
Aspectos
da comunicação médico-paciente no contexto
da primeira consulta
Berenice Carpigiani*
Introdução
A interdisciplinaridade supõe troca de conhecimentos
entre áreas afins e possibilita que diferentes campos de
estudo e pesquisa possam se debruçar sobre um mesmo tema
de interesse aprofundando conceitos, criando novos campos de saber
e produzindo ciência em conjunto.
As entrevistas com médicos estão sendo
realizadas com maior freqüência na atualidade, pois,
uma das grandes áreas de interesse de pesquisa é
a da comunicação e saúde. O trabalho apresentado
na VII Conferência Brasileira de Comunicação
e Saúde: mídia, saúde, trabalho, realizada
em São Leopoldo (2005), foi desenvolvido com o objetivo
conhecer a forma como o médico distribui o tempo da primeira
consulta.
O primeiro diálogo entre um paciente e seu
médico, de qualquer especialidade e na situação
de consultório é, antes de tudo a busca de um encontro.
Do lado do paciente várias expectativas permeiam o contato:
de ser ouvido, de ser compreendido, de entender quais fatores
estão produzindo determinados desconfortos, de alívio
da dor, de orientação. Do lado do médico,
este primeiro encontro também é inquietante. É
uma nova pessoa que ele recebe para escutar, para entender tecnicamente
o que pode estar acontecendo, para examinar, levantar hipóteses,
pedir exames e preparar-se para as consultas subseqüentes,
se necessário.
O recorte do estudo de uma primeira entrevista com
médicos se justifica no sentido da busca de compreensão
sobre as trocas comunicacionais que ocorrem neste contexto tão
particular, que é o da doença e da dor e que desembocarão
numa comunicação própria de emissão,
recepção e transformação de mensagens.
Este trabalho é parte de um trabalho mais
amplo e teve a finalidade de apresentar um modelo possível
de entrevista como instrumento de pesquisa, o desenvolvimento
de sua aplicação, a observação da
aproximação com os sujeitos, além de subsidiar
um exercício de discussão do processo e dos resultados
obtidos nas entrevistas realizadas.
Entrevistar médicos tem se tornado cada vez
mais freqüente no universo da pesquisa em comunicação
pela abertura interdisciplinar que, claramente vem possibilitando
discussões entre diferentes áreas de conhecimento.
Deste processo têm surgido ricas formas de construção
de ciência e de desenvolvimento técnico e filosófico.
Um exemplo de possibilidade interdisciplinar é
a interface comunicação e saúde, interface
que vem dialogando com muitos resultados na atualidade. Ao procurarmos,
dentro da Comunicação compreender estruturas comunicacionais
próprias deste contexto e, com muita segurança podemos
dizer que estamos colaborando com o estudo dos processos comunicacionais
em áreas da saúde, especialmente na situação
específica da consulta realizada em consultório
médico o que poderá propiciar uma revisão
da relação de comunicação entre o
médico e seu paciente e poderá também fornecer
subsídios para a discussão da qualidade desta relação.
A linha de pesquisa denominada Comunicação
e Saúde, dentro do programa de pós-graduação
em Comunicação da Universidade Metodista de São
Paulo é definida como o:
"cruzamento e a valorização
da comunicação interpessoal, da comunicação
mediática, da comunicação grupal e organizacional,
bem como a necessidade reiterada da interdisciplinaridade, são
noções que vêm sendo exploradas e bem utilizadas
em estudos já bastante avançados em países
como Estados Unidos Espanha e França, entre outros, apresentando
resultados edificadores no que concerne ao bem estar dos povos
e de seu desenvolvimento auto-sustentável". (BERTOL,
2004, p.255).
Esta definição é fruto da evolução
e da força da interdisciplinaridade e, dentro dela podemos
situar o surgimento do estudo dos processos de comunicação
que ocorrem na relação médico-paciente. É
interessante apontar que, ainda que timidamente, as matrizes curriculares
de cursos de medicina têm contemplado o estudo dos processos
comunicacionais na formação do futuro médico
o quê é resultado e favorece a pesquisa da comunicação
médico-paciente no âmbito da academia e tem gerado
estudos, congressos, dissertações e teses. De acordo
com EPSTEIN (apud BERTOL, 2004, p.256): "A comunicação
médico-paciente, algo marginal no ensino da medicina, passa
a ser uma disciplina com lugar no currículo (...) a comunicação
foi sendo utilizada de forma séria e ética para
tentar tornar a saúde um bem mais viável para todos",
o que aponta para a realidade de que a entrevista a ser realizada
com médicos, inevitavelmente será explorada nas
pesquisas dentro do universo da Comunicação.
Objetivos
Conhecer a forma como o médico distribui o
tempo de uma primeira consulta, e quais procedimentos ou técnicas
ele utiliza para preencher o tempo e a relação com
este paciente novo e desconhecido.
Método
Principalmente dentro da pesquisa qualitativa e em
Comunicação, a utilização da entrevista
é bastante útil, pois ela se constitui numa técnica
que permite uma rica coleta de dados.
"A entrevista, que
visa obter respostas válidas e informações
pertinentes, é uma verdadeira arte, que se aprimora com
o tempo, com treino e com experiência. Exige habilidade
e sensibilidade; não é tarefa fácil, mas
é básica. Na verdade o papel do entrevistador
na relação com o sujeito entrevistado é
de extrema importância para a qualidade da obtenção
dos dados para a pesquisa". ( LAKATOS-MARCONDES,1998, p.46).
Este diálogo pode acontecer de diferentes
maneiras, mas os objetivos visam sempre a obtenção
de informações sobre um problema como, por exemplo:
averiguação de fatos, determinação
de opiniões sobre fatos , determinação de
sentimentos, descoberta de planos de ação, conduta
atual ou do passado, motivos conscientes para opiniões
e sentimentos, portanto é uma situação relacional
com objetivos que devem estar claros para ambos os lados.
Foram entrevistados quatro médicos escolhidos
aleatoriamente e que se dispuseram a ser sujeitos colaboradores
deste breve estudo. As entrevistas foram agendadas previamente
e foram realizadas nos próprios consultórios, sempre
após a última consulta do dia. As respostas foram
gravadas com o consentimento do colaborador e posteriormente transcritas.
Os procedimentos éticos foram devidamente cumpridos. As
fichas de identificação continham sexo, idade, especialidade
e tempo de atuação na medicina.
A seguir o roteiro das perguntas que compuseram a
aplicação da entrevista.
1. Em sua opinião, qual
o tempo ideal para a primeira consulta e qual o tempo real utilizada?
2. O tempo é uma variável importante para a comunicação
entre o médico e seu paciente?
3. O sr(a) possui alguma técnica para distribuir o tempo
de uma primeira consulta?
4. O sr(a) possui alguma técnica para comunicar um diagnóstico
e explicar o tratamento para seu paciente?
Resultados
Foi possível observar que, o tempo ideal para
a realização de uma primeira consulta varia entre
10 minutos e uma hora e depende de alguns fatores tais como, especialidade,
objetivo e personalidade do paciente. Para dois dos médicos
entrevistados o tempo é uma variável importante
para que seja possível ouvir e estabelecer vínculo
com o paciente.
Para dois dos médicos o tempo depende do tipo
de consulta e da personalidade do paciente. Sobre a técnica
de distribuição do tempo da primeira consulta três
dos médicos descrevem como sistematizado, com roteiro fixo
nos modelos da anamnese geral e específica, levantamento
de queixas, exame clínico seguido por pedido de exames.
Apenas um dos médicos não dirige a primeira consulta
com objetivo de observar melhor o paciente na sua relação
com a doença.
Com relação à técnica
de comunicação do diagnóstico, dois dos médicos
entrevistados possuem atitude racional, trabalham todas as informações
reais, apresentam possibilidades, estatísticas de cura
e se preocupam com a esperança passada para o paciente.
Uma das respostas aponta para uma escuta particular sobre o quê
o paciente quer e pode ouvir e outra ressalta que depende do perfil
do paciente.
Os médicos entrevistados não estudaram
sistemas de comunicação médico-paciente durante
a graduação a não ser na cadeira de psiquiatria
e consideram uma falha na formação.
Também fica evidente a ambientação
e aproximação que ocorre entre a entrevistadora
e o médico entrevistado. Sem perder a neutralidade e respeitando
o limite possível percebido no transcurso do diálogo,
os dados foram colhidos sem que o entrevistado sentisse ameaça
ou desconfiança, traduzindo o caráter de fidedignidade
necessário para a aplicação desta técnica
em pesquisa.
Foi possível também perceber, para
além dos dados concretos das respostas obtidas que a personalidade
do entrevistado ecoa através da sua fala. É interessante
observar que mesmo com a aplicação de roteiro idêntico
cada um dos médicos entrevistados permitiu um tipo de contato
com a o entrevistador, delimitou mais ou menos a estrutura da
resposta e deu um colorido particular à relação
de diálogo que se estabeleceu.
Dois dos médicos entrevistados se apresentam,
como profissionais bastante envolvidos com o momento do primeiro
contato com seu paciente e que forneceram informações
de maneira altruísta, utilizaram a memória de maneira
bastante evidente, deram vida ao encontro, permitiram inserções
do entrevistador e deram informações para além
daquilo que estava sendo pedido.
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Berenice Carpigiani
Psicóloga clínica, doutoranda em Comunicação
Social - linha de pesquisa Comunicação e saúde
- pela Universidade Metodista de São Paulo. Professora,
supervisora e chefe de departamento na Faculdade de Psicologia
da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Possui publicações
(livro, capítulos de livros e artigos) na área da
História da Psicologia e da saúde do adolescente.
É pesquisadora da comunicação e relação
médico - paciente.
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