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A
institucionalização da imagem e identidade dos medicamentos
Filomena M. A*
Márcio Roberto Silva*
Resumo
Este
artigo visa, por meio do modelo semiótico peirceano, constatar
qual o significado dos medicamentos éticos (medicamentos
de venda livre) e não éticos (medicamentos de venda
restringida pela receita médica), comercializados por farmácias,
perfumarias, e drogarias, prescrito por médicos, divulgados
por anúncios publicitários, dirigidos exclusivamente
para a classe médica e consumido por trabalhadores das
indústrias e empresas instaladas no município de
Arcos/Centro Oeste de Minas Gerais. Cabe averiguar como o contexto
construído pelas relações de trabalho influencia
a geração de signos em torno da mercadoria medicamento.
Em tese, a relação acima apontada é regida
por significantes culturais, representados por signos imagéticos
e verbalizados, capazes de indicarem, simbolizarem e indiciarem
elementos referentes à saúde, doença e mercadoria;
ao mesmo tempo; estes signos desencadeiam uma relação
genuína entre prescritores, comercializadores, consumidores,
divulgadores e distribuidores de medicamentos. Neste sentido,
a teoria de Peirce (1977), oferece bases para estudos sobre a
construção de significados e sentido concernentes
ao medicamento, enquanto mercadoria, em Arcos, MG.
Palavras
Chaves: mercadoria medicamento; publicidade; sistema
de signos; significado de saúde.
Este
artigo analisa, pelo ponto de vista da semiótica peirceana,
a influência da publicidade de medicamentos Éticos
e Não-éticos, dirigida aos médicos, para
o fenômeno de construção de significados mercadológicos
concernentes aos medicamentos para outros atores, envolvidos no
processo de prescrição e comercialização,
como comerciantes farmacêuticos e consumidores. São
consideradas nesta pesquisa as campanhas publicitárias
dirigidas exclusivamente à classe médica, consumidores
desses medicamentos, e farmácias responsáveis pela
distribuição dos mesmos, na cidade de Arcos/MG.
A
realização de um estudo desta natureza demanda a
delimitação de um espaço geográfico,
onde se possa realizar a coleta de dados referentes aos medicamentos.
Selecionou-se, então, a cidade de Arcos / MG, considerando-se
a influência do contexto industrial e empresarial no processo
de significação da mercadoria medicamento.
O
medicamento, enquanto mercadoria, acompanha a lógica do
mercado produtor para o consumidor. É um objeto de estratégia
mercadológica, está presente nos anúncios
publicitários, é negociado e distribuído
para farmácias, drogarias e perfumarias como se fosse qualquer
outro produto de venda no varejo. O medicamento é tratado
como mercadoria, mas sua produção, distribuição
e comunicação são protegidas por legislações
específicas e diferenciadas, no sentido de impedir a automedicação
e banalização do consumo de remédios para
uma sociedade que se preocupa, busca recursos para manter a saúde
durante toda a vida e acaba enfrentando riscos. Um dos riscos
enfrentados por essa sociedade é a toxicomania que, para
Pignarre (1999), significa que, ao mesmo tempo em que o medicamento
escapou de seus modos habituais (o consumo para combater doenças),
e, ao mesmo tempo, é consumido fora do circuito em que
o diagnóstico e indicações coincidem, mesmo
que o consumo de medicamentos signifique a inibição
de práticas educacionais para a saúde preventiva
e maiores despesas para o orçamento doméstico.
A
situação não é diferente na cidade
de Arcos, localizada no Centro-Oeste mineiro, onde o processo
de comercialização dos medicamentos permite supor
ser capaz de dar a ele o status de signo social mercadológico.
As farmácias, drogarias e perfumarias do município
possuem uma estrutura física semelhante às lojas
de conveniência e o processo de vendas se iguala, em parte,
ao estilo self service, através do qual o cliente desfila
por diversas prateleiras, escolhe sua mercadoria e, em seguida,
vai ao caixa e compra o seu produto. Esta hipótese baseia
se nos estudos de Lefrève (1991), quando sugere que, com
esse modo de comercialização, o medicamento acaba
passando, implicitamente, a simbologia de produto análogo
aos vendidos em supermercados.
Essa
relação de consumo e comercialização
de medicamentos, para se sustentar, utiliza recursos e estratégias
de publicidade, e está diretamente em conformidade com
os estudos de Campos (1987), na referência à publicidade
como o discurso que busca, através de um engenhoso trabalho
sobre os diversos signos disponíveis, a criação
de um efeito encantatório, capaz de provocar impulsos de
compra no consumidor. Esses efeitos podem ser vistos como reflexo
do forte apelo de venda, configurado em discursos compostos de
significantes culturais. O anúncio publicitário
intermedia os consumidores e produtores de mercadorias, além
de contribuir para a promoção de serviços,
produtos e idéias para o público, que, por sua vez
é considerado pelos especialistas em marketing como sujeito
cujos desejos e necessidades são passíveis de se
satisfazer por produtos e serviços supostamente adequados
às suas carências.
Assim,
as relações de produção e consumo
de medicamentos, por mobilizar significantes culturais, caracteriza-se
como fenômeno social. Para melhor compreender essas relações,
esta pesquisa adota o modelo teórico de Charles Sanders
Peirce (1) (1977), que atenta para significados e sentidos dos
signos( algo que diz alguma coisa para alguém em algum
aspecto ou capacidade) pelo prisma da semiótica, ciência
que investiga todas as linguagens, ou seja, examina os modos de
produção de significados e sentidos, sem privilegiar
nenhum tipo de mensagem em particular, e permite considerar o
fenômeno social como sistema de signo uma vertente da semiótica
capaz de abarcar o processo de geração de significados
na complexidade dessa relação; processo esse configurado
por gamas de representações sígnicas geradas
a partir das inter-relações dos atores sociais e
meios representativos dos signos. Uma análise que envolve
elementos relativos à publicidade, em si, não poderia
desconsiderar cadeias semiósicas complexas, que ultrapassam,
muitas vezes, o discurso verbal.
A essa consideração do contexto ou sistema social
como gerador de signo associa-se a idéia de que os emissores
antecipam a compreensão do receptor, ao escolherem a forma
da mensagem aceitável para o destinatário. Assim,
a própria codificação acaba por ser influenciável
pelas condições das decodificações.
Assim, o intercâmbio sígnico entre a publicidade
e os atores responsáveis pelo processo de comercialização,
distribuição, divulgação e consumo
são capazes, portanto, de construir novos significados
sobre a mercadoria medicamento.
Cumpre,
a partir daqui, esclarecer alguns pontos de vista sob o qual este
trabalho se norteia. O primeiro deles é a noção
de medicamento, que, atualmente possui diversas e complexas categorias
classificatórias. Considera-se Medicamento: todas substâncias
que apresentam propriedades curativas ou preventivas das doenças,
aprovados pela Agência de Vigilância Sanitária
para distribuição e consumo (ANVISA). Entre essas
categorias, acentuam-se duas: medicamentos Não-éticos,
que só podem ser vendidos com receita médicos, e
Éticos ou populares, comprados livremente em farmácias,
drogarias e perfumarias.
Outro
aspecto a se esclarecer é que, como constituintes do universo
de consumidores de medicamentos, este estudo considera trabalhadores
de empresas da cidade de Arcos-MG.Como prescritores, médicos
especialistas em medicina do trabalho considera como distribuidores,
farmácias e drogarias do município.Todos, juntos,
com os materiais de comunicação referentes aos medicamentos
e dirigidos para a classe médica, compõem a amostra
da pesquisa.
Para
desenvolvimento da pesquisa, utiliza-se pesquisa quantitativa,
com a finalidade de constatar as duas doenças mais comuns
diagnosticadas em trabalhadores, e os dois medicamentos mais prescritos
e distribuídos. Esse número foi determinado pela
necessidade de delimitar, em amplo universo, as bases de amostra.
O
estudo se desenvolve com base nas seguintes constatações:
a depressão e a inflamação são as
doenças comumente encontradas no universo pesquisado. A
primeira, refere-se ao distúrbio mental caracterizado por
desânimo, sensação de cansaço, cujo
quadro muitas vezes inclui, também, ansiedade, em grau
maior ou menor. Em segundo lugar figuram as doenças decorrentes
de disfunções ósseo-musculares, como a dorsalgia
e a lombalgia, consideradas pela medicina como reflexo de uma
reação protetora, localizada, produzida por tipos
diferentes de agressão (física, química,
alérgica, microbiana), que se destina a destruir, diluir
ou isolar tanto o agente agressor quanto o(s) tecido(s) lesado(s).
Os
medicamentos mais comuns comercializados, como etapa do processo
terapêutico, para sanar as referidas doenças, são
os antidepressivos e os antiinflamatórios.
Para
analisar as relações de significados a que remetem
esses resultados e a relação deles com a publicidade,
recolhem-se oito campanhas sobre os referidos medicamentos, para
efeitos de análise qualitativa, aleatoriamente escolhida,
nas mídias especializadas para classe médica: Jornal
Brasileiro de medicina e Revista Brasileira de Ortopedia.
Considera-se o depoimento de oito consumidores de cada um dos
referidos medicamentos; quatro comerciantes farmacêuticos
responsáveis pela distribuição dos mesmos
e dois médicos especialistas em medicina do trabalho.Seus
depoimentos estão gravados e transcritos.
O
levantamento quantitativo sobre as marcas de medicamentos mais
consumidos no universo pesquisado deu-se através de sondagem
com os médicos e os comerciantes farmacêuticos do
município.
Para
endossar as conclusões realiza-se pesquisa quantitativa
nas empresas e indústrias do município. Adota-se
como critério de amostras o depoimento e respostas de trabalhadores
de indústrias e empresas conveniadas com médicos
e farmácias.Os depoimentos e respostas de médicos
especialistas em medicina do trabalho. Os depoimentos e respostas
dos proprietários de farmácias.
Os
instrumentos adequados para coletas dos dados são gravador
e questionários fechados. O primeiro é para coletar
os depoimentos, o segundo para coletar as respostas sobre quais
medicamentos mais consumidos entre os trabalhadores das empresas
arcoenses.
Com
base dos pressupostos básicos da semiótica, procura-se
entender a mecânica de atribuição de significados
e sentidos aos medicamentos pelos referidos sujeitos envolvidos
no processo de divulgação, indicação,
prescrição e consumo, são eles: publicidade,
farmácia, médico e consumidor.Conforme se estabelece
a partir de agora.
A publicidade, enquanto técnica para promover alguma coisa
(marcas, produtos ou serviços) para alguém ou alguma
classe em um determinado contexto social, faz uso de uma gama
de signos, a fim de gerar na mente do receptor signo positivos
acerca do objeto que promove. Isso vai ao encontro das considerações
de Barreto (2002, p. 105), quando afirma que:
A publicidade é irracional, unilateral, discriminatória,
apenas pseudo-coloquial. Ela persuade, move as pessoas: através
de informações ideologicamente verdadeira ou não,
através da humanização, sincera ou não;
através de simbolismo e folguedos freudianos; através
do erotismo e promessas em todos os seus sentidos; através
tantas vezes, de uma atmosfera onírica, irreal.
Em
consonância com os estudos de Barreto, e baseando-se na
Semiótica e Semiologia, Campo (1987) estudou os discursos
publicitários, levando em conta a técnica, a retórica,
a ideologia e cultura presente nas cores, imagens, formas e objetos
que se relacionam com o consumidor e a sociedade. A autora ainda
constatou que o anúncio publicitário objetiva a
promoção de produtos, bens e serviços através
da exploração da potencialidade significativa de
cada signo utilizado. A publicidade apropria-se de textos cuja
proposta ideológica original está quase sempre presente
em oposição com a do anúncio; inverte e submete-o
à sua lógica para assegurar uma relação
imaginária com o receptor. Enquanto fenômeno de sentido,
a publicidade é sujeita ao regime de forças que
rege o sistema produtivo, realimentando-o, reduplicando-o e assegurando
seu equilíbrio e dominação.
"O
anúncio publicitário nutre-se do universo cultural
de seus receptores, fala várias linguagens, usa vários
léxios, adequando-os a sua função de persuasiva
aos diferentes universos que se destina. Ao se apropriar de outro
discurso, a publicidade se propõe homenageá-los.O
sentido para o receptor no nível do conteúdo manifesto
é ao mesmo esta homenagem.Entretanto,o que realmente se
verifica é que, ao fazê-lo, o discurso publicitário
inverte esse discurso,submetendo a sua lógica devoradora,
esvaziando-o de seu caráter. Campos: (1987,52)
A composição de peças publicitárias
lança mão da manipulação de diversos
signos, reflexos da cultura e identidade de uma determinada sociedade,
conforme constata - se nos pressupostos acima mencionados. Embora
se refiram genericamente à publicidade clássica,
servem como reflexões fundamentais para análise
do papel desempenhado da publicidade de medicamentos no processo
de atribuição de signos relativos a essa mercadoria,
uma vez que o presente trabalho considera as atribuições
de significados e sentidos mercadológicos para a mercadoria
medicamento, no processo de consumo, comercialização,
prescrição e divulgação através
de peças, exclusivamente, dirigidas para classe médica.
As
campanhas direcionadas para os médicos através das
mídias especializadas em medicina, aliadas às informações
levadas pelos representantes do laboratório, orais, verbalizadas
e ou imageticamente representadas pelos anúncios em "folders"
constituem, basicamente, a maior parte dos investimentos publicitários
utilizados pela indústria farmacêutica. Neles, a
linguagem do anúncio combina expressividade lingüística
com informações técnicas sobre o medicamento.
Nas
peças, encontra-se exploração exagerada de
redundância na apresentação dos atributos
referentes ao produto.Além da utilização
da metalinguagem, ou seja, o anúncio falando do próprio
anúncio. Fotos resolúveis das caixas de remédios,
nomes comerciais, posologias, apresentações e quantidade
são informações no layout impresso e são
reescritas nas bulas encontradas também no anúncio.
A logomarcas dos laboratórios reaparecem várias
vezes na mesma divulgação, inclusive na foto da
caixa do medicamento e na assinatura no rodapé da página.
Outros
recursos expressivos comumente averiguados nas duas categorias
de anúncios analisadas são as metáforas e
as metonímias. A metonímia é a substituição
de um nome por outro em virtude de haver entre eles algum relacionamento.No
caso do medicamento, atributos referentes à saúde
estão contidos, simbolicamente, no continente, caixa de
medicamento.
A
metáfora, por sua vez, trata-se de comparar algo com alguma
coisa, sem fazer uso de preposição. Os predicados
necessários para restauração da saúde
humana tornam-se referentes à eficiência da mercadoria.
Metáfora,
metonímia, metalinguagem e redundância, recursos
lingüísticos prioritariamente usados nas mídias
direcionadas para o principal formador de opinião dos consumidores
e comerciantes de medicamento: o médico, que por sua vez
admite que suas principais fontes de informação
sobre os medicamentos restringem-se as mídias especializadas
e o representante do laboratório.Como se vê no exemplo
abaixo:
O
grande ensinamento que agente tem é o dono do laboratório
que vem que te traz medicamento novo e que te traz conhecimento
e que te traz monografia dos medicamentos, talvez seja a maior
fonte de informação ele já te traz a coisa
mastigada está pronto e os congressos. Inclusive o fato
de sua convivência com outros médicos. (Depoimento
A)
O
médico tem um papel fundamental na influência das
vendas e geração de signos referentes aos medicamentos,
uma vez que, a receita prescrita é levada até o
balconista da farmácia. O comerciante tem-na como base
para realizar novas indicações.Como se verifica
nem nestes depoimentos:
O
balconista da farmácia, ele não tem uma preparação
e lembra de alguma prescrição,mas ele indica para
outro, por analogia.(depoimento B)
Mesmo
sabendo que cada organismo tem características próprias,ainda
assim a gente vai ligando os fatos,pois os anos de comercio farmacêutico
permitem isso essa capacidade,então a gente indica ou o
remédio ou médico. ( Depoimento F)
No
discurso dos farmacêuticos, averigua-se a atribuição
de relevância aos processos empíricos para constatação
da doença, e ao mesmo tempo, reconhecimento das limitações
acerca de seu conhecimento para diagnosticar e indicar o medicamento.
Além disso, constata-se a referência de seus conhecimentos
determinados pelas receitas médicas que chegam-lhes diariamente
pelos pacientes:
Muitas
vezes a agente vende sem indicação do médico,
mas é melhor se for ao contrário. (Depoimento A)
No entanto, essa consideração não é
suficiente para impedi-los de exercer a indicação,
o que contribui para construção do processo de automedicação
para o paciente.
O
comerciante ao indicar acaba contribuindo para a defasagem que
há entre a demanda e oferta. Ele age para desafogar, muitas
vezes prejudica financeiramente e a saúde do paciente.(Depoimento
A)
Portanto,
discurso do comerciante é incoerente com sua atitude, dizem
saber que a automedicação é um problema para
a saúde pública, tal como consideram os médicos,
mas a necessidade de fazer escoar a mercadoria para custear as
despesas do comércio farmacêutico, bem como obter
os lucros necessários para sobrevivência da empresa,
fazem com que a postura não obedeça a ética,
o que torna comum o consumo dos medicamentos "livremente"
como consome-se alimentos. Um fenômeno natural, uma vez
que o consumidor é incapaz de criar sentidos quimioterápicos
reais e genuínos para os signos referentes aos medicamentos,
em grande medida, em função do direcionamento destas
informações, exclusivamente, para os médicos.
Assim
o medicamento, analogamente, configura-se sua representação
para o paciente, como uma "mercadoria alimentícia",
que lhe serve para viver, trabalhar e socializar. Um processo
no qual, o consumidor correlaciona os signos referentes à
saúde com representações prévias referentes
ao seu conhecimento diário, como as mercadorias para as
dietas necessárias em seu cotidiano.
...
Assim, por exemplo, se eu quero beber cerveja, se estiver tomando
o remédio, eu só bebo quando acabar o efeito.(depoimento
P)
Deste
modo, o desencadeamento de significações sobre os
medicamentos encontra se pilares em três agentes, onde o
primeiro, médico atribui sentido à mercadoria, a
partir de seu conhecimento prévio a cerca dos objetos do
exame, doença e farmacologia, entre seus referencias e
determinantes, encontra-se também a publicidade; para o
segundo, do processo mercadológico: o proprietário
da drogaria, por sua vez, busca referências nas receitas
e bulas, e o terceiro, o consumidor forma sua compreensão,
razões, sentidos e significado sobre o medicamento com
base no discurso que lhe chega e ou pelo médico e ou comerciante
farmacêutico.
Assim,
compreende-se o processo de construção de significados
e sentidos constados sobre a mercadoria medicamento, dentro do
aspecto sócio-empresarial-industrial em que a ordem cíclica
é mantida por grandes instituições representadas
por traços indiciais, como mostra o presente trabalho,
ao salientar as seguintes perspectivas: o anúncio, representante
da mercadoria medicamento, com signos expressivos dos atributos
e valores intangíveis, como saúde e doença,
mas, ao mesmo tempo, abstraído em valores tangíveis
e mensuráreis, signos que marcam na memória do especialista
o ícone da instituição, desencadeando-se
disso um processo pelo qual os atributos passam a tornar-se símbolo
da doença, ou seja, simboliza-se a saúde através
da prescrição. A receita indica o remédio,
mas indica a autoridade médica, legitimada e institucionalizada.
O lugar ocupado pelo ambiente farmacêutico é parte
de todo o fenômeno - uma síntese em que receitas,
produtos e comercialização se encontram - uma parte
da a regência, harmonicamente seguida, para manterem suas
funções e, ao mesmo tempo, manter o escoamento de
medicamentos, o que sustenta o processo de fabricação
e distribuição da mercadoria por parte das grandes
corporações de laboratórios.
O
direcionamento centralizado de informações sobre
medicamentos para a classe médica, através do representante
comercial, congressos e publicidade, contribui para a monopolização
sobre assuntos relevantes e pertinentes sobre essa mercadoria
no conhecimento de um só dos atores sociais contribuintes
para o processo de comercialização. Em tese, o laboratório
que possuir o processo de comunicação mais eficiente,
também é capaz de monopolizar o mercado de distribuição
de medicamentos.
Além
disso, a prática comunicativa inibe debates e discussões
públicas sobre o assunto, uma vez que o mais interessado
é o consumidor, e faltam informações sobre
o medicamento para essa classe, o que favorece a banalização
do consumo do medicamento, principalmente quando aliado ao fato
de ser anunciado e comercializado como os alimentos encontrados
em vendas de varejo.
Se,
por um lado, há excesso de informações sobre
medicamentos para a classe médica, a ponto de contribuir
para que haja apenas fragmentos sobre qual medicamento receitar
(o prescritor é muitas vezes induzido somente pela marca,
por exemplo), por outra perspectiva, a escassez de informações
sobre o medicamento para proprietários de farmácias
e consumidores conduz ao raciocínio indutivos sobre qual
medicamento usar mediante a determinado sintoma e prescrições
médicas anteriormente realizadas. Afigura-se, nesses contextos,
um processo generalizado de atribuição de símbolos
de saúde, doença e medicamentos, a partir dos sintomas.
O
que permite acreditar na necessidade de reverter o processo da
ação publicitária no fluxo comunicativo de
informações sobre medicamentos? Ao invés
de concentrar-se todas as informações sobre o remédio,
mesmo os Éticos, para a classe médica, conforme
exige a lei, poder-se-ia socializar as informações
sobre a mercadoria para consumidores e comerciantes, o que permite
supor que a atuação da publicidade é imprescindível,
pois a técnica faz uso de signos presentes na ética
cotidiana, capazes de traduzir, de forma clara, atraente e educativa,
informações verdadeiras sobre mercadorias, cujo
o consumo é diferenciado. Ao contrário disso, o
medicamento pode sair do ciclo de seu propósito e significar
riscos para a saúde humana.
Pode-se
dizer que a publicidade, hoje, contribui para esse risco de que
o medicamento seja consumido desenfreadamente. Observa-se que
as peças publicitárias funcionam como ferramentas
capazes de inverter os sistemas de idéias presentes na
ética social e servir como manutenção do
sistema produtivo. Isso, como foi visto, é constatado nos
estudos de Campos, que sugere que a publicidade inverte as ideologias
presentes no meio social para construir uma relação
entre anúncio e receptor e, ao mesmo tempo, alimentar o
sistema responsáveis pelos produtos e anúncios comunicativos
dos mesmos.
Ao
presente trabalho, quando aponta a técnica publicitária,
e sua intenção de acelerar o consumo, produção
de medicamentos e fortalecer a idéia da automedicação,
simbolizada pela premissa: Ao persistirem os sintomas o médico
deve ser procurado.A premissa sintetiza e fortalece a idéia
da automedicação, uma vez que a consulta deve ser
"procurada", se medicamento não funcionar eficientemente
contra os "sintomas".
Como
a publicidade poderia contribuir positivamente com a questão,
considerando-se essa positividade pelo ponto de vista da responsabilidade
social ou do dever de cidadania a que está atrelado todo
profissional, e sem exceção aos publicitários?
Como
hipótese de resposta a essa questão, pode-se dizer
que a publicidade poderia contribuir no sentido de prestar esclarecimentos
sobre a situação dos medicamentos, igualitariamente
para todas as classes, baseando-se em preceitos morais e éticos,
voltando-se para a procedência e eficiência reais
sobre o produto, saúde e doenças, para todos os
responsáveis pela socialização desse complexo
signo, que se torna aspecto de símbolo social.
Um
símbolo social, hoje, interpretado de maneiras diversificada
pelos diferentes atores sociais responsáveis pela socialização
dos signos referentes ao medicamento, entre si.São eles,
comerciantes, médicos e consumidores. Para o primeiro o
medicamento refere-se a uma mercadoria, para o segundo
representa o quimioterápico e para o terceiro, um
alimento. Mas existe um quarto ator, o publicitário,
este, no processo de configuração do anúncio,
considera todos os sujeitos mencionados e a representação
do medicamento para os mesmos. A divulgação do medicamento
através da publicidade, permite considerar o conceito de
signo como "algo dito para alguém, em algum aspecto
ou capacidade". Mas este algo é criado por alguém,
neste caso, o publicitário.A publicidade é um signo
criado por alguém para dizer alguma coisa para algum grupo,
em algum aspecto ou capacidade. A composição do
anúncio publicitário considera o medicamento como
objeto, releva-se signos relativos aos aspectos mercadológico
da cultura capitalista e os receptores: médicos, consumidores
e comerciantes. Neste sentido, intenciona-se construir peças
capazes de gerar os símbolos ideais para tornar atrativa
a mercadoria, de modo que, acortine qualquer indagação
sobres os riscos referentes a banalização do consumo
de medicamentos.
Por
isso, nas peças publicitárias, o medicamento deixa
de ser objeto ao torna-se representação de saúde.
Conforme Pierce, o signo é algo que está no lugar
de alguma coisa. O medicamento é a representação
da Saúde em química, comerciável e alimentável.
Objeto que necessariamente precisa ser consumida nos dias atuais
em forma da mercadoria medicamento, onde se encontra contido,
simbolicamente, habilidade e não-dor como ícones
de saúde, além de representar acréscimo
de saúde, quando é dispensado nos armazéns
das casas, nos bolsos ou bolsas, para ser consumido, no momento
em que o desprazer causado pela dor aparece. A dor física
gerada pela inflamação, ou a dor na "alma"
gerada pela depressão.
A confecção das peças publicitárias
de medicamentos, pressupõe a inscrição dos
signos que envolvem a cultura e identidade de uma comunidade para
onde a peça se dirige.
Acredita-se, os publicitários responsáveis pelos
anúncios consideraram o contexto social, onde saúde
é um bem que permite o desempenho humano. A necessidade
de fazer escoar a mercadoria em larga escala e as diversas perceptivas
desta mercadoria pelos atores envolvido no processo de prescrição,
comercialização e consumo.
Além
disso, a figura do médico como formador de opinião
no contexto de construção de significados relativos
à mercadoria medicamento, é uma condição
relevada pelos publicitários.
Para
o especialista são dirigidos significantes, na perspectiva
do consumidor e comercializador.São as informações
relativas à medicina, química e farmacologia referente
ao remédio. Elas vão para o médico através
de monografias e pesquisas. Elas chegam até eles pelos
representantes comerciais e ou congressos.
As peças publicitárias apenas sintetizam as informações
científicas sobre o medicamento em suas bulas, nome e princípio
ativos presentes. O médico ao prescrever uma marca, receita
um significado de saúde para o paciente, que por sua vez,
o socializa com o comerciante e outros consumidores, mas num aspecto
distinto como é socializado para classe médica.
O especialista não só decodifica e representa o
sintoma pelo nome doença, mas transmite para o paciente
o medicamento, que a publicidade encarregou de traduzir em marcas
e nomes comerciais, de fácil memorização
e atrativa leitura, para o médico. Normalmente o nome do
medicamento assemelha-se ao princípio ativo. Por exemplo:
Meloxcam (princípio ativo)/ Nome comercial ( Meloxil).
Um nome comercial representa o principio ativo por semelhança,
e torna-se sinônimo do mesmo, por compartilhar com ele signos
morfológicos.
A
manipulação das informações e das
representações dos significados e sentidos sobre
medicamentos propõe apresentar a saúde como desejo
humano, no sentido maslowniano do termo. Um desejo passível
de se fazer satisfeito através da aquisição
do medicamento, enquanto mercadoria.
Notas
1)
O autor é um dos principais representantes do Pragmatismo
Americano.
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Filomena M. A
Doutora em Comunicação e Cultura pela UFRJ.
Márcio Roberto Silva
Bacharel em Comunicação Social, habilitação
em Publicidade e Propaganda pela Pontifícia Universidade
Católica de Minas Gerais-Arcos.
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