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A
Ouvidoria como alternativa de interlocução com os
diferentes públicos da área hospitalar
Cláudia de Salles Stadtlober*
Laura Maria Glüer*
Margareth Schreiner*
Resumo
A Ouvidoria é um novo canal
de interlocução no contexto da comunicação
organizacional. Função criada para representar o
cidadão, atua na defesa dos direitos e deveres da sociedade
em geral, especialmente dos públicos de interesse da organização.
O presente artigo discute a interlocução possível
da Ouvidoria na área hospitalar, como projeto de comunicação
aplicado à saúde, a partir da conceituação
lógica de públicos proposta por França (2004)
frente aos novos parâmetros que marcam as estruturas complexas
das organizações no mercado atual, tendo como base
desta conceituação o relacionamento organização-públicos
sustentado por interesses institucionais.
Palavras-chave: Ouvidoria; Públicos
Introdução
Cada vez mais, as organizações encontram-se diante
do desafio de aperfeiçoar sua comunicação
com os diferentes públicos. Informação e
comunicação são atualmente os principais
indicadores de poder das organizações públicas
e privadas, políticas, acadêmicas, de pesquisa, entidades
de classe e outras. Neste poder reside a capacidade de entendimento
da organização com seus diferentes públicos
e a qualidade da sua imagem junto à sociedade.
Imagem, conceito e entendimento positivos são resultados
desejados, através de processos, sistemas e planos de comunicação.
Segundo Pitta (1995), estes são operacionalizados por sofisticados
mecanismos de criação, produção e
veiculação, e vinculados a estratégias, especialistas,
meios e à tecnologia gerada nos campos da informação,
propaganda e promoção.
Visibilidade, para marcar a diferença entre uma organização
e outra é a principal meta. Nas empresas que constituem
o mercado, esta diferença é disputada pela qualidade
do produto e pela sua capacidade de seduzir clientes e consumidores.
Mas, nas organizações públicas, a sua própria
função junto à sociedade já se constitui
como a diferença, como a marca da sua singularidade.
No campo da saúde, os serviços prestados à
comunidade determinam sua responsabilidade e esta seu potencial
de visibilidade. Especialmente as organizações da
área hospitalar constituem um tipo de organização
observada constantemente pela sociedade, por sua função
e importância junto à mesma. Como analisa Basile
(2002, p. 48), "a vigilância da sociedade criou a necessidade
de uma agenda de mudanças que precisa ser comunicada".
Na visão do referido autor, a responsabilidade disso é
da democracia, que todos ajudamos a criar e estamos ajudando a
consolidar.
Neste sentido, ganha força o debate teórico sobre
a comunicação organizacional, onde através
de um conjunto de ações de comunicação,
se busca, entre outros objetivos, dar voz aos diferentes públicos
da organização, buscando um relacionamento saudável
com os mesmos. Entende-se como comunicação organizacional
"a somatória de todas as atividades de comunicação
da empresa, elaborada de forma multidisciplinar" (Nassar
e Figueiredo 1995, p.19). Complementa Bueno (2003, p.7) ao afirmar
que a comunicação passou a ser estratégica
para as organização, deixando de ser um "mero
conjunto de atividades, desenvolvidas de maneira fragmentada,
para constituir-se em um processo integrado que orienta o relacionamento
da empresa ou entidade com todos os seus públicos de interesse".
Nas organizações do campo da saúde, particularmente
as da área hospitalar, conforme Pitta (1995), tão
importante quanto saber administrar recursos humanos, financeiros
e tecnologia é administrar o sistema de comunicação
que abrange a estrutura, profissionais e meios. Estes visam a
produção de projetos estratégicos de comunicação
que possam dar conta da potencialidade e necessidades informativas,
publicitárias e promocionais da organização.
Algumas organizações necessitam de projetos especiais,
porque trabalham diretamente com as questões limítrofes
do ser humano, com as marcas que o informam sobre a qualidade
da sua vida, das suas doenças e da sua morte. De acordo
com Pitta (1995), simultaneamente, a área da saúde
se debate em meio ao movimento da política da economia,
em torno da cidadania, higiene, alimentação, miséria
e riqueza.
Entre as diferentes ações de comunicação
organizacional atualmente existentes, um canal que tem se tornado
cada vez mais eficaz na interlocução das organizações
com seus diferentes públicos é a Ouvidoria. "A
função criada para representar o cidadão,
zelando por seus legítimos interesses junto às instituições
públicas e privadas" (Vismona 2000, p.11) insere-se
no cenário de cidadania que hoje circunda as organizações,
com o estabelecimento de um diálogo no nível microssocial
das organizações. Para Nacfur (2004):
A Ouvidoria, por intermédio do Ouvidor, tem como atribuição
básica atuar na defesa dos direitos e interesses da sociedade
em geral, notadamente dos clientes e usuários, atuais ou
potenciais, contra atos e omissões cometidos pela empresa,
com a finalidade de zelar para que a instituição
atue com eficiência e mantenha crescente o prestígio
de que desfruta perante a sociedade.
A revisão bibliográfica acerca do tema aponta os
primórdios da atividade para o início do século
XIX, na Suécia. Neste período, o profissional ouvidor,
conhecido originalmente como ombudsman (1) tinha como função
receber e dar encaminhamento às queixas dos cidadãos.
A difusão dessa função, entretanto, só
ocorreu em meados da década de 1960, quando a atividade
proliferou-se na mídia impressa, com a incorporação
da figura do ombudsman junto à redação dos
grandes jornais americanos. Hoje, a Ouvidoria integra o quadro
dos principais jornais da Europa, Ásia, África do
Sul, América do Norte e Latina e expandiu-se para outros
segmentos, na esfera das organizações públicas
e privadas, entre elas o campo da saúde e mais especificamente
a área hospitalar.
Ouvir o cidadão é uma prática intrinsecamente
ligada ao campo da saúde. Deveria fazer parte da rotina
dos profissionais que atuam neste setor ouvir as necessidades
da sociedade em seus diferentes tipos de demandas no campo da
saúde. Sabemos que isso, infelizmente, nem sempre acontece
na prática.
Falamos aqui da necessidade de um espaço de comunicação
destinado exclusivamente a ouvir a fala dos cidadãos e
a partir das demandas recebidas, fazer sua análise e promover
a melhoria em vários aspectos do ambiente organizacional.
Na área da saúde, é fundamental saber lidar
com gente. A todo momento, pelos corredores dos hospitais, nos
ambulatórios, salas de emergência e leitos de pacientes,
surgem conflitos originados de uma atitude não -compreendida
ou mesmo de uma reação inesperada (SILVA, 1996,
p. 13).
O desafio dos públicos
Uma das atribuições de uma Ouvidoria, na perspectiva
de sua inserção nas diferentes ações
de comunicação organizacional, deve ser estabelecer
uma comunicação ágil e transparente com os
diferentes públicos da organização. Conforme
Bueno (2003), é fundamental para a comunicação
organizacional o conhecimento do perfil dos públicos com
os quais a organização se relaciona e a criação
de espaços e canais para um relacionamento sadio com estes
públicos.
Mais quais são estes diferentes públicos de uma
organização? Como afirma França (2004, p.24),
o público "é analisado em sentido estrito quando
se procura definir de modo específico, em termos de organização,
o tipo de relação, seus objetivos e as expectativas
que se tem dela". Segundo ele, também é possível
analisar, inversamente, que tipo de relações, objetivos
e expectativas os públicos têm em relação
às organizações com as quais estão
ligados ou podem vir a estar, no caso dos públicos potenciais.
É cada vez mais difícil buscar respostas a questões
envolvendo os diferentes públicos de uma organização
tendo por base a categorização clássica em
públicos internos, externos e mistos. França (2004)
relembra em sua pesquisa acerca do tema a falta de estudos mais
aprofundados sobre públicos, na área das Relações
Públicas, a abrangência e a complexidade do termo,
além da divisão dos públicos a partir de
várias perspectivas, na visão de diferentes correntes
teóricas. O autor avança ao trazer o conceito de
stakeholders (2), cujo emprego é relativamente novo no
Brasil. Para ele, no entanto, há ligeira diferença
entre stakeholders e públicos, pois a idéia do primeiro
está diretamente relacionada a um grupo de pessoas que
afeta ou pode ser afetado pelas decisões da organização,
seja por interesse ou direitos legais.
Neste sentido, França (2004) faz uma crítica à
classificação simplificadora de públicos
em internos, externos e mistos, bastante aceita e difundida nas
escolas de comunicação do Brasil, por entender que
nos três âmbitos pressupõe-se o mesmo grau
de interação. Esta crítica ganha eco na visão
de Bueno (2003, p. 14): "será que não perceberam
que não há um público interno, mas diferentes
públicos internos, com background cultural, social, econômico
e informativo distintos?" .
O debate evidencia a necessidade da busca de uma nova conceituação
para os públicos, tendo em vista o dinâmico cenário
das organizações atuais. Nesta perspectiva, torna-se
necessário incluir nesta conceituação organizações
com particularidades como os hospitais, considerando também
os novos formatos organizacionais do terceiro setor. Questiona
França (2004, p. 78): "qual será o critério
a ser adotado para melhor conceituação dos relacionamentos
desses públicos com a organização?".
Como classificar médicos, pacientes, familiares, fornecedores
e outros públicos na clássica categorização
em públicos externo, interno e misto? Todos são
públicos que podem interagir em uma Ouvidoria e uma análise
apurada de sua classificação não está
tão ligada à idéia do lugar onde se encontram,
mas talvez do grau de relacionamento que estabelecem com a organização
em determinados momentos.
Nesta perspectiva, responde de forma mais abrangente nossa inquietação
a conceituação lógica de públicos
proposta por França (2004, p.99). Conforme esta nova classificação,
são tomados por base os objetivos e critérios do
relacionamento da organização com seus públicos.
É proposta, assim, uma nova categorização,
que subdivide os públicos em essenciais e não-essenciais
e em públicos de redes de interferência.
Para França (2004, p. 105), públicos essenciais
são aqueles que estão juridicamente ligados à
organização e dos quais depende para a sua constituição,
manutenção de sua estrutura, sobrevivência
e para a execução de suas atividades-fim. Esse nível
de dependência, prossegue o autor, é de caráter
situacional, variando de acordo com cada tipo de organização.
Estes públicos essenciais ramificam-se em dois outros grupos
menores (p. 106), que são os públicos constitutivos,
onde enquadram-se investidores, acionistas, presidentes, diretores,
sócios, etc. e os públicos de sustentação,
que não interferem diretamente na constituição
da organização, mas na sua viabilização/manutenção/sustentação,
enquanto colaboram para a execução de atividades-
fim. Nesta segunda ramificação, enquadrariam-se
os colaboradores, clientes, fornecedores de uma organização
e outras categorias como sócios de clubes e alunos de instituições
escolares.
França (2004) traz ainda as categorias de público
não-essencial (p. 109) que seria representada por redes
de interesse específico da organização, com
maior ou menor grau de participação, e públicos
classificados como redes de interferência (p. 111), pertencentes
ao cenário externo das organizações, que
podem exercer influência junto ao mercado e à opinião
pública.
Públicos essenciais são sempre prioritários.
No entanto, uma organização do campo da saúde,
em especial do setor hospitalar, não deve furtar-se de
seu dever de interagir com os diferentes públicos, independente
do grau de relacionamento com estes estabelecido.
A Ouvidoria pode cumprir papel importante nesta interlocução.
Cabe à Ouvidoria, em particular na área da saúde,
interagir com os diferentes públicos, exercitando sua capacidade
de ouvi-los. Atrelada à comunicação organizacional,
que amplia o conceito de mercados para o de públicos estratégicos,
sem reduzi-los simplesmente à noção de cliente,
observa-se uma valorização da Ouvidoria como agente
de transformação. Como afirma Bueno (2003, p.11),
apenas organizações imaturas no âmbito da
comunicação, lançam a tese de que tudo é
marketing, cegando a organização para seus vínculos
indispensáveis com os multiplicadores de opinião.
Morin (2000, p. 110) alerta para a eficácia que pode ser
obtida por meio do apelo para a iniciativa e para a responsabilidade
dos indivíduos ou grupos nas organizações.
Mas certamente esta é uma travessia difícil, em
especial quando se aborda o campo da saúde.
A democracia supõe e nutre a diversidade dos interesses,
assim como a diversidade de idéias (...). A democracia
necessita ao mesmo tempo de conflitos de idéias e de opiniões,
que lhe conferem sua vitalidade e produtividade. (Morin, 2000,
p.108)
Este constitui desafio teórico a ser superado e possibilidade
de novo projeto a ser implantado nas organizações
da área da saúde, em especial do setor hospitalar,
envolvendo diretamente a área da comunicação.
Notas
1) O termo resulta da junção
da palavra ombud, que significa representante, procurador, com
a palavra man - homem (Vismona, 2000, p. 11)
2) Segundo Carrol (apud França,
p. 59) é um termo idiomático inglês que define
todas as pessoas que possuem interesse em relação
às empresas ou organizações.
Referências Bibliográficas
BUENO, Wilson da Costa. Comunicação
Empresarial - Teoria e Pesquisa. São Paulo: Manole, 2003.
CHAMPAGNE, Patrick. Formar a opinião:
o novo jogo político. Petrópolis: Vozes, 1996.
FRANÇA, Fábio. Públicos:
como identificá-los em uma nova visão estratégica.
São Caetano do Sul/SP: Yendis Editora, 2004.
KUNSCH, Margarida Maria Krohling.
Relações públicas e modernidade - novos paradigmas
na comunicação organizacional. São Paulo:
Summus Editorial, 1997.
MORIN, Edgar. Introdução
ao Pensamento Complexo. Lisboa: Instituto Piaget, 2001.
NACFUR, Anis. A realidade de uma
ouvidoria. www.abonacional.org.br
NASSAR, Paulo; FIGUEIREDO, Rubens.
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PITTA, Áurea M. da Rocha
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da Silva. Comunicação tem remédio: a comunicação
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Paulo: Gente, 1996.
SROUR, Robert Henry. Cultura, poder
e ética nas organizações. Rio de Janeiro:
Elsevier, 1998.
Sites consultados
www.abonacional.org.br
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Cláudia de Salles Stadtlober
Bacharel em Administração Hospitalar (UNISINOS),
especialista em Gestão da Saúde (UFRGS) e mestre
em Ciências Sociais Aplicadas (UNISINOS).
Laura Maria Glüer
Bacharel em Comunicação Social-Jornalismo (UFRGS),
especialista em Comunicação Organizacional (PUCRS)
e mestre em Comunicação Social (PUCRS).
Margareth Schreiner
Bacharel em Administração Hospitalar (UNISINOS),
especialista em Gestão e Saúde (UFRGS) e Comunicação
e Saúde (UFRGS) e mestre em Saúde Coletiva (UNISINOS).
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