunha a idéia de que os resultados do sacrifício (para limpar a raça e manter apenas indivíduos puros e sadios) seriam compensadores a todos, visto que só assim a Alemanha iria dominar o mundo. Os nazistas queriam criar o novo homem alemão. Hoje, os adeptos da teoria cibernética querem criar o novo corpo digital. Os nazistas queriam liquidar os judeus e os doentes incuráveis, e a cibernética quer eliminar qualquer desvio no corpo humano. Hitler queria um povo puro e saudável, lutando por um objetivo comum. Atualmente, as pessoas querem fazer parte do grupo que mantém o corpo magro e saudável, para fazer bonito na sociedade da aparência.

          A tendência anti-semita considera os judeus uma raça inferior à raça ariana, tanto física quanto psicologicamente. E a tendência atual considera os obesos sujeitos inferiores àqueles que se encaixam no padrão estético de beleza. Os gordinhos são considerados fracos e incapazes de controlar o próprio corpo. Ao tratar desse problema, Paula Sibilia afirma que aqueles que não conseguem cuidar adequadamente de sua imagem são seres "eventualmente excluídos até da própria categoria de sujeitos" (2004, p. 74). Essa frase de Sibilia pode ser posta ao lado da frase do ditador Hitler, transposta no filme Arquitetura da Destruição: "indivíduos inferiores a qualquer animal", referindo-se aos doentes mentais.

          É a briga entre o regime nazista e o regime dieta. Ambos utilizam os meios de comunicação de massa para promover suas idéias. Nota-se, desse modo, que a mídia é uma forma rápida e prática para impor um modelo. Nos dois períodos (modernidade e pós-modernidade), a propaganda se apresenta como uma interessante ferramenta para compreender a sociedade. Na Alemanha nazista, os sujeitos eram bombardeados por uma grande carga de propaganda, como já foi comentado. Quanto às sociedades pós-modernas, Sibilia enfatiza: "constantemente, os indivíduos são interpelados por esses discursos midiáticos e por essa aluvião de imagens que ensinam as formas e as leis do 'corpo bom'" (2004, p. 69). Assim, observa-se que a mídia estimula no público o desejo de alcançar o corpo-ícone, desenhado para o consumo exclusivamente visual.

          E devido a todas essas constatações, não é possível ignorar o papel da mídia nesse processo. Não se defende a bandeira da manipulação, nem se acredita que a mídia impõe as coisas. Mas ela age através da sedução, e alguns indivíduos acabam por querer se aproximar do modelo disseminado. "Aquilo que outrora dependia dos princípios internos da educação moral depende agora dos lances de mídia. A mídia fixa as prioridades, orquestra a generosidade, consegue, de resto com muito sucesso, mobilizar esporadicamente o público" (LIPOVETSKY, 2004, p. 29).

          As imagens publicitárias, as fotos de moda e a imprensa feminina exemplificam essa penetração da mídia no cotidiano social, principalmente no que diz respeito à aparência do corpo. Isso é possibilitado pelo fator padronizável dos meios de comunicação. De acordo com Lipovetsky, a mídia busca alcançar indivíduos diferentes e, para isso, ela massifica os gostos, as práticas e os modos de vida: "quanto menos a moda (vestuário) é diretiva, mais a lei da magreza e da juventude é exaltada e valorizada" (2004, p. 69). Assim, é por buscar atingir o maior número de pessoas, que os conteúdos midiáticos acabam por padronizar os gostos.

          Então, conclui-se que o foco social foi transferido de lugar. Passou-se da sociedade moderna nacionalista da submissão à sociedade liberal individualista da aparência. Na modernidade vigoravam a disciplina e as fortes instituições para controlar a massa. Já na atualidade, percebe-se mais o controle que a disciplina, e um controle vindo dos próprios indivíduos que vivem em sociedade. O que pode ser assustador é a força poderosa do autocontrole. Quando o próprio sujeito se monitora, as conseqüências do fracasso podem ocasionar sérios casos de depressão e baixa auto-estima.

          Notas

          1) Projeto mundial de mapeamento e de seqüenciação do genoma humano, que funciona através de testes genéticos que incidem sobre a vida pré-natal. O projeto busca a perfectibilidade do corpo humano e a reconciliação do homem com a natureza (SFEZ, 1996, p. 129-181).

          Referências

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 1987.

HAFFNER, Sebastian. Um tal de Adolf Hitler: considerações particulares sobre um fenômeno psicológico e político. São Paulo: Civilização Brasileira, 1985.

LENHARO, Alcir. Nazismo: "o triunfo da vontade". São Paulo: Ática, 1986. 93 p.

LIPOVETSKY, Gilles. Sedução, publicidade e pós-modernidade. In: A genealogia do Virtual: comunicação, cultura e tecnologias do imaginário. Porto Alegre: Sulina: 2004a. 278 p.

________. Metamorfoses da cultura liberal: ética, mídia e empresa. Porto Alegre: Sulina, 2004b. 88 p.

SFEZ, Lucien. A saúde perfeita: crítica de uma nova utopia. São Paulo: Loyola, 1996. 357 p.

SIBILIA, Paula. O homem pós-orgânico: corpo, subjetividade e tecnologias digitais. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002. 228p.

________. O pavor da carne: riscos da pureza e do sacrifício no corpo-imagem contemporâneo. Revista FAMECOS: mídia, cultura e tecnologia, número 25. Porto Alegre, 2004. Págs. 68-84.

Matérias de Jornal

CAMAROTTI, Mariana. Fofinhas, só por decreto. Revista Veja. Edição 1917 - 10 de agosto de 2005

SCHULZ, Gerson N. L. Nietzsche e o nazismo. Diário Popular. Segunda-feira. 1o. de agosto de 2005.

          Filmografia

A queda - as últimas horas de Hitler (Oliver Hirschbiegel, 2004)

Arquitetura da destruição (Peter Cohen, 1992)

Elefante (Gus Van Sant, 2003)

Igual a tudo na vida (Woody Allen, 2003)

Minha vida sem mim (Isabel Coixet, 2003)

O plano para matar Hitler (Lawrence Schiller, 1990)

 

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Cíntia Langie
Jornalista e mestranda em comunicação na PUCRS.

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