Volume 2
Número 3

20 de dezembro de 2005
 
 * Edição atual    

          Aspectos da comunicação médico-paciente no contexto da primeira consulta

Berenice Carpigiani*

         Introdução

         A interdisciplinaridade supõe troca de conhecimentos entre áreas afins e possibilita que diferentes campos de estudo e pesquisa possam se debruçar sobre um mesmo tema de interesse aprofundando conceitos, criando novos campos de saber e produzindo ciência em conjunto.

         As entrevistas com médicos estão sendo realizadas com maior freqüência na atualidade, pois, uma das grandes áreas de interesse de pesquisa é a da comunicação e saúde. O trabalho apresentado na VII Conferência Brasileira de Comunicação e Saúde: mídia, saúde, trabalho, realizada em São Leopoldo (2005), foi desenvolvido com o objetivo conhecer a forma como o médico distribui o tempo da primeira consulta.

         O primeiro diálogo entre um paciente e seu médico, de qualquer especialidade e na situação de consultório é, antes de tudo a busca de um encontro. Do lado do paciente várias expectativas permeiam o contato: de ser ouvido, de ser compreendido, de entender quais fatores estão produzindo determinados desconfortos, de alívio da dor, de orientação. Do lado do médico, este primeiro encontro também é inquietante. É uma nova pessoa que ele recebe para escutar, para entender tecnicamente o que pode estar acontecendo, para examinar, levantar hipóteses, pedir exames e preparar-se para as consultas subseqüentes, se necessário.

         O recorte do estudo de uma primeira entrevista com médicos se justifica no sentido da busca de compreensão sobre as trocas comunicacionais que ocorrem neste contexto tão particular, que é o da doença e da dor e que desembocarão numa comunicação própria de emissão, recepção e transformação de mensagens.

         Este trabalho é parte de um trabalho mais amplo e teve a finalidade de apresentar um modelo possível de entrevista como instrumento de pesquisa, o desenvolvimento de sua aplicação, a observação da aproximação com os sujeitos, além de subsidiar um exercício de discussão do processo e dos resultados obtidos nas entrevistas realizadas.

         Entrevistar médicos tem se tornado cada vez mais freqüente no universo da pesquisa em comunicação pela abertura interdisciplinar que, claramente vem possibilitando discussões entre diferentes áreas de conhecimento. Deste processo têm surgido ricas formas de construção de ciência e de desenvolvimento técnico e filosófico.

         Um exemplo de possibilidade interdisciplinar é a interface comunicação e saúde, interface que vem dialogando com muitos resultados na atualidade. Ao procurarmos, dentro da Comunicação compreender estruturas comunicacionais próprias deste contexto e, com muita segurança podemos dizer que estamos colaborando com o estudo dos processos comunicacionais em áreas da saúde, especialmente na situação específica da consulta realizada em consultório médico o que poderá propiciar uma revisão da relação de comunicação entre o médico e seu paciente e poderá também fornecer subsídios para a discussão da qualidade desta relação.

         A linha de pesquisa denominada Comunicação e Saúde, dentro do programa de pós-graduação em Comunicação da Universidade Metodista de São Paulo é definida como o:

"cruzamento e a valorização da comunicação interpessoal, da comunicação mediática, da comunicação grupal e organizacional, bem como a necessidade reiterada da interdisciplinaridade, são noções que vêm sendo exploradas e bem utilizadas em estudos já bastante avançados em países como Estados Unidos Espanha e França, entre outros, apresentando resultados edificadores no que concerne ao bem estar dos povos e de seu desenvolvimento auto-sustentável". (BERTOL, 2004, p.255).

         Esta definição é fruto da evolução e da força da interdisciplinaridade e, dentro dela podemos situar o surgimento do estudo dos processos de comunicação que ocorrem na relação médico-paciente. É interessante apontar que, ainda que timidamente, as matrizes curriculares de cursos de medicina têm contemplado o estudo dos processos comunicacionais na formação do futuro médico o quê é resultado e favorece a pesquisa da comunicação médico-paciente no âmbito da academia e tem gerado estudos, congressos, dissertações e teses. De acordo com EPSTEIN (apud BERTOL, 2004, p.256): "A comunicação médico-paciente, algo marginal no ensino da medicina, passa a ser uma disciplina com lugar no currículo (...) a comunicação foi sendo utilizada de forma séria e ética para tentar tornar a saúde um bem mais viável para todos", o que aponta para a realidade de que a entrevista a ser realizada com médicos, inevitavelmente será explorada nas pesquisas dentro do universo da Comunicação.

         Objetivos

         Conhecer a forma como o médico distribui o tempo de uma primeira consulta, e quais procedimentos ou técnicas ele utiliza para preencher o tempo e a relação com este paciente novo e desconhecido.

         Método

         Principalmente dentro da pesquisa qualitativa e em Comunicação, a utilização da entrevista é bastante útil, pois ela se constitui numa técnica que permite uma rica coleta de dados.

"A entrevista, que visa obter respostas válidas e informações pertinentes, é uma verdadeira arte, que se aprimora com o tempo, com treino e com experiência. Exige habilidade e sensibilidade; não é tarefa fácil, mas é básica. Na verdade o papel do entrevistador na relação com o sujeito entrevistado é de extrema importância para a qualidade da obtenção dos dados para a pesquisa". ( LAKATOS-MARCONDES,1998, p.46).

         Este diálogo pode acontecer de diferentes maneiras, mas os objetivos visam sempre a obtenção de informações sobre um problema como, por exemplo: averiguação de fatos, determinação de opiniões sobre fatos , determinação de sentimentos, descoberta de planos de ação, conduta atual ou do passado, motivos conscientes para opiniões e sentimentos, portanto é uma situação relacional com objetivos que devem estar claros para ambos os lados.

         Foram entrevistados quatro médicos escolhidos aleatoriamente e que se dispuseram a ser sujeitos colaboradores deste breve estudo. As entrevistas foram agendadas previamente e foram realizadas nos próprios consultórios, sempre após a última consulta do dia. As respostas foram gravadas com o consentimento do colaborador e posteriormente transcritas. Os procedimentos éticos foram devidamente cumpridos. As fichas de identificação continham sexo, idade, especialidade e tempo de atuação na medicina.

         A seguir o roteiro das perguntas que compuseram a aplicação da entrevista.

1. Em sua opinião, qual o tempo ideal para a primeira consulta e qual o tempo real utilizada?
2. O tempo é uma variável importante para a comunicação entre o médico e seu paciente?
3. O sr(a) possui alguma técnica para distribuir o tempo de uma primeira consulta?
4. O sr(a) possui alguma técnica para comunicar um diagnóstico e explicar o tratamento para seu paciente?

         Resultados

         Foi possível observar que, o tempo ideal para a realização de uma primeira consulta varia entre 10 minutos e uma hora e depende de alguns fatores tais como, especialidade, objetivo e personalidade do paciente. Para dois dos médicos entrevistados o tempo é uma variável importante para que seja possível ouvir e estabelecer vínculo com o paciente.

         Para dois dos médicos o tempo depende do tipo de consulta e da personalidade do paciente. Sobre a técnica de distribuição do tempo da primeira consulta três dos médicos descrevem como sistematizado, com roteiro fixo nos modelos da anamnese geral e específica, levantamento de queixas, exame clínico seguido por pedido de exames. Apenas um dos médicos não dirige a primeira consulta com objetivo de observar melhor o paciente na sua relação com a doença.

         Com relação à técnica de comunicação do diagnóstico, dois dos médicos entrevistados possuem atitude racional, trabalham todas as informações reais, apresentam possibilidades, estatísticas de cura e se preocupam com a esperança passada para o paciente. Uma das respostas aponta para uma escuta particular sobre o quê o paciente quer e pode ouvir e outra ressalta que depende do perfil do paciente.

         Os médicos entrevistados não estudaram sistemas de comunicação médico-paciente durante a graduação a não ser na cadeira de psiquiatria e consideram uma falha na formação.

         Também fica evidente a ambientação e aproximação que ocorre entre a entrevistadora e o médico entrevistado. Sem perder a neutralidade e respeitando o limite possível percebido no transcurso do diálogo, os dados foram colhidos sem que o entrevistado sentisse ameaça ou desconfiança, traduzindo o caráter de fidedignidade necessário para a aplicação desta técnica em pesquisa.

         Foi possível também perceber, para além dos dados concretos das respostas obtidas que a personalidade do entrevistado ecoa através da sua fala. É interessante observar que mesmo com a aplicação de roteiro idêntico cada um dos médicos entrevistados permitiu um tipo de contato com a o entrevistador, delimitou mais ou menos a estrutura da resposta e deu um colorido particular à relação de diálogo que se estabeleceu.

         Dois dos médicos entrevistados se apresentam, como profissionais bastante envolvidos com o momento do primeiro contato com seu paciente e que forneceram informações de maneira altruísta, utilizaram a memória de maneira bastante evidente, deram vida ao encontro, permitiram inserções do entrevistador e deram informações para além daquilo que estava sendo pedido.

         Referências

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Berenice Carpigiani
Psicóloga clínica, doutoranda em Comunicação Social - linha de pesquisa Comunicação e saúde - pela Universidade Metodista de São Paulo. Professora, supervisora e chefe de departamento na Faculdade de Psicologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Possui publicações (livro, capítulos de livros e artigos) na área da História da Psicologia e da saúde do adolescente. É pesquisadora da comunicação e relação médico - paciente.

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