
Publicidade
de medicamentos: verdades e falácias
Nelly Carvalho*
Resumo
O
presente trabalho objetiva estudar as formas de argumentação
nas publicidades de medicamentos , em meios de comunicação
, alguns dirigidos apenas á classe média e outros
ao público em geral. É uma amostragem de um trabalho
mais amplo a ser apresentado como comunicação e
utiliza como teóricos que embasam as análises, Geis,Austin
, Ducrot, Searle , Morgan,Grice , além da experiência
da própria autora em estudos anteriores sobre a escolha
lexical no discurso publicitário
Fundamentação
teórica
As
sentenças genéricas afirmam, com segurança,
fatos que às vezes são negados em casos particulares.
Por exemplo: o enunciado "crianças são indagadoras"
e um enunciado aceito como verdade pelo senso comum. A força
da generalização não deixa perceber que algumas
crianças não preenchem esta condição:
são as tímidas, as deficientes, as recém-nascidas,
etc.
A
publicidade utiliza este recurso para divulgar a qualidade de
seus produtos porque dificilmente os usuários saberão
opor argumentos a frases generalizantes, sobretudo às que
apelam para o senso comum. Assim, analisando-se inicialmente um
exemplo de caso em relação à publicidade
comercial de medicamentos, podemos perceber como atuam em relação
a consumidor falante comum e qual a razão de sua força
perlocutória.
Tomamos,
como mini-corpus, publicidades comerciais d medicamentos, por
nos parecerem as mais generalizantes e a' mesmo tempo autoritárias,
em matéria de publicidade comercial. Elas se constroem
e extraem sua força da dificuldade d falante neste domínio
do conhecimento.
(1)
"X penetra suavemente na pele ferida para matar germens que
podem causar infecção; desta forma ajuda a sarar
rapidamente
(2)
"1 contém todas as vitaminas básicas necessárias
para o bom funcionamento do organismo. Vitaminas como a A,B,C,
e especialmente vitamina E, além de elementos naturais
altamente energéticos como o guaraná, a maripuama
e ervas medicinais. Desta forma ajuda a combater o "stress"
e a manter o dinamismo em alta. Pelo menos, no que diz respeito
a energia, pode ficar tranqüilo".
A
afirmação de que as condições de verdade
de uma sentença genérica podem ser definidas independente
do contexto não é confirmada na prática.
As
sentenças 1 e 2 são publicidades que buscam o apelo
da oferta de um produto feito pelo anunciante usado pelo consumidor
para fazer face às suas necessidades. Desta forma, o contexto
é importante para compreender este tipo enunciado.
O
conhecimento das condições de verdade de 1 e 2 e
o fato de estarem sendo usados para fazer uma oferta, determinam
a forma de interpretá-los.
O
sentido completo de um enunciado é uma soma dos seguintes
elementos:
a) condições de
verdade da sentença enunciada;
b) condições de felicidade do ato da fala;
c) regras de conversação cooperativa;
d) convenções de polidez;
e) premissas factuais largamente aceitas;
f) contexto situacional.
Sendo
assim toda sentença feita para publicidade tem como determinante
de sua interpretação, o fato de ser veículo
de uma oferta.
Testes
comprovaram que as pessoas, em geral, não têm a capacidade
lógica desenvolvida, nem respondem bem às tarefas
que exigem raciocínio silogístico. Por isso, as
publicidades apelam bastante para a estrutura silogística,
usando a premissa menor e a conclusão, como em "Ela
tem a pele macia. Ela usa Leite de Aveia Davene".
A
capacidade de discriminar inferências válidas e inválidas
é falha muitas vezes, mesmo nos falantes letrados. Sendo
necessário, pois, descrever a competência semântica
do falante comum, esta explicação vai partir da
questão seguinte:
-
Pode-se afirmar ter o falante nativo das mais variadas línguas
do mundo uma capacidade de raciocínio baseada na validade
dos juízos, capacidade que ele emprega em aprender e usar
sua língua?
-
A capacidade de raciocínio não é inata, mas
aprendida;
-
é uma tarefa na qual algumas pessoas saem-se melhor que
outras.
Para
Geis (1984), a questão crucial, do ponto de vista de raciocínio/linguagem
é observar se os falantes têm uma capacidade consciente
ou inconsciente, explícita ou implícita de distinguir
inferências válidas/não-válidas. Se
os usuários da língua, letrados e preparados, muitas
vezes falham nesta capacidade, como se situam os usuários
despreparados, não-treinados, analfabetos?
A grande maioria falha em perceber
as condições de validade da sentença, quando
ela é baseada nas condições de felicidade
dos atos de fala e nas implicaturas conversacionais.
Na
pesquisa do autor citado, ficou provada a força das afirmações
genéricas quando a maioria dos falantes considerou incorretamente
que (la) acarreta (lb).
la. Tintas C contém óleos
repelentes à água
lb. Tintas C não absorvem a água
O mesmo acontece com (2a) e (2b)
2a. Filtros D podem remover as
bactérias de sua água
2b. Se você usa filtros D, sua água de beber estará
livre de bactérias.
Isto
indica que as afirmações genéricas são
fortes e que o uso de pode não enfraquece o apelo; ao contrário
ele se transforma numa espécie de intensificador.
Apesar
de possuírem a capacidade de perceber as condições
de verdade, os falantes têm grande dificuldade em distinguir
entre conseqüência/inferência. Na vida cotidiana,
vendo televisão, lendo jornal, olhando "outdoors"
nas estradas, as pessoas estarão menos aptas e dispostas
a fazer inferências.
Estão,
por assim dizer, desarmados os seus dispositivos lógicos
e a publicidade utiliza esta situação para veicular
sua mensagem.
Não
obstante a falta de uma confiável validade de julgamento
consciente, o falante tem sempre um dispositivo de detecção
de validade e muito da sua compreensão de sentenças
e resultado de uma atividade automática e inconsciente.
Assim,
nossa capacidade de detecção de validade opera sobretudo
no nível inconsciente.
Alguns
reconhecimentos de validade são automáticos, como
a sentença imediatamente reconhecida como pedido: Pode
me passar o sal?
Segundo
demonstrou Morgan, algumas inferências não lógicas
são automáticas, além do que o falante compreende
a sentença mais pelo contexto do que pelo seu sentido literal.
Quanto
à produção do discurso, do ponto de vista
da condição de verdade, ela é mais simples
do que a compreensão do mesmo.
O
publicitário que elabora uma mensagem como < 1 >
e < 2 > não é necessariamente mais esclarecido
do que o consumidor. Se assim parece é porque partir dos
fatos para as sentenças é mais fácil.
A
aquisição da noção de validade não
é concomitante com a aquisição da linguagem.
O que o falante aprende quando inicia seu aprendizado lingüístico
é a fazer vários tipos de inferências a partir
de:
1. significação
aparente das palavras;
2. condições de felicidade;
3. regras de conversação;
4. conhecimento anterior partilhado;
5. convenções e polidez;
6. variados aspectos do contexto;
7. combinação entre os elementos acima.
Muitas
das inferências que fazemos na vida cotidiana não
se mostram válidas no uso, e isso dificulta perceber como
o falante adquire a distinção validade/não-validade
como subproduto da aquisição da linguagem.
Análise
A
interpretação de uma sentença é em
parte automática e em parte uma simples tarefa de ouvir
de modo crítico. Nossas representações mentais
do léxico são formadas pelo uso de modo automático.
A
significação de um enunciado será em função
do significado das condições de verdade da sentença
somado a considerações do contexto pragmático.
As
condições de verdade não podem ser definidas
sem referências às considerações pragmáticas.
A semântica não é, pois, autônoma em
relação à pragmática, nas publicidades:
X
mata os gérmens causadores de infecção/T
combate o "stress
A
afirmação genérica é usada para vender
os produtos aos que precisam de proteção contra
os germens ou contra o "stress".
Eles
devem preencher sua condição de verdade (matar germens
- proteger contra o "stress"). Estas condições
de verdade vão depender inicialmente do ato de fala usado
como performativo: uma simples asserção ou uma asserção
usada para convencer o consumidor a aceitar a oferta comercial.
Geis
(1984) trabalha com as afirmações genéricas
do texto publicitário para mostrar como o falante comum,
desavisado e desarmado, nem sempre tem condições
de fazer inferências e de perceber se as sentenças
enunciadas satisfazem as condições de verdade do
mesmo.
Discordando
de quem considera a afirmação genérica com
grau mínimo de força perlocutória e o verbo
poder como enfraquecedor no contexto lingüístico,
Geis (1984) mostra que a afirmação genérica
confunde, mas dá credibilidade à mensagem e que
o verbo poder tem função de intensificador. Além
do mais, o contexto pragmático é essencial na linguagem
publicitária para sua exata decodificação.
As
publicidades comerciais de medicamentos publicados em revistas
especializadas/não especializadas confirmam as hipóteses
de Geis (1984). Apresentam elas, alto índice de generalização
e são muito autoritárias no que se refere ao falante
comum, por estar fora de seu domínio de saber. Tornam-se,
no entanto, mais facilmente analisadas em suas condições
de verdade, quando o seu receptor é o especialista.
Eis
algumas delas:
1. GUTTA LAX - Liberdade em gotas.
O laxativo para todas as idades. Diálogo Médico
n.13 - 2000.
2. EFORTIL - Tônico circulatório
- aumenta a irrigação coronariana, mantém
constante a freqüência cardíaca e corrige o
déficit de irrigação. Clínica Terapêutica
(TC) Janeiro/fevereiro - 1999.
3. BENERVA - Nutre os músculos
e alivia a dor nas neuropatias alcoólicas. Diálogo
Médico n.13 - 2000.
4. FEBRALGIN - Ajuda a acabar com
a febre e a dor - Desenvolvido para crianças. Clínica
e Terapêutica. Janeiro/fevereiro - 1999.
5. CAMOMILA - Prepara a gengiva
para a primeira dentição fortalecendo os dentinhos
do bebê. Camomila é recalcificante com as vitaminas
D e C, e não tem contra indicações. Amiga,
8 de junho de 2001.
6. TOSSE? GRIPE? ROQUIDÃO?
XAROPE SÃO JOÃO (veiculada pelo rádio).
Conclusão
Em
todas estas publicidades, embora veiculadas por canais diferentes,
podemos perceber os elementos contidos nas publicações
< 1 > e < 2 > analisados no decorrer do trabalho:
alto grau de generalização e necessidade de inferências,
dificilmente realizados pelo falante comum. Além do mais,
algumas só podem ser compreendidas como publicidade com
o auxílio do contexto, isto é, de elementos pragmáticos
para que possa ser percebida sua intenção perlocutória.
O
conhecimento partilhado de mundo e as premissas factuais largamente
aceitas operam também como elementos de facilitação
da mensagem.
Referências
bibliográficas
AUSTIN, J. L. Quando Dizer é
Fazer. Trad. de D. M. de Souza Filho. Porto Alegre: Artes Médicas,
1990.
CARVALHO, Nelly. Publicidade ,
A linguagem da Sedução São Paulo.Ática.3a
ed. 2003
DUCROT, Oswald. Dizer - Não
Dizer: Princípios de Semântica Lingüística.
Trad. de Carlos Vogt. Campinas: Cultrix, 1972.
GEIS, Michael L. On Semantics and
Pragmatic Competence in Meaning Form and Use. In Context: Linguistic
Aplications. Washington: Georgetown. Univ. Press, 1984.
GRICE, II. P. Logic and Conversation.
In: COLE, P., MORGAN, J. L. (Ed.). Synlax and .semanhic.s. New
York: Academic Press, 1975. (Specch acts, v. 3).
MORGAN, Jerry L. Linguistics: The
ltelation of Pragmatics to Semantics and Syntax. In: ANNUAL Review
of Anthropology 1977. cidade: Editora, Ano.
SEARLE, John. Indirect Speech Acts.
In: COLE, P., MORGAN, J. L. (Ed.). Syntax and Semanlics. New York:
Academic Press, 1977. (Speech Acts; v. 3).
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Nelly Carvalho
Professora da Universidade Federal de Pernambuco.
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