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Comunicação
e Humanização: a reconstrução do relacionamento
médico - paciente como critério de qualidde na prestação
de serviço
Maria Rosana Ferrari Nassar*
Resumo
O
trabalho aborda a comunicação como fator importante
na reconstrução do relacionamento entre médico
e paciente, no sentido de uma prática médica humanizada.
Reflete sob a perspectiva da comunicação interpessoal
(entre médico e paciente) como um aspecto que repercute
na qualidade do serviço prestado pelas organizações
de saúde, no modo como este é percebido pelo usuário.
O trabalho pondera, ainda, sobre a comunicação entre
médico e paciente como dimensão do processo de humanização
da prática médica que se consigna na observância
da conduta ética, no respeito aos direitos dos pacientes
e no tratamento destinados às pessoas e não às
doenças. A discussão é permeada, primeiramente,
pela questão da formação do médico,
considerando a necessidade de desenvolver habilidades comunicacionais,
além do conhecimento técnico e, também, na
preparação do profissional de comunicação
para a atuação junto à área da saúde.
Palavras-chave:
Comunicação; humanização; relacionamento;
qualidade; formação.
Introdução
Este
trabalho aborda a comunicação como fator importante
na reconstrução do relacionamento entre médico
e paciente, no sentido de uma prática médica humanizada.
Reflete sob a perspectiva da comunicação interpessoal
(entre médico e paciente) como um aspecto que repercute
na qualidade do serviço prestado pelas organizações
de saúde, no modo como este é percebido pelo usuário.
O trabalho pondera, ainda, sobre a comunicação entre
médico e paciente como dimensão do processo de humanização
da prática médica que se consigna na observância
da conduta ética, no respeito aos direitos dos pacientes
e no tratamento destinados às pessoas e não às
doenças. A discussão é permeada, primeiramente,
pela questão da formação do médico,
considerando a necessidade de desenvolver habilidades comunicacionais,
além do conhecimento técnico e, também, na
preparação do profissional de comunicação
para a atuação junto à área da saúde.
A
análise é construída por intermédio
de pesquisa bibliográfica e documental, focada no eixo
comunicação, humanização, relacionamento,
qualidade de serviço e formação do médico
e do profissional de comunicação, sob a perspectiva
da necessária interface entre as áreas de conhecimento,
portanto, comprometida com o olhar plural, não fragmentado,
em busca de práticas sociais mais justas e humanas.
Humanização
das práticas médicas e qualidade do serviço
À
primeira vista, numa perspectiva reducionista, parece impossível
conciliar humanização e qualidade, ambas parecem
contrapor-se: humanização surge como uma bandeira
de luta contra a mercantilização dos serviços
médicos, e a qualidade como um poderoso instrumento de
marketing, constituindo-se em privilégio para quem pode
pagar.
Com
efeito, a expressão humanização tem figurado
com freqüência na área da saúde, tanto
no setor público como no privado. Tem sido utilizada como
justificativa para várias iniciativas, sendo comumente
empregada no sentido de associação dos recursos
tecnológicos ao reconhecimento de direitos do paciente,
compreendido como sujeito cultural e integral. Esse é o
sentido corrente que tem sustentado discursos, planejamentos estratégicos
de gestão das instituições, práticas
e políticas como critério para avaliação
da qualidade dos serviços.
Tem-se,
então, que o conceito de qualidade é dialético,
pois envolve perspectivas, valores, crenças e necessidades
que mudam ao longo do tempo. Mesmo contemporaneamente, não
existe um conceito universal, embora figure com bastante freqüência
no discurso de prestadores de serviços, produtores, da
mídia, do poder público, nos documentos legais e
nas reivindicações dos consumidores.
Contudo,
fiel aos objetivos deste trabalho, entendemos a qualidade como
um processo que tem como foco o ser humano. Nesta perspectiva,
embasamo-nos no pensamento de Demo (1994:21) para quem:
Qualidade
de verdade só tem a ação humana, até
porque é típico produto humano, no sentido de construção
e participação. A qualidade original é a
competência de fazê-la, assim como construir a capacidade
de construir e de participar é a qualidade humana primordial.
Ainda
para Demo (1994:9-24) existem duas modalidades de qualidade: a
formal e a política e o conceito somente emerge da conjugação
de ambas. A qualidade formal diz respeito à habilidade
de utilizar meios, instrumentos, formas, técnicas e procedimentos.
A qualidade política diz respeito à competência
do sujeito em construir, em fazer parte da história.
Sob
essa ótica, é possível concluir que a qualidade
é um processo político, conforme aponta Piotto (1998:52-77),
citando Moss, e como tal constitui-se "em uma forma de exercer
poder, controle. Tem-se assim que, definir qualidade, é
definir uma visão do que se pretende alcançar. Esta
visão envolverá imagens interligadas - objetivos
certamente, mas também valores, processos, relações,
o dia-a-dia do serviço."
Na
perspectiva do mercado, a qualidade se constitui num recurso de
marketing bastante valorizado. Trata-se do diferencial que distingue
um bem ou serviço dos demais destinados a satisfazer as
mesmas necessidades.
De
tal forma que, qualidade para poucos é privilégio
e quando reduzida a mero elemento de negociação,
a um objeto de compra e venda, assume a natureza e o caráter
de mercadoria, ou seja, acesso diferenciado e distribuição
seletiva enquanto na perspectiva democrática, a qualidade
se constitui num direito de todo cidadão.
Portanto, a idéia ou conceito contemporâneo de qualidade
transcende ao cumprimento dos requisitos contidos em prescrições
legais e nos códigos de ética profissional, não
diz respeito apenas ao cumprimento ou a adequação
de regras para a prestação de serviço ou
à fabricação de produtos.
Assim,
a idéia de qualidade que defendemos está associada
à humanização no sentido que visa aproximar
a medicina e a prática médica do valor da essencialidade
da pessoa humana ou nas palavras de Branco (2003) (1):
O
resgate da medicina do doente que não objetiva e exclusão
da tecnologia, mas sim a recoloca em seu importante papel coadjuvante,
torna-se cada vez mais necessário para determinar uma medicina
de qualidade científica, humana e social. (...) Pensar
o paciente de forma integral, com mente e corpo harmoniosamente
funcionantes, inseridos em seu contexto sócio-histórico,
é uma necessidade.
Considerando
que a qualidade do relacionamento é fator decisivo e essencial
para o sucesso da prática médica e boa parte do
descrédito e do distanciamento do doente pode ser creditado
à insuficiência na formação proporcionada
pelas escolas, que não valorizam de forma adequada a comunicação
interpessoal no exercício profissional da medicina, pois
conforme pondera Gomes (2003: 1):
A
relação médico-paciente é, por excelência,
em tipo e qualidade, uma relação humana cuja prioridade
é a promoção da saúde. É o
momento dramático, rico e denso, no contexto das atividades
sociais, que tem como característica essencial a aplicação
de técnicas, conhecimentos e habilidades pelo médico
como provedor de saúde em favor do semelhante e, sempre,
em nome do bem. Considerado como bem fazer ao próximo o
que dele se espera receber.
Assim,
a melhoria da relação entre médico e paciente
não tem efeitos positivos apenas no tratamento da doença
e na satisfação do usuário, mas influi decisivamente
na qualidade do serviço.
A
Comunicação na formação do médico
Nas
escolas destinadas à formação do médico,
comumente se pratica um ensino tradicional, voltado para aquisição
de conteúdos e capacidades que enfatizam apenas os aspectos
físicos da doença, sem fazer qualquer referência
aos aspectos culturais e sócio-econômicos que constituem
o sujeito e a maneira como ele percepciona a própria enfermidade
que o acomete. O ensino médico, pode-se afirmar, "falha
no seu objetivo primordial de promover a formação
clínica e humana do médico, de modo que os princípios
básicos da medicina começam a ser abandonados precocemente"
(Galizzi Filho, 2002:111).
Entretanto,
é preciso considerar que a condição ou a
qualidade do ensino médico insere-se no quadro mais amplo
da crise da saúde, educação e universidade,
pois conforme assevera Almeida (1999:124) "o processo de
produção de médicos não é um
processo isolado, relaciona-se intimamente à estrutura
econômica, determina, como acontece com todos os demais
componentes da sociedade, a importância, o lugar e a forma
da medicina na estrutura social". De tal modo que, a escola
acaba refletindo a crise geral e reproduz, muitas vezes, as deficiências
e injustiças do sistema político e econômico.
Por
sua vez, as mudanças no mundo do trabalho passaram a demandar
uma nova formação intelectual e uma nova relação
com o conhecimento, pois a escola para maioria da população
é o único meio de acesso ao trabalho e à
vida digna. Entretanto, ao mesmo tempo em que essas mudanças
ocorrem, apontando para um novo modelo político-pedagógico
que assegure o acesso à educação como garantia
de cidadania, apresenta-se também uma realidade contundente:
a redução dos postos formais de trabalho assalariado,
que inviabiliza a efetiva realização dos direitos
sociais.
Essas
mudanças passam a demandar um novo profissional e repercutem
nas ações e políticas públicas para
a educação, provocando a revisão e/ou reformulação
das Diretrizes Curriculares Nacionais, refletindo a preocupação
em garantir flexibilidade, diversidade e qualidade da formação,
preconizando a articulação entre os princípios
do SUS e os consignados na Constituição Federal
de 1988, de modo a orientar a construção de currículos
compatíveis com as novas exigências, baseados em
valores como qualidade, eficiência e resolutividade, com
objetivo de capacitar profissionais com autonomia e discernimento
para assegurar a integralidade da atenção e humanização
do atendimento prestado aos indivíduos, suas famílias
e às comunidades.
As
diretrizes políticas educacionais refletem, portanto, a
necessidade de acolher novas abordagens e perspectivas destinadas
à formação generalista, humanista, crítica
e reflexiva, com competências e habilidades específicas,
atribuindo nova responsabilidade à educação
e às escolas de medicina, conforme assinala Tapajós
(2002:30):
A
Educação Médica passa, então a ter
de se preocupar em formar médicos detentores não
somente de técnica impecável, como também
cuidadores humanizados, sensíveis, preparados para lidar
consigo e com seus pacientes, tarefa que exige trabalhar com os
mais diversos valores inseridos em complexos contextos históricos,
culturais e sociais.
Assim,
as Diretrizes Curriculares Nacionais para os cursos de medicina
estabelecem que a comunicação é uma das competências
gerais a serem desenvolvidas e reforça que os currículos
devem contemplar as ciências humanas e sociais, referindo-se
especificamente a conteúdos que envolvam a comunicação.
(2)
Considerando
que a saúde é um direito fundamental, sustentado
por uma estrutura sensível à atribuição
de valor ou de avaliação construídos pelo
homem histórico e social; que na organização
social e do Estado existem idéias e valores dominantes
e instituições que incumbidas de difundi-las, podemos
compreender que a humanização e a qualidade nos
serviços de saúde podem assumir variados sentidos
e significados, mas certamente a comunicação permeia
o processo de humanização das práticas médicas.
Então, o ensino da relação entre médico
e paciente se constitui num grande desafio para as escolas de
medicina e para os currículos, mas que precisa ser enfrentado
de modo sistematizado, com a aproximação de áreas
do conhecimento que possibilitam a aquisição de
habilidade para a comunicação eficiente.
A
reconstrução do relacionamento médico-paciente:
a importância da comunicação
Atualmente,
a relação médico-paciente tem despertado
grande interesse em pesquisadores de várias áreas
do conhecimento, seja na produção científica,
na formação e na prática médica. A
interface entre comunicação e saúde é
um exemplo desse interesse e destaca a preocupação
interdisciplinar, propagando em várias vertentes, inclusive,
a que nos dedicamos: as técnicas comunicacionais utilizadas
ou aplicadas para proporcionar a melhoria da relação
e consequentemente do serviço.
Ao
saírem dos bancos escolares e atuar profissionalmente,
os médicos têm a base de suas atividades constituídas
pelos relacionamentos, sem que tenham tido nenhum preparo acadêmico
nesse sentido, quando a comunicação pode oferecer
amplas possibilidades de melhora do relacionamento interpessoal,
conforme assinala Epstein (s.d:1):
A
boa comunicação pode aumentar a eficácia
dos serviços de saúde. Ao nível da comunicação
interpessoal isto começa a ser reconhecido oficialmente.
Os problemas da adequação da comunicação
médico-paciente que sempre existiram como questões
periféricas começam a ser reconhecidos oficialmente
inclusive como temas dos currículos de nossas escolas de
medicina.
Oliveira
(2002:64) reconhece que uma das principais atribuições
do médico é "traduzir o discurso, os sinais
e os sintomas do paciente para chegar ao diagnóstico da
doença". Quando uma pessoa procura um serviço
de saúde, então, estabelece-se uma relação
que "pressupõe uma comunicação com duas
vias de fluxo, permitindo, no momento em que o indivíduo
busca atendimento de saúde, o encontro de duas visões
de mundo diferentes (...)". É justamente aí
que a formação dada ao médico tem falhado,
quando não o prepara para se comunicar com o doente, mas
para olhar a doença, na medida em que enfatiza o distanciamento,
a utilização dos recursos tecnológicos, em
substituição à escuta, ao diálogo,
à própria relação, que não
chega a se instaurar, pois somente o médico tem voz. (3)
Ao
procurar um serviço médico, a pessoa "lança
mão de uma série de mecanismos que orienta essa
procura, que são acionados muito antes do encontro propriamente
dito: quais os sintomas que a forçam ao encontro, qual
o linguajar a ser utilizado para descrever o que sente, que roupa
vestir na consulta, e assim por diante. Em outras palavras: o
indivíduo se prepara para esse momento, carrega consigo
uma 'bagagem'. Considerando essa realidade, quando nos referimos
à comunicação, também são produzidos
"significados de ambos os lados e que a cultura de cada grupo
social estará igualmente presente" (Oliveira, 2002:65).
Mesmo
sob o ponto de vista formal, a relação entre serviços
de saúde e usuários envolve muitos outros aspectos
além do encontro físico entre o médico e
paciente num consultório, por exemplo. Há, entre
outros fatores, as políticas de saúde em cada local
e as concepções dos indivíduos sobre o que
é estar doente. A doença é uma experiência
que não se limita à alteração biológica
pura, mas esta lhe serve com substrato para uma construção
cultural, num processo que lhe é concomitante (Oliveira,
2002:64).
A
consulta se constitui um dos atos médicos mais relevantes.
De acordo com Ferreira, Ribeiro & Freitas (2002:77) é
o momento mais importante para tomada de decisão, mas tem
sido desvalorizado, em razão da baixa remuneração,
que trouxe consigo a idéia de produtividade "fazer
mais e mais em cada unidade de tempo". A desvalorização
da consulta, a limitação do tempo de escuta e atenção
ao paciente torna a relação interpessoal insatisfatória,
"perdendo-se a oportunidade terapêutica que ela encerra.
Aspectos vitais, como a confiança, a aderência ao
tratamento, formação de vínculo que possibilita
a continuidade, a negociação e participação
nas tomadas de decisão são prejudicadas" (Ferreira,
Ribeiro & Freitas, 2002:74-75).
É,
pois, necessário preparar o médico para escutar
e comunicar-se eficientemente, prepará-lo para que consiga
maiores informações sobre o estado de saúde,
estimulando a autonomia e participação do paciente
no tratamento. Isso implica em romper com a forma usual de comunicação,
na qual se evidencia o poder exercido pelo médico e a idealização
que o mesmo representa para o paciente e a sociedade. Desse modo,
o relacionamento, que se apresenta como a base da atividade médica,
é fundamental no tratamento, onde o paciente, vulnerável,
enxerga no médico a possibilidade de cura. É nessa
perspectiva que Ferreira, Ribeiro & Leal (2002:54-55) ponderam
que:
As
qualidades pessoais do médico, sua cultura técnica
e humanística e especialmente suas atitudes, são
fatores decisivos, destancando-se a capacidade de escuta e de
comunicação. Atitudes positivas do médico,
percebidas pelo paciente abrem caminho para que este se coloque
mais à vontade, com informações mais completas,
sinta-se seguro, confiante e disposto a aderir ao tratamento.
Esta é a relação terapêutica.
Nesse
contexto, adquire força o movimento pela reaproximação
da medicina de suas origens humanistas, seja na administração
de hospitais e de outros serviços de saúde (públicos
e privados) e nas práticas médicas, entre os pacientes
e os agentes da cura. (4)
Souza
(2003:35) faz interessante abordagem sobre a atitude do médico
em relação ao paciente e seus familiares:
A
atitude do médico na relação médico-paciente
tem um sentido psicoterápico, independentemente de ser
essa intenção do médico. Todos sabem - ou
deveriam saber - sobre a importância que assumem as atitudes,
os gestos e as palavras pronunciadas pelo médico e dirigidas
ao paciente ou aos familiares nas inúmeras e diferentes
situações clínicas. As palavras, como um
instrumento de trabalho, podem fazer tanto mal como bem.
Esta
referência às atitudes do médico, remete-nos
compreender a comunicação numa dimensão ampla,
que transcende o instrumento da palavra para envolver todos os
sentidos e ações das pessoas em determinado contexto
de poder, que atuam como facilitador ou como entrave à
integração com o interlocutor. Há, sabidamente,
uma forma de comunicação horizontal, em que o ato
de falar, intervir, participar, ações que se esperam
do paciente. A mediação do relacionamento por essa
forma pressupõe a capacitação para expressão
do médico. Mediação porque entendemos a consulta
como uma etapa do relacionamento, compreendido num contexto cultural,
histórico e social que envolve os sujeitos (médico
e paciente) e as instituições.
A
Formação do Profissional de Comunicação
A
nova realidade do mundo e as necessidades humanas também
dizem respeito à formação do profissional
de comunicação. Não pretendemos aqui fazer
coro com àqueles que reconhecem apenas um aspecto na crise
da educação e nas mudanças nas relações
de trabalho e sociais, tampouco com aqueles que vêem deficiências
apenas na formação do médico. A expectativa
de transformação atinge também a formação
do profissional de comunicação. A interface entre
comunicação e saúde é uma via de mão
dupla, o que exige que ambas as áreas reconheçam
necessidades, capacidades e possibilidade de promoverem a articulação
dos saberes, servindo-se, ainda, dos conhecimentos construídos
por outros segmentos.
Esta
atitude está em sintonia com uma visão que compreende
o homem como um ser incompleto, inconcluso e a sua relação
com o mundo como algo complexo. (5) Está, também,
afinada com as preocupações referentes à
produção do conhecimento multirreferencial (6),
reflexivo, com intenção de transformar, com a preocupação
da conciliação da humanidade com o cosmos, não
a partir da síntese e da redução, mas da
amplitude do pensamento e das ações, para se viver
a complexidade, conforme assinala Petraglia (1995:12:13), ao assinalar
que:
A
busca do "ser" e do "saber" uno e múltiplo
nos revela uma ciência que, mais do que a detentora de verdades
absolutas e imutáveis, nos aponta para um caminho de novas
descobertas e novas verdades que aceitam a complexidade como uma
realidade reveladora, em que o ser humano é ao mesmo tempo
sujeito e objeto de sua própria construção
e do mundo.
Sob
esse olhar, "o homem não é igual ao seu corpo,
nem é igual ao seu psíquico, e não é
igual à soma de corpo e mente. O que acontece com o ser
humano será sempre físico, psíquico e histórico
(social) a um só tempo" (Souza, 2003:33). De tal forma
que, ao transcender a fragmentação e a soma "necessitaremos
de novos conhecimento e novas formas de pensar, não só
para nos aproximarmos daquilo que chamamos doença ou saúde,
mas do doente" (Souza, 2003:33).
Por
sua vez, Caprara & Rodrigues (2004:144) assinalam que:
As
humanidades médicas se constituem como um espaço
para repensar a prática em medicina, intervindo na qualidade
da assistência com a personalização da relação,
a humanização das atividades médicas, o direito
à informação, o aperfeiçoamento da
comunicação médico-paciente, diminuindo o
sofrimento do paciente, repensando as finalidades da medicina,
aumentando o grau de satisfação do usuário.
Trata-se de um campo que precisa de investigações
de novas elaborações conceituais e empirícas
(...).
Abre-se,
assim, um novo campo para atuação da comunicação,
mas que exige o comprometimento com a abordagem plural do conhecimento.Em
outras palavras, a formação do profissional de comunicação
deve abrir-se para as possibilidades apresentadas por outros saberes,
de modo a olhar a atuação da medicina, a formação
do médico com abrangência necessária, mas
capaz de reconhecer as singularidades, as particularidades. Somente,
assim, poderá contribuir para que a formação
do médico caminhe no sentido de recuperar a associação
entre arte e ciência, auxiliando na construção
da arte de ouvir o paciente, considerando que "essa particular
escuta ultrapassa a acuidade da audição (dos sentidos)
e o conhecimento sobre as doenças", pois, "ninguém
pode escutar ou observar uma doença. Só é
possível escutar e observar o doente",conforme ensina
Souza (2003:34).
Considerações
Finais
Entendendo
o ser humano como razão e finalidade das práticas
sociais e da existência das organizações,
a idéia de qualidade não se contrapõe ao
conceito de qualidade, vista aqui numa perspectiva integradora
e plural.
Sob
esse olhar, pode-se considerar que a qualidade do relacionamento
médico-paciente não é apenas essencial para
a definição da qualidade do serviço, mas
a transcende enquanto interfere na própria relação
terapêutica.
Cabe,
então, considerar a necessidade de ampliar a formação
do médico para além do reducionismo técnico
a que estão sujeitos, tendo em conta que a educação
médica integradora deve abordar a idéia do homem
para além do corpo ou do psíquico, tampouco deve
ser considerada como a soma dessas duas dimensões. É
necessário considerá-la em sua complexidade, que
implica na utilização de linguagens comuns às
outras áreas do conhecimento.
É,
pois, nessa dimensão complexa e plural que situamos a necessidade
de que a formação médica contemple a área
de comunicação, tendo em conta ainda que a atividade
profissional do médico é conduzida ou baseada em
relações interpessoais que estabelece com seus pacientes,
emergindo a necessidade de prática da escuta sensível
(7), dar voz ao outro (o paciente), captar e interpretar a linguagem
verbal e não verbal revelada na consulta.
Contudo,
a formação mais ampla do médico não
está dissociada da formação mais ampla do
profissional de comunicação, que precisa estar envolvida
com a mesma idéia de complexidade e pluralidade, sem fechar
os olhos para as dimensões que compõe a existência
humana, aprendendo assim a conviver com a ação do
outro.
Trata-se,
pois, em ambos os casos (formação do médico
e do profissional de comunicação) "em instituir
um lugar para o outro em nossas relações e, ao mesmo
tempo, nos tornamos intérpretes (...) destas relações",
conforme ensina Barbosa (1998b:17).
Enfim,
trata-se de se permitir olhar para novas hipóteses, de
enriquecer e tornar mais sutis as formas de convivência
numa realidade que é plural, heterogênea, que exige
outras propostas, inovadoras quando os procedimentos tradicionais
são incapazes ou insuficientes para obter respostas para
as exigências humanas.Este é o âmbito a que
se refere à complexidade: considerar as relações
entre os muitos saberes ou conhecimentos, não necessariamente
científicos.
Assim,
para compreender as relações entre as pessoas é
preciso ter em conta as muitas referências teóricas,
o que implica em romper com as barreiras e modelos que fragmentam,
que encastelam e reduzem as concepções sobre o fenômeno
da comunicação, tecendo a interface com a área
da saúde, que contribua para a construção
de práticas médicas humanizadas e de qualidade.
Notas
1)
Palavras de Rita Francis Gonzales Y Rodrigues Branco prefaciando
o livro A Relação com o Paciente: teoria, ensino
e prática. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2003.
2)
Parecer CNE/CES 104/2002, publicado no Diário Oficial da
União de 11/04/2003. O documento foi elaborado tendo como
referência documentos como a Constituição
Federal, a Lei Orgânica do SUS e a Declaração
Mundial sobre Educação Superior no Século
XXI da Conferência Mundial sobre Ensino Superior (UNESCO:
Paris, 1998), dentre outros, reafirmando o conceito de saúde
como um direito social (direito de todos e dever do Estado); o
acesso universal e igualitário às ações
destinadas à sua promoção, proteção
e recuperação (art. 196, da Constituição
Federal de 1988).
3)
Interessante anotar aqui o que afirma Costa (2003:25), recorrendo
à Cruz (1997), ao que ao refletir sobre a Fenomenologia,
como uma postura apta a ampliar a compreensão da relação
médico-paciente: Sem dúvida, o existente só
pode ser compreendido na relação que estabelecemos
com o mundo. Ele não é uma coisa entre outras: ele
é aqui, num sentido autolocalizado e autoconsciente, numa
relação constante com objetos, pessoas e situações.
Segundo a Fenomenologia, quem adentra um consultório não
é apenas um corpo, é um homem; não só
um homem, mas um universo singular, um ser que existe com toda
sua originalidade.
4)
Sobre a possibilidade de ensinar/aprender sobre o relacionamento
entre médico - paciente, FERREIRA, RIBEIRO & LEAL ponderam
que "(...) à medida que os avanços científicos
acontecem, mais o médico se desinteressa e se distancia
da pessoa do paciente. Com isto, o prestígio do médico
e da sua profissão torna-se cada vez mais distante daquele
que tiveram os que contribuíram para escrever a história
da medicina, utilizando a atenção e o cuidado do
paciente como único instrumento de ação terapêutica.
A base do seu método de trabalho - a relação
médico - paciente - nem mesmo tinha nome ou constituía
área organizada do conhecimento, mas era intensamente praticada.
Algo que tangenciou a magia e foi depois considerada como arte
- a arte da medicina -, conceito até hoje bastante lembrado,
mas que precisa ser mais bem compreendido. Como em outras profissões,
a arte continua a existir na prática de muitos médicos
dotados de habilidades peculiares, a destacá-los dos demais.
Porém, a essência da relação médico-paciente
é ciência e não arte, plenamente inserida
no campo das ciências humanas, que lhe oferece o robusto
referencial teórico que a sustenta. Assim, a relação
médico - paciente tem bases tão científicas
quanto a medicina do corpo e das doenças orgânicas,
podendo ser ensinada e, principalmente, aprendida, agregando qualidade,
humanidade e eficácia ao ato médico". FERREIRA,
E. C., RIBEIRO M. M. F. & LEAL, S.S. Op. cit., p. 51-52.
5)
O conceito de complexidade a que nos referimos é o elaborado
por Edgar Morin, que a partir do princípio da incerteza
com norteador da humanidade, sugere que se busque compreender
a contradição e o imprevisível, convivendo
com eles. Esta posição se opõe ao pensamento
cartesiano-positivista ao propor que se compreendam os limites
e insuficiência do pensamento simplificado, fragmentado
e reducionista, incapaz de exprimir as idéias de unidade
e diversidade presentes no todo. O pensamento complexo enfrenta
a confusão, a incerteza, ao mesmo tempo, convive com a
interação ou solidariedade existente entre fenômenos
distintos. Sob essa perspectiva, o homem é um ser complexo,
"pois concentra fenômenos distintos e diversos capazes
de influírem suas ações e transformar-se,
sempre, assim, também é o conhecimento" (Petraglia,
1995: 39-45).
6)
Multirreferencialidade é aqui utilizada na tradução
que lhe dá Ardoino, ou seja, "uma pluralidade de olhares
dirigidos a uma realidade e, em segundo lugar, uma pluralidade
de linguagens para traduzir esta mesma realidade e os olhares
dirigidos a ela. O que sublinha a necessidade da linguagem correspondente
para dar conta das especificidades desses olhares" (Ardoino
apud Barbosa, 1998a, p.205).
7)
Aqui propondo a idéia da abordagem transversal de René
Barbier (ancorada na perspectiva da complexidade de Edgar Morin)
que propõe para as situações educativas e
formativas deve sempre haver três tipos de escuta: científico
-clínica, fundamenta na lógica entre o que observado
e o objeto de observação; a poético-existencial,
onde entra em cena a intuição, o sensível,
a improvisação e a criação; e espiritual-filosófica,
ou seja, "a escuta dos valores últimos que atuam no
sujeito (indivíduo ou grupo)", "aquilo que nos
liga à vida". De tal modo que, a escuta sensível
"inscreve-se nesta constelação das três
escutas" (Barbier, 1998a:168-169).
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Maria Rosana Ferrari Nassar
Doutora em Ciências da Comunicação, professora
da Pontifícia Universidade Católica de Campinas,
SP.
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