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A
conversa também é um medicamento eficaz na relação
médico-paciente
Devani Salomão de Moura Reis*
Palavras-chave:
comunicação - humana - interpessoal - interação
- significados
A
cura ou controle da doença depende, em grande parte, da
orientação do médico para solução
de outros problemas do paciente. Está sujeita também
ao grau de confiança inspirado pelo médico de quem
a maioria dos pacientes espera atenção, humanidade,
amizade, interesse, educação e, principalmente,
uma explicação objetiva de seus males e dos procedimentos
necessários ao tratamento. O homem interage não
com indivíduos ou objetos, mas com a imagem que faz deles.
Não os trata como coisas físicas, mas como objetos,
aos quais confere identidade e significados.
Adoecer
é um processo que obriga os indivíduos a rever as
bases de sua vida. A cura inclui o aprendizado. Para o bom andamento
de qualquer tratamento é fundamental que haja uma comunicação
eficiente entre o paciente e a equipe de saúde (médicos,
enfermeiros, assistentes sociais, psicólogos, atendentes).
É necessário que o paciente compreenda exatamente
a extensão e a gravidade de sua doença, assim como
as possibilidades e riscos inerentes a qualquer terapêutica,
para que possa tomar suas decisões, e por outro lado, que
a equipe de saúde possa escutar com empatia as dificuldades
objetivas e subjetivas vividas pelo paciente.
Introdução
A moderna administração, influenciada pelas normas
da International Standart Organization - ISO 9000 é dirigida
cada vez mais para o desenvolvimento da qualidade de serviços
e produtos. O foco é a obtenção de padrões
de qualidade e excelência como fatores que agregam valores
e vão se constituir no diferencial de competitividade no
mercado.
Os
profissionais em todos os níveis de produção
são solicitados, cada vez mais, a exercitar sua capacidade
de criação e invenção. Para isso,
não basta contar com funcionários capazes de repetir
mecanicamente suas tarefas. É preciso formar equipes de
trabalho com pessoas motivadas e comprometidas com as metas da
organização.
Para
que isso seja conseguido, faz-se indispensável um sistema
de comunicação eficiente que flua para todos os
níveis hierárquicos da organização,
informando e fazendo uso dessa informação para melhoria
dos serviços prestados.
Trabalho
e vida saudável estão vinculados estreitamente,
por razões humanísticas e, atualmente, também
porque as grandes organizações começam a
reconhecer que quando investem em promoção de saúde,
os gastos com tratamentos clínicos, previdência,
prejuízos por acidentes de trabalho e absenteísmo
diminuem de maneira significativa.
No
Brasil, ao longo dos anos, a saúde tem sido desconsiderada,
caracterizando-se por atendimentos precários e dispendiosos
de doenças que poderiam ser muitas vezes evitadas por bons
programas de prevenção e promoção
de saúde.
Os
salários dos profissionais de saúde encontram-se
entre os mais baixos do mercado para profissionais liberais, o
que faz com que os mesmos assumam vários empregos, tornando
a ligação e a responsabilidade pelo paciente cada
vez mais diluída e impessoal.
A
comunicação humana
A
comunicação é uma condição
sine qua non da vida humana e da ordem social. É óbvio
que, desde o início da sua existência, o ser humano
está envolvido no complexo processo de aquisição
das regras de comunicação que irão influir
no seu processo de interação.
O
estudo da comunicação humana tem merecido a atenção
de vários pesquisadores, por sua complexidade, já
que existe a cultura e a experiência permeando os significados
que o Homem atribui às coisas quando as decodifica. Para
Mortesen (1):
a
tradução das línguas humanas é freqüentemente
associada à capacidade de compreender os elos essenciais
entre uma língua (ou código) e outra. Considera-se
tradutor aquele que consegue identificar uma palavra ou uma mensagem
em relação a uma série correspondente de
termos lingüísticos diferentes, estabelecendo relação
entre, digamos, o inglês e o espanhol. O que não
foi compreendido inteiramente ainda é que a atividade da
tradução também ocorre no uso cotidiano da
língua convencional. Traduzir significa transformar, impor
a própria posição interpretativa na maneira
como as coisas são apreendidas. Portanto, a tradução
ocorre todas as vezes que se tenta aplicar a própria estrutura
referencial em alguma forma de experiência humana. Tal desempenho
não exige troca de palavras nem tampouco qualquer reconhecimento
da presença de outra pessoa. O conceito de tradução
se refere antes a uma série de ações sutis
e complexas sustentada pela pura disposição de conceder
significação aos eventos humanos.
O
autor diz ainda que, para ocorrer, a tradução deve
ser apoiada pela comunicação humana. Nos ambientes
em que existem relações frontais, um ato comunicativo
implica uma fonte que emite uma mensagem através
de um canal para um receptor, cujas reações
fornecem feedback para a fonte de informação
inicial. O conceito de tradução humana pode ser
compreendido como uma complexa negociação entre
pessoas e seus ambientes.
Ainda
para Mortesen (2), partindo-se de um ponto de vista comunicativo,
a mensagem pode ser definida como qualquer unidade de informação
que funciona como um elo entre pessoas que coexistem em estado
de interação. Os elos informativos teriam que ser
analisados sob a perspectiva dos contextos das implicações
emotivas ou afetivas.
Seria
enganoso analisar a troca de mensagens da mesma forma como se
analisaria a troca de algum objeto físico. Uma mensagem
não é um objeto que existe independentemente das
experiências das pessoas que nela trabalham; uma mensagem
não possui qualquer significação até
o momento em que ocorra alguma forma de tradução.
Tampouco
se pode concluir que a tradução ocorra sem quebras
ou rupturas. O sistema nervoso humano só pode lidar com
uma quantidade limitada de informação, e o campo
de consciência de uma pessoa isolada dificilmente pode ser
considerado como amostra objetiva da informação
potencialmente disponível.
A
continuidade da tradução depende da manutenção
de duas espécies distintas, segundo Mortesen, embora correlacionadas,
de atividades interpretativas. Uma é a decodificação;
a outra a codificação. A decodificação
se refere à lógica ou aos métodos utilizados
para a interpretação do comportamento de outra pessoa,
e a codificação remete aos padrões utilizados
para a criação do próprio desempenho. Decodifica-se
quando se escuta ou se observa alguém falar, e codifica-se
quando se está transmitindo ativamente informações
para alguém. Tanto a decodificação como a
codificação implicam lógicas pessoais que
auxiliam a regular e controlar o desempenho.
Os
canais de comunicação operam em todos os níveis
da sociedade; o acesso a um canal facilita a interação
entre indivíduos, grupos, organizações e
audiência em massa.
O
conceito de feedback salienta os aspectos dinâmicos e envolventes
do processo de comunicação. Quer seja positivo,
negativo ou indiferente, o feedback afeta profundamente o fluxo
de informação. De maneiras diversas, que divergem
tanto quanto as personalidade individuais, o feedback altera a
textura da informação humana e os fluxos de reações
que são a esta atribuídos.
A
tradução depende da capacidade de percepção
precisa de outras pessoas, não é um registro passivo
de objetos e eventos; constituem uma elaborada criação
de significados. Os dados sensoriais estão constantemente
sendo selecionados, classificados, transformados e registrados
em padrões de interpretação e importância
singulares. Os limiares sensoriais, as perspectivas pessoais,
as expectativas, todos são úteis para ajudar
a destacar o que é significativo na experiência
de um indivíduo.
A
comunicação e o seu contexto da significação
As
pessoas gradualmente assimilam um quadro do mundo que habita e
seu lugar dentro dele. As orientações gerais - confiança
ou suspeita, afeto ou hostilidade - são aprendidas por
meio da comunicação com outras pessoas significativas.
O sucesso ou fracasso contribui, de alguma maneira, para o seu
acúmulo de suposições acerca do mundo e da
maneira como esse funciona. Tais predisposições
cognitivas são assimiladas inconscientemente, com a maioria
das pessoas estando vagamente cientes dos seus importantes efeitos.
E, segundo Roger Harrison (3):
constituem
o equipamento de sobrevivência mais importante que possuímos.
Desta maneira, não são os eventos propriamente ditos,
mas sim a maneira como os homens interpretam tais eventos que
determina o que vêem, como sentem, como pensam e como reagem.
Para
Barnlund (4):
o
homem não é receptor passivo, mas um agente ativo
que dá sentido às sensações. A significação
que qualquer situação adquire é conseqüência
tanto do que o perceptor lhe acrescenta como da matéria
prima que recebe. Termos tais como "construções
pessoais", "esquemas sociais" e "planos perceptivos"
têm sido utilizados para identificar os processos cognitivos
por meio dos quais os homens torna sua experiência inteligível.
Tais vieses perceptivos, tomados conjuntamente, constituem o chamado
mundo suposto do indivíduo. O mundo que os homens põem
em suas cabeças é o único mundo que conhecem.
É este mundo simbólico, e não o mundo real,
que comentam, disputam, discutem e zombam. É este mundo
que os impele a cooperar ou a competir, a amar ou a odiar.
Os
cientistas behavioristas, Hastorf e Cantril (5) concluíram:
é impreciso e enganoso dizer que pessoas diferentes têm
atitudes diferentes em relação à mesma "coisa".
Pois a "coisa" não é a mesma para pessoas
diferentes, quando for o caso de um candidato à presidência.
(...) Comportamo-nos de acordo com o que acrescentamos ao momento,
e o que cada um de nós acrescenta ao momento é mais
ou menos único. E, excluindo essas significações
que acrescentamos ao momento, os acontecimentos à nossa
volta não passam de ocorrências sem significado,
"inconseqüentes".
Assim
toda percepção é necessariamente pessoal
e incompleta. Ninguém jamais vê tudo, pois cada um
abstrai de acordo com sua experiência passada e desejos
incipientes.
Atitudes
que interferem na comunicação
Nas
relações humanas, a prevenção está
relacionada, de uma ou outra maneira, com o fenômeno da
confiança. Não há na natureza da comunicação
humana modo algum de fazer com que uma pessoa participe da informação
ou das percepções que estão exclusivamente
ao alcance de outra. Na melhor das hipóteses, o outro poderá
confiar ou não mas nunca poderá saber se é
verdadeira ou não a informação. A grande
maioria de todas as decisões baseia-se na confiança,
de uma espécie ou outra. Assim, a confiança está
sempre relacionada com resultados futuros e, mais especificamente,
com a possibilidade de serem previstos (6).
Interação
com feedback
Feedback
(7), no caso da interação humana, se refere ao processo
de ajuste de um comportamento comunicativo de forma a observar
as influências percebidas desse comportamento sobre o ouvinte.
O
termo feedback não diz respeito a nenhum catálogo
comportamental do ouvinte, mas sim a uma relação
entre o comportamento do falante, a reação do ouvinte
e o efeito dessa reação sobre o comportamento posterior
do falante. Assim, a reação do ouvinte não
constitui feedback se não afeta o comportamento subseqüente
do falante.
Todas
as vezes que um falante altera seu comportamento de fala, adaptando-se
de uma forma ou de outra à reação de seu
ouvinte, pode-se dizer que está reagindo ao feedback. Introduzir
possibilidade para o feedback na interação humana
é melhorar em muito a qualidade dos contatos entre os homens;
assim cada parceiro da interação pode não
apenas influenciar e ser influenciado pelo outro, mas também
o comportamento de cada um será condicionado pelo outro.
Percepção
e avaliação pessoal
Pode-se
dizer que interagimos, não com indivíduos
ou objetos, mas com a imagem que fazemos deles. Afinal,
não os tratamos como coisas físicas, mas
sim como objetos, aos quais conferimos identidade e
significados. Nossas atitudes em relação aos
mesmos fundamentam-se nos significados a que nos remetem e nas
influências que exercem sobre nossos diversos planos de
ação.
O
processo de percepção de objetos não representa
um registro passivo de eventos externos. Durante todas as fases
do processo o observador se intromete ativamente no fluxo de dados.
Portanto para se compreender o que é visto é
preciso compreender o próprio observador, assim
como o que realmente está acontecendo.
Para
Simons e McCall (9):
À
medida que outras pessoas e objetos são observados e interpretados
quanto ao significado que para nós possuem, chega-se à
conclusão de que nossas escolhas e classificações
refletem apenas parcialmente a verdadeira natureza das coisas.
Assim como escolhemos os significados, também os criamos;
e há uma grande categoria de objetos sociais que existem
apenas como significados criados e coletivamente compreendidos.
Para
se entender a avaliação, feita pelo indivíduo,
das pessoas e situações com que se depara, deve-se
analisar detalhadamente este processo de percepção
e de recodificação, no qual, além de se perderem
informações, surgem as informações
falsas.
Além dos limites sensoriais as percepções
também são limitadas pela mera perspectiva ou posição
da qual se observa. O panorama é basicamente determinado
pelo ponto de onde se olha, portanto, unilateral.
O
viés da perspectiva, resultante das posições
sociais é geralmente mais complexo e difícil
de ser evitado do que os efeitos da posição física
no espaço. A precisão da percepção
diminui na medida em que aumenta a distância social.
Quanto
aos níveis de percepção interpessoal, quando
uma pessoa oferece à outra um definição do
"eu", pode-se encontrar três respostas: a confirmação,
a rejeição e a desconfirmação. Essas
três respostas têm um denominador comum, isto é,
através de uma delas a pessoa comunica: "Isto é
como eu estou vendo você" (10).
3.
Tipos e objetivos da mensagem
De
certo modo, toda comunicação representa um processo
transmissivo de informações, as quais são
recebidas por outra pessoa. Porém, à medida que
se constata a infinidade de maneiras pelas quais pode se descrever
o tipo e o objetivo da mensagem enviada, a categoria comunicativa
de transmissão-recepção parece insuficiente.
Aqui estão alguns tipos de mensagem catalogadas por Condon
(11), que são importantes para o estudo da relação
médico-paciente:
¢
Quando se fala alguma coisa e algo acontece em função
daquela fala, os comentários possuem caráter instrumental.
Alguns enunciados possuem caráter instrumental, ou na intenção
ou no efeito, mas não são expressos como tal. Por
exemplo, se você deseja que alguém lhe passe o sal,
pode fazer o pedido diretamente (instrumental) ou aludir ao fato
de a comida estar insossa (informação transmissiva);
¢
A comunicação afetiva constitui o processo em que
a mensagem equivale aos sentimentos emotivos que o locutor nutre
em relação ao ouvinte. Cumprimentos, elogios e lisonjas
- assim como hipocrisia e interrupções bruscas -,
todos constituem elementos dessa categoria. A linguagem afetiva
é também convincente. Em muitos casos, não
se consegue obter nada de uma pessoa a ser por meio de vias indiretas.
Prefere se fazer aquilo que se julga querer fazer, e não
aquilo que se ordena ou pede que se faça;
¢
A fé no poder mágico das palavras existe em todas
as culturas e assume a forma de superstições, pragas
de caráter instrumental, dogmas religiosos e manifestações
secundárias de racionalização do desejo.
A fé em que o pensar e o dizer palavras podem exercer
alguma influência sobre o elemento a que se referem
já equivale a por em prática a função
de magia da comunicação;
¢
No ato comunicativo, os indivíduos sempre trocam algo mais
do que simplesmente palavras. Observam-se também pistas
indicativas da maneira pela quais as palavras podem ser interpretadas.
A essa interpretação sobre a comunicação
dá-se o nome de pistas metacomunicativas. Tais pistas
podem reforçar o significado das palavras, desviar a atenção
do ouvinte quanto ao enunciado da mensagem, ou mesmo contradizer
com aquele discurso. Quando as pistas diferem das palavras, o
ouvinte sente dificuldades em aceitar a mensagem.
Comunicação defensiva
Gibb
(12) define o comportamento defensivo como aquele que se manifesta
quando um indivíduo observa ou pressente uma ameaça
dentro de um grupo. Estimular uma atitude de defesa implica impedir
que o ouvinte se concentre na mensagem. Quando se colocam na defensiva,
os comunicadores transmitem pistas de valor, motivação
e afetos múltiplos e os receptores que assumem a mesma
atitude distorcem tudo aquilo que recebem. À medida que
uma pessoa se coloca mais e mais na defensiva, torna-se cada vez
menos capaz de apreender, com exatidão, as motivações,
valores e emoções do emissor.
Um
indivíduo provoca atitudes de defesa ao transmitir a outrem
um sentimento de superioridade, seja em termos de posição,
poder, riqueza, capacidade intelectual, características
físicas, seja de outra maneira. Neste caso, qualquer que
seja o elemento responsável por despertar sentimentos de
inadaptação, ele induz o receptor a se concentrar
sobre a carga afetiva do enunciado, em detrimento dos fatores
cognitivos, o destinatário reage recusando-se a ouvir a
mensagem, esquecendo-se dela, competindo com o emissor ou invejando-o.
Quando
transmite a impressão de nutrir sentimentos de superioridade,
o indivíduo comunica que não está disposto
a encetar um relacionamento visando à resolução
de problemas comuns; que provavelmente não deseja obter
feedback; que não necessita de auxílio e/ou que
se sentira propenso a tentar minimizar o poder, status ou mérito
do ouvinte.
Interação
e interexperiência em díades
Quais
os fatores que provocam a existência de interpretações
diametralmente opostas? Pode se afirmar que as interpretações
se baseiam no aprendizado passado. Principalmente o adquirido
dentro de um recesso familiar (ou seja, com nossos pais, irmãos
e outros parentes) - assim como o obtido na grande sociedade cujo
caminho percorremos. Em segundo lugar, o ato propriamente dito
é interpretado de acordo com o contexto em que se encontra
(13).
O
que acontece quando duas pessoas não concordam com o significado
a ser atribuído a um ato específico? Para Laing
e Lee (14):
sem
sombra de dúvida, um processo bastante complexo. Se o ato
comunicativo estiver em um nível ótimo, elas compreenderão
que possuem diferentes interpretações do ato, além
de estarem conscientes de que ambas compreendem que suas interpretações
não são consideradas coincidentes. Isto posto, podem
passar a discutir a validade ou não validade de se mudar
o ato em questão no futuro. Essa discussão pode
assumir diversas formas:
Ameaça: faça
isso, senão...
Indução: faça isso, por favor.
Suborno: se você fizer isso, eu, em troca,...
Persuasão: acharia muito bom se você fizesse isso,
porque....
Todavia,
sempre que houver discordância de uma relação
entre dois seres humanos, não raro, observam-se mal-entendidos
e não percepções dos mal-entendidos.
Tais fatores podem possuir caráter intencional, ou seja,
constituírem uma mera tentativa de ignorar o ponto de vista
do interlocutor ou, então, representarem um involuntário
desprezo pelo ponto de vista contrário. A ruptura do ato
comunicativo está presente em ambos os casos.
A
projeção
Projeção
é uma forma de ação dirigida à própria
experiência que o indivíduo possui do outro, constituindo
o assim chamado "mecanismo mental" (15). Esse termo
é bastante enganoso, pois não é nem mental
nem tampouco mecânico. Trata-se de uma ação
cujo objetivo intencional é a própria experiência
que o indivíduo possui do outro. Tais processos compartimentais
foram identificados graças aos esforços da psicanálise.
Segundo Laing e Lee (16):
projeção
sem sombra de dúvida, constitui uma tática comportamento
que se reveste da mais alta importância, podendo operar
de diferentes maneiras em um sistema interpessoal; para todos
os efeitos, contudo, representa uma dentre uma série de
ações cujo objetivo não é a experiência
que o outro possui de mim, mas sim a experiência que possuo
do outro. Desnecessário é dizer, tal mecanismo,
em uma segunda instância, poderá vir a influir na
experiência que outro possui de mim.
A
projeção é um modo pelo qual influenciamos
o outro ao, paradoxalmente, não agirmos diretamente sobre
ele como um indivíduo real, mas sim sobre a experiência
que dele possuímos. Porém, se transmito ao outro
a maneira como o capto através de minha experiência
de sua pessoa, certamente estarei influenciando-o.A projeção
pura e simples nada nos informa sobre o outro, remetendo-nos apenas
a uma área de interação didática,
ou seja, o modo como você trabalha a experiência que
possui de mim ou o modo como trabalho a experiência que
possuo de você. Todavia como bem sabemos, a projeção
influenciará outra áreas, assim como por elas será
influenciada, visto que o seu modo de me captar se inter-relacional
com o modo como ajo em relação a você, e assim
por diante."
Na
pesquisa realizada no Hospital do Servidor Público Estadual
"Francisco Morato de Oliveira" sobre a relação
médico-paciente a comunicação aparece
como a principal mediadora do bom atendimento, depois
a própria relação médico-paciente
e finalmente o atendimento em si. Nas suas 249 diferentes respostas,
os médicos apontaram quais seriam os fatores preponderantes
e imprescindíveis na relação médico-paciente:
transparência dos dois lados, confiabilidade, honestidade,
respeito mútuo, clima amistoso, educação
e paciência e no atendimento, anamnesia completa e consulta
(exame e diagnóstico adequados, proposição
de tratamento eficaz).
Notas
1) MORTENSEN, C. David. Teoria da Comunicação. Wisconsin,
Mosaico, 1980, p. 11.
2) MORTENSEN, C. David, op. cit., p. 12.
3) HARRISON, Roger. Defenses and the need to know. In: LAWRENCE,
Paul; SEILER, George V. Organizational Behavior and Administration.
Homewood, Irwin and Dorsey, p. 267.
4) BARNLUND, Dean C. Comunicação: o contexto da
mudança. In: MORTENSEN, C. David. Teoria da Comunicação.
Wisconsin, Mosaico, 1980, p. 16.
5) HASTORF, Albert; CANTRIL, Hadley. They Saw a Game: a Case Study.
Journal of Abnormal and Social Psychology 49, 1954, p. 129-134.
6)
WATZLAWICK, Paul; BEAVIN, Janet Helmick; JACKSON, Don D. Pragmática
da Comunicação Humana. São Paulo, Cultrix,
1967, p. 207.
7)
CLEVENGER, Theodore; MATTHEWS, Jack. Feedback. In: MORTENSEN,
C. David. Teoria da Comunicação. Wisconsin, Mosaico,
1980, p. 55.
8)
CLEVENGER, Theodore; MATTHEWS, Jack, op. cit., p. 53.
9)
SIMONS, George J.; McCALL, J.L. Percepção e avaliação
social. In: MORTENSEN, C. David. Teoria da Comunicação.
Wisconsin, Mosaico, 1980, p. 72.
10)
WATZLAWICK, Paul; BEAVIN, Janet Helmick; JACKSON, Don D. Pragmática
da Comunicação Humana. São Paulo, Cultrix,
1967, p. 77.
11)
CONDON JR., John C. Quando os homens se comunicam entre si. In:
MORTENSEN, C. David. Teoria da Comunicação. Wisconsin,
Mosaico, 1980, p. 189-200.
12)
GIBB, Jack R. Comunicação defensiva. In: MORTENSEN,
C. David. Teoria da Comunicação. Wisconsin, Mosaico,
1980, p. 225.
13)
LAING, R.D.; PHILLIPSON, H.; LEE, A.R. Interação
e interexperiência em diádes. In: MORTENSEN, C. David.
Teoria da Comunicação. Wisconsin, Mosaico, 1980,
p. 386.
14)
LAING, R.D.; PHILLIPSON, H.; LEE, A.R., op. cit., p. 387.
15)
LAING, R.D.; PHILLIPSON, H.; LEE, A.R., op. cit., p. 389.
16)
LAING, R.D.; PHILLIPSON, H.; LEE, A.R., op. cit., p. 390-391.
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Devani Salomão de Moura
Reis
Jornalista e Doutora em Ciências da Comunicação,
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