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Ciência,
Saúde e Beleza nas revistas femininas
Isaltina Maria de Azevedo Mello
Gomes*
José Carlos de Mélo e Silva*
Resumo
Neste
artigo analisamos as revistas Corpo a Corpo, Boa Forma
e Plástica e Beleza publicadas nos meses de outubro,
novembro e dezembro de 2004 para verificar como a informação
científica é utilizada para dar respaldo e credibilidade
a novos produtos e técnicas de beleza. Como referencial
teórico-metodológico, utilizamos a Teoria Social
do Discurso (FAIRCLOUGH,2001), que propõe que o discurso
constitui-se da tríade: texto, prática discursiva
e prática social. Pudemos observar que embutida nas matérias
está a ideologia de um mercado de beleza e saúde
que engloba renomados especialistas, médicos e cirurgiões,
clínicas, serviços e produtos da indústria
cosmética, todos atrelados ao mito da beleza feminina e
à conquista da felicidade plena via transformações
físicas.
Palavras-chave:
revistas femininas; mercado de beleza e juventude X saúde
Introdução
A
busca constante pela beleza ideal foi sempre uma grande preocupação
das mulheres contemporâneas, quer através da cosmética
quer através da medicina. A mídia tornou-se uma
aliada da mulher a essa busca interminável já que
os padrões estéticos femininos mudam a cada época
e tornam-se hegemônicos. Foi a partir da imprensa especializada
que as mulheres tomaram conhecimento da evolução
cosmética, dos novos tratamentos embelezadores, dos esteticistas
e das clínicas especializadas. A ciência entra como
informação imprescindível, para dar um suposto
caráter científico ao discurso das revistas destinadas
ao público feminino e assim vender e divulgar produtos
e serviços de estética.
Surgem,
então, alguns questionamentos: como a informação
científica é utilizada para dar respaldo e credibilidade
a novos produtos e técnicas de beleza? Há realmente
a informação científica no discurso das revistas
voltadas a saúde e beleza feminina? Que estratégias
comerciais e publicitárias são usadas por essas
revistas para induzir ao consumo de produtos e serviços
de beleza?
Revistas
como Corpo a Corpo, Boa Forma e Plástica
e Beleza dirigem-se ao público feminino que busca através
de "novidades" sobre tratamentos, produtos e clínicas
atingir uma beleza e juventude plenas. Foi a partir da análise
dessas revistas que buscamos responder aos questionamentos propostos
acima tendo em vista que elas apresentam uma gama de matérias,
reportagens, propagandas, notas e depoimentos relacionados a cosméticos,
cirurgias, tratamentos estéticos, exercícios físicos,
dietas alimentares, enfim um arsenal de assuntos relacionados
à saúde e beleza da mulher. Selecionamos como corpus
desta pesquisa as matérias e reportagens das revistas supracitadas,
publicadas nos meses de outubro, novembro e dezembro de 2004.
Utilizamos
como referencial teórico a Teoria Social do Discurso proposta
por Norman Fairclough (2001). Em sua teoria, Fairclough defende
que o discurso faz uso da linguagem como uma prática social
e não uma atividade puramente individual. Sendo assim,
o discurso implica um modo de ação, "uma forma
em que as pessoas podem agir sobre o mundo e especialmente sobre
os outros, como também um modo de representação."
(FAIRCLOUGH, 2001, p. 91). Ainda segundo esse autor, a construção
e análise de um discurso seguem um modelo tridimensional
reunindo três tradições analíticas
indispensáveis: o texto, prática discursiva e a
prática social. O texto é a materialização
do discurso, "isto é, palavras ou seqüências
mais longas de textos que consistem de um significado combinado
com uma forma, ou de um 'significado' combinado com um 'significante'"
(pp. 102 - 103), promovem a prática discursiva. A prática
discursiva é o processo que "envolve processos de
produção, distribuição e consumo textual,
e a natureza desses processos varia entre diferentes tipos de
discurso de acordo com fatores sociais" (p. 106). E finalmente,
é na prática social onde o discurso tem um caráter
mais amplo envolvendo a ideologia e o poder, sendo este último,
a hegemonia de classes. É no discurso como prática
social que ocorrem as disputas de relações de poder
como luta hegemônica e que acontece a mudança social
via mudança discursiva.
Em
nossa análise, nos apoiamos na proposta de Fairclough para
identificar como a informação científica,
em matérias sobre saúde e estética voltadas
para a busca ou manutenção do mito da beleza e da
juventude feminina, dão sustentáculo a interesses
comerciais.
Caracterização
do Corpus
Nas
revistas analisadas observamos uma atraente programação
visual nas capas e no corpo da revista. A capa geralmente traz
uma foto produzida de uma celebridade, seja ela atriz ou modelo,
trajando biquíni, lingeries ou outros tipos de roupas as
quais enalteçam as curvas femininas, principalmente a barriga,
o "bumbum" e os seios. As chamadas utilizam verbos no
imperativo como "perca cinco quilos", "prepare-se",
"conheça", "aposte e arrase", "aceite",
"concorra", "conquiste", "copie",
etc.
As
revistas Boa Forma e Corpo e Corpo têm uma
linha editorial mais ampla que envolve desde ginástica
e dietas a cosméticos, moda e saúde. Já em
Plástica e Beleza, o universo de assuntos
trabalhados se restringe à cirurgia plástica, cosmética,
tratamentos de estética e odontologia.
Em todas as revistas observamos a existência, geralmente
nas páginas finais, de colunas do tipo "onde encontrar",
muitas vezes denominados de serviços, com endereços
e telefones de lojas de roupas, cosméticos, salões
de beleza, clínicas de estética, hospitais, spas,
consultorias, enfim de tudo o que foi abordado nas notas, dicas
e matérias.
Os
produtos e serviços anunciados se adequam às seções
de cada revista, nas que tratam de cosmética, aparecem
anúncios de creme para celulite, batom, desodorante, creme
depilatório, tintura de cabelo, bronzeadores, entre outras.
Nas seções sobre dietas e saúde encontram-se
propagandas de shake diet, laxante, azeite, geléia, torradas,
barra de cereais. Em Plástica e Beleza, a que apresentou
o maior número de anúncios, as propagandas predominantes
são as de serviços, clínicas e médicos,
principalmente cirurgiões.
As
três revistas são divididas em seções
por assunto ou tema como mostram as tabelas abaixo:
| Revista Boa Forma |
| Colunas |
Temas / Assuntos |
| Garota da capa |
Com uma matéria sobre o que a mulher
que está na capa fez ou faz para se manter em "forma"
e "bonita". |
| Especiais |
São matérias, notas e dicas de
beleza com indicações de produtos. Bons exemplos
foram as "estratégias infalíveis"
com o café da manhã perfeito, (bronze) dourado
bacana com ou sem sol, a boas escolhas no cardápio
do restaurante ou a "operação seca barriga". |
| Fitness |
Propõe à leitora baterias de exercícios
para praticar seguindo as instruções passo-a-passo.
"Ginástica para toda hora" e "projeto
biquíni" são alguns exemplos. |
| Beleza |
Seção voltada a dicas de produtos
de estética ou moda como "cinco máscaras
com efeitos especiais", "bronzeamento a jato: do
branco ao dourado em minutos" e "51 biquínis
que valorizam o que você tem de melhor". |
| Dieta e Nutrição |
Como o próprio nome já diz, esta
seção é dedicada à receitas e
dietas para ajudar a leitora a manter-se em "forma". |
| Saúde e Bem Estar |
São orientações como "7
maneiras de dominar a ansiedade", "Ioga para acordar
e dormir" e "um dia Zem, só seu". |
| Comportamento |
Traz dicas de como se comportar "de bem
com seu corpo - para ser bonita à sua moda". |
| Há também pequenas seções
ou colunas que são permanentes e intercalam as maiores.
Trazem as mais variadas novidades em fitness, cosméticos,
produtos e receitas lights, exemplos e depoimentos de leitoras,
a final, um aparato de dicas voltadas à beleza/estética
e saúde. |
Corpo
a Corpo segue o mesmo estilo de seções da revista
Boa Forma.
| Revista Corpo a Corpo |
| Colunas |
Temas/ Assuntos |
| Na Capa |
Índice das páginas onde se encontram as matérias
das chamadas da capa. |
| Mais Bonita |
Reportagens sobre cosméticos, cirurgias plásticas
e estética em geral. Exemplos: "Derreta as gordurinhas
com novas injeções de alcachofra", "seios
em alta sem cirurgia", "extermine os furinhos (celulites)". |
| Na Moda |
Vem com dicas e sugestões sobre moda: "Tropicaliente:
detalhes exclusivos nos biquínis e maiôs",
"Verão urbano: tecidos leves para driblar o calor". |
| Corpo em Forma |
Traz uma série de matérias sobre ginástica:
"Fitness: mitos e verdades", "Barriga e bumbum
turbinados". |
| Magra Saudável |
Sugere à leitora dietas e dicas saudáveis
com sugestões de produtos. "Dieta do Sanduíche",
"Empadão vapt-vupt", "Perca ½
quilo por dia". |
| Sempre Aqui |
São colunas e seções permanentes que
trazem dicas e novidades sobre assuntos variados, algumas
delas são: "Hits de beleza", "Mudança
radical", "Dez que são 10", "Clínica
de beleza", "Sempre em forma", "Conte
calorias", "Viva melhor", etc. |
Plástica
e Beleza tem um enfoque maior na medicina estética
principalmente na cirurgia plástica.
| Revista Plástica e Beleza |
| Colunas |
Temas/ Assuntos |
| Na Capa |
Índice das páginas onde se encontram
as matérias das chamadas da capa. |
| Plástica |
Apresenta matérias sobre o mundo das
cirurgias plásticas, as novidades e técnicas
desta especialidade médica. Esta seção
possui algumas colunas fixas. Alguns exemplos: "Plástica
da famosa", "Minha plástica", "Plástica
do mês", "Dúvidas de plásticas",
"Lipoaspiração: seu passe livre para o
verão", "Prótese glútea: as
20 questões-chave", "Ganhe um rosto mais
jovem também no verão", "Peito sob
medida", "Dúvidas de plástica",
etc. |
| Beleza |
Também com colunas fixas, traz dicas
e matérias sobre cosméticos e tratamentos de
beleza. "Dez produtos que são demais", "Dicas
de maquiagem", "SOS cabelo", "Saúde
em dia", "Cirurgia de obesidade: uma solução
definitiva", "Transformação radical",
etc. |
| Fique em Forma |
Sugere dicas com dietas, programas de ginástica
e depoimentos de mulheres que emagreceram. Também apresenta
colunas fixas. "Balança equilibrada", "Eu
emagreci", "Malhação das estrelas",
"Corpo em movimento", "A ginástica Ideal
para sua idade", "Enxuta para o biquíni",
"Balança equilibrada", etc. |
| Todo Mês |
São colunas fixas que aparecem no decorres
das seções: "Fale conosco", "Perfil",
"Dez perguntas para (um especialista médico)",
"Viva melhor", "como encontrar". |
| Plástica e Sorriso |
Esta seção apareceu nos dois exemplares
analisados recebendo o nome de caderno especial, no entanto
não se apresentando em separado do corpo da revista.
Aborda uma nova temática nas revistas de beleza e estética
que é a odontologia, vem com matérias sobre
clínicas especializadas e novos tratamentos: "Aparelhos
estéticos: correção ortodôntica
invisível", "Montenegro Odontologia: tecnologia
aliada a tradição", etc. |
A
ciência como sustentáculo do mercado da Estética
Priori (2000, p. 90) afirma:
a associação entre juventude, beleza e saúde,
modelo das sociedades ocidentais, aliada às práticas
de aperfeiçoamento do corpo, intensificou-se brutalmente,
consolidando um mercado florescente que comporta indústrias,
linhas de produtos, jogadas de marketing e espaços nas
mídias.
É
a subordinação da mulher à mídia.
Para
Oliveira (2002), a informação científica
é fundamental para o exercício pleno da cidadania
e para o estabelecimento de uma democracia participativa onde
grande parte da população possa, à guisa
de conhecimento, influir em decisões e ações
políticas ligadas à ciência e tecnologia.
Portanto, cabe ao jornalismo científico divulgar as novidades
e descobertas desta área tão carente em países
emergentes como é o caso do Brasil. Nas revistas analisadas,
no entanto, as informações científicas servem
de gancho para divulgação e venda de produtos e
serviços, os quais bebem no mito da beleza ideal feminina.
As informações científicas são usadas
para construção do simulacro do discurso científico,
na verdade a ciência não é discutida nem questionada,
é apenas usada para validar um produto ou serviço.
A
ciência entra nessa relação como o aval, a
certificação fruto de estudos e experimentos com
resultados satisfatórios. Na construção desse
discurso que se propõe científico, observa-se a
utilização de um vocabulário científico
é utilizado para dar sustentáculo aos argumentos
sobre técnicas, produtos e serviços voltados à
estética, saúde, ciência e tecnologia.
Na
revista Boa Forma, por exemplo, o simulacro da cientificidade
caracteriza o discurso relativo ao produto, serviço ou
técnica. Palavras como calorias, menopausa, gorduras,
radicais livres, celulite, melanoma, raios ultravioleta, acne,
toxinas, triglicérides se apresentam como os inimigos
da beleza e da saúde da mulher e são utilizadas
como problema que será solucionado com a proposta de um
profissional ou produto.
Máscara
dermotensora faz o metabolismo e a renovação
celular; a isometria deixa o corpo durinho; a pílula
bronzeadora estimula a produção de melanina;
vitaminas e antioxidantes retardam o envelhecimento;
os bioflavinóides melhoram a circulação
sanguínea periférica; o triptofano e o magnésio
contribuem para produção de serotonina que
é um neurotransmissor; o colágeno
hidrolisado deixa a pele mais firme; a diidroxiacetona
junta com a queratina produzem a melanoidina a qual
promove um bronzeado marrom-dourado; o extrato de shiittake,
rico em oligo e polisacarídeos, inibe a atividade
das enzimas destruidores das fibras de colágeno
e elastina; dietas ortomoleculares desincham e desitoxicam;
injeções venolinfotônicas à
base de gingko biloba, benzopriona e alcachofra
têm um efeito lipolítico assim como o tiratricol
e a cafeína são exemplos de palavras e expressões
que dão uma "explicação científica"
aos produtos e serviços que visam à beleza e saúde
da mulher, dando sustentabilidade e impressionam por seu caráter
supostamente científico.
Corpo
a Corpo apresenta um léxico com termos oriundos da
medicina estética para mostrar os "inimigos"
da beleza feminina: ácidos graxos das células,
envelhecimento precoce, rugas, manchas, raios solares, irritações,
celulite, refeições hipercalóricas, colesterol
ruim, lipídios, carboidratos, ansiedade, nervosismo.
As
soluções também aparecem por meio de termos
e expressões da ciência e medicina, que sugerem o
uso ou consumo do produto ou serviço: máquina que
reúne ultra-som e impulsos elétricos;
comprimidos anticelulites à base de arginina,
dimetilaminocanol e centelha asiática; argila
verde - rica em quartzo, magnésio, ferro,
potássio, sódio e cálcio
- que revitalizam a epiderme; impulsos elétricos
ativam o metabolismo, acelera a queima de gordura
e combate os nódulos; injeções
de alcachofra esvaziam as células lipídicas
por meio de quebra de gordura; os polifenóis
agem nos receptores de estrógeno e também
ativam a lipólise, um mecanismo que libera os ácidos
graxos das células; vitaminas, alfa-hidroxiácidos,
esfoliantes, polissacarídeos e aminoácidos são
eficazes na renovação celular; produtos low carb
têm baixo teor de carboidratos. Com todo esse aparato
lexical são construídos os discursos que simulam
uma cientificidade propondo, assim, sanar problemas que empatam
a satisfação da mulher através da beleza.
Ainda
nesse sentido, essas revistas utilizam-se de expressões
e termos que já fazem parte de uma cultura da beleza, um
vocabulário próprio que adjetiva "problemas"
ou "defeitos" ou enaltece "padrões"
ou "modelos". A celulite é um dos "defeitos"
que mais se aplica adjetivos: "aspecto de casca de laranja",
"indesejáveis ou temidos furinhos", "tecido
adiposo", "células gordurosas", "ondulações",
"relevo cutâneo". As expressões "barriga
chapada", "cintura fina", "culotes enxutos",
"seios turbinados", "pernas, axilas e virilhas
lisinhas", "corpinho em cima", "silhueta afinada",
"barriga e bumbum durinhos", "curvas poderosas"
são algumas das expressões que instigam a busca
de um corpo ideal.
Em
Plástica e Beleza o léxico segue o mesmo
sistema das anteriores, no entanto, seu vocabulário aparece
mais elementos do contexto médico e os "inimigos da
mulher" podem ser corrigidos pela medicina estética.
Gorduras proeminentes; famosos pneuzinhos; gordurinhas que
não saem de jeito nenhum; gordurinhas rebeldes apresentam-se
como vilões da beleza feminina e são contrapostos
a termos associados a um corpo ideal, que segue um padrão
com medidas perfeitas. Temos alguns exemplos: coxas e panturrilhas
mais grossas; bumbum mais torneado; prótese de silicone;
novo e belo contorno corporal; corpo magro; curvas e musculaturas
bem definidas; corpo perfeito; seios turbinados; corpo escultural;
nariz dos sonhos; expressão jovem; abdome perfeito; sorriso
pra lá de bonito; silhueta sequinha; bronzeado dourado;
pele linda; lábios volumosos; nariz remodelado; cintura
fina.
A
linguagem científica, associada a substâncias químicas
e a técnicas cirúrgicas, dá um caráter
de novidade e solução para problemas que são
postos pelos próprios profissionais ou pela mídia.
A toxina botulítica elimina as rugas; a lipoplastia e o
silicone mamário contornam o corpo; cânulas finas
e menos traumáticas deixam a lipoaspiração
cada vez melhor; a lipoaspiração é a solução
contra os pneuzinhos de gordura localizada e entre elas existem
a lipo ligth, a vibrolipo e a convencional; a abdominoplastia
diminui o tamanho da barriga; a bioplastia utiliza o metacrilico
que é um gel não protéico com microesferas
para modelar partes do corpo como nariz, queixo, lábios
e maçãs do rosto; a drenagem linfática promete
eliminar as gorduras localizadas; injeções de polifenóis
de alcachofra ou hidrolipoclasia aspirativa solucionam a celulite;
a desintoxiredução reduz as medidas corporais; o
laser endovascular e a escleroterapia clareiam as varizes; a retroinjeção
de hidroxiapatita com metilcelulose ameniza as estrias produzindo
o colágeno; a laserterapia mata os pelos pela raiz pois
atinge o folículo piloso; o uso de enzimas ou micropunturações
ou ácido retinóico são utilizados contra
estrias; microdermoabrasão acaba com as rugas e manchas;
a intradermoterapia, usando um hexapeptídeo, tem um efeito
lifting contra as rugas e flacidez.
Outras
armadilhas para seduzir a leitora
Nas
três revistas analisadas observamos que o tempo e o modo
verbais também estimulam o consumo e a venda de produtos
e serviços. Como aponta Buitoni (1990), a utilização
de formas verbais imperativas diminui a faixa de liberdade da
leitora:
Numa
linguagem muito próxima a da publicitária, os textos
dirigidos à mulher são verdadeira comunicação
persuasiva, aconselhando-a a todo momento sobre o que fazer. A
proximidade e a contaminação são tão
grandes, que muitas vezes não distinguimos um texto publicitário
de uma matéria. A matéria parece anúncio
e vice-versa. Publicidade e parte editorial atingem as leitoras
usando os mesmos recursos, o que não é muito louvável.
(pp. 75-76).
Nas
matérias dessas revistas, os verbos estão quase
sempre no imperativo e sempre no lide ou nas chamadas e títulos.
Fique em forma, relaxe que a cintura afina, comece
a refeição pela salada, enxugue o corpinho,
ganhe um corpo mais bonito, acabe com a turma do
boicote, prepare o canudinho, aposte e desfile
fresca e linda por aí, escolha o pão e o
recheio que você mais gosta, perca até três
quilos por semana, surpreenda-se com os resultados, arrase
no biquíni, derreta as gordurinhas, dê
uma força extra para a tecnologia, invista em
drenagem linfática, beba muita água, faça
exercícios físicos, conheça com exclusividade
esse método, acabe com a celulite, valorize
suas curvas, acelere o metabolismo.
As
matérias geralmente vêm acompanhadas por olhos, intertítulos,
subtítulos e chamadas construídos com uma linguagem
que desperta a curiosidade da leitora. Observe o subtítulo
da matéria "Derreta as gordurinhas e arrase no biquíni"
(Corpo a Corpo, Nov. 2004, p. 46): "Barriga chapada, cintura
fina, culotes enxutos. Sim, você pode exibir uma silhueta
assim, incrível, com o novo tratamento de polifenóis
de alcachofra. São injeções que diminuem
até 5 cm em apenas 30 dias, sem tarumas..."
Na
matéria "Pêlos, não", observamos
a mesma estratégia no subtítulo:"Você
pode passar o verão todo com pernas, axilas e virilhas
lisinhas sem ter que recorrer ás sessões quinzenais
de depilação com cera ou semanais com lâmina
ou creme. Bata apostar no laser antes de entrar no biquíni.
Um aparelho moderno promete acabar com os fios indesejáveis
de uma vez." (Corpo a Corpo, Nov. 2004, p. 66)
Os
cosméticos são evidenciados como soluções
para atingir a beleza ideal como também são objetos
de desejo e consumo, que designam um status para quem os usa de
acordo com os preços e marcas. O subtítulo a seguir
é um exemplo:"Além da ginástica,
dieta balanceada e tratamento estético, arme-se
com mais uma aliado na guerra contra os furinhos: os cosméticos.
Eles amenizam, sim, o problema. Selecionamos 24 marcas para todos
os bolsos - eleja a sua e acabe com a celulite."
(Corpo a Corpo, Nov. 2004, p. 70).
Outra
armadilha lingüística utilizada para prender e convencer
a leitora é o tratamento coloquial dirigido à mulher.
Como afirma Buitoni (1981), a imprensa feminina dirige-se à
leitora como se estivesse conversando com ela, servindo-se de
uma intimidade amiga.
Esse
jeito coloquial, que elimina a distância, que faz as idéias
parecerem simples, cotidianas, frutos do bom senso, ajuda a passar
conceitos, cristalizar opiniões, tudo de um modo tão
natural que praticamente não há defesa. A razão
não se arma para uma nova conversa de amiga. Nem á
precisão raciocinar argumentos complicados: as coisas parecem
que sempre foram assim (p. 125).
É
essa estratégia lingüística observada nas matérias
nas revistas estudadas. Cristalizam-se opiniões sobre cirurgias
e tratamentos que vão revolucionar, passam-se conceitos
de saúde, de beleza e dos seus respectivos inimigos. Não
há o espaço para o debate, a discussão científica.
Tudo é mostrado com bom senso. Como exemplo temos os subtítulo
das matérias "Seca Barriga" e "Boa de Biquíni",
da Boa Forma, que trazem o verbo no imperativo e usam uma
linguagem intimista fazendo uso do pronome de tratamento "você"
e o verbo na terceira pessoa do singular:
"Você
se exercita, faz dieta e, ainda assim, a danada da barriguinha
continua ali. Stress, alimentos que inflam e má postura
podem ser os culpados. Calma, que tem solução.
A nossa reportagem especial, batizada de Operação
Seca Barriga, que você vai ler nas próximas
páginas, traz medidas de emergência para entrar no
verão com o abdômen chapado." (Boa Forma,
Out. 2004, p. 62).
Em
Plástica e Beleza também aparecem subtítulos
sugestivos, como exemplificam as matérias "Pernas
Bonitas para o Verão" e "Emagreça Naturalmente":
"O
verão está chegando e você tem que
começar a se preparar para ficar linda na praia. Selecionamos
os melhores tratamentos para deixar as suas pernas mais bonitas.
Acabe com varizes, estrias; faça depilação;
use hidratante e já vá tirando o autobronzeador
da gaveta!" (Plástica e Beleza, Out. 2004, p.
124).
"Os
remédios naturais podem dar uma 'mãozinha' na sua
dieta e fazer com que você perca alguns quilos extras,
sem prejudicar sua saúde. Por isso é bom saber para
que serve cada um deles e qual o nome certo da substância
ativa. Separamos aqui os mais eficientes para ajudar você
a diminuir a barriga. Mas lembre-se: nunca tome remédio
sem orientação médica." (Plástica
e Beleza, Nov./Dez. 2004, p. 122).
O
interdiscurso como aponta Orlandi (2005) é a memória
do discurso, tudo aquilo que já foi dito antes, noutro
lugar. É "o saber discursivo que torna possível
todo dizer e que retorna sob a forma do pré-construído,
o já-dito que está na base do dizível, sustentando
cada tomada de palavra." (p. 31). Através do interdiscurso
podemos analisar o funcionamento do discurso e sua relação
com os sujeitos e a ideologia. No caso das revistas analisadas,
a memória do discurso está associada a antigas técnicas
ineficazes, a produtos que não estão mais em uso,
a antigas tecnologias, a problemas estéticos e de saúde
que "perseguem" a natureza da mulher ou que a impede
de ser feliz ou de melhorar a sua auto-estima. A ideologia vigente,
como afirma Priori (2000), constitui-se numa identidade feminina
associada ao corpo, galgada também na tríade: beleza-saúde-juventude.
Nos
textos analisados, o interdiscurso aparece marcado pela pressuposição,
principalmente quando se refere às novas tecnologias e
inovações que suplantam os impasses e dificuldades
de técnicas anteriores. Segundo Fairclough (2001), as pressuposições
- proposições que são tomadas pelo(a) produtor(a)
do texto como já estabelecidas ou 'dadas' - são
efetivas para manipular as pessoas, porque elas são freqüentemente
difíceis de desafiar. Elas requerem "sujeitos interpretantes
com experiência e suposições particulares
a textos anteriores e, assim fazendo, elas contribuem para a constituição
ideológica dos sujeitos." (p. 156). Esse é
o caso da lipo manual que não precisa de anestesia e nem
corte; da depilação a laser que não é
dolorosa como a de cera; do sutiã que evita a prótese;
do bronze a jato ou do autobronzeador que não causam o
envelhecimento precoce. A seguir, podem-se observar outros exemplos
que deixam implícita a existência de um outro discurso
que prega uma fórmula ou técnica que agora pode
não ser tão útil ou válida para solucionar
os problemas que afetam a estética da mulher:
"O
Dr Edmar Fontoura utiliza durante o procedimento uma aparelho
de vibrolipoaspiração que oferece inúmeras
vantagens sobre o equipamento comum." (Plástica
e Beleza, Out. 2004, p. 67).
Este
trecho dá a entender que existem outros métodos
que trazem desvantagens em relação a este. O exemplo
seguinte deixa implícito que a plástica tem como
desvantagem o corte e ainda o incômodo de ficar internada
(o):
"Para
essas pessoas existe a Bioplatia, uma plástica sem cortes
que consiste no preenchimento, em níveis mais profundos,
de determinadas áreas da face ou do corpo. O método
corrige pequenas falhas e rejuvenesce. E o melhor: o paciente
pode deixar a clínica e ir direto para suas atividades
do dia-a-dia." (Plástica e Beleza, Out. 2004,
p. 100).
O
exemplo seguinte evidencia que as outras técnicas de depilação
não são eficazes e não têm efeito duradouro,
já o subseqüente trecho refere-se aos tratamentos
de varizes e deixa também evidente que há outras
técnicas as quais podem ser artificiais, invasoras doloridas
e mais complexas:
"Porém
a mais eficaz e duradoura é a depilação
a laser." (Plástica e Beleza, Out. 2004, p.
132).
"Além
de ser um tratamento totalmente natural e não-invasivo,
ele é indolor e prático." (Plástica
e Beleza, Out. 2004, p. 134).
Aqui,
também um tratamento de varizes, o trecho sugere a leitora
que os outros tratamentos não podem ser usados no verão.
"A
crioescleroterapia não impede que a pessoa, logo após
as aplicações, curta praia, a piscina e tome sol.
Agora as microvarizes podem ser tratadas no verão."
(Plástica e Beleza, Out. 2004, p. 139).
Nos
trechos a seguir, outros exemplos de interdiscurso.
"Nada de cirurgia e recursos incômodos ou dolorosos
para apagar cicatrizes, rugas ou manchas. Com a técnica
de dermomicroabrasão, você pode melhorar a aparência
de sua pele de uma forma simples e não-invasiva. [...]
Esta técnica, em especial, é a única que
remove células envelhecidas e estimula a produção
de colágeno e células novas, deixando a pele com
aspecto mais suave, macio e saudável." (Plástica
e Beleza, Out. 2004, p. 136).
"As
aplicações são indolores, com o uso
prévio (em casa) de uma pomada anestésica e podem
ser realizadas em qualquer época do ano, sem deixar
marcas roxas ou irritações e o paciente volta as
suas atividades cotidianas normalmente" (Plástica
e Beleza, Out. 2004, p. 137).
"Sucesso total na Feira Cosmoprof Cosmética 2004,
o bronzeamento a jato virou uma opção segura,
rápida e eficiente para quem quer abandonar o branco
total sem encarar horas e horas de sol." (Boa Forma,
Nov. 2004, p. 98).
[o
bronze a jato] é seguro e eficiente. Ele age apenas
na camada mais externa da pele [...], e por isso não
oferece risco de câncer nem envelhecimento precoce da máquinas
de bronzeamento artificial. Além disso, como a aplicação
é feita sem contato manual, o resultado tende a ser uniforme
e pouco propenso a manchas. (Boa Forma, Nov. 2004,
p. 99).
"Acaba
de chegar ao Brasil esta espécie de sutiã aí
da foto, que aumenta as mamas em dez semanas por um sistema
de pressão a vácuo. Acredite: ele estimula o crescimento
sem necessidade de intervenção cirúrgica!"
(Corpo a Corpo, Nov. 2004, p. 66).
Encontramos
também casos em que o interdiscurso ocorre entre a matéria
e as propagandas veiculadas na revista. O caso mais evidente foi
o da reportagem sobre a cantora e dançarina Gretchen, sua
última gravidez e as intervenções cirúrgicas
as quais ela se submeteu: sete lipoaspirações, quatro
próteses de busto e duas abdominoplastias, além
das aplicações de preenchimento definitivo no lábio
superior. A reportagem cita o Dr. Herbert Gauss como sendo o cirurgião
plástico da cantora há 20 anos e ela testemunha:
"Acredito
que a confiança no cirurgião seja fundamental para
quem deseja fazer uma plástica. Com ele eu vou de olhos
fechados. [...] Se eu não tivesse tido meus cinco filhos,
talvez nunca precisasse ter feito nada. Mas gosto muito de ser
mãe e sei que posso ter os filhos que quiser que o Dr.
Gauss vai lá e conserta o estrago." (Plástica
e Beleza, Out. 2004, p. 86).
Quatorze
páginas depois, vem a propaganda do cirurgião plástico
Herbert Gauss que foi citado por Gretchen.
As fontes de informação são a base do discurso
jornalístico, compõem o relato. No caso das matérias
analisadas, os depoimentos de especialistas, como esteticistas
e cirurgiões plásticos renomados, muitas vezes associados
a uma clínica ou universidade; os resultados de pesquisas
principalmente do exterior; os tratamentos fornecidos pelas clínicas
de estética ou até mesmo os testes com cosméticos
e sessões terapêuticas de beleza realizados pela
equipe de produção da revista sustentam e testemunham
a funcionalidade de uma nova técnica, um novo produto ou
um serviço inovador.
Os
esteticistas ou cirurgiões plásticos são
os mais procurados nas matérias, na maioria delas são
a fonte principal ou única, constituindo-se assim na visão
de apenas um lado, o lado bom, promissor, que traz excelentes
e satisfatórios resultados. Segundo Buitoni (1990), as
matérias informativas de revistas femininas caem no discurso
pedagógico trazendo à tona dos textos a opinião
de especialistas. Isso traz uma imposição e uma
ordem pois partem da valorização da autoridade científica.
A palavra é dada ao médico para que ele diga qual
a melhor maneira, a mais eficaz e econômica de eliminar
a celulite, ou deixar a barriga enxuta, ou ainda ter uns seios
do tamanho da atriz da novela das oito.
No trecho a seguir, extraído de Plástica e Beleza,
pode-se observar o uso do recurso à autoridade, e tem por
objetivo convencer a Leitora/consumidora o quanto é simples
e descomplicado um determinado procedimento cirúrgico (a
minilipo).
"A
Dra. Loriti explica a HLC - Hidrolipoclasia: injeta-se soro fisiológico
na área visada. Em seguida, provoca-se uma vasodilatação
do local com um ultra-som externo. O processo é o suficiente
para produzir uma 'quebra' das células gordurosas excedentes,
que seriam expelidas pela urina. Nesse caso, como se vê,
não há nenhum corte, nenhuma incisão.
Mas a técnica pode ser ampliada e melhorada com
um pequeno pique de bisturi num ponto ou região
gordinha. Por esse minúsculo orifício, sob
pressão manual do especialista, a gordura rompida é
então escoada e aspirada com uma delicada agulha."
(Plástica e Beleza, Out. 2004, p. 76)
Outro
exemplo, retirado da matéria "Do branco ao dourado
em minutos", de Boa Forma:
"O
dermatologista Ricardo faz apenas uma alerta: 'nenhuma produto
é 100% antialérgico. Para evitar o problema, uma
dica é, antes de se submeter ao método, fazer um
teste em casa. Use, atrás da orelha, uma pequena quantidade
de um autobronzeador, comprado nas farmácia que tenha como
princípio ativo a diidroxiacetona. SE, no período
de dois dias o local arder, coçar ou ficar vermelho, você
não pode fazer esse bronzeamento' " (Boa Forma,
Nov. 2004, p. 99)
Também
observamos, principalmente em Plástica e Beleza,
o uso constante das notas de serviço intituladas de "consultoria"
no final das matérias. Elas são sugestivas e indicam
onde a leitora pode encontrar o serviço ou produto mencionado
na matéria. Para dar credibilidade e agregar valor, o nome
do especialista vem acompanhado de sua titulação
ou órgão ao qual é credenciado, como no caso
abaixo que se refere à matéria "Ganhe um rosto
mais jovem também no verão":
NÃO PERCA:
Envie um e-mail para
edmardafontoura@cremerj.com.br
com seu nome, idade e endereço e
receba com exclusividade uma
REVISTA EDMAR FONTOURA
Ao
lado dessa nota vem a foto do médico e seus títulos
e créditos:
Dr.
Edimar da Fontoura Lopes Neto (CRM: 522973-0), membro titular
da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, membro titular
do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, membro efetivo
da Associação de Ex-alunos do Professor Ivo Pitanguy,
membro da Internacional Society of Aesthetic Plastic and Plastic
Surgery e membro da Federação Ibero Latino-americana
de Cirurgia Plástica Reconstrutiva. (Plástica e
Beleza, Dez. 2004, p. 49)
Os
serviços e especialistas também aparecem no decorrer
das matérias, sempre associados à novidade ou a
uma vantagem de uma nova técnica ou produto, instigando
a leitora/consumidora a associar a nova tecnologia ao médico
ou à clínica:
"A
Lipo Light pode ser uma opção para quem deseja eliminar
a gordura localizada mas não quer submeter-se à
lipoaspiração tradicional, cujo procedimento e tempo
de recuperação são mais complicados. A Dra.
Luciana Macedo, do centro Avançado de Revitalização
Estética e a Dra. Ana Paula Polato, da Clínica Scolpire
de Cirurgia Plástica, trabalham em parceria na realização
da Lipo Light Aspirativa, uma lipoaspiração de pequeno
porte, otimizada pelo uso do ultra-som." (Plástica
e Beleza, Nov./Dez. 2004, p. 38).
"A
nova técnica na verdade é uma lipoaspiração,
por isso seu procedimento deve ser encarado com (sic) cirurgia,
feita em hospital com toda segurança necessária,
esclarece Dr. Murilo Caldeira, especialista em Cirurgia Plástica
pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP)."
(Plástica e Beleza, Nov./Dez. 2004, p. 40).
É
importante notar que no final dessas matérias segue o endereço
da clínica dos especialistas citados, o registro de cada
uma no Conselho Regional de Medicina (CRM), o telefone e o site.
No corpus analisado, o uso da metáfora bélica é
outra estratégia bastante utilizada. Uma verdadeira guerra
contra a celulite, as estrias, as varizes, os pneuzinhos, a gordura
localizada, as rugas, os seios pequenos. Para Fairclough (2001)
a metáfora está em todos os tipos de discurso, inclusive
nos técnicos e científicos e não são
apenas adornos estilísticos superficiais do discurso. "As
metáforas estruturam como pensamos e como agimos, e nossos
sistemas de conhecimento e crença, de forma penetrante
e fundamental" (p. 241). Fairclough também defende
que:
Algumas
metáforas são tão profundamente naturalizadas
no interior de uma cultura particular que as pessoas não
apenas deixam de percebê-las na maior parte do tempo, como
consideram extremamente difícil escapar delas no seu discurso,
pensamento ou ação, mesmo quando se chama sua atenção
para isso (p. 241).
Com
as metáforas bélicas, é montado um embate:
a mulher, a vítima, tem que lutar com alguns
artifícios propostos nos textos, são as armas,
contra os vilões, tudo o que pode deixar a mulher
fora do padrão de beleza imposto pela sociedade. São
verbos e expressões que instigam essa "luta",
como arme-se contra, detone, elimine, vença, fique atenta,
conotando que para vencer o inimigo são necessárias
disciplina e luta. Os armamentos são os próprios
produtos prontos para ajudar na luta, os suplementos dietéticos,
os autobronzeadores, os cremes anti-celulite, os hidratantes,
o silicone, além das próprias intervenções
cirúrgicas como forma mais radical para vencer a batalha.
Considerações
finais
A mulher sempre buscou, de uma forma ou de outra, a beleza e a
harmonia estética, seja através de produtos, seja
através de técnicas. Ser bela sempre significou
estar bem, ser atraente. Nessa incessante busca, profissionais,
indústrias e cientistas se engajaram em pesquisas para
desenvolver técnicas para melhorar a estética feminina
e juntamente com a indústria cultural desenvolveram padrões
e modelos que hoje são vendidos sutilmente com a promessa
de uma "transformação" de vida, na felicidade
plena.
Os
padrões de beleza e estética têm sido impostos
de forma hegemônica, pela sociedade, principalmente através
da mídia. Em nossa análise observamos que as revistas
Corpo a Corpo, Boa Forma e Plástica e
Beleza utilizam-se de diversas estratégias para agregar
valores a produtos, serviços, marcar e profissionais de
saúde e estética. Entre elas, destacam-se o uso
de um léxico próprio da área de saúde;
o recurso à autoridade, com depoimentos de especialistas;
a utilização de verbos no imperativo; o emprego
de pressuposições e de metáforas bélicas.
Em
alguns momentos a publicidade se confunde com as matérias
e confunde a leitora/consumidora. Como afirma Priori (2000, p.100):
"Argumentos publicitários, produtos de beleza e medicina
vulgarizada nas revistas são mecanismos sutis, mas extremamente
repressivos, que agem sobre o corpo feminino". Uma intervenção
cirúrgica torna-se muito prática e acessível
nas páginas dessas revistas, a felicidade pode ser adquirida
juntamente com um pacote de beleza, ser jovem nunca foi tão
fácil.
Cabe
à própria mulher começar a agir contra a
repressão e a imponência sutil e invasora do consumismo,
via simulacro do discurso científico e se libertar da tríade
beleza-saúde-juventude como proposta de felicidade e satisfação
pessoal. Cabe a mulher se desarmar contra a celulite (para muitos
traço fundamental da anatomia feminina) e se armar contra
as imposições.
Referências
bibliográficas
BUITONI, Dulcília Schoeder.
Imprensa feminina. São Paulo: Ática, 1990.
BUITONI, Dulcília Schoeder.
Mulher de papel: a representação da mulher na imprensa
feminina brasileira. São Paulo: Loyola, 1981.
FAIRCLOUGH, Norman. Discurso e
mudança social. Brasília: UnB, 2001.
OLIVEIRA, Fabíola. Jornalismo
científico. São Paulo: Contexto, 2002.
PRIORI, Mary Del. Corpo a corpo
com a mulher. São Paulo: Senac, 2000.
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Isaltina Maria de Azevedo Mello
Gomes
Jornalista, doutora em Lingüística pela Universidade
Federal de Pernambuco (UFPE), professora do Programa de Pós-Graduação
em Comunicação da UFPE. e da graduação
em Jornalismo da UFPE.
José Carlos de Mélo
e Silva
Aluno do Departamento de Comunicação Social
da UFPE e bolsista de Iniciação Científica
Pibic/CNPq/UFPE.
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