Volume 2
Número 3

20 de dezembro de 2005
 
 * Edição atual    

          "VIVA - Qualidade de Vida deve ser sua prioridade - campanha e pesquisa desenvolvidas com funcionários de uma indústria calçadista"

Sonia Aparecida Cabestré*
Henrique Martins de Souza Barros, Jakeline Temporim Gimenes,
Thaís Bertoldi Verdinelli eVivian Boza Hernandez*

          Resumo

          Com o objetivo de despertar o interesse de dirigentes e funcionários e difundir informações abordando questões de qualidade de vida e obesidade realizou-se campanha e pesquisa junto aos colaboradores de uma empresa do setor calçadista da cidade de Jaú/SP. As ações programadas foram desenvolvidas em duas etapas: a primeira esteve voltada para a realização de palestras sobre nutrição, ergonomia, elaboração de boletins sobre qualidade de vida, obesidade e ergonomia, ginástica laboral e degustação de um cardápio especialmente preparado para os funcionários. Na segunda etapa desenvolveu-se pesquisa amostral com o intuito de avaliar e identificar as expectativas e perspectivas futuras dos participantes da campanha. Os resultados demonstram que o tema trabalhado é muito importante para o atual contexto de mercado que a sociedade está vivenciando e tem intima relação com as práticas de competitividade e produtividade do cotidiano empresarial.

           Palavras-chave: qualidade de vida; competitividade; comunicação; relacionamento interpessoal; saúde no trabalho.

          Introdução

          Com o propósito de trabalhar a temática "Qualidade de Vida e Obesidade" no âmbito de uma empresa do segmento calçadista feminino da cidade de Jaú, a Daleph Calçados, elaborou-se um projeto destacando-se o desenvolvimento de duas ações - uma campanha abordando o referido tema, direcionada aos funcionários e a aplicação de uma pesquisa utilizando a metodologia quantitativa para avaliar as ações empreendidas.

          O projeto, de autoria dos acadêmicos, foi elaborado na disciplina "Planejamento em Relações Públicas I", sob orientação da professora responsável. Dessa maneira, a partir da escolha do tema, iniciou-se o processo de definição da organização beneficiária das ações, ao mesmo tempo em que efetuou-se levantamento de informações na literatura e em documentos eletrônicos e também planejou-se as ações relativas à campanha e pesquisa, considerando os aspectos culturais e o repertório dos beneficiários.

          Levando-se em conta o exposto, este artigo apresenta os principais aspectos das ações desenvolvidas na empresa e também destaca os fundamentos teóricos que têm intima relação com o tema. Levantar informações, analisar as questões referentes à qualidade de vida no ambiente de trabalho e realizar ações no âmbito organizacional, é o objetivo principal deste estudo.

          Apresenta-se na seqüência os fundamentos teóricos, o planejamento e os resultados da campanha e pesquisa desenvolvidas com os funcionários da Daleph Calçados.

          I - Fundamentos teóricos pertinentes ao estudo

           1.1 Papel social do profissional de Relações Públicas

           Para apresentar os principais aspectos do papel social pertinente ao profissional de Relações Públicas, de relevante importância para a área, tomamos como base os estudos realizados por Regina Célia Escudero César e Cicília Maria Krohling Peruzzo.

          Para Escudero Cesar (1999, p.1), a teoria das Relações Públicas é fortemente influenciada por conceitos metodológicos positivistas e funcionais. Desde suas primeiras elaborações busca-se legitimar e preservar o sistema vigente, seja estando ao lado de fortes estruturas empresariais isoladamente, seja dentro do contexto macrossocial.

          De acordo com a autora, na atualidade, a "preocupação social" anunciada por todo lado do país, força o profissional de Relações Públicas a adotar posturas diferentes daquelas praticadas por Ivy Lee, que é considerado o primeiro profissional de relacionamento com os públicos pela literatura da área, e que no trato com a opinião pública foi irresponsável e desumano. É conhecido por todos estudiosos o "final feliz" dado por Lee a um triste capítulo da história desta profissão. Desviou-se a atenção da opinião pública com doações de Rockfeller a casas assistenciais e outros fins também filantrópicos, ficando as marcas da violência contra os funcionários e o impasse criado pela greve sem nenhuma solução. As demissões foram em massa, sem que tal agravante social fosse sequer questionado pela opinião pública, uma vez que esta encontrava-se criticamente adormecida pelas mensagens e atos "generosos" de Rockefeller.

          Escudero César (1999, p.1) também ressalta que, hoje esta opção ideológica das Relações Públicas pelo capital tenta ser escamoteada em seus princípios teóricos. Historicamente, a sua teoria teve como base de sustentação o funcionalismo, estreitamente vinculado com o desenvolvimento capitalista. Entretanto, devido às recentes exigências de posturas sociais mais engajadas do profissional, este posicionamento tem se tornado menos explícito, formulando-se discursos voltados à qualidade de vida do homem em sua comunidade.

          A força das Relações Públicas, conforme destaca Escudero Cesar, é ainda pautada na criação de imagens através da promoção de eventos e apoios institucionais a determinadas campanhas, até mesmo sociais. O que se questiona nestes apoios é sua capacidade de reverter o quadro social e criar, verdadeiramente, públicos capazes de corresponder às belas definições de Relações Públicas. Para a autora, é nítida a existência de compromissos fortes com a preservação da situação social existente, mas há também uma prática que, aqui e acolá, vem subvertendo esta visão fragmentada da sociedade. É justamente aí que se encontra uma demonstração clara de um caso isolado onde a prática social, marcada pelo dinamismo, acabou por superar uma teoria, estagnada no tempo e por isto incapaz de criar um novo espaço social. Trata-se de caso raro dentro da relação teoria e prática, onde, em geral, a primeira é vanguarda em relação à segunda.

          Dentro do contexto apresentado por Escudero César (1999), destaca-se o seguinte posicionamento:

          Até mais ou menos dez anos relações públicas eram concebidas teoricamente e praticadas majoritariamente enquanto um instrumental a serviço do capital, dos governos e da hegemonia das classes dominantes. Mas, a sociedade é dinâmica e, acompanhando as mudanças que vêm ocorrendo no interior da sociedade brasileira, às relações públicas também chegou a vez de deixarem se mudar. Hoje, teórica e pratica-mente, é possível falar de relações públicas populares, ou comunitárias, orgânicas às classes subalternas. Ou seja, de um trabalho de relações públicas comprometido com os interesses dos segmentos sociais subalternos organizados ou, num sentido mais amplo, com o interesse público. (PERUZZO, 1993, p.125; apud ESCUDERO CESAR, 1999).

          Entretanto, segundo a pesquisadora, a maioria das produções científicas existentes constituem-se em relatos de casos práticos, o que dificulta sua extrapolação a outras realidades. São fórmulas prontas que só cabem dentro de padrões determinados. Não há no relato destes casos uma problematização prévia da realidade, somente a demonstração das técnicas utilizadas para a criação do case.

          Escudero César (1999) reforça a idéia de que a comunicação comunitária é uma disciplina que vem sendo estudada e explorada pelos pesquisadores da área no Brasil, desde meados dos anos oitenta. É recente, portanto, sua existência científica. Entretanto, já é madura como prática em favor da cidadania da população oprimida e de seus movimentos sociais. Nos anos setenta, marcados pela grande repressão política, a comunicação comunitária esteve presente articulando estes grupos e criando meios alternativos de comunicação como os populares. Encabeçada por intelectuais orgânicos às classes com menores condições de organização e comprometidos com as transformações sociais e políticas, esta prática comunitária auxiliou os movimentos sociais, dando-lhes nova forma e contorno na sua relação com a sociedade e na sua resistência às forças opressoras.

          Com base no exposto, é importante enfatizar, segundo a estudiosa, que poucas foram as experiências registradas que poderiam ser utilizadas como referência histórica, a não ser a experiência de Regina Festa, que desde a década de 80 é conhecida como uma pesquisadora da comunicação alternativa e popular. Os anos setenta, de acordo com Regina Festa, foram um processo de aprendizagem recíproco e dialético entre os intelectuais orgânicos às classes dominadas e seus participantes, apesar de todo o verticalismo que persistiu em muitas experiências. Para Regina Festa, foi uma época em que "muito se dizia e pouco se comunicava por todo o País" (FESTA, 1984, p.68; apud ESCUDERO CESAR, 1999, p.4).

          Escudero Cesar também destaca que, nos anos oitenta e noventa é que são expressados os estudos existentes neste sentido, dentre os quais é referência a sua dissertação de mestrado defendida na Universidade Metodista de São Paulo, cujo título é Relações públicas comunitárias: uma exigência da sociedade civil brasileira.

          Tomando como experiência o seu estudo, a pesquisadora ainda propõe o engajamento do profissional de Relações Públicas na dinâmica social e a reformulação do enfoque teórico que orienta sua atuação, a fim de acompanhar as exigências e transformações ocorridas na sociedade civil brasileira.

          Para essa estudiosa, a comunicação é um processo de troca entre emissores e receptores, a fim de que as informações sejam repassadas de forma acessível às partes envolvidas no processo. Sem comunicação social as informações não têm seu valor de troca e nem beneficiam na melhoria da qualidade de vida do cidadão. Não têm, portanto, seu valor social. Uma vez que a comunicação é troca, o saber não pode restringir-se a um só pólo do processo, há que existir o intercâmbio de informações e o crescimento mútuo.

          Escudero César (1999) complementa seu posicionamento e ressalta: as Relações Públicas comunitárias apontam para a necessidade de uma revolução na práxis deste profissional, ou seja, algo que signifique o seu engajamento na realidade, buscando a superação de seus conflitos através da comunicação. Para a autora, mais do que uma atividade desenvolvida em bairros periféricos, no sentido popular do termo, as Relações Públicas comunitárias significam uma proposta metodológica onde o profissional passa a conceber a sociedade sob a ótica dialética, procurando a sua transformação. Destaca também, que a teoria das Relações Públicas é fortemente influenciada por conceitos metodológicos positivistas e funcionais. Desde suas primeiras elaborações, busca-se legitimar e preservar o sistema vigente, seja estando ao lado de fortes estruturas empresariais isoladamente, seja dentro do contexto macrossocial. Mais do que uma atividade desenvolvida em bairros periféricos, no sentido popular do termo, as Relações Públicas comunitárias significam uma proposta metodológica onde o profissional passa a conceber a sociedade sob a ótica dialética, procurando a sua transformação (p.4-5).

          Em seu estudo, Escudero César (1999, p. 5) também ressalta o seguinte: longe de propor uma revolução ou "luta armada", as Relações Públicas comunitárias buscam o estabelecimento de canais mais verdadeiros de integração, onde o público seja realmente cidadão da comunicação. É fundamental para o Relações Públicas que ele se posicione como sujeito da história a serviço do coletivo e não como agente de criação de projetos para atender a fins individuais.

          1.2 Relações Públicas Comunitárias e Relações Públicas com a Comunidade

          Peruzzo (1999) aponta diferenças significativas entre Relações Públicas Comunitárias e Relações Públicas com a Comunidade. Para a autora, Relações Públicas Comunitárias dizem respeito às ações que se estabelecem no âmbito das associações e organizações comunitárias, das Organizações Não Governamentais, organizações sem objetivos lucrativos. Relações Públicas com a Comunidade caracterizam-se como as relações que as instituições privadas ou públicas, estabelecem com um dos seus públicos, denominado "comunidade" (p.3).

           Para a pesquisadora, sob a ótica das Relações Públicas, comunidade é considerada como um dos públicos das organizações, ao lado de vários outros tais como os empregados, a imprensa, os fornecedores, os consumidores etc. Ressalta também que, pensadores, cujos estudos sobre comunidade são tidos como clássicos, apontam, cada um à sua vez, características bastante rigorosas para que determinado agrupamento social seja tomado como "comunidade", muito embora não haja consenso entre os cientistas sociais quanto à natureza de "comunidade".

          Em seu estudo Peruzzo ( 1999, p. 5), seleciona duas definições de comunidade como forma de demonstrar alguns dos elementos característicos nos referidos conceitos:

           Uma comunidade humana é um agregado de pessoas funcionalmente relacionadas que vivem numa determinada localização geográfica, em determinada época, partilham de uma cultura comum, estão inseridas numa estrutura social e revelam uma consciência de sua singularidade e identidade distinta como grupo. (Mercer, 1986, p.229, apud Peruzzo).

          Já Para MacIver ; Page (1973, p.122) comunidade existe

          onde quer que os membros de qualquer grupo, pequeno ou grande, vivam juntos de tal modo que partilham, não deste ou daquele interesse, mas das condições básicas de uma vida em comum.(...) O que caracteriza comunidade é que a vida de alguém pode ser totalmente vivida dentro dela e todas as suas relações sociais podem ser encontradas dentro dela. ...(apud PERUZZO,1999, p.5).

          A pesquisadora (1999, p. 5 -9) ainda esclarece que, de acordo com tais definições, além de agregar outras dimensões de comunidade de outros autores, pode-se inferir que a existência de uma comunidade, numa visão de conjunto, pressupõe a existência de determinadas condições básicas, tais como um processo de relacionamento e interação intenso entre os seus membros, auto-suficiência (todas as relações sociais podem ser satisfeitas dentro da comunidade), cultura comum, objetivos comuns, identidade natural e espontânea entre os interesses de seus membros, consciência de suas singularidades identificativas e participação ativa de seus membros na vida da comunidade. Desse modo, afirma que pensar e planejar as atividades de Relações Públicas junto à chamada "comunidade" implica levar em conta as diferenças, as expectativas, as demandas, o comportamento de cada segmento, bem como as perspectivas futuras e os objetivos da própria instituição.

          Peruzzo também destaca em seu estudo as principais diretrizes de um trabalho comunitário, elencadas por Maria Aparecida de Paula e Ana Luísa C. Almeida , resultado da experiência junto à Alcan Alumínio do Brasil e Andrade Gutierrez, ambas em Minas Gerais, uma vez que traduzem o espírito que deve orientar um trabalho de Relações Públicas com a comunidade:

           Partir da ótica das pessoas

a. Considerar e respeitar a ótica do público atingido.
b. Tornar comuns conceitos, entendimentos e experiências.
c. Manter o diálogo com o público, sabendo ouvir anseios e reclamações.
d. Nunca ignorar ou minimizar problemas reais causados às pessoas decorrentes da interferência da empresa

           Intencionalidade

           O programa só deve ser iniciado se for decisão política dos empreendedores e houver o comprometimento por parte deles.

           Agilidade

           Agir com rapidez e senso de oportunidade no retorno às reivindicações evitando rumores e mal-entendidos.

           Continuidade e permanência

           Programas não devem ser interrompidos para não perderem a credibilidade. A relação com as pessoas é direta e cotidiana, evitando ações isoladas.

           Unidade e tratamento personalizado

           A abordagem de comunicação deve ter um eixo que lhe assegure unidade, além de sintonia com a ótica da comunidade, além de dispensar tratamento diferenciado aos grupos procurando tratar caso a caso (PAULA ; ALMEIDA, 1998, p.218-219, apud PERUZZO, 1999, p. 15).

           Para a estudiosa, as Relações Públicas em interação com a comunidade nos novos tempos, implicam um redirecionamento metodológico. Muda a metodologia de trabalho porque muda o sentido da ação. A lógica da ação unidirecional, autoritária e de cunho propagandístico passa a não ser mais adequada nem aceita pelos públicos (1999, p.16).

          Daí, a importância e necessidade dos dirigentes dos Cursos de Relações Públicas incentivarem o corpo docente e discente a direcionarem esforços para a elaboração e efetivação de projetos sociais que beneficiem os diferentes setores da sociedade. No caso específico deste estudo, optou-se por trabalhar ações de qualidade de vida no ambiente de trabalho pela importância e relevância do tema.

          1.3 Contextualizando os principais aspectos inerentes à qualidade de vida

           O mundo atual, apesar da tecnologia ter facilitado a vida das pessoas, também tornou-as mais sedentárias. Modo geral, as pessoas, independente dos avanços e possibilidades que a tecnologia oferece, são seres ativos e necessitam de movimento para o seu bem-estar geral.

           Além do sedentarismo, a exposição às agressões sofridas diariamente, é outro fator que pode atuar de forma negativa na qualidade de vida das pessoas.

          Sobre esse tema Moretti (2005, p. 1) destaca, de acordo com informações disponibilizadas no site http://www.icpg.com.br/artigos/rev03-12.pdf que:

          o ser humano traz consigo sentimentos, ambições; cria expectativas, envolve-se, busca o crescimento dentro daquilo que desenvolve e realiza. Então, é preciso que deixemos de lado aquela idéia de que o homem trabalha tão somente para a obtenção do salário, que nega seus sentimentos, que não se frustra com a falta de crescimento, que não se aborrece com o total descaso dos seus gestores que apenas lhe cobram a tarefa e não o orientam para a real situação da empresa, que lhe negam o acesso às informações, que o tratam apenas como uma peça a mais no processo de produção. É necessário que saibamos que, cada vez que ele entra na empresa, está entrando um "ser" integrado e indivisível, com direito a todos os sonhos de auto-estima e auto-realização.

          Nesse sentido, os dirigentes das organizações sociais devem favorecer o desenvolvimento de um perfil humano de acordo com os padrões modernos, o que significa direcionar ações em busca da construção de alicerces condizentes com os fundamentos de uma organização inteligente e inovadora. Moretti ainda ressalta que "respeitar o trabalhador como ser humano significa contribuir para a construção de um mundo mais humano e para um desenvolvimento sustentável" (2005, p. 2).

          Para o autor, a qualidade de vida no trabalho pode ser definida como uma forma de pensamento envolvendo pessoas, trabalho e organizações, onde se destacam dois aspectos importantes: a preocupação com o bem-estar do trabalhador e com a eficácia organizacional; e a participação dos trabalhadores nas decisões e problemas do trabalho.

           Moretti (2005, p.3) também afirma:

           a origem do movimento de qualidade de vida no trabalho remonta à década de 1950, com o surgimento da abordagem sócio-técnica. Somente na década de 60, tomaram impulsos iniciativas de cientistas sociais, líderes sindicais, empresários e governantes, na busca de melhores formas de organizar o trabalho a fim de minimizar só efeitos negativos do emprego na saúde e bem estar geral dos trabalhadores. Entretanto, a expressão qualidade de vida no trabalho só foi introduzida, publicamente, no início da década de 70, pelo professor Louis Davis (UCLA, Los Angeles), ampliando o seu trabalho sobre o projeto de delineamento de cargos.

          Assim, na década de 70, mais especificamente nos EUA, surge um movimento pela qualidade de vida no trabalho, motivado pela competitividade internacional e necessidade de implementar estilos e técnicas gerenciais preconizados pela filosofia japonesa. À época, tais pressupostos levavam em conta a importância de desenvolver estratégias empresariais que considerassem a integração dos interesses dos empregados e empregadores, com o intuito de minimizar os conflitos. Nas estratégias de congruência de interesses entre as partes, destaca-se a utilização de ações de motivação embasadas nos trabalhos de autores da escola de Relações Humanas, como Maslow, Herzberg e outros (MORETTI, 2005, p.3).

          A partir da década de 90, as modernas organizações adotam em seu cotidiano o desenvolvimento de programas específicos para trabalhar o relacionamento interpessoal, necessário e importante para a obtenção de condições ideais de trabalho. Somado a isso, as estruturas e equipamentos que compõem o ambiente de trabalho devem levar em conta os princípios estabelecidos pela ergonomia - são condições que proporcionam ao trabalhador vivenciar ambientes saudáveis. Isso gera satisfação e alavanca a produtividade, o que coloca, modo geral, as organizações em posição de destaque.

          Com base nos pressupostos destacados, apresenta-se a seguir o planejamento, as ações desenvolvidas na campanha e os resultados da pesquisa efetivada na Empresa Daleph.

          II - Planejamento e Relatório da Campanha e Pesquisa

           2.1 Planejamento da Campanha: VIVA! QUALIDADE DE VIDA DEVE SER SUA PRIORIDADE.

          2.1.1 Justificativa

          Com a epidemia de produtos enlatados e congelados, somados à ociosidade relativa à urbanização, a obesidade está se tornando uma doença crescente na população brasileira, provocando cerca de oitenta mil mortes por ano no Brasil, segundo consta no site http://ram.uol.com.br/materia.asp?id=367 .

          A obesidade é uma doença, em sua maioria, proveniente da falta de atividade física. Desde criança somos educados a ser sedentários. As novas tecnologias lançadas nas últimas décadas como televisão, computador, internet, exigem cada vez menos movimentação e gasto de energia.

          A alimentação inadequada é a outra principal causa da obesidade. A tradicional dieta brasileira do arroz, feijão e "mistura", que é nutricionalmente saudável, está sendo substituída por alimentos mais rápidos e fáceis de preparar, que são, no entanto, mais calóricos e menos saudáveis.

          A proposta de realizar campanha e pesquisa em prol da qualidade de vida dentro de uma organização empresarial tem o propósito de demonstrar a utilização de instrumentos de Relações Públicas a serviço de questões de interesse social. Destaca-se nesse sentido, o papel social do Relações Públicas. Segundo Studt:

          O profissional de relações públicas também tem a tarefa de organizar cursos, palestras, conferências, reuniões, seminário, etc, cujo objetivo será manter o público interno ciente da realidade vigente e demonstrando sua importância no desenvolvimento e na visibilidade favorável da organização para com os públicos externos. Cabe também ao profissional de relações públicas diagnosticar quais os meios e veículos mais eficazes para a distribuição de informações internas, sejam eles: jornal, mural, boletins, circulares, revistas, memorandos, ofícios, manuais, cartazes, caixa de sugestões, teasers, jornais de mesa, relatório público anual etc (2005, p.2 ).

          Com ações como organização de palestras, criação e distribuição de panfletos informativos, introdução da ginástica laboral, e a elaboração e degustação de um cardápio balanceado, procurou-se despertar o interesse dos colaboradores para questões relativas à qualidade de vida (no trabalho e fora dele), obesidade e saúde.

          Com hábitos mais saudáveis, não há dúvidas de que as pessoas trabalharão mais dispostas, o que trará melhorias tanto em produtividade como ao ambiente organizacional.

          2.1.2 Públicos envolvidos

          Beneficiários

          A campanha abrangerá todos os setores da Daleph, indústria de calçados femininos na cidade de Jaú. Desde a área administrativa até o chão de fábrica, procuraremos atingir todos os colaboradores.

Apoiadores Culturais
Secretaria da Saúde de Jaú
Planos de Saúde
Restaurantes
Supermercados
Academia de ginástica

          2.1.3 Objetivos

           Geral

          Desenvolver uma campanha de caráter social abordando temas como obesidade e qualidade de vida junto a todos os setores da Daleph Calçados.

          Específicos

          Despertar o interesse dos colaboradores para questões relativas à qualidade de vida, saúde e obesidade;

          Mostrar aos funcionários a importância de fazer uma alimentação balanceada;

          Discutir como a obesidade influencia na qualidade de vida;

          Contatar profissionais para realização de exercícios no ambiente de trabalho.

          2.1.4 Estratégias

          Agendamento de reuniões do grupo

          Definição dos instrumentos de comunicação

          Busca de apoiadores

          Criação e produção dos instrumentos de comunicação

          Divulgação da campanha

          Palestra e introdução da ginástica laboral

          Degustação do cardápio

          Avaliação (pesquisa)

          2.2 Relatório da Campanha

           Para realização da campanha "VIVA!Qualidade de vida deve ser sua prioridade", foi necessário um planejamento detalhado e bem estruturado.

          O grupo contou com a colaboração da Daleph Calçados, situada em Jaú (SP), que permitiu a realização das atividades propostas com os seus respectivos colaboradores.

          A campanha foi realizada no período de uma semana (09/05 a 13/05) com uma diversidade de atividades, onde profissionais da área enriqueceram com informações, por meio de palestras sobre temas que tinham íntima relação com o proposto.

          Para dar embasamento à campanha foram definidos e elaborados instrumentos de comunicação, que foram distribuídos aos colaboradores da organização, com o objetivo de informar e despertar interesse sobre o tema.

          Dessa maneira, apresentam-se a seguir as atividades pertinentes à preparação e execução da campanha.

          2.2.1 Preparação

          a - Folder sobre Ergonomia

          Para a elaboração do folder, utilizou-se como fonte de consulta um catálogo da empresa Santista Têxtil sobre Ergonomia. Considerando a importância das informações contidas no referido catálogo, o grupo contou com a colaboração de um profissional de informática na tarefa de diagramar as informações de forma criativa e eficiente.

          Após esse processo, procedeu-se a tiragem de cópia do material para ser distribuído aos funcionários da empresa Daleph calcados, por ocasião da palestra sobre Ginástica Laboral.

          b - Folder sobre Nutrição

          Inicialmente a elaboração do folder sobre nutrição não estava inclusa no planejamento da campanha; no entanto, a profissional que realizou a palestra colaborou com o grupo apresentando informações sobre o tema no formato de um folheto. Após análise, o grupo considerou importante o conteúdo face à temática escolhida. Assim foram impressas cópias do material, que foi distribuído na palestra sobre nutrição, realizada no dia 12/05.

           C -Boletins Informativos

          Para elaboração dos boletins informativos sobre Qualidade de vida, Ginástica Laboral, Ergonomia, Obesidade e o de encerramento da campanha, foram utilizadas informações extraídas da internet, a fim de oferecer objetividade e fácil recepção por parte dos funcionários.

           As informações foram substituídas dia-a-dia. Em função da programação das atividades, os boletins foram distribuídos aos colaboradores da Daleph. Destaca-se, a seguir, os boletins elaborados e disponibilizados a todos os funcionários.

          d - Cartaz de divulgação

          O cartaz utilizado no primeiro dia para a divulgação das atividades foi elaborado pelo grupo idealizador. A professora, orientadora do trabalho, também colaborou com a definição do slogan, layout e designer.

          e - Carta aos dirigentes da empresa e profissionais colaboradores

           Foi necessária a elaboração de carta solicitando autorização para a realização da campanha: VIVA! Qualidade de vida deve ser sua prioridade, que contou com a participação de todos os integrantes do grupo. Após a respectiva autorização, deu-se início à efetivação da campanha.

           Elaborou-se também carta-convite para encaminhamento aos profissionais selecionados para a realização das atividades previstas no planejamento da campanha. A participação dos profissionais foi fundamental para o sucesso da programação.

           f - Vídeo

           Em relação à atividade desenvolvida no dia 13/05/2005 foi necessária a utilização de uma televisão e um vídeo cassete, cedidos por uma das integrantes do grupo.

           O vídeo sobre Qualidade de vida e Ergonomia, apresentado aos colaboradores da Daleph no dia 13/05, foi cedido por um estagiário de Relações Públicas da Santista Têxtil, com a prévia autorização da diretoria.

          2.2.2 Execução

          a - Início da campanha

          A campanha teve início na segunda-feira, dia 09/05, com a fixação de cartazes de divulgação e cronograma de atividades da semana no mural da empresa. Foi necessário também transmitir aos facilitadores dos setores, informações referentes às atividades a serem desenvolvidas durante a semana, considerando a importância de informarem o conteúdo das atividades aos demais funcionários da empresa.

          b - Vídeo sobre Qualidade de Vida e Ergonomia

          Para a terça-feira, dia 10/05, à 12h30, estava programada a apresentação do vídeo sobre Qualidade de Vida e Ergonomia. Devido a um problema técnico na fábrica, os funcionários foram dispensados às 10h, para retornarem somente no outro dia. Com isso, a apresentação do vídeo teve que ser transferida para sexta-feira, dia 13/05. No mural da empresa, foi afixado um boletim informativo sobre Qualidade de Vida.

          c - Palestra sobre Ginástica Laboral

          Na quarta-feira, dia 11/05, às 6h30, aconteceu uma atividade de integração, que teve como tema a Ginástica Laboral. O profissional de Educação Física, Guilherme Verdinelli, explanou sobre o assunto durante aproximadamente dez minutos e, logo após, realizou exercícios de alongamento juntamente com os funcionários. Foi distribuído um folder sobre ergonomia, com dicas para posturas no dia-a-dia. No mural foi colocado um informativo sobre Ginástica Laboral e Ergonomia.

          d - Palestra sobre Nutrição

           Na quinta-feira, 12/05, a nutricionista Paula Galvanini realizou uma palestra sobre Nutrição e Alimentação Balanceada. Em sua exposição, além de ter explicado sobre cada tipo de alimento, suas funções e benefícios, elaborou um cardápio equilibrado de acordo com as necessidades dos colaboradores. Neste dia foi distribuído também um folder contendo as informações transmitidas pela profissional. No mural, foi afixado um boletim informativo sobre Obesidade.

          e - Encerramento: Vídeo sobre Qualidade de Vida e Degustação

          Sexta-feira, 13/05, foi a data de encerramento da campanha. No mural foram expostas informações sobre as atividades desenvolvidas durante a semana. Os funcionários também foram informados sobre a apresentação do vídeo que ocorreria às 17h e, logo após, a degustação de uma torta saudável, cuja receita foi elaborada por uma estudante de Gastronomia.

           Durante a degustação foram distribuídos folhetos contendo a receita da torta, contendo um exemplo de cardápio balanceado elaborado pela nutricionista.

           2.3 Avaliação da Campanha

          Após o desenvolvimento das ações programadas, realizou-se uma pesquisa com os funcionários da empresa. No processo de levantamento de informações, optou-se por uma amostra de 20% do efetivo de funcionários. Utilizou-se, nesse sentido, os princípios da metodologia quantitativa: os funcionários foram escolhidos aleatoriamente, respeitando-se o interesse em participar da pesquisa.

          Elaborou-se um instrumento de coleta de informações contendo apenas 4 (quatro) questões, considerando que o objetivo da pesquisa era única e exclusivamente avaliar as atividades da campanha. Por isso, não foram inseridas questões referentes ao perfil do respondente, tempo de atuação na empresa, setor em que trabalha e outros aspectos.

           Na seqüência apresentam-se os resultados desse processo.

          Pode-se destacar que as atividades desenvolvidas durante a campanha possibilitaram aos pesquisados refletir e adotar novas posturas em busca de melhorias, o que pode trazer como conseqüência, a prática de hábitos saudáveis. Um semana de discussões abordando a temática configura-se como um ponto de partida. As modernas organizações já estão investindo na qualidade de vida dos seus funcionários, seja por meio de refeições balanceadas, condições de trabalho adequadas e intensificação de ações visando otimizar o relacionamento interpessoal. Ambientes saudáveis agregam valores inestimáveis às organizações: o contexto competitivo pressupõe a adoção desses princípios, que têm íntima relação com Responsabilidade Social Empresarial.

          Considerações Finais

          Pelos resultados obtidos, pode-se considerar que a campanha foi realizada com eficácia, pois atingiu os objetivos. Os colaboradores da empresa demonstraram interesse pelo tema - alguns começaram de imediato a mudar seus hábitos. Modo geral, passaram a exercitar caminhada e exercícios antes e depois do trabalho. Com relação à alimentação, todos aprovaram a sugestão do grupo e afirmaram que pretendem colocar em prática. Acredita-se que a maioria desenvolverá esforços para buscar uma melhor qualidade de vida.

          Como o profissional de Relações Públicas atua como intermediário na comunicação estabelecida entre as organizações e seus públicos, é de extrema importância que direcione suas ações para a realização de campanhas com os clientes internos, em especial quando a temática propicia aproximação da organização esse público.

          Essa dinâmica das Relações Públicas está inserida no contexto atual, onde a responsabilidade social empresarial vem sendo cada vez mais valorizada.

           Segundo Macedo e Aversa:

          O conceito de Responsabilidade Social Empresarial vem se consolidando como uma iniciativa interdisciplinar, multidimensional e associada a uma abordagem sistêmica, focada nas relações entre os públicos, ligados direta ou indiretamente ao negócio da empresa. Portanto, é imprescindível a sua incorporação à orientação estratégica da empresa, refletida em desafios éticos para as dimensões econômica, ambiental e social dos negócios.

          Sendo assim, o profissional de Relações Públicas, cumprindo com seu papel social, está se tornando um agente fundamental, dentro deste contexto, porque detém as qualidades necessárias para lidar com a Responsabilidade Social. Além de ser capaz de gerenciar o relacionamento da empresa com os seus públicos-alvo, está apto a desenvolver o planejamento das comunicações, auxiliado pela utilização de pesquisas qualitativas exploratórias e estudos quantitativos, na formulação e no controle de estratégias que visam ao desenvolvimento de habilidades interpessoais, liderança e trabalho em equipe, formas de canalização da motivação dos funcionários e de geração de um clima organizacional positivo, identificado com o envolvimento em ações voluntárias na comunidade. (2005, p.2)

          Campanhas dessa natureza são muito importantes, pois promovem interação entre a empresa e seus colaboradores.

          O tema escolhido está em evidência, pois a mídia trabalha fortemente hoje com o aumento do índice de pessoas obesas no Brasil.

          Com as ações desenvolvidas na empresa procurou-se estimular os colaboradores e seus familiares a adquirirem uma vida mais saudável dentro e fora do ambiente de trabalho.

          Referências

CATÁLOGO Santista Têxtil, SIPAT, 2004.

CESAR, R.C.E. As relações públicas frente ao desenvolvimento comunitário. Revista Comunicação e Sociedade. São Bernardo do Campo: SP, nº 32, p. 87-112, jul./dez., 1999.

MACEDO, Luis Carlos de, AVERSA, Marcelo B. A contribuição das Relações Públicas para a criação da empresa-cidadã. http://www.portal-rp.com.br/bibliotecavirtual/responsabilidadesocial/0134.htm. Acesso em 6 jun 2005.

MORETTI, Silvinha. Qualidade de vida no trabalho versus auto-realização humana. Disponível em http://www.icpg.com.br/artigos/rev03-12.pdf. Acesso em 20 de ago 2005.

PERUZZO, C.M.K. Relações públicas com a comunidade: uma agenda para o século XXI. Comunicação apresentada no GT de Relações Públicas da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares - Intercom, no XXII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, realizado no Rio de Janeiro- RJ, em 1999.

STUDT, Mauricio. A ação social dos Relações Publicas. http://ram.uol.com.br/materia.asp?id=410. Acesso em 17 mar 2005.

          Sites

http://ram.uol.com.br/materia.asp?id=367 . Acesso em 17 mar 2005.

http://emedix.com.br/doe/end001_1h_obesidade.php Acesso em 25 abr 2005.

http://www.abcdasaude.com.br/artigo.php?303 Acesso em 25 abr 2005.

http://saude.terra.com.br/interna/0,,0I134130-EI1729,00.html Acesso em 25 abr 2005.

www.eps.ufsc.br/ergon/disciplinas/EPS5225/neri/Ergonomia_e_Seguranca_Industrial_aula_1.ppt Acesso em 25 abr 2005.

http://www.brasgolden.com.br/ergonomia/ergonomia.htm Acesso em 25 abr 2005.

 

---------------------------------------------------------------------------------

Sonia Aparecida Cabestré
Doutora em Educação pela UNESP de Marília, Professora do Curso de Comunicação Social - Habilitação em Relações Públicas e do Curso de Pós-Graduação em Gestão Estratégica em Marketing" da Universidade do Sagrado Coração (USC) e Coordenadora do Núcleo de Pesquisa do Terceiro Setor , USC/Bauru/SP.

Henrique Martins de Souza Barros, Jakeline Temporim Gimenes, Thaís Bertoldi Verdinelli eVivian Boza Hernandez
São acadêmicos do Curso de Relações Públicas da USC e idealizadores da campanha.

---------------------------------------------------------------------------------

 

 
Imprimir   Enviar para um amigo
     
Webdesign e hospedagem por @ms public